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(DCE) da PUC. Muitos destes jovens, dos quais se aproxima, segundo recorda, eram oriundos de movimentos de Igreja, em sua maioria da PJ. Ele, hoje, analisa da seguinte maneira:

Pô, ao me aproximar do pessoal do DCE eu encontrei pessoas da Igreja que acreditavam e lutavam pelas mesmas coisas e ideais que tinha, sacou? Isso me ajudou a enxergar essa questão da Igreja de uma outra forma!

Nosso amigo Jonas destaca que sua mãe, desde cedo, transmitia-lhe profundos valores religiosos através de hábitos como rezar ao se levantar e ao dormir. Conta também que aprendeu muitas coisas através das devoções religiosas de sua mãe, que lhes explicava (a ele e aos irmãos) o sentido e o porquê de cada devoção que ela possuía e desta forma, segundo explica, foi desenvolvendo uma “sensibilidade espiritual” mesmo sem manter vínculos com a Igreja ou qualquer outro movimento religioso.

Contribuiu para ampliar sua “reflexão espiritual” o contato com obras de Frei Betto e Leonardo Boff, nos cursos introdutórios sobre religiosidade e cristianismo da PUC. Ele destaca uma passagem de um livro de Zuenir Ventura, da Missa de 7ª Dia da morte do estudante Edson Luiz, quando os padres, ao final da missa, fazem um cordão de isolamento para proteger os estudantes das tropas do governo, durante a Ditadura Militar:

Quando eu li aquele trecho, aquilo me emocionou bastante. A Igreja podia ser sempre assim... Eu era muito crítico da Igreja... Depois que tive um contato mais profundo com obras do Boff e do Betto, eu passei a olhar a Igreja de uma outra forma.

Além desse contato com uma outra teoria sobre a Igreja, se interessou pelos serviços pastorais da PUC. E através de uma professora com quem fez grande amizade, e por incentivo desta, procurou fazer o catecismo, ganhou uma bíblia de presente e aprofundou ainda mais sua formação religiosa. Ele lembra como algo importante nesta sua trajetória de formação religiosa:

Aprendi ainda mais sobre a importância da oração, da gratidão à Deus... Não por causa da Igreja, mas por entender que Deus está na natureza, está dentro do meu coração, está no outro. Ao me conscientizar disso tudo eu poderia estar me transformando por dentro.

A PUC acabou por me proporcionar isto por causa desses espaços que eu passei a freqüentar e das pessoas que eu passei a conhecer.

Nesse contato com outros jovens, descobriu o movimento Fé e Política: “Pô, pensei: Fé e Política... achei interessantíssimo a idéia de um movimento que buscava articular estas duas

esferas.” E, segundo explica, o interesse pelo Fé e Política só veio a somar naquele momento de interesse crescente que estava tendo pelos “assuntos de espiritualidade, fé e política”.

Ao participar, juntamente com os outros jovens do DCE, pela primeira vez, do encontro do movimento Fé e Política, encontrou várias pessoas e outros jovens que pensavam como ele e que, segundo classifica, “tinham uma visão mais ampla da Fé, da Espiritualidade e que se preocupavam também com a política e com a militância”. Nosso amigo destaca a participação numa das celebrações, na comunidade na qual estava hospedado como um grupo de amigos, foi fundamental para ele pois, segundo explica, “percebi - pela primeira vez - que não era só o padre que poderia ter uma atuação de verdade numa celebração. Todos participaram ativamente. Eu nunca tinha visto assim... aquilo me marcou bastante”.

Enfim, foi neste encontro, onde pela primeira vez, ouviu falar do MIRE. Nesta ocasião o Frei Betto, presença assídua nos eventos do Fé e Política, fizera uma apresentação do MIRE e distribuíra um folheto para aqueles que se interessassem em conhecer o movimento, o preenchesse e enviassem seus dados. Assim ele fez e ficou aguardando contato da Secretaria Nacional do movimento em SP. Este nosso amigo mais tarde se juntaria a outros jovens da PUC também desejosos de conhecer melhor o MIRE e rumaria para o Iº Retiro Nacional do MIRE91. E a partir deste encontro passou a fazer parte, de fato, do movimento Mística e Revolução.

O jovem Jonas é um dos mais antigos e mais atuantes participantes do MIRE. Ele lembra que a participação no MIRE o ajudou a descobrir o que ele chamou de “as riquezas da meditação”. Ele explica:

Percebi que a meditação me ajuda, pois é um momento de pausa que, com a mente vazia, ajuda a ter um contato mais profundo com Deus. A meditação ajudou-me a ter um contato maior com própria Bíblia. Os momentos de meditação nas reuniões do MIRE me ajudam a ver que minha luta era maior do que eu pensava. É um momento de auto- controle e de me abastecer... de refletir e evita, diante da realidade social, uma revolta sem-medida. Na meditação, ao olhar pra dentro de mim mesmo, eu reflito sobre minha própria inserção.

Contudo, assim como o jovem Edson que conhecemos anteriormente, reconhece que a meditação diária é, para ele, “quase impossível, pois com a correria do dia-a-dia não dá... tem sido um desafio para mim”. Ele declara que “ora mais do que medita”. Afirma também que já fez inúmeros propósitos de meditar diariamente, mas confessa que não tem conseguido, mas

91 Mais adiante descreveremos esta conturbada viagem dos “jovens da PUC” para o citado retiro nacional.

reconhece: “Eu quero silenciar mais...”. E apenas num mês, no período da quaresma em que fez este propósito, conseguiu meditar quase que diariamente. “Foi muito bom, me senti muito bem, mais leve, mais sereno... Fez a maior diferença, sacou?”

O MIRE, para ele, ajudou a ampliar e a aprofundar os laços de amizade, de confiança, de carinho, de respeito-mútuo. E ele compara: “No movimento social você não tem isso, pois é só briga, debate, discussão... E no MIRE você reflete mais, pensa, medita... E isso é bom pra gente.”

Na reunião do MIRE, explica ele, “as pessoas se sentem mais à vontade pra expressar seus sentimentos e quando alguém te abraça você sente aquele carinho verdadeiro”.

Jonas deixa transparecer a noção, muito parecida com a do jovem Felipe, de que jovem é período de “formação e de construção” e que, nesta etapa da vida, “é fácil ser revolucionário aos

‘vinte-e-poucos-anos’, difícil é ser revolucionário depois dos trinta quando já se tem uma família e mais responsabilidades nas costas...”. o MIRE, portanto, ajudaria - se seguirmos sua linha de raciocínio - o jovem se preparar para uma militância mais perene, mais duradoura e não apenas nesta etapa da vida (juventude). Num outro momento de nossa conversa, se referiu à juventude como “uma fase de transição”, depois da qual a pessoa deixaria de ser dependente dos pais para, em suas palavras, “entrar numa fase de ação concreta pela própria sobrevivência”.

Nosso amigo aponta mais claramente um outro elemento que o atraiu ao movimento: “O MIRE não é pra substituir os movimentos sociais. É algo pra fortalecer os jovens para que atuem nos movimentos. O MIRE me dá uma dimensão maior da luta, porque quando cansar - e a luta cansa! - você tenha um espaço pra se abastecer”.

Jonas, embora não se defina como católico, tem uma nítida afiliação com o ideário da Teologia da Libertação e confere a sua “luta” e militância um sentido religioso. Acredita que é a mística uma fonte e combustível para sua militância e esta (aqui prefiro deixar a ambigüidade que me ficou propositalmente, pois tanto pode ser referida à mística quanto à militância...) encontra inspiração maior nas ações do próprio Jesus. Ele afirma:

Para se fazer a “transformação social, a ruptura é preciso a prática... mas tem hora que a prática cansa. Aí você tem que ter algo que te renove por dentro. A mística, pra mim é isso. Ela, através da meditação, faz você o tempo todo tá refletindo... O místico é aquele que compreende seu laço com Deus e que aquilo que está ali (a luta) precisa ser feita. Olhando para o Cristo na Bíblia, que também queria romper com uma determinada ordem,você vê as ações dele e aprende. Você passa a agir de uma outra forma,mas não é simplesmente uma ação vazia!.

Ao contrário do que percebe em outros espaços de militância (ele atua na coordenação de um PVNC, no qual também ministra aulas de Cultura e Cidadania, e faz um curso promovido pelo MST na UFF, denominado Realidades Brasileiras), no MIRE ele acredita estar valorizando elementos importantes de sua militância: “As dimensões do afeto, do carinho - que não estão sendo mais pregadas nos outros movimentos - são importantes. A mística do MIRE me faz ver e valorizar mais isso. A meditação, no contato com Deus que está em mim, me faz refletir sobre isso”.