5 O MIRE: UM PONTO DE VISTA A PARTIR DE DENTRO
Neste quinto capítulo apresentaremos as características do MIRE no Rio de Janeiro a partir de nossa inserção com o Trabalho de Campo. Todavia, não faz parte de nossa pretensão apresentar um modelo do que venha a ser o MIRE mas, na verdade, apresentar um núcleo do movimento a partir das entradas a uma certa parte da realidade desse grupo, ou seja, apresentaremos uma visão possível do que venha a ser este movimento de jovens.
MIRE, sua metodologia e objetivos e ficou estabelecido que eles tentariam criar um núcleo do movimento no Rio.
O MIRE então, com a coordenação destes dois, promoveu um seminário chamado Oração e Revolução num CIEP em Caxias. Segundo relatou-me João este seminário contou com a presença de Frei Betto, Chico Alencar e Augusto Boal. Tal evento atraiu uma enorme quantidade de pessoas e este foi considerado um marco fundador do MIRE no Rio, pois a partir deste surgiu o primeiro núcleo em Caxias. Este chegou contar à época com mais de 30 jovens. Mais tarde, devido a enorme distância da Baixada para a zona sul, João93 resolveu montar um outro núcleo do movimento, pois fora colocado em contato com um outro jovem (Vinícius) - de seu bairro - interessado em participar do MIRE. Enfim, foi a partir do evento acima citado, que marcou o início do movimento no RJ, que surgiram os outros três núcleos do MIRE.
Cabe enfatizar que este trabalho, por ser pioneiro sobre o movimento Mística e Revolução, não tem a pretensão de esgotar toda a temática. É bem verdade que inúmeras lacunas hão de ser percebidas e aqui, portanto, assumimos mais um caráter introdutório cujo objetivo principal é antes abrir possibilidades de pensar este movimento e novas questões nele inspiradas, do que apontar respostas. Na verdade, temos consciência do que nos alertara o “bom e velho”
Weber94: “toda obra científica ‘acabada’ não tem outro sentido senão o de fazer nascer novas
‘questões’: ela pede então para ser ‘superada’ e envelhecer. Aquele que quiser servir à ciência deve resignar-se a tal destino...” (WEBER,1992 apud CARRANZA, 2002, p. 21)
Antes de dar uma passada rápida pela situação que presenciamos nesses meses de participação no movimento Mística e Revolução, vejamos um pequeno texto escrito por um dos jovens da Coordenação Estadual e membro do núcleo Zumbi dos Palmares (Caxias) como relatório final de um dos internúcleos ocorrido em dezembro de 2003. Assim ele descreve a situação dos núcleos do MIRE no Rio de Janeiro atualmente:
Núcleo S. João Batista - Passava por um momento de dispersão. Passou a investir mais na Mística. (“Vai bem, Obrigado”)
93 Recentemente este jovem mudou-se para Belém como contratado da Comissão Pastoral da Terra. Por este contrato ele passará um ano como fotógrafo desta comissão e também do MST. Segundo ele: “É o que eu sempre sonhei, Paulo: Fazer da minha profissão um instrumento de luta pelas causas sociais”.
94 Por favor, tal frase pode parecer uma “intimidade exagerada” com o gigante da sociologia alemã. Todavia, inspiro-me (guardadas as devidas proporções!) na expressão semelhante feita por Sanchis (1997, p. 11) em relação a Durkheim.
Gávea - Situação atípica. O núcleo é pequeno (4 pessoas), é bom pela integração,mas dificulta uma certa formalidade (dia, hora, local de reuniões). Estão sempre juntos, mas não se reúnem ...
Campo Grande - Além de trabalhar a motivação, precisam investir em gente nova. Não se reúnem faz uns meses.
Núcleo de Caxias - Não se reúnem há algum tempo. Houve uma reunião onde traçamos planos para continuar, mas não deu certo. Falta motivação. Há laços de amizades
Atualmente, como podemos perceber, o movimento no Rio conta com quatro núcleos: um na Baixada (Caxias), um na Zona Oeste (Campo Grande) e dois na Zona Sul (um na Gávea e outro na PUC). Sendo este último o núcleo mais ativo, com maior número de participantes e com uma maior regularidade nas reuniões (Mais adiante nos deteremos neste grupo, por ser este o locus privilegiado de nosso envolvimento e participação durante o trabalho de campo). Para ser mais exato, ao contrário do que percebemos neste grupo da PUC, os outros três núcleos apresentam uma irregularidade muito grande no que diz respeito à periodicidade das reuniões, ou seja, estes grupos quase não se reúnem e quanto ao de Campo Grande, praticamente inexiste.
Acompanhemos abaixo a situação atual de cada núcleo que identificamos pelos depoimentos de seus membros nos eventos regionais do MIRE, bem como através de conversas informais ao longo desses meses de imersão no campo de pesquisa.
O núcleo de Caxias (Zumbi dos Palmares), o pioneiro no Estado, atualmente vem encontrando dificuldades para reunir seus membros. Este conta com seis membros que, pelo menos, tem se comunicado e “manifestado” o desejo de voltarem a se reunir. Nos eventos do MIRE-RJ há sempre a presença de alguns representantes deste núcleo. Existem ainda, repassados pela Secretaria Nacional, uma lista de outros dez jovens da região da Baixada que manifestaram o interesse em participar do movimento. Contudo, como o próprio grupo não tem conseguido se reorganizar, este ainda não se mobilizou para convidar estes possíveis novos membros.
Por sua vez, o núcleo da Gávea tem a igual dificuldade de se reunir regularmente, embora, assim como o de Caxias, os membros deste grupo tem mantido contato constante entre si. Este núcleo contava com um dos fundadores (Jonas) na lista de seus membros e um outro (Vinícius) que faz parte da Coordenação Nacional do MIRE.
Quanto ao grupo de Campo Grande, não é possível afirmar muita coisa, além do fato deste praticamente inexistir. Este núcleo chegou a contar com quatro integrantes. No entanto, os dois jovens mais velhos do grupo – alegando falta de tempo devido ao trabalho e aos estudos – desistiram de continuar participando do movimento. Atualmente, apenas um dos membros (Tobias, 17 anos, Ensino Médio) desse “núcleo” continua participando dos eventos regionais e nacionais “representando” tal grupo. Existe por parte dos membros dos outros núcleos, todo um incentivo para que este jovem permaneça no movimento e, atualmente, têm tentado apoiá-lo na montagem de um novo núcleo nesse bairro com outros jovens. Inclusive, tenho tentado ajudá-lo nesse sentido. Ao final do trabalho talvez fique mais clara minha motivação para tanto.
Ao considerar as dificuldades destes três núcleos em manter vivos seus núcleos, é preciso destacar, dentre outros fatores, as diferentes faixas etárias de seus membros. Em comparação ao grupo da PUC estes outros núcleos são mais heterogêneos, ou seja, enquanto neste último há uma proximidade muito maior entre seus membros (todos estão na universidade, tem uma idade aproximada e etc), nestes núcleos existem distâncias que devem ser consideradas, por exemplo, enquanto alguns de seus membros ainda estão saindo da faixa etária adolescente (idade entre 12 a 17 anos), outros já estariam numa idade superior a 25 anos; enquanto os primeiros estariam ainda cursando o ensino médio, outros já estariam na universidade.
Portanto, além da diferença etária, haveria uma diferença importante no que diz respeito a um certo ritmo de vida, expectativas e responsabilidades, traduzindo-se numa dificuldade de comunicação e, conseqüentemente, integração entre estes. Poderíamos afirmar que, na prática, atualmente apenas o núcleo São João Batista está “funcionando”.
Enfim, após estas brevíssimas considerações iniciais, podemos perceber e admitir que foi acertada a nossa estratégia em acompanhar, de perto, o núcleo São João Batista (PUC). Embora, somente mais tarde tal situação de desníveis de caminhada tenha sido percebida…
É importantíssimo frisar que tal opção – assim como qualquer outra que tivéssemos adotado – marca significativamente os rumos deste trabalho ao nos apontar uma realidade bem específica do movimento no Rio de Janeiro. Logo, longe de nós a pretensão de apontar o que venha a ser o MIRE no Rio de Janeiro e muito menos, apontá-lo como um todo, como algo homogêneo. Acreditamos que o movimento Mística e Revolução não é isto ou aquilo, na verdade, o que pretendemos neste trabalho é apontar uma possibilidade de pensar o MIRE a partir das entradas que nos foram possíveis. Ademais, nos parece claro que toda opção implica
em uma conclusão bem específica e não exclusiva de outras pois, afinal, (eu gosto muito dessa frase que li pela primeira vez num livro de Leonardo Boff) “cada ponto de vista será sempre a vista de um ponto”.