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Mãe Vera de Belford Roxo

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 36-39)

Ela é de Yemanjá com Obaluaê, moradora de Belford Roxo e é jovial, bem humorada, humilde, transita na escola pública onde é inspetora e na gastronomia onde complementa sua

renda. É feita há anos, mas nunca teve terreiro organizado, atendendo em casa. É minha antiga vizinha e me deu as primeiras lições sobre candomblé.

Vera Lúcia dos Santos. Tem 53 anos. É branca. Natural do Rio de Janeiro. É divorciada. Tem três filhos. Formada em magistério. Trabalha como inspetora de alunos em escola pública de Belford Roxo. Foi estimuladora de alunos e cozinheira. Morou na Espanha, trabalhou como cozinheira num navio da Marinha Mercante espanhola. Ainda está construindo seu terreiro. Sempre atendeu em casa. Foi iniciada aos 13 anos. É da nação Ketu.

Mora em Belford Roxo e seu terreiro será em Vila de Cava.

Aos 13 anos ia para a escola e só chorava. Depois apareceu uma dor de cabeça e um inchaço na cabeça. Foi ao centro e incorporou na hora sem nunca ter visto nada semelhante antes. Vieram Obaluaê e outros. Jogaram búzios e era para fazer a iniciação. Fez um borí e ficou três dias recolhida. Um ano depois teve que se iniciar.

Certa época se revoltou com o candomblé e fez um estudo pela igreja Adventista do sétimo dia. Tocou fogo em tudo. Ficou quatro anos na igreja. A mediunidade continuou. A revolta era porque os orixás não respondiam as suas questões. Tinha vigílias da igreja em casa e tinha revelações. Foi advertida pelo pastor que desconfiava que fossem do demônio essas visões. Os orixás se reaproximaram quando se afastou da igreja. Passou um tempo na Espanha onde se reconciliou e se reencontrou com os orixás.

Fez obrigação de 14 anos e quer fazer uma casinha para os orixás. Tem que trabalhar, mas tem dificuldade com centro porque cobram caro. Foi iaô14 e ebômi15. A mãe de santo faleceu e ela precisa de uma mãe.

Frequentou centro kardecista, o Frei Luiz. Foi evangélica. Após sua obrigação de sete anos de feita ela ficou afastada por 12 anos do candomblé.

Lá atrás eu me afastei do santo e me tornei evangélica. E você sabe muito bem que os nossos dons que temos foi Deus que nos deu. Você esteja em que casa esteja, em que religião esteja. Se eu vejo as coisas vou continuar vendo. Eles queriam aproveitar isso pra atacar os meus irmãos espíritas. Mas eu nunca me prestei a isso porque se eu gostava, eu respeitava a minha casa, tem que respeitar a casa dos outros. Então eu não tenho essa coisa de ficar agredindo os outros. Quando eu me afastei do santo, fiquei doze anos, não aguentava ouvir falar no nome dos orixás. Virei missionária, conheci a Igreja, era respeitada por todos, mas não fiquei. Graças a Deus conheci esses caminhos, porque

14SANTOS (2010) Literalmente “a esposa”. No candomblé, o iniciante, o recém-iniciado de ambos os sexos.

15Iniciado há sete anos.

aprendi muito, mas voltei. [MÃE VERA DE BELFORD ROXO,Entrevista concedida a Alessandra Aguiar, Belford Roxo, 27,mai.2014]

Uma questão recorrente nesses relatos é o trânsito por diversas religiões e a raiz de umbanda que elas têm. Com exceção de Mãe Ceci e Mãe Sônia, todas vieram de outras religiões. E Mãe Ceci, oriunda dos terreiros de Salvador, percorreu outros lugares em sua trajetória. Mais adiante veremos como esse trânsito marca suas experiências como sacerdotisas.

Outra questão recorrente é sem dúvida a herança ancestral. Se tornaram yalorixás sem nunca terem almejado isso. Nenhuma queria, é outro ponto de relutância. E outra recorrência é a liderança amorosa.

Essas senhoras, yalorixás, mães-de-santo, me encantaram a cada dia de trabalho de campo. Observo que na roda, no sirê, elas tocam os filhos-de-santo e assim evocam ou dispensam os orixás. Quantas vezes suas mãos são reclamadas para fazer esse contato com o divino? São suas mãos, só! Quantas vezes cada um de seus filhos se deitam diante delas em sinal de profundo respeito? Delas emana o Axé! Pedem suas mãos no início e no fim dos trabalhos, aguardam suas presenças, cantam e tocam até suas entidades despedirem- se.

E apesar de não ter tido licença e ou oportunidade pra frequentar preparativos para o trabalho e trabalhos fora dos terreiros, sei que essas mãos tocam os objetos rituais, os alimentos orientadas por um saber infinitamente complexo que envolve palavras e ritos milenares. São tantos rituais, ouvi numa só festa mais de 30 canções, dançadas por filhos e mãe, vi alimentos, flores, guias, cores, roupas... Essa festa tinha sido dividida em duas, começou com a lavagem das cabeças na cachoeira e terminou no terreiro noutro dia. Ela emendaria com outra, com sacrifícios e oferendas no cemitério e ainda entre uma e outra haveria dois Borís, haveria atendimento aos filhos-de- santo, atendimento às pessoas que procuram a casa.

Lembrei que nessas festas os guias e orixás vêm para fazer os trabalhos anteriormente pedidos e fazem dançando suas danças, suas presenças evocadas são a oração em si. Por tanto recordado e aprendido me pergunto, não pode ser assim uma religião? Que normalidade instituída é essa que não reconhece a imensidão de ser yalorixá e do candomblé?

Eu quero recordar por toda minha vida das mãos de yá Maria nos ombros do filho que tenta incorporar sem conseguir ainda, das mãos que tocam os filhos deitados no chão e são levadas à sua própria boca e cabeça num distribuir de Axé, dos olhos serenos que assiste a dança dos orixás de seus filhos e do corpo idoso que se renova na dança vigorosa de sua

Cabocla, da voz que indica as canções, do adjá em suas mãos evocando o além, da força imensa que realiza esses rituais com seus fundamentos só para rememorar uma pequena parte do que vi.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 36-39)