JOSÉ DE ALENCAR, A DEMOCRACIA PROPORCIONAL E O DIREITO DE VOTO
2.2 O R ECORTE A NALÍTICO DE O LAVO B RASIL
A configuração contemporânea da formulação de José de Alencar refletida em sua obra política, para Santos (1991, p. 49-50), está nas seguintes proposições:
• “Quanto mais proporcional, mais democrático.”
• “Quanto maior a participação eleitoral, maior a extensão em que o governo é de todos por todos.”
• “Quanto mais obedecer à regra fundamental de não tirania da maioria e não poder de veto da minoria, mais democrático.”
• “Quanto menores o prazo e o escopo do governo, mais democrático.”
No intento da obra analisada, na interlocução feita com os teóricos eu- ropeus do período sobre o processo político democrático que emergia na litera- tura e se estendia de forma pragmática, no sistema político moderno, Wanderley G. Santos (1991) vislumbra as contribuições teóricas de José de Alencar entre as mais importantes sobre a democracia e considera que este autor soluciona o
“enigma democrático”, quando aponta para a superação da democracia repre- sentativa pela via proporcional.
dos votos, prevenindo a fração minoritária, contra a tirania e o despotismo do princípio da maioria.
Lima Jr. (1997, p. 49) equipara Alencar a Sterne e a Stuart Mill, conside- rando essa tríade como “[...] expoentes da divulgação e defesa do princípio de representação proporcional formulado alguns anos antes por Thomas Hare e adotado pela primeira vez na Irlanda em 1923.”
3 O PENSAMENTO POLÍTICODE JOSÉDE ALENCARSOBREO VOTODO CIDADÃO:
ONDE ENCONTRARAS MULHERES?
Da leitura de O Sistema Representativo5 (ALENCAR, 1868), procurei centrar meu olhar no que José de Alencar considerava as aberrações de um sistema político de democracia representativa no qual predominava o princípio da maio- ria, submetendo uma parte do povo em minoria. A análise de Alencar sobre os dois elementos conceituais – maioria e minoria – aplicados à análise do sistema político procura dimensionar o grau de força dos representantes partidários que auferem um poder maior, conservando um número maior de representantes no parlamento através do voto da maioria. O fato de o autor intentar dimensionar a assimetria eleitoral, através de fórmulas que incidem no equilíbrio do número de votos entre os candidatos pode ser considerado uma previsão acerca do quociente eleitoral atual. Trata-se também de avocar a tensão entre igualdade (a maio- ria) e liberdade (dos direitos privados) que tensiona o regime democrático.
O sistema representativo seria o princípio regulador da delegação da soberania nacional e a norma de sua realização. Esta delegação da soberania estaria considerada em sua generalidade – representação; relacionada ao direito do cidadão – voto; e efetivada através da eleição (ALENCAR, 1868, p.12). É no Livro II, Do Voto – Capítulo I – Da natureza do voto –, e Capítulo II – Do Exercício do Voto –, que José de Alencar incursiona sobre a dimensão do voto e relaciona quais os cidadãos que assinam ou não assinam o “contrato”.
O voto, diz ele, “[...] não é como pretendem muitos, um direito político, é mais do que isso, é uma fração da soberania nacional; é o cidadão” (ALENCAR, 1868, p.75), é a expressão da pessoa política que garante o “[...] caráter de repre- sentação política do homem [...] A pessoa, é o homem civil a quem competem os direitos individuais; o voto é o homem político a quem competem os direitos coletivos.” (ALENCAR, 1868, p. 76-77).
Embora no domínio da democracia o voto pertença a todo o indivíduo que tenha parte numa dada nação, há, contudo, impedimentos que não habilitam algumas pessoas para o exercício da soberania. Estas – barreiras ao sexo, à idade,
à doença das pessoas –, para Alencar (1868, p.80), impedem a verdadeira demo- cracia, pois qualquer ente racional tem parte na fração de soberania: “Todo o sistema eleitoral repousa sobre esse dogma da universalidade do voto. O mem- bro de uma comunidade política, qualquer que seja seu estado e condição tem em si uma molécula da soberania e deve concorrer com ela para o governo de todos por todos”.
A argumentação travada pelo autor em torno destas barreiras que ele con- sidera o primeiro vício notado no sistema de restrição do voto, porque suprime inteiramente a representação aos incapazes políticos, vai se basear no enfoque dos direitos civis – reguladores da ordem privada –, e direitos políticos –, referentes aos deveres de cidadania. Se estes entes impedidos de votar – a mulher, o menor, o alienado – mantêm relações de contribuintes com o Estado, então as barreiras de exclusão não se sustentam, diz Alencar (1868), haja vista que eles demonstram inte- resse pelas leis do país e pela nacionalidade da qual são investidos, portanto não procede a exclusão. “A incapacidade determina apenas o modo de ação, o exercí- cio. Na esfera civil, o incapaz não perde o direito, mas unicamente o uso próprio;
assim deve, e há de ser mais tarde, na esfera política.” (ALENCAR, 1868, p.81).
Considera a inadequação do funcionamento da democracia por esta desrespeitar a representação dos direitos políticos dos inativos e se nega a aceitar as condições do status quo sobre a naturalidade da exclusão da mulher da cidada- nia por via da cultura:
Então essa parte da humanidade que na vida civil comunga em nossa existên- cia, não há de ser esbulhada de toda a comunidade política; aquelas que são esposas, mães, filhas e irmãs de cidadãos, e tem senão maior, tanto interesse na sociedade como eles, não serão uma excrescência no estado. Participarão da vida política por seus órgãos legítimos; e quando assumam a direção da família na falta do chefe natural, exercerão por si mesmas o direito de cidade, servindo de curadora ao marido ou de tutora aos filhos. (ALENCAR, 1868, p. 82).
Mas Alencar é realista, ao observar que essa situação deve perdurar ainda por muito tempo6. Vê a mudança da sociedade que exclui a mulher do direito do voto, somente com a reforma eleitoral. E considera que da forma como se apresenta a democracia, com uma “falsa noção”, a inclusão do pleito nessa base seria arrastar institucionalmente à universalização da delegação do poder à maio- ria, um dispositivo que leva o temor aos próprios adeptos da “escola democrá- tica”. Alencar vê na exclusão, com base na barreira do critério de capacidade para o exercício do voto, uma estratégia dos que têm medo do poder exercido pelo povo, ou seja, do governo popular.
A outra aberração que, segundo ele, repercute de forma negativa como critério de capacidade eleitoral é o censo (voto censitário), o qual se serve da
instrução, dos cargos, da renda, da propriedade imóvel para avaliar a aptidão política do cidadão. Contraditório, no seu entender e, até mesmo, uma “subver- são de princípios” é apresentar princípios tão diversos e conflitantes para afastar os cidadãos do direito político. Diz:
Se admite-se com base da capacidade política a instrução, parece ridículo dar a um analfabeto patente de ilustrado porque possui uma renda; se a base está na propriedade, porque representa o interesse do cidadão no estado, seria disparata- do revestir um título científico de igual caráter; se finalmente a base é múltipla e assenta em qualquer interesse legítimo, então nenhum membro pode ser excluí- do, porque todos o têm, embora em mínima proporção. (ALENCAR, 1868, p. 84).
Estas discussões das cláusulas ou barreiras impostas ao direito do voto, que Alencar desenvolve neste capítulo, querem demonstrar que há contradição nesses critérios. Também envolvem as críticas ao ponto de vista de Stuart Mill, o qual aponta como justificativa para a sua aceitação ao censo, enquanto norma, o fato deste ser criterioso na medida em que deriva da contribuição paga pelos votantes, visto que “[...] o poder de votar o imposto só pode ser conferido por quem o paga” (ALENCAR, 1868, p. 85). Alencar (1868, p. 85) retruca ser este um falso princípio porque não só “[...] o poder político é um e indiviso; é a delega- ção da soberania universal”, mas também porque as contribuições geralmente são indiretas sendo que nenhum cidadão fica isento de pagar ao consumir um produto adquirido em razão deste consumo: “Portanto, o proletário taxado em sua subsistência está no mesmo caso do capitalista obrigado ao imposto de ren- da.” (ALENCAR, 1868, p. 85).
Sua defesa pela igualdade jurídica é a suposição de que a democracia, sendo governo de todos por todos, tende a alargar a demos ao incluir o princípio de representação da minoria, pois:
A plebe, a massa indigente do país, não é, como alguns erradamente supõem, inimiga natural das classes abastadas, a quem respeita e serve. São estas ao contrário que a arredam e espezinham por um ciúme cobarde [...]; aproveitam- se da posição para extorquir ao pobre o direito do voto, e reduzi-lo a uma espécie de servidão política. (ALENCAR, 1868, p.86).
Neste critério, vejo incluída a mulher na excludência da polis, e concor- rendo para a previsão de sua incapacidade, haja vista que ao gerar-se a aptidão aquilatada à instrução, aos cargos, à renda, à propriedade imóvel, em nenhum desses itens ela se vê enquadrada. Dos papéis culturais aclimatados à sua “nature- za feminina”, foram suprimidos aqueles julgados superiores e qualificados, os quais, entretanto, ela paradoxalmente assume conforme a ausência do marido a coloque à frente dos encargos, embora sua presença no cotidiano se faça de forma transversal e muito mais radical.
Detendo-se em outro ponto polêmico, o exercício do voto, no 2º capí- tulo de seu livro, Alencar trata da incapacidade política cujos interditos impedem o cidadão de exercer o direito político, sendo três estes interditos: da penalidade;
da incompatibilidade; da ignorância. Atenho-me a este último, que é onde está mais enquadrada a exclusão da mulher do direito do voto, embora não seja explorado por Alencar, especificamente, ele faz críticas à omissão da lei porque não habilita o cidadão ao livre uso de seu direito (em razão do analfabetismo, da servidão e da desqualificação no trabalho).
O século XIX foi prolífico, também no Brasil, em discursos de variados tons acerca da educação e instrução devidas à mulher. Desde o século XVIII, a brasileira Nísia Floresta já se importava com isso. Mas o peso secular patriarcal tornava improvável este avanço legalizado, embora algumas mulheres ousadas enfrentassem a incúria nacional, como a própria Nísia, e se projetassem nas qua- lificações negadas ao seu gênero.
Desta forma, é sintomático que Alencar não tenha exemplificado com críticas à falibilidade do projeto democrático que ele pleiteava, para falar da mulher (especificamente) como parte da multidão que se mantinha entre os cidadãos passivos e sem representação, reiterando, entretanto, o impedimento à participa- ção política pela incapacidade. O discurso sobre a “natureza feminina” levava-as a considerarem supérfluo a educação, enquanto que a “instrução” repassada a elas era a de “mexer panelas e mingaus”, como as qualificou nessas funções do papel feminino, anos depois, o senador paraense Lauro Sodré e seus pares, nos debates da Constituinte de 1891, sobre o direito do voto feminino. O “dese- quilíbrio” familiar, a pecha de “mulher pública” e a ausência da “cozinheira”
foram os pontos polêmicos nesses debates dos constituintes brasileiros, para prevenir o “caos político” iminente face à previsão próxima da “mulher eleitora”
ausente do lar.
Além da incapacidade política pelo analfabetismo, havia também a do trabalho desqualificado e não remunerado que as mulheres exerciam; o trabalho servil ou doméstico que, naquele momento, tinha uma outra angulação7. E isto as excluía da polis.
Nesse mesmo momento em que Alencar levanta dúvidas acerca da incapa- cidade política, o inglês Stuart Mill e sua esposa Hariet Taylor Mill exploram os funda- mentos das relações sociais e incluem a “sujeição da mulher” como “obstáculo ao progresso humano”. E são favoráveis a reconhecer a igualdade política pela igualda- de intelectual entre os dois gêneros. São favoráveis ao direito do voto da mulher e justificam esse parecer com uma argumentação na base das idéias liberais8.
Convém anotar, por último, que no esboço da nova lei eleitoral apresen- tada por José de Alencar aos seus pares, para fins de tratar das assimetrias da
representação política, no capítulo II, Do Exercício do Voto, as mulheres ficam de fora indiretamente. A incapacidade política prescreve seus critérios e estes não são ainda favoráveis à presença da mulher. O peso cultural ainda era muito mais radical do que a pretendida renovação que o autor julga necessária à mudança social. Era ainda muito forte o discurso da exclusão.