Fundamental é que as medidas socioeducativas como resposta à pratica do ato infracional implique sempre em uma medida com conteúdo educacional, capaz de auxiliar o adolescente a superar os conflitos próprios de sua condição de pessoa em pleno desenvolvimento, sempre com o objetivo maior de promover a reeducação do adolescente e consequentemente sua ressocialização.
educativos destinados a criança e adolescentes (art. 97, I, “a”, e II, “a”). Na primeira hipótese trata-se de medida sócio-educativa, nas demais constitui medida de proteção.106
Recomenda-se a medida de advertência para os adolescentes que não possuem histórico criminal e para os atos infracionais considerados leves, quanto à natureza ou conseqüências. A medida deverá ser aplicada em audiência e reduzida a termo, com as exigências e orientações dadas ao adolescente, que constará da assinatura do juiz, do promotor, do adolescente e de seus responsáveis.107
Apesar do caráter singelo da medida de advertência, há o aspecto pedagógico muito importante, que consiste em instruir os deveres do adolescente e as obrigações dos pais ou responsáveis visando a uma conscientização dos envolvidos no problema. Entretanto, não pode ser confundida com as práticas disciplinares na vida familiar ou escolar, uma vez que a medida de advertência:
[...], produz efeitos jurídicos na vida do infrator, porque passará a constar do registro dos antecedentes e poderá significar fator decisivo para a eleição da medida na hipótese da prática de nova infração. Não está, no entanto, nos efeitos objetivos a compreensão da natureza dessa medida, mas no seu real sentido valorativo para o destinatário, sujeito passivo da palavra de determinada autoridade pública.108
Para a aplicabilidade da medida de advertência, é necessário que haja a prova da materialidade e indícios de autoria, pois o caráter socioeducativo da medida determina sua vinculação a uma justa causa. Importante observar que tal medida poderá ser aplicada também pelo Ministério Público, antes de ser instaurado o procedimento apuratório, acompanhado do beneficio da remissão, e no curso da instrução do procedimento ou na sentença final, pela autoridade judiciária.109
106LIMA, Miguel Moacyr Alves. In: CURY, Munir. Estatuto da Criança e do Adolescente
Comentado: comentários jurídicos e sociais. 6ª ed. São Paulo: Malheiros Editores Ltda, 2003. p.
385.
107 LIBERATI, Wilson Donizeti. Comentários ao Estatuto da Criança e do Adolescente. p. 103.
108KONZEN, Afonso Armando. Pertinência Socioeducativa: Reflexões sobre a natureza jurídica das medidas. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005. p.46.
109LIMA, Miguel Moacyr Alves. In: CURY, Munir. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: comentários jurídicos e sociaisp. 390.
2.5.2 Obrigação de reparar o dano
Quando o ato infracional trouxer à vítima danos patrimoniais o ECA, por meio do artigo 116, prevê a medida socioeducativa de reparação do dano. Para tanto relaciona as formas em que o adolescente poderá reparar, quais sejam: a restituição da coisa, o ressarcimento do dano, ou, por outra forma, compense o prejuízo da vítima.110
É fundamental que o responsável pela reparação deva ser o adolescente, pois o objetivo da medida é:
[...] é fazer com que o adolescente infrator se sinta responsável pelo ato que cometeu e intensifique os cuidados necessários, para não causar prejuízo a outrem. Por isto, há entendimento de que essa medida tem caráter personalíssimo e intransferível, devendo o adolescente ser o responsável exclusivo pela reparação do dano. 111
Entretanto, alerta Wilson Donizeti Liberati que o dispositivo deve ser interpretado em consonância com os art. 3°, 4°, 180 , 186 e 932 do Código Civil Brasileiro112, pelos quais se o adolescente contar com menos de dezesseis anos a responsabilidade caberá aos pais, responsáveis, curadores ou tutores. Caso já tenha completado 16 anos ou mais a responsabilidade caberia solidariamente entre o adolescente e seus pais ou responsáveis.113
Porém, a reparação do dano correr às custas dos pais ou responsáveis seria autorizar ao adolescente a prática de atos infracionais com reflexos no patrimônio da vítima sem que nenhuma conseqüência pedagógica lhe adviesse,
110 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 19/08/2009.
111 LIBERATI, Wilson Donizeti. Adolescente e ato infracional: Medida sócio-educativa é pena? p.
105.
112Art. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I - os menores de dezesseis anos. Art. 4o São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. Art. 180. O menor, entre dezesseis e dezoito anos, não pode, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade se dolosamente a ocultou quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior. Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia.
113 LIBERATI, Wilson Donizeti. Adolescente e ato infracional: Medida sócio-educativa é pena? p.
105.
sendo neste sentido o posicionamento de João Batista Costa Saraiva:
Há que se divergir daqueles que supõem que tal medida permita aos pais do adolescente a reparação do dano. Por certo essa obrigação resulta da lei civil. Enquanto medida sócio-educativa, o objetivo é que o próprio adolescente seja capaz de tanto, seja pela devolução da coisa, seja por sua capacidade de compensar a vítima por ação sua, compatível com a idade.114
Assim, caso o adolescente manifeste impossibilidade de cumprir a medida de reparar o dano, deve a medida ser substituída por outra adequada, como o próprio ECA estabelece em seu parágrafo único do art. 116115, uma vez que “caracteriza-se como uma medida coercitiva e educativa, levando o adolescente a reconhecer o erro e repará-lo”116, para desta forma conscientizar o adolescente da responsabilidade para com seus atos.
2.5.3 Prestação de serviços à comunidade
A medida socioeducativa de prestação de serviços à comunidade, segundo dispõe o artigo 117 do ECA, caracteriza-se “na realização de tarefas gratuitas de interesse geral, por período não excedente a seis meses, junto a entidades assistenciais, hospitais, escolas e outros estabelecimentos congêneres, bem como em programas comunitários ou governamentais”.117
Ainda, estabelece o ECA que para aplicação da medida as tarefas serão atribuídas conforme as aptidões do adolescente e devem ser cumpridas durante jornada máxima de oito horas semanais, aos sábados, domingos e feriados ou em dias úteis, de modo a não prejudicar a freqüência à escola ou à jornada normal de trabalho.118
114 SARAIVA, João Batista Costa. Compêndio de direito penal juvenil: adolescente e ato infracional. p. 158.
115 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 19/08/2009.
116 SPOSATO, Karyna Batista. O Direito penal juvenil. p.120.
117 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 19/08/2009.
118 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 19/08/2009.
A respeito da medida Karyna Batista Sposato afirma:
Percebe-se que essa medida possui um forte apelo comunitário e educativo tanto para o jovem infrator quanto para a comunidade, que por sua vez poderá responsabilizar-se pelo desenvolvimento integral desse adolescente. Se bem executada, a medida proporciona ao jovem a experiência da vida comunitária, de valores sociais e compromisso social, de modo que possa descobrir outras possibilidades de convivência, pertinência social e reconhecimento que não a prática de infrações.119
Torna-se fundamental para a efetivação desta medida o envolvimento da comunidade, seja por intermédio de órgãos governamentais, clubes de serviços, entidades sociais e outros. O importante é que para a medida atingir o seu fim, recomenda-se o uso de um programa que estabeleça parcerias com órgãos públicos e organizações não-governamentais e, ainda, deve haver o acompanhamento do adolescente pelo órgão executor com o apoio da entidade onde o adolescente esta cumprindo a medida. 120
A medida de prestação de serviços à comunidade orienta ao adolescente a tomada de consciência de valores com um forte conteúdo pedagógico, como assim enfatiza Roberto Bergalli:
A submissão de um adolescente à prestação de serviços à comunidade tem um sentido altamente educativo, particularmente orientado a obrigar o adolescente a tomar consciência dos valores que supõem a solidariedade social praticada em níveis mais expressivos. Assistir aos desvalidos, aos enfermos, aos educandos (atividades que devem ser prestadas em entidades assistenciais, hospitais, escolas e outros estabelecimentos congêneres) é tarefa que impõe a confrontação com o alter coletivo, de modo que possa demonstrar-se uma confiança recíproca que, por sua vez, está presente em todos os códigos de ética comunitária como herança de decálogos religiosos.121
Ressalta-se, também, que o trabalho a ser realizado pelo adolescente seja promotor da condição de sua cidadania e que não o exponha a situações vexatórias ou humilhantes. Assim, tão importante quanto preparar o adolescente para este tipo de atividade, “será a preparação e a qualificação do órgão onde o
119 SPOSATO, Karyna Batista. O Direito penal juvenil. p.121.
120 VOLPI, Mario. O adolescente e o ato Infracional. p.24.
121 BERGALLI, Roberto. In: CURY, Munir. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado:
comentários jurídicos e sociais. 6ª ed. São Paulo: Malheiros Editores Ltda, 2003. p. 399.
serviço será prestado, de modo que tal tarefa redunde em um processo de crescimento e aprendizado, significando um lugar de reconhecimento”.122
2.5.4 Liberdade Assistida
Segundo dispõe o ECA, em seu art. 118, a medida de liberdade assistida, consiste na designação, pelo magistrado, de pessoa capacitada para acompanhar o adolescente em sua rotina diária na família, na escola e na sociedade em geral.
A medida será fixada pelo prazo mínimo de seis meses e pode a qualquer tempo ser prorrogada, revogada ou substituída por outra medida.123
Apesar do caráter coercitivo da medida de liberdade assistida, prima-se pela manutenção dos vínculos sociais e comunitários pelo adolescente, e consequentemente pela manutenção de sua liberdade. Pretende-se com o acompanhamento da vida e realidade do adolescente impedir a reincidência do ato infracional e assim chegar a sua reeducação.124
A liberdade assistida é uma medida imposta judicialmente, e de cumprimento obrigatório pelo adolescente, como assim explica Wilson Donizeti Liberati:
A medida sócio-educativa de liberdade assistida é uma das alternativas que tem a autoridade à privação de liberdade e à institucionalização do infrator. É, no entanto, uma medida que impõe obrigações ao adolescente, de forma coercitiva, ou seja, o jovem está obrigado a se comportar de acordo com a ordem judicial.125
Para que a medida de liberdade assistida se concretize, prevê o ECA, no art. 119, a figura do orientador, que com o apoio e a supervisão da autoridade competente tem como obrigações:
122SARAIVA, João Batista Costa. Compêndio de direito penal juvenil: adolescente e ato infracional. p. 159.
123 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 21/08/2009.
124 SPOSATO, Karyna Batista. O Direito penal juvenil. p.122.
125 LIBERATI, Wilson Donizeti. Adolescente e ato infracional: Medida sócio-educativa é pena? p.
109.
I – promover socialmente o adolescente e sua família, fornecendo-lhes orientação e inserindo-os, se necessário, em programa oficial ou comunitário de auxílio e assistência social;
II – Supervisionar a freqüência e o aproveitamento escolar do adolescente, promovendo, inclusive, sua matrícula;
III – diligenciar no sentido da profissionalização do adolescente e de sua inserção no mercado de trabalho;
IV – apresentar relatório do caso.126
Entretanto, ao arrolar as hipóteses de orientação, não quis o legislador limitá-las a apenas estas, desta forma o rol das atividades de acompanhamento apresentam o mínimo a ser seguido pelo orientador, pois não há como se arrolar exaustivamente hipóteses relativas a fatos da vida, dadas as infinitas variações que podem ocorrer.127
Ao orientador cabe supervisionar, acompanhar e também fiscalizar a medida, sendo que deve avaliar o adolescente e comunicar ao juízo competente seu relatório, para que este possa prorrogar, substituir ou extinguir a medida. O orientador poderá ser um assistente social, psicólogo ou um educador, no qual deve fazer parte do programa de liberdade assistida indicado ao adolescente.
Atualmente existem dois tipos de programas de liberdade assistida, os desenvolvidos por instituições governamentais, municipais ou estaduais, e os efetivados por organizações não-governamentais comunitárias ou religiosas.128
O sucesso da medida de liberdade assistida, assim como as demais medidas em meio aberto, depende que seja montada uma estrutura de profissionais capacitados e comprometidos, que acompanhem o adolescente e sua família. Importante que o orientador, após o estudo do caso, elabore um plano individual de atendimento socioeducativo debatido com o adolescente, e desperte nele o senso de responsabilidade ao programa, sendo “indispensável a criação de vínculos entre o técnico, o adolescente e familiares, para criar condições de desenvolvimento de uma relação honesta e produtiva”. 129
126 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 21/08/2009.
127 FREITAS, Ana Maria Gonçalves. In: CURY, Munir. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: comentários jurídicos e sociais. 6ª ed. São Paulo: Malheiros Editores Ltda, 2003. p.
405.
128 SPOSATO, Karyna Batista. O Direito penal juvenil. p.124.
129 FREITAS, Ana Maria Gonçalves. In: CURY, Munir. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: comentários jurídicos e sociais. p. 405.
2.5.5 Semiliberdade
A medida socioeducativa de semiliberdade, conforme prevista no art. 120 do ECA, pode ser determinada desde o início ou como forma de transição para o meio aberto, podendo o adolescente, entretanto, realizar atividades externas, independente de autorização judicial. Durante sua execução são obrigatórias a escolarização e a profissionalização e, sempre que possível, utilizar os recursos existentes na comunidade. A medida não possui prazo determinado e aplica-se as disposições referentes à internação.130
A medida de semiliberdade é uma medida restritiva de liberdade, assim como a internação, mas menos severa. Nas palavras de Wilson Donizeti Liberati:
Por semiliberdade como regime e política de atendimento, entende-se aquela medida socioeducativa destinada a adolescentes infratores que trabalham e estudam durante o dia e à noite recolhem-se a uma entidade especializada.131
A semiliberdade constitui uma medida intermediária entre o meio aberto e a internação, pois “caracteriza-se pela privação parcial da liberdade do adolescente, considerado autor de ato infracional”132, na qual o adolescente tem privada, ainda que parcialmente, suas liberdade de ir e vir e é submetido à institucionalização.
A institucionalização deve ser algo excepcional, como adverte Alessandro Baratta:
[...], a institucionalização, quer na forma da internação, quer naquela de semiliberdade, deve ser considerada uma resposta em tudo excepcional, mesmo no caso de graves infrações do adolescente, e normal deve ser considerada, em todos os casos, a aplicação de outras medidas sócio-educativas, e, principalmente, de proteção, aptas a favorecer a integração social do adolescente infrator e a compensação de gravíssimos déficitis econômicos e de atenção familiar e social, dos quais ela é
130 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm >. Acesso em 24/08/2009.
131 LIBERATI, Wilson Donizeti. Comentários ao Estatuto da Criança e do Adolescente. p.110.
132LIBERATI, Wilson Donizeti. Adolescente e ato infracional: Medida sócio-educativa é pena? p.
112.
normalmente vítima, [...].133
Alerta também o autor que, sendo a semiliberdade uma medida que implica a institucionalização, assim como a internação, requer para a sua aplicabilidade ao adolescente que existam plenas garantias formais em relação à apuração da infração e à igualdade do adolescente na relação processual.134
Importante salientar a necessidade de escolarização e profissionalização que impõe a medida de semiliberdade, sendo que para tanto se utilize recursos da comunidade, a fim de promover a inclusão do adolescente à sociedade.
Todavia, fundamental elucidar que à semiliberdade se aplicam as normas e princípios que regulam a medida socioeducativa de internação, esta que será objeto do próximo capítulo.