4.1 O cotidiano da construção do espaço social feminino no Facebook
4.2.5 Interseccionalidade e o mito da democracia racial
Sendo um espaço social, nascido de um movimento comum, sem exigência ou teor científico, ressalta-se o modo como são abordadas questões teorizadas, ali, por mulheres comuns em um espaço informal, fato que reforça nosso entendimento inicial sobre tratar-se de uma rede educativa.
Figura 22 – Grupo do Facebook Mulheres pela Democracia! – Interseccionalidade
Fonte: https://www.facebook.com/groups/2205327913074430/
Na Figura 22, temos a imagem de um vídeo que apresenta uma entrevista de Marielle Franco34 ao canal GNT. A publicação obteve 70 compartilhamentos e 914 interações no Grupo Mulheres pela Democracia. A autora reforça na legenda: “Não tem como falar em feminismo sem considerar a Interseccionalidade.”
A interseccionalidade, como elucidamos no Capítulo 1, diz respeito às interseções de raça, gênero e sexualidade sobre o qual Crenshaw (2005) revela a necessidade de considerar as múltiplas fontes de identidade na medida em que as situações de desigualdades e violências geram maior vulnerabilidade em umas do que em outras. É o caso do assassinato da Marielle Franco, vereadora mulher, negra, periférica e bissexual, que lutava por políticas públicas que amparassem as mulheres negras, e denunciava ações policiais abusivas, a dizer genocídio, contra jovens negros.
Contudo apresentar essa discussão como se fosse feliz e plena seria uma atitude até negligente, que descarta a complexidade humana e sociocultural, tal como o método próprio
34 Marielle Franco foi uma vereadora formada em Sociologia, feminista e defensora dos direitos humanos assassinada no dia 14 de março de 2018 dias após denunciar uma atuação policial que matou dois jovens e jogou seus corpos em um valão. Além disso, estava como relatora da comissão da Câmara dos Vereadores que fiscaliza a atuação da intervenção federal nas favelas.
da ciência moderna, na medida em que controla seu objeto já predisposto a encontrar o esperado, omitindo as minúcias.
Com isso, na busca por compreender como esses debates ocorriam em sua íntegra, nos deparamos com um post que exibia o vídeo de uma esquete do ator Marcelo Adnet – Branco do Brasil, o qual aborda o racismo institucional, indicando como o negro ocupa os menores cargos, de servidão ao branco que, por sua vez, dispõe dos melhores serviços de educação e saúde, em relação aos negros. A publicação, que teve 7.200 curtidas, 1.424 compartilhamentos, teve dos 261 comentários os seguintes:
Usuária S. A.: Mentira eu já fui barrada no banco e na saúde tenho um péssimo atendimento em que país é esse que eu eu vou para lá pq aqui não é, por favor me fala o nome desse país onde sou n tratada e tenho um ótimo emprego. Pts de bosta.
Usuária M. T.: Me perdoem, mas eu não levo essa vida boa, não... Muito pelo contrário. Aqui no que vale é o dinheiro. Gosto de pensar que somos todos iguais, brasileiros, precisando muito de união pra lutar pelas desigualdades sociais.
Usuária L. F.: Eu já sofri preconceito tanto de negros brancos como de brancos, como sou parda já aconteceu.
Usuária D. T.: Pura vdd, eu sou casada com Negro, quando está eu e meu esposo em alguma loja eu percebo os atendentes atrás de nós, é uma triste realidade, minhas filhas são brancas, ele leva minha pequena pra escola as pessoas ficam olhando é já perguntaram se era filha dele msm!! É muito preconceito é discriminação.
Usuária R. M.: Tenho uma micro empresa e abri uma conta na CEF. Em atendimento, o gerente da conta da minha empresa informou que o cartão da empresa havia chegado, ligou para confirmar e disse que eu estava em atendimento e que eu já iria buscar no setor. Quando cheguei para buscar o cartão da minha empresa em que o funcionário já estava com ele em mãos para entregar, ao dizer a ele que cheguei para pegar o cartão, ele me disse que o cartão de bolsa família não é lá não.
Usuária N. S.: Eu sou branca e ja fui barrada na porta giratoria e acho que o seguranca estava certo. E seguranca pra mim e para os outros.
Usuária P. Q.: Muito bons são os comentários, quando assunto é racismo, ou discriminação pela cor da pele tem sempre um branco achando que já foi vítima de preconceito, gente quem sabe de discriminação é quem verdadeiramente passou por isso.
O que vemos com esses e os demais comentários não relacionados é um diálogo que reflete discursos racistas e experiências diversas acerca do racismo institucional. Almeida (2019) vê o debate sobre racismo institucional como um grande avanço no estudo das relações raciais porque além de comprovar que o racismo extrapola a dimensão individual, reforça que não é apenas um ato de uma pessoa sobre a outra, mas de um grupo que mantém controle sobre o aparato institucional para manter a ordem social. Sendo assim, conclui-se que “as instituições são racistas porque a sociedade é racista” (ALMEIDA, 2019, p. 47). Por isso, entendemos com o autor que o silenciamento apesar de não fazer do que permanece em silêncio o responsável direto pelo racismo, funciona como um dispositivo para a manutenção desse sistema.
Outro elemento que trataremos no próximo capítulo, mas que aqui deve ser mencionado é o mito da democracia racial, ainda forte no Brasil, o que enfraquece não somente o movimento afro, mas a de todas as minorias ainda que de forma desigual. O antropólogo Kabengele Munanga (2010) reflete sobre a aproximação da discriminação racial às demais (contra mulher e LGBT) no fator diferença, e como essas formas contra mulheres e LGBTs se aproximam por metaforização às formas discriminatórias contra negros:
As pessoas querem dizer, está claro, que o preconceito racial no Brasil é provocado pela diferença de classe econômica e não pela crença na superioridade do branco e na inferioridade do negro. O que é a voz do mito de democracia racial brasileira, negando os fatos às vezes tão gritantes da discriminação racial no cotidiano do brasileiro. (MUNANGA, K. 2010, p.169)
Por isso, esses grupos são aprisionados em categorias mais biologizadas. Segundo o autor, o imaginário social brasileiro ainda associa o preconceito à classe econômica. É o que vemos no comentário de uma das usuárias que diz gostar de pensar que todos os brasileiros são iguais, que o que pesa na desigualdade social é a situação econômica, pois ela mesma [enquanto branca] não possui essa vantagem apontada no vídeo. No outro dispositivo ainda a ser relatado, resgataremos essa discussão com maior profundidade.