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INFÂNCIA - UM ROMANCE EM FORMA DE CONTOS

No documento TCC_PoderMemoriaInfancia.pdf (páginas 30-46)

A primeira edição de Infância que data de 1945, foi publicada em uma coleção organizada pela Livraria José Olympio intitulada Memórias, Diários, Confissões. A obra Infância de Graciliano Ramos nos remete ao universo e ao drama de uma família sertaneja, onde os traços da oligarquia e da feição patriarcal saltam aos olhos, nesse contexto em que a literatura, mesmo como obra ficcional, não deixa de retratar da realidade de uma época, de um povo e de um país.

Na obra que com efeito, traz as marcas e os traços do patriarcado e do poderio familiar e não poderiam deixar de assim sê-lo, por trata-se a obra de uma memorialística, em uma sociedade onde a figura do pai é definida como a figura do chefe da família, “ Meu pai era um patriarca refletido e oblíquo” (RAMOS 1945, p. 151), chefe poderoso e inacessível aos pequenos seres e que reinava, sem jamais ser questionado, como senhor absoluto das coisas e das pessoas.

Era então, dessa forma que se representava uma família, posto que a literatura trabalha esses aspectos de retratar uma sociedade, um tempo, um espaço, retrata esses fatos que se enquadram por definição em padrões preestabelecidos para

aquela sociedade. “Meu pai era terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso”

(RAMOS, 1945, p. 26). Para o menino o poder estava centrado na figura do pai.

O personagem principal – o menino, conta-nos em primeira pessoa, os retalhos, relatos de passagens da sua infância através de uma sutil linha temporal, posto que ele vai desfraldando as folhas de sua memória, revelando dados de seu tempo, por exemplo, de como se davam as lições do aprendizado daquela época, de como funcionavam as salas de aula, numa narrativa peculiar própria do tempo em que estava localizado e tão diferente do tempo atual.

A sala estava cheia de gente. Um velho de barbas longas dominava uma negra mesa, e diversos meninos, em bancos sem encostos, seguravam folhas de papel e esgoelavam-se:

- Um b com um a b, a: ba; um b com um e b, e: be.

Assim por diante, até u. Em escolas primárias da roça ouvi cantarem a soletração de várias maneiras, nenhuma como aquela, a toada única.

(RAMOS, 1945, p. 8).

Esse contar dar-se-á num laborioso trabalho de conservação e preservação da memória, onde o autobiógrafo vai conduzindo-se com sutileza e habilidade por esse seu processo de resgate dos fatos narrados fazendo com que a leitura possa se dar do começo para o fim ou vice-versa, podendo ser adiantada ou atrasada, sem que essa mobilidade prejudique a linearidade ou o entendimento da obra.

Ainda na mais tenra idade, o menino começa a tomar consciência do que ocorre consigo dentro da instituição denominada por Foucault como família. “Data desse tempo as minhas mais antigas recordações do ambiente onde me desenvolvi como um pequeno animal” (RAMOS, 1945, p. 10). Começa a perceber de si, sua posição como membro daquela família, e perceber como é difícil a sua pequena existência.

As pessoas e as relações me desnorteavam: não podia saber se me comportava direito com a parentela confusa e respeitável [...]. Me apresentavam mulheres ásperas e de cachimbo, homens importantes e enrugados: tia Jovita e tia Josefa, tio Pedro e tio Inácio. Conselhos, dureza, carranca. (RAMOS, 1995, p. 161).

O menino que ao começar a se situar nesse seu inóspito ambiente, nos faz uma revelação impactante, do ponto de vista de uma criança que deveria ser cercada apenas de amor e cuidados - “Medo, foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor”. (RAMOS, 1995, p. 12). E esse medo ao qual refere-se o personagem é um dos mecanismos utilizados em sua educação normatizadora, sobre a qual falaremos a seguir.

E nesse processo de escrita memorialística, o autobiógrafo que ao lidar com as ruínas do seu passado, encontra ainda as cicatrizes que são do menino, mas que ainda estão presentes no homem, são as marcas que ele vai levar para toda a vida.

Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro. (RAMOS, 1995 a, p. 29)

Na obra, o menino que não tem nem nome, universaliza o seu pequeno mundo quando começa a entender e internalizar a sua situação familiar. Já nos seus primeiros atos e sentimentos, através dos quais ele reconstrói a sua memória, é possível compreender que o medo é o norteador que o guiará em sua narrativa, assim como o efeito da falta de afeto em sua vida. O medo, a incompreensão e a falta de afeto o ajudam a elaborar uma face da sua identidade que irá moldar a personalidade do homem, porque ambos compõem os dois lados da mesma moeda.

Vozes ásperas, berros de animais ligando-se à fala humana. O moleque José ainda não se tinha revelado. Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes.

Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas. [...]. Depois as mãos finas se afastaram das grossas, lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obediência e respeito (RAMOS, 1995, p.10,11).

Graciliano Ramos escreveu sua obra memorialista Infância 1945, em 39 capítulos, esses capítulos são os seus relatos e fragmentos da sua infância de menino nordestino triste e contido, num ambiente familiar seco e hostil, e através de

sua narrativa podemos notar fragmentos da passagem do exercício de poder, que o conduz por um lento processo de docilizaçao, instados através da punição.

Nesse tempo, em razão de culpas indecisas, costumavam prender-me algumas horas na loja. Sentenciavam-me sem formalidades, mas o castigo implicava falta. [...]. Atrapalhava-me perceber que um ato às vezes determinava punição. (RAMOS, 1995, p.89).

Somos conduzidos com muita competência para dentro desse ambiente seco, duro e hostil que foi a infância do menino, e percebemos que a dureza e a secura do ambiente também parecem moldar (com raríssimas exceções) a natureza das pessoas, tornando-as duras, secas como cascas, secas de sentimentos, secas de ternura e de afeto. É com efeito esse o ambiente em que o menino nasceu, cresceu e conviveu com as mais distintas pessoas, pais, irmãos, amigos, agregados, pessoas tão distintas de sua personalidade de poeta. Toda a obra poetiza-se nas falas do menino, que vai nos contando a sua miséria e o doloroso processo de aprendizado infantil. Essa sua escrita bela e doída nos transporta para esse universo todo seu, pequeno e dolorido mundo.

Olhando-me por dentro, percebo com desgosto a segunda paisagem.

Devastação, calcinação. Nesta vida lenta sinto-me coagido entre duas situações contraditórias – uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorável à modorra. Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes (RAMOS, 1995, p. 17).

Sabe o menino do contraste em que vive? Noite/dia, frio/calor, trevas/claridades -O menino que agora é descrito pelo homem, sente toda a contradição da natureza humana, porque ele tem em si a poesia da vida e por isso sofre e vive a intensidade da dor humana e por entender esse sofrimento ele se torna nele muito maior.

Conta-nos de forma brilhante os acontecimentos de uma vida sofrida no interior do Brasil, descreve as belezas, as crendices do povo, de um nordeste que só pode ser narrado com tanta propriedade por quem lá nasceu e por lá viveu seu legado, regionalismo diriam os críticos, pura poesia dizem os apaixonados.

Durante um redemoinho brabo notei esquisitices. Nuvens de poeira enrolaram-se em briga feia, escureceu, um rumor diferente dos outros rumore cresceu, espalhou-se, e no meio da terrível desordem um couro de boi espichado quebrou o relho que o amarrava a um galho e voou no turbilhão.

Uma senhora magra, minha indistinta mãe, tentou com desespero fechar uma porta balançada pela ventania. Folhas e garranchos entraram na sala, um bicho zangado soprou ou assobiou (RAMOS, 1995, p. 10 e 11).

A obra graciliana apresenta os relatos do menino triste e monossilábico,

“encolhido e silencioso, aguentando cascudos” (RAMOS, 1995 p.16). Que cresceu como parte do meio, do ambiente seco e hostil que o cercava, “os mesmos trabalhos de pega, ferra e ordenha, vozes ásperas, exigências curtas, ordens incompreensíveis”

(Ramos, 1995, p. 21), onde não havia espaço para ensinamentos sem castigos e gentilezas.

Refere-se o menino a uma irmã natural; segundo o dicionário Houaiss, naturais são os filhos nascidos de pais solteiros, ou seja, ainda solteiro seu pai teve uma filha, Mocinha, a quem o autor primeiro se refere “ Entrávamos no sertão de Pernambuco, eu, meu pai, minha mãe, duas irmãs[...] as duas irmãs, uma natural, mais velha que eu, a outra legítima, direita” (RAMOS, 1995, p. 9), ou seja, a irmã mais velha, numa inversão de fala seria, ilegítima, torta, por não ser nascida do casamento, era uma ilegítima. E nesse sertão de costumes duríssimos, ser filho (a) fora do casamento é uma nódoa que acompanhará por toda a vida.

Mocinha não representava utilidade. Valor estimativo, de origem pecaminosa.

E meu pai tentava convencer os outros de que ela não existia. Difícil. A intrusa se encorpava e embelezava, alargava a roupa, namorava-se ao espelho da sala, onde lhe Miguel foi segredar ternuras ao lusco-fusco. Miguel, indivíduo importante, dos mais importantes do lugar, não podia ligar-se decentemente a uma filha das ervas. (RAMOS, 1995, p. 151).

O dedo da sociedade apontado para um indivíduo, por causa da sua origem,

“uma filha das ervas”, não é fácil, pouco ou sequer confortável a situação de uma pessoa nascida fora de um casamento naquela época. Par os padrões da época, por ter nascido fora do casamento, mocinha não poderia ter uma vida correta, direita. “Era branca e forte, de olhos grandes cabelos negros, tão bonita que duvidei ser de meu

sangue” (ramos 1995, p 151). Aqui o autor ilustra suas falas, se achava feio, esquisito, se achava um inútil “[...]. Legou-me talvez a vocação para as coisas inúteis. Era um velho tímido, que não gozava, suponho, de muito prestígio na família’’ (RAMOS 1995, p.18). O menino não tinha uma visão boa sobre si mesmo. Ele também não gozava de uma boa reputação na família.

Pequeno e só o menino vai sendo treinado, moldado, docilizado para que se adapte ao modo de vida de sua família, era duríssimo adaptar-se, “e ali permanece, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra” (RAMOS, 1995 p. 32).

Enorme tristeza por não perceber nenhuma simpatia em redor. Arranjavam impiedosos o sacrifício – e eu me deixava arrastar, mole e resignado, rês infeliz antevendo o matadouro (RAMOS 1995, p. 107).

E podemos observar que na obra há um contrato social implícito entre os personagens de Infância e a representação da autoridade, que veremos representada pela figura da família. A família denominada por Foucault como uma instituição, demonstra e evidencia as características oligárquicas e sertanejas do patriarcado, assim como as características sociais da exibição do poder “ De repente o chicote lambeu-lhe as costas [...] Este largou o instrumento de suplício, agarrou a vítima pelas orelhas, suspendeu-a e entrou a sacudí-la” (RAMOS, 1995 p. 79). Traduzem pela obra, a investigação da realidade e do contrato social em que os personagens estão inseridos.

Dias depois vi chegar um rapazinho seguro por dois homens. Resistia, debatia-se, mordia, agarrava-se à porta e urrava, feroz. Entrou aos arrancos, e se conseguia soltar-se, tratava de ganhar a calçada. Foi difícil de subjugar o bicho brabo, sentá-lo, imobilizá-lo. O garoto caiu num choro largo. Examinei- o com espanto, desprezo e inveja. Não me seria possível espernear, berrar daquele jeito, exibir força, escoicear, utilizar os dentes, cuspir nas pessoas, espumante e selvagem, tinham-me domado, na civilização e na fraqueza, ia para onde me impeliam, muito dócil, muito leve. (RAMOS, 1995, p. 107 e 108).

A educação normatizadora a que o menino era submetido é relatada em vários episódios, “Tinham-me domado”, foi o menino domado por um processo de punição, instado pela educação coercitiva, apresenta-se dessa forma em todo o romance “em razão de culpas indecisas, costumavam prender-me algumas horas na loja [...]. O castigo moderado, além de inculcar-me as regras de bem viver, tinham o fim de obrigar-me a vigiar o estabelecimento” (RAMOS. 1995, p. 89).

Nesse contrato social que há entre os personagens da obra Graciliana, que sofrem as noções foucaultianas de poder e a representação da autoridade, evidenciada pelas características oligárquicas e sertanejas do patriarcado, ochefe de família reinava como senhor absoluto dos filhos, da esposa e dos empregados e a face do poder predominava, e o pai vai exercer seu poder com tirania sobre os demais membros do grupo familiar.

Os caboclos se estazavam, suavam, prendiam arames farpados nas estacas.

Meu pai vigiava-os, exigia que se mexessem desta ou daquela forma, e nunca estava satisfeito, reprovava tudo, com insultos e desconchavos. Permanente, essa birra tornava-se razoável e vantajosa: curvara espinhaços, retesara músculos[...]. Meu pai era terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso. (RAMOS, 1995, p. 26).

Quando o autor afirma que “essa birra se torna razoável e vantajosa: curvara espinhaços, retesara músculos” ele está afirmando o processo de docilização dos corpos. O poder para Foucault é apenas um exercício, ou como um jogo de forças instável e permanente, e não como um atributo que se possua ou não; ou como coisa da qual podemos nos apoderar, tomar posse, sentido este fundado na própria evolução etimológica da palavra poder, que define as relações sociais em cada momento histórico, e que se define através de práticas e discursos específicos.

Macros E Micros Poderes

Ao falarmos sobre família, poderíamos falar de saudades, de lembranças felizes, de colo e de aconchego ou de comidas saborosas, tardes norma e felizes e até de alguns dessabores e percalços passados na infância e adolescência, mas as

marcas do poder e seus desdobramentos, podem parecer termos inadequados ao seio familiar. Para Foucault a família é uma instituição onde o poder é exercido em plenitude e apresentado de forma ampliada nos seus vários desdobramentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha o desarticula e o recompõe”. (Foucault, 1987, p. 164). Assim a família, a primeira instituição, vai domar os seus membros com o poder que é atribuído aos seus: pais, mães e demais membros, apresentando-se dessa forma, em uma hierarquização de poderes que sempre partem dos macros e em uma escala definida socialmente o poder vai se apresentar do maior para o menor.

[...] de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos. (FOUCAULT, 1987, p.133)

Podemos observar que na obra Infância – 1945, há o retrato de uma família sertaneja, oligárquica e tradicional, onde se observa todo o poder e truculência de um pai de família. Esse poder que é representado pelos pais, atinge diretamente os que estão numa escala de menor prestígio socialmente dentro da construção familiar, onde não há dúvidas do poder do pai.

Bem e mal ainda não existiam, faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuva e o sol vinham do céu. E o céu era terrível, os donos da casa eram fortes.

(RAMOS, 1995 a, p. 17,18).

O pai, com um poder que é legado ao homem ao longo da história da humanidade, usa esse poder para dominar e controlar a família. “.... Meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia” (RAMOS, 1995, p.

30).

Assim vemos a família em que o autor está inserido, nomeada por Michel Foucault como uma instituição, como assim os são, escolas, hospitais, quarteis, manicômios e prisões, tem como objetivo normatizar o indivíduo, cerceando a sua educação para que ele haja, pense e se socialize como o que é denominado normal para aquela sociedade. Essas coações e formas de poder que aparecem como educação, onde as crianças têm que ser ensinadas pela punição.

Essas formas de apresentação de poder podem mudar e de fato mudam ao longo da história, aqui trata-se de uma família nordestina de meados de 1892.

“Começaram a maltrata-lo. Não se mencionou o gênero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelha”. (RAMOS, 1995, p. 15)

É, portanto, normal a forma violenta como pais, mães e patrões tratam os seus entes, que são espancados, punidos e surrados. O contexto descrito no romance retrata aquela sociedade, onde é comum a relação de gritos e pancadas; mas toda essa explosão de violência e forças tem uma explicação; são as formas de coerções utilizadas em nome da boa vivência, em nome da boa educação e do bom e aceitável entendimento social, pois, para aquela sociedade era necessário que o indivíduo fosse conduzido por esse processo de docilização, pois assim, e somente assim, docilizado, o indivíduo vai ser considerado uma pessoa com comportamento normal para os padrões pré-estabelecidos e aceitos como tal. “Proibiram-me rir, falar alto, brincar com os vizinhos, ter opiniões. Eu vivia numa grande cadeia. Não, vivia numa cadeia pequena, como papagaio amarrado na gaiola” (RAMOS, 1995, p. 202).

Vivíamos numa prisão, mal adivinhando o que havia na rua, enevoada longos meses. Conhecíamos o beco: da janela do armazém, trepando em rolos de arame, víamos em dias de sol, matutos de saco no ombro, cavalos amarrados num poste grosso. [...]. Observávamos pedaços de vida, namorávamos o oitão da outra gaiola, aberta, e tínhamos inveja imensa dos Sabiás pequenos, desejávamos correr e voar como eles. (RAMOS, 1995, p.55).

Dentro dessa relação de poder há uma hierarquia, onde é possível afirmar que ela é centrada principalmente na figura do pai, pois é ele, o pai quem vai determinar

de que forma que seus filhos e esposa vão se comportar, se vão estudar, se vão se formar, em que vão se formar, em quem vão votar, a que religião vão pertencer e assim por diante, seguindo assim essa dominação sobre todos os atos da vida social de seus entes e familiares e agregados.

Mas se há o poder do pai sobre cada um dos membros do grupo familiar, há também os desdobramentos dessa relação de poder, e como desdobramento podemos citar o poder da mãe sobre os filhos, o poder do irmão mais velho sobre os demais irmãos, o poder dos filhos sobre as filhas e do filho que cresceu e agora domina a mãe “Mais tarde quando os castigos cessaram tornei-me em casa insolente e grosseiro”. Posto que para Foucault, o poder é apenas uma forma variável e instável, do jogo que define as relações sociais em cada momento histórico.

Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram- me em panos molhados com água e sal. (RAMOS, 1995 a, p. 29).

Esse poder que começa na família também está presente na escola, sendo que a escola também é descrita po Michel Foucalt como uma instituição, pois há o esquadrinhamento, a observação e a punição. Natural naquele tempo um professor espancar seus alunos, eram espancados para aprenderem a lição, a comportarem-se e a obederecem.

Matricularam-me na escola pública da professora Maria do Ó, mulata fosca, robusta em demasia [...] D. Maria do Ó envolveu a mãos nos cabelos da menina, deixando livres o indicador e o polegar, com que me agarrou uma orelha. E, tendo-nos seguros, agitou o braço violentamente: rodopiamos como dois bonecos e aluímos sobre os bancos. (RAMOS, 1995, p. 165).

E em cada um desses desdobramentos está implícito a relação de poder

Certamente não começara impondo-lhe maus-tratos: afeita à liberdade, ao mando, às correrias, às injurias a caboclos na bagaceira, Adelaide se rebelaria contra a nova autoridade, aparentemente igual às figuras que serviam na casa-grande. Indispensáveis meses e anos para dominar a criaturinha, degradá-la, enquanto o algoz se acomodava também a situação, experimentava as forças, apurava a maldade. No começo o jeito servil, o

sorriso convencional; em seguida um olhar frio, gesto de enfado, palavra dura;

a lisonja recomposta; novamente acrimônia e aspereza. Idas e vindas, intermitências. Um castigo - e logo o afã de oblitera-lo, explicá-lo com trabalho de educação. A covardia manhosa adoçava umas tréguas curtas. Não fosse a garota badalar pedir aos pais que a retirassem daquele inferno. Não pedia.

Talvez até ignorasse que estava nele, tinham-lhe gasto o fio em pedra de amolar [...]. Havia-se reduzido a condição de criada. Adelaide curvava o espinhaço, calejava na obediência, esmorecia nos trabalhos mais humildes.

(RAMOS, 1995, p. 166-167).

O poder aqui não se estabelece do pronto, isso poderia assustar a pequena Adelaide, ele vai se impondo aos poucos, vai se disfarçando de zelos e cuidados, para que a pequena não perceba a dominação se estendendo sobre ela, e quando percebeu, se é eu o percebeu, já era tarde demais “tinham-lhe gasto o fio em pedra de amolar”. Tinham tirado dela o direito de reclamar, a força necessária para fugir, para revidar contra a opressão e aí o poder se estabeleceu sobre seu corpo, que tornou-se dócil. “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (FOUCAULT, 1987, p.163).

A sociedade vai eleger o que lhe parecer correto, o que é historicamente reconhecido como certo e vai depreciar o contrário, o que é multifacetado, o que é coberto pelo manto da hipocrisia.

Espantaram-me a desconsideração e frieza que envolviam essas criaturas.

Não me capacitava de que a moça bonita, cheirosa, engomada, fosse de qualquer maneira inferior a d. Águeda de seu Acrísio, magra e pontuda.

Também me parecia injusto dar ao velho Quinca Epifânio engelhado e faminto, mais valor que a seu Afro, robusto e alegre. O juízo dos homens era esquisito. Bem esquisito. (RAMOS, 1995, p.51)

Vive o menino no seio de uma família dita normal, sofre as penas impostas pela educação normatizadora, mas que é aceita pela família e pela sociedade, como normal. A mesma sociedade que condena dona Maroca e seu Afro, certamente não condenam dona Maria por espancar e maltratar seus filhos.

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