JOSÉ DE ALENCAR, A DEMOCRACIA PROPORCIONAL E O DIREITO DE VOTO
2.1 O O LHAR DE W ANDERLEY G. DOS S ANTOS
Procurando incluir as publicações políticas de José de Alencar no rol de obras fundamentais que analisaram o “enigma democrático” no século XIX, Wanderley Guilherme dos Santos (1991), em sua introdução aos Dois Escritos Democráticos..., esboça, inicialmente, as configurações do moderno sistema políti- co onde a Inglaterra se situa com uma ausência de cláusulas eleitorais que facili- tem as bases liberais-democráticas e mapeia a literatura da época que trata sobre o assunto. Cita a obra de Thomas Hare (The Election of representatives parliamentary and municipal, 1859) e de John Stuart Mill (Considerations on representative government, 1861) e cria aportes para conexões da obra de Alencar com estes e outros auto-
res como Edmund Burke, Madison, Bentham e Benjamin Constant, constituin- do-se estas em fontes nas quais Alencar se abeberou para as suas teses sobre o sistema representativo.
A trama que enreda as articulações teóricas de José de Alencar com um problema político incurso na política brasileira daquele período, se insere, justa- mente, nas bases em que esta política se constitui no Segundo Reinado, com o Poder Moderador usurpando as funções legislativas e incinerando as relações de igualdade e liberdade entre o poder e o povo. A soberania popular delegava às Câmaras essas funções que o poder da Coroa utilizava, despoticamente, interfe- rindo nos preceitos fundantes dessa soberania.
A tese explorada pela análise de Santos (1991) é sobre a posição contrá- ria de Alencar ao princípio majoritário nas democracias representativas e a sua favorabilidade ao direito das minorias à representação. Para o analista, embora ainda pouco amadurecido, Alencar esboça “[...] aguda percepção do enigma do sistema representativo proporcional, que atribuía, entretanto, aos governos repre- sentativos em geral.” (SANTOS, 1991, p. 27). Ao tratar da realidade do sistema representativo, são levantadas duas questões: como se fará a representação, pelo governo, de todas as opiniões concordantes ou discordantes da sociedade, sem que haja repressão, desrespeito ou se anulem umas pelas outras? As respostas a estas questões são dadas pelo próprio Alencar, diz Santos (1991), em três livros nos quais está subdividida a obra analisada. Esboçando dois trabalhos de nature- za teórica sob o título A realidade do sistema representativo e três outros, cuja preocu- pação é quanto à engenharia constitucional referente à transformação de votos em cadeiras intitulado O regime eleitoral, Alencar configura seu projeto de mudan- ças ao sistema político brasileiro contrário ao princípio majoritário e favorável ao direito das minorias à representação. Os aportes do primeiro livro vinculam-se à exploração dos princípios democráticos dos antigos, mostrando as diferenças sobre a democracia moderna; trata da essência da democracia proporcional e dos novos sistemas eleitorais sob aquele sistema, ocupando-se da representação genuína. As teses de O regime eleitoral explicitam sua tentativa de persuasão às teorias já expostas, procurando demonstrar a factibilidade, pelo sistema político brasileiro, da engenharia constitucional em formulação.
Ao analisar detalhadamente os pontos que margeiam a desintegração do poder das minorias pelos absurdos que a maioria poderá desejar submetê-la, prevalecendo-se da representação garantida na soberania delegada, Santos (1991) esclarece a argumentação de Alencar para justificar o projeto de democracia proporcional que este apresenta, centrando-se nos seguintes pontos:
1) o ideal de sociedade da fórmula alencarina exprime-se na perspectiva de reco- nhecimento de que se “o governo é de todos por todos”, a independência de cada um é um direito fundamental3;
2) a garantia da representação das minorias legitima o processo representativo e tende a se constituir na reprodução dos atributos da democracia dos antigos. O caráter opositor das minorias tende a ser benéfico ao processo moderno de competição política;
3) a caracterização do eleitor se dá pela partícula de soberania que este detém através do voto, não o censitário, visto que todos os membros da sociedade pagam impostos, mas que permita aproximar o demos da polis. E isso só se constituirá pela função dos partidos de agregação de votos e preferências e, conseqüentemente, dando consistência à representação, visto que “[...] os partidos não são criados pelo homem, são filhos das idéias: nascem do impulso da opinião.”4 (SANTOS, 1991, p.
40). Estes, na sociedade brasileira, se nasceram do antagonismo de nacionalidades, deixam de ser pátrios e nacionais para serem partidos políticos;
4) a aristocracia burocrática que domina a administração pública absorve o po- der central, usurpa a soberania, manipula a legislação eleitoral e produz “[...] uma nação artificial, não representativa, de onde saem as eleições, de onde sai o Parla- mento.” (SANTOS, 1991, p. 44). Ela também “fabrica” a opinião pública pela subserviência da imprensa aos mandos da administração;
5) o enigma fundamental de Alencar que seria “[...] como garantir através de um sistema representativo com base no sufrágio universal, sem restrições, regulado pelo regime de eleição proporcional [...] a reconciliação da igualdade com a liberdade?” (SANTOS, 1991, p. 48) é resumido por Wanderley G. dos Santos (1991), de duas formas: uma, seguindo o alinhamento discursivo de Alencar, na obra; a outra, adentrando uma formulação contemporânea. As proposições da primeira são: a) “o voto é o elemento da soberania; a representação o meio de concentrar a vontade nacional para organização do poder político” (p.1); b) “a essência da liberdade política consiste na legítima delegação da soberania nacional, no gover- no de todos por todos” (p.12); c) “a ciência do governo se resume no princípio da representação; quando se atinge perfeita e justa delegação de soberania, ob- tém-se plenitude democrática” (p.11-12); d) “para tanto é necessário que o depu- tado seja realmente o escolhido dos cidadãos votantes” (p.8) “e que o número de votados seja inferior ao número de eleitos, na proporção conveniente para ga- rantir uma representação à minoria sem risco para a maioria” (p.3); e) “o que gradua a democracia é a extensão do poder e sua duração: quanto maior a dele- gação de soberania e por maior prazo, menor a democracia” (p.10).
Santos (1991) conclui afirmando que na letra d situa-se a solução do enigma alencarino sobre o governo representativo, no que consta da referência ao número de votados ser inferior ao número de eleitos, configurando o “[...]
modo de transformação de votos em cadeiras, de tal modo que a regra de ouro do regime da democracia proporcional seja atendida” (SANTOS, 1991, p. 49).
A configuração contemporânea da formulação de José de Alencar refletida em sua obra política, para Santos (1991, p. 49-50), está nas seguintes proposições:
• “Quanto mais proporcional, mais democrático.”
• “Quanto maior a participação eleitoral, maior a extensão em que o governo é de todos por todos.”
• “Quanto mais obedecer à regra fundamental de não tirania da maioria e não poder de veto da minoria, mais democrático.”
• “Quanto menores o prazo e o escopo do governo, mais democrático.”
No intento da obra analisada, na interlocução feita com os teóricos eu- ropeus do período sobre o processo político democrático que emergia na litera- tura e se estendia de forma pragmática, no sistema político moderno, Wanderley G. Santos (1991) vislumbra as contribuições teóricas de José de Alencar entre as mais importantes sobre a democracia e considera que este autor soluciona o
“enigma democrático”, quando aponta para a superação da democracia repre- sentativa pela via proporcional.