de aprender e de ensinar, o que corresponderia ao uso racional do instrumento que os docentes tinham como diferencial em sua forma de atuação, que se expressava pelo domínio das metodologias dentro do processo de ensino e aprendizagem. Podemos dizer que isso qualificaria a ciência e a arte da educação promovida pelos professores em ambiente escolar.
(BOMFIM, 1926, p. 90)
A apropriação do método pelos docentes só seria possibilitada, segundo Bomfim, pelo conhecimento que o professor deveria ter da mente e do processo que envolve os atos de aprender e ensinar. A didática, nesse raciocínio, aparece como lugar de exercício dos
“métodos descritivo, método expositivo, método intuitivo (ou ensino pelos olhos), método socrático” (BOMFIM, 1926, p. 91, grifos nossos). Daremos preferência à citação de parágrafos em que o autor disserta sobre cada um dos modelos apontados anteriormente.
Nesse sentido, procuramos demonstrar como o autor, pelo uso de sua própria linguagem, classificou cada um dos pontos suscitados com apresentações bastante claras que dificilmente seria possível reproduzir de maneira tão segura o que está sendo abordado. Por isso é tornado público nos documentos que utilizamos. Essa documentação constará nos ANEXOS A, B, C e D.
ambiente familiar e social com novos saberes que a escola cuidava de oferecer. A educação escolar primária, defendida por Manoel Bomfim, deveria utilizar métodos de aprendizagem, metodicamente aprendidos pelos professores, para serem praticados na instrução dos pequenos estudantes. Na prática, a metodologia foi pensada para que os pequenos brasileiros fossem capazes de operar “saltos de conhecimentos” como condição para construir a sua autonomia diante dos mais variados ambientes e possíveis problemas que pudessem surgir em sua trajetória de vida.
Em seu raciocínio sobre a aprendizagem, Bomfim se aproxima muito do que foi pensado pelo médico russo Vygotsky (OLIVEIRA, 2003). Este morreu prematuramente sem que sua discussão pudesse ser feita com outros intelectuais que pensavam a aprendizagem em seu tempo histórico. É possível que Manoel Bomfim não tenha tido contato com o pensamento de Vygotsky e aplicabilidade na educação infantil, bem como Vygotsky também provavelmente não tenha conhecido os escritos de Bomfim. Os dois autores acreditaram que a educação era influenciada grandemente pelo meio e que as crianças construíam seu conhecimento como fruto da relação do indivíduo com seu meio social. Para ambos, a educação se fazia tendo por base construções simbólicas capazes de adaptar os indivíduos aos diferentes meios sociais.
Para Bomfim, existiriam diferentes níveis educacionais, e provavelmente nem todos os indivíduos passariam por tais níveis de educação, no entanto, era necessário que todos, independente dos lugares sociais que ocupassem, recebessem, por meio da escola, conjunto de saberes que ele considerava elementares e necessários para a leitura e vivência no mundo.
Todos deveriam aprender a ler, escrever, contar, receber educação moral, conhecer os sistemas de medidas usuais em ações cotidianas, saber visualizar cores em diferentes matizes, conhecer sua história. Aprender a pensar e desenvolver questões sob as luzes da intuição e dedução. A metodologia exercitada como conteúdos científicos pela intuição e dedução são saberes que acompanhavam todos os níveis e disciplinas modernas. Por isso mesmo que a criança em sua história escolar tivesse somente acesso à instrução elementar racionalmente ela pensaria e solucionaria seus problemas de modo semelhante aos que alcançassem os níveis mais elevados.
(BOMFIM, 1926, p. 98)
A escola, segundo Manoel Bomfim, era um ambiente de formação comparado ao exército, tinha como interesse a formação disciplinar. Neste registro, todos deveriam obedecer à ordem estabelecida, reproduzir normas e regras prescritas pelos sábios e/ou cientistas com anuência do Estado. Depois de apontar a existência de escolas específicas de formação profissional ou industrial, esclareceu que em países civilizados existia a tradição de garantir a todos os membros da sociedade o ensino primário, pois este se constituía em verdadeiro serviço de utilidade pública.
A educação elementar estava na ordem da necessidade dos serviços de higiene, da polícia e do correio. Para o autor, caberia ao Estado a responsabilidade sobre a educação.
Tecendo relação comparativa entre países com grande desenvolvimento cultural, apontou para a obrigatoriedade do ensino elementar. Especificava que, ao ser obrigatório o ensino, não significava dizer que o Estado enquanto provedor de educação devesse se colocar de forma autoritária perante a família ou a sociedade obrigando que os pais matriculassem seus filhos em escolas públicas, na verdade, o que se colocava como preocupação era o acesso de crianças entre 6 e 15 anos à escola primária, fosse pública ou privada. O professor observava que os pais como responsáveis pela tutela da criança deveriam se obrigar a conceder-lhes os conhecimentos estabelecidos como essenciais à educação primária.
Celestim Hipeau (1871), em viagem que fez aos Estados Unidos da América com o intuito de descrever como se organizava o sistema de ensino americano, observou que lá existia obrigatoriedade do ensino, os pais eram obrigados pela sociedade a manter seus filhos na escola fosse ela pública ou privada. A escola pública era mantida pelos diferentes estados da federação, com regras próprias segundo a necessidade particular de cada um deles. Como em Bomfim, os conteúdos a serem ensinados pela educação escolar elementar eram basicamente os mesmos apresentados no Lições de Pedagogia (1926 [1915]) e que eram oferecidos, como parte da instrução de futuros professores enquanto alunos na Escola Normal para que fossem reproduzidas nas salas de aulas das escolas pelo uso de práticas metódicas e
uso dos métodos de aprendizagem. Percebemos, pelas preocupações apresentadas no livro de Hipeau e Bomfim, a circularidade de ideias e interesses que envolveram o campo educacional entre os séculos XIX e XX.
(BOMFIM, 1926, p. 100-101)
Nos Estados Unidos, segundo o minucioso relatório de Celestin Hipeau (1871), os pais poderiam ser presos caso se negassem a matricular crianças em idade escolar. Eram os próprios indivíduos da sociedade americana daquela época que fiscalizavam seus vizinhos denunciando às autoridades que crianças em idade escolar estavam fora da escola. Manoel Bomfim não apresenta esse tipo de discussão em seu texto dado a publicar em formato de livro no ano de 1915. Contudo, entende a educação, assim como a sociedade americana, como um direito infantil. Gontijo30 faz referência a jornal americano que teria feito nascer interesse aprofundado do autor por questões de educação:
[...] Bomfim afirma que seu desejo de estudar o problema da instrução pública nasceu da leitura do Report of the Comissioner of Educations (1889-1890), divulgado pelo governo norte-americano em 1893. Nas palavras do autor:
Foi tão profunda a impressão que me causou essa leitura, pela insignificância e pobreza dos nossos recursos, que nunca mais pude [me] furtar ao desejo de observar e estudar o problema da instrução popular entre nós. De então para cá só tenho encontrado motivos para maior desconsolo.
O Report foi elaborado por uma comissão nomeada pelo governo dos Estados Unidos a comissão dos Dez que produziu estatísticas a cerca do ensino nos diversos estados da federação, avaliou os programas escolares e as condições de administração das principais escolas do país [...] (GONTIJO, [201-], p.12)
Os problemas da educação tocavam interesses de outros países, que buscaram no discurso da melhoria da sociedade e sua produção pelo acesso à educação. Nesse sentido,
30 Texto apresentado no portal Domínio público sob o título Manoel Bomfim, educador e “cientista da educação”
Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa>
foram aplicados dispositivos de segurança como análises estatísticas como meio de tornar o problema mais visível a ponto de se poder saneá-lo.