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Limites e dificuldades

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-65)

4.1 Primeira Etapa: participante professora Carolina

4.1.1 Entrevistas realizadas com a professora

4.1.1.6 Limites e dificuldades

Nesta categoria, foram descritas algumas dificuldades e limitações que envolvem o trabalho no AEE. A professora apontou para a dificuldade de um trabalho intersetorial mais coordenado, juntamente com a necessidade de um entrosamento de uma equipe multidisciplinar, dialogando sempre com outras áreas:

A escola não dá conta de tudo junto com a Sala de Recursos, eu acho que a gente precisa do apoio do pessoal da Saúde nem sempre isso é possível. (Professora Carolina, outubro/2016).

A articulação intersetorial está prevista na implementação das políticas públicas, de acordo com Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Essa rede de apoio carece de uma estrutura pública adequada, mas quando disponível exige um trabalho conjunto, de profissionais que se unem para compartilhar conhecimentos e práticas, em prol da escolarização de sucesso dos alunos.

(GLAT,PLETSCH,2013; MENDES,VILARONGA, ZERBATO,2014)

Também identifica a falta de tempo para produção de material, horário disponível para planejar com o professor do aluno e o número de alunos a atender como fatores que comprometem a qualidade do trabalho:

(...) a dificuldade é mesmo a falta de tempo, da gente construir esse material, de tá junto com o professor... o quantitativo de alunos ... isso dificulta um pouco o trabalho (Professora Carolina, outubro/2016).

O uso de novas tecnologias na SRM é sinalizado como um limite pessoal a ser enfrentado e ultrapassado.

(...) o uso do computador, desses sites, dessas coisas todas.... Então isso tá sendo um desafio que tenho que vencer, um nó... Não, não que seja um nó. É uma coisa assim que não, que não puxa muito, entendeu? Mas... depois que eu vejo que funciona, eu fico feliz, então é uma coisa que eu tenho que investir. (Professora Carolina, outubro 2016).

Ver as dificuldades e falar sobre elas permite uma ação mais reflexiva. A professora ao reconhecer o que precisa ser mudado, também toma consciência sobre o que cabe e o que não cabe a ela fazer, sobre os limites da sua função.

4.1.1.7 O uso da Comunicação Alternativa e Ampliada com os alunos sem comunicação funcional

Carolina relata que tinha experiência em trabalhar com alunos com TEA, já havia trabalhado em escola especializada anos antes e teve alunos em classes especiais com TEA em um período anterior ao trabalho na SRM. Mas, que apesar disso, afirmava ter pouca prática com o uso da CAA. Suas referências vinham dos cursos e palestras de formação continuada realizados fora da escola, o que não lhe garantiam a segurança para iniciar um programa de CAA com seus alunos. Como dizia: “Faltava prática, conhecia. Mas, não sabia usar.”

Muito se tem discutido sobre a melhor forma de promover a formação continuada dos professores do AEE. Se ela assume um caráter extensivo, tem a facilidade de divulgar ideias e práticas, mas raramente atingem a sua necessidade específica. As críticas apontam para o seu caráter provisório, paliativo, que não permitem uma real apropriação do conhecimento. (GLAT, PLESCHT,2011, NUNES, WALTER, SCHIRMER, 2013, MENDES, CIA CABRAL, 2015, SCHMIDT et al, 2016).

A CAA era compreendida como um suporte de recurso visual para auxiliar a comunicação oral com os alunos, conforme revela na fala abaixo:

Assim quando eu comecei na Sala de Recursos, eu utilizava não uma coisa muito formal de Comunicação Alternativa. O que que eu utilizava? Imagens do dia a dia da criança pra facilitar essa comunicação. São fotos da família, fotos da rotina da criança na escola, fotos por categorias: frutas, animais. Mas nada muito no sentido de planejado, no sentido de ser uma coisa mais especifica... foi mais trabalhando com imagens nessa questão. (Professora Carolina, outubro/2016).

Embora também visassem promover a interação com as crianças, as pranchas de comunicação alternativa elaboradas pela professora não eram utilizadas dentro de uma estratégia planejada para provocar um episódio interativo. Um recurso de CAA servia muito mais para um fim acadêmico do que como parte de um sistema de comunicação para uma troca interativa mais efetiva:

(...) fundamental não é o recurso, é como você utiliza o recurso. Se eu pegar essa aqui:

“vamos lá, vermelho no vermelho, bolinha vermelha no vermelho, bolinha amarela no amarelo” é diferente que transformar isso aqui numa grande brincadeira de som, de bater, de brincar de luta, “vamos colocar a mãozinha aqui dentro, olha o barulho”

então depende muito de como você utiliza esse recurso. (Professora Carolina, outubro/2016).

As ideias iniciais da professora sobre o uso e funções da CAA foram se tornando mais claras e se transformando ao longo da intervenção colaborativa. O que foi percebido não apenas na sua fala, na entrevista final como no modo de utilizar os cartões de CAA com os alunos participantes.

Sobre o uso de CAA com as crianças na SRM, Carolina avaliou na entrevista final:

(...) hoje eu me sinto muito mais confortável com o Vitor, parece que eu o entendo, entendeu? É como se eu já entendesse alguns sinais, alguns comportamentos que ele apresenta em algumas atividades, a maneira de como... até o gestual dele e eu acho que a questão da Comunicação Alternativa facilitou isso, até para ele se sentir mais seguro, ele ficou mais tranquilo. Então isso acabou gerando uma interação maior mesmo, de troca e de entendimento que eu acho que é o principal de entender o que o outro ta querendo o que o outro ta pedindo né, e ele ficou mais seguro porque ao mesmo tempo eu estou respondendo aquilo que ele está solicitando, então eu acho isso interessante. (Professora Carolina, maio/2017)

(...) no caso específico do Bruno, as faltas foram um ponto importante no andamento desse trabalho, mas deu pra perceber a questão por conta desse comportamento bem desestruturado mesmo: dele andar pelo ambiente, ficar muito pouco tempo sentado, da concentração dele ser pouca, de muitos movimentos estereotipados motores (...),o pouco tempo pra gente trabalhar , a continuidade que não aconteceu...esse trabalho com a CAA foi dele olhar pra aquilo que estava fazendo, de eu descobrir alguns momentos das atividades que interessavam mais (...) comecei a perceber que ele olhava, que ele tinha um olhar às vezes de que ele estava entendendo o que estava acontecendo. Perceber o que ele gostava de fazer... .na atividade do dado, perceber que ele gostava de ser arrastado. (Professora Carolina, entrevista final, maio/2017)

A experiência de passar pelo processo de intervenção colaborativa descrita como o

“momento de estudo” sobre o tema e concomitantemente, pela intervenção de supervisão, que compreendeu como o “olhar do outro em que recebeu os toques sobre o que fazia, foi considerada positiva por Carolina. Aprimorando e expandindo seu olhar de observação.

O que eu acho que é assim fundamental é a questão da interação. Dessa criança perceber que ela tem vontade e ela te mostrar isso, (o) que de certa maneira, antes ela não conseguia, então ela se desorganizava, porque ela andava de um lado pro outro, mesmo ela querendo alguma coisa, ela mexia naquilo, mas, assim ... saber que ela tem oportunidade de pedir pra alguém o que ela quer. Acho que está se comunicando de alguma maneira e isso acaba estreitando o (meu) contato com essa criança. acho que isso é o grande facilitador(...) (Professora Carolina, maio/2017)

Os resultados das entrevistas, tanto inicial quanto final oferecem um recorte da realidade vivida pela professora do Atendimento Educacional Especializado na rede de ensino na qual atua. Se percalços e dificuldades são encontrados ao longo da jornada pedagógica, aspectos positivos também o são. Comparando-se a primeira entrevista com a segunda, foi possível identificar mudanças da professora, não apenas nas questões conceituais sobre Comunicação e CAA como também mais segurança e proatividade em relação ao trabalho com as crianças sem comunicação funcional, tornando sua prática mais eficaz.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-65)