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Intrepidez e carisma

No documento PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO (páginas 112-115)

3.3. A comunhão do Espírito na Igreja

3.3.2 Intrepidez e carisma

Qual a comunhão que se deseja? Como é que mulheres e homens experimentam reciprocamente, na comunidade de Cristo e na comunhão do Espírito-mãe que produz a vida, a união que os liga ao Deus Trino? A comunhão não pode ser outra senão aquela que vise quebrar o preconceito ainda vigente. Aí o Espírito age, pois “quando no movimento feminista dos séc.

XIX e XX as mulheres se insurgem contra o patriarcado e quebram seu silêncio forçado e

‘profetizam’, isto é espírito do Espírito de Deus que desce sobre toda a carne para vivificá-la”85. E o experimento que homens e mulheres fazem do Espírito na Igreja é aquele já sinalizado pelos padres conciliares, porque desde a renovação do Vaticano II percebe-se, com um certo grau de consciência esclarecida, que homens e mulheres, povo de Deus, foram ungidos pelo Espírito.

Finalmente, o horizonte mais amplo é o Reino de Deus, e a Igreja formada de homens e mulheres, que se compreendem como povo de Deus, ultrapassam seus limites para promover e respeitar experiências diversas dentro de um horizonte mais amplo de comunhão.

anúncio, suscitam apóstolos, profetas, doutores e conselheiros. Há aqueles que exercem a diaconia junto aos enfermos, viúvas, órfãos e excluídos.

Quanto mais a vida for concreta mais o carisma de cada um serve à unidade na válida variedade. O Espírito arranca o medo e o pensamento negativo do cristão. O dito “não vai dar certo” atrapalha o anúncio. Os Evangelhos sinóticos, ao contrário, narram a fé e a coragem daqueles que expressam: “para Deus tudo é possível”.

Eric Fromm escreve sobre a importância da autoconfiança em si mesmo, e contraria Kierkegaard que imaginou o amor ao próximo pregado por Jesus como abnegação ao amor a si.

Na verdade, o amor ao próximo, dos evangelhos, consiste em amar o outro com a mesma intensidade que se ama a si. Enquanto o ódio a si próprio é o tormento do inferno, o amor a si é o chão firme para uma vida de liberdade.

3.3.2.2 Mística e teologia

Os puros de coração contemplarão a face de Deus. Esta frase solta soa como um conto de fada espiritual. Como não habitamos apenas poeticamente o mundo, mas prosaicamente, a mística torna-se possível e necessária.

Porque o místico não é alienado, os dramas da vida, a dor, os sofrimentos, as incompreensões, as alegrias, o prazer, a própria vida dramática e também o drama do amor de Deus, tudo isso tem um sentido. Se tem sentido para a mística, tem sentido para a teologia.

O que conta é a história do amor entre Deus e o homem. E o amor sem medida torna-se a medida do amor para o místico. A razão pela qual Moltmann aborda a mística não é outra senão a de aproximar e distinguir, conceitualmente, a partir da teologia, as variações que ocorrem no interior da vida humana, na história e na criação86.

Se a teologia dogmática se classifica como sabedoria doutrinal, a teologia mística se caracteriza como sabedoria experiencial. Ela não é mística porque é teologia. Ao contrário, porque verbaliza o experimento místico, reflete sobre ele é que se torna teologia. Moltmann entende por mística a interioridade da experiência de Deus na fé, bem como o transfundo da experiência da fé.

86 Cf. EV, p. 196.

3.3.2.3 A Trindade e a liberdade humana

A doutrina da liberdade do homem não se divorcia da doutrina do Reino de Deus. Esta afirmação sintetiza a unidade entre as obras de Moltmann da Série “Contribuições Sistemáticas para a Teologia”.

A liberdade no homem ocorre à medida que ele se liberta do reino das necessidades e administra a força que a natureza exerce sobre ele. Este passo é importante quando o homem se livra da escravidão e não escraviza a natureza. Como estágio, quando pela técnica o homem

“doma” a natureza, ocorre um tipo de liberdade.

Um risco que se corre é quando historicamente se entende a liberdade como “domínio”.

Quem assim a compreende só se considera livre às custas de outras pessoas. Nesta mesma direção, a liberdade proveniente do espírito burguês capitalista, ao suplantar o feudalismo, prega, pelo menos em teoria, que a liberdade de um ocorre quando o outro também é livre. Porém, no fundo, esta liberdade se define como domínio.

Dentro do Espírito da comunidade cristã, a verdadeira liberdade acontece quando na base se encontra o amor. Somente no amor é que a liberdade humana chega à sua verdade.

A liberdade trinitária é aquela que crê em Deus Pai de Jesus, o homem livre. Este Deus não exime da tentação, nem da cruz. Ao contrário, exige, sem arrogância, a confiança da criança87. Dele emerge o perdão que atinge o coração de quem professa nele a fé. Este amor, que transforma o homem em nova criatura, é livre e liberta.

Há sempre uma dimensão religiosa no experimento da liberdade. É por isso que há nela um aspecto teológico. A própria modernidade que prega a morte de Deus, ou pelo menos o nega, para se afirmar livre, confirma este aspecto teológico inerente à liberdade. Esta reflexão dos mestres da suspeita, contudo, coloca Deus como o empecilho da liberdade. Este Deus, de forma alguma, é Trindade.

Diz Moltmann, com razão:

Um Deus imóvel e apático não pode ser colocado como fundamento da liberdade humana. Um soberano absolutista no céu não encoraja nenhuma liberdade sobre a terra.

Somente o Deus sofredor e apaixonado, e por força da sua paixão pelo homem, é capaz de fazer com que exista a liberdade humana. Ele que realiza o reino da sua glória em uma história de criação, libertação e glorificação, deseja a liberdade humana, alicerça a liberdade humana e dispõe o homem incessantemente para a liberdade. A teologia trinitária oferece a possibilidade de fundamentar uma doutrina da liberdade abrangente e pluridimensional88.

87 Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres. Do Terror de Isaac ao Abba de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2001, p.68.

88 TRD, p.221.

Finalmente, o Deus que chama o homem ao seu serviço o coloca numa situação de destaque em relação às outras criaturas, numa postura de exaltação e honra. O sentido dado à vida, nestas condições, faz o homem retirar de si o supérfluo e o inútil para transformá-los em caridade do caminho que conduz o drama humano ao pathos divino para, depois da cruz, celebrar a festa pericorética do homem livre acolhido no seio da Trindade.

No documento PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO (páginas 112-115)