2.2 SALÁRIO
2.2.3 Meios de pagamento do salário
A CLT prevê o pagamento dos salários mediante dinheiro ou utilidades. Nos termos do artigo 463201, do referido diploma legal, em regra, o pagamento em dinheiro deve ser realizado em moeda nacional, cuja inobservância acarreta na desconsideração do pagamento. O pagamento da prestação de serviço ocorrida no exterior permite o pagamento em moeda estrangeira, de modo que a conversão obedecerá à taxa de câmbio da data de contratação. 202
Denota-se que o pagamento deverá ser feito em dia útil e no local de trabalho, dentro do horário de serviço ou imediatamente após o encerramento deste, mediante recibo, como estabelecem os artigos 465203 e 464204, da CLT. 205
No entanto, é legalmente permitido o depósito do salário em conta bancária individual, de acordo com o disposto no parágrafo único, do artigo 464206, da CLT, desde que atendidas três condições: 1) que haja consentimento do empregado para a abertura da conta bancária; 2) que a conta seja individual, aberta em nome do
200 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do Trabalho. p. 211
201 CLT, Art. 463 – A prestação, em espécie, do salário será paga em moeda corrente do País.
Parágrafo Único. O pagamento do salário realizado com inobservância deste artigo considera-se como não feito.
202 GOMES, Orlando; GOTTSCHALK. Curso de Direito do Trabalho. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p. 279
203 CLT, Art. 465 – O pagamento dos salários será efetuado em dia útil e no local do trabalho, dentro do horário do serviço ou imediatamente após o encerramento deste, salvo quando efetuado por depósito em conta bancária, observado o disposto no artigo anterior.
204 CLT, Art. 464 - O pagamento do salário deverá ser efetuado contra recibo, assinado pelo empregado; em se tratando de analfabeto, mediante sua impressão digital, ou, não sendo esta possível, a seu rogo.
205 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Manual de Direito do Trabalho. p. 224
206 CLT, Art. 464 – [...]
Parágrafo único. Terá força de recibo o comprovante de depósito em conta bancária, aberta para esse fim em nome de cada empregado, com o consentimento deste, em estabelecimento de crédito próximo ao local de trabalho.
empregado para esse fim; e 3) que a instituição bancária seja próxima ao local de trabalho. 207
O segundo meio de pagamento consiste no chamado salário-utilidade ou salário in natura. Cabe mencionar que utilidade é tudo aquilo que não representa dinheiro, pecúnia, como, por exemplo, comida, combustível, casa, carro e plano de saúde. No entanto, não há que se confundir utilidade com salário-utilidade. Para conferir natureza salarial à uma utilidade fornecida pelo empregador é necessária que seja concedida habitualmente, de forma gratuita e provida como contraprestação pelos serviços prestados (e não para a realização dos serviços). 208
O artigo 458, da CLT, permite o pagamento do salário em utilidades, e elenca o rol exemplificativo daquelas que integram o salário: 209
CLT, Art. 458 - Além do pagamento em dinheiro, compreende-se no salário, para todos os efeitos legais, a alimentação, habitação, vestuário ou outras prestações "in natura" que a empresa, por força do contrato ou do costume, fornecer habitualmente ao empregado.
Em caso algum será permitido o pagamento com bebidas alcoólicas ou drogas nocivas.
Destaca-se que a caracterização do salário-utilidade deve observar o preenchimento de alguns requisitos, como ensina Vólia Bomfim Cassar:
São requisitos concomitantes do salário-utilidade: a) a concessão de uma utilidade; b) que a utilidade seja benéfica; c) que seja concedida de forma graciosa, habitual e fornecida pelos serviços prestados; d) que não haja lei retirando a natureza salarial da parcela. 210
Cabe ressaltar que o pagamento do salário não pode ocorrer exclusivamente em utilidades. É imprescindível que pelo menos 30% do salário seja pago em dinheiro. Tal regra encontra óbice no parágrafo único do artigo 82211, da CLT, destinado ao salário mínimo, porém, também aplicável aos salários contratuais (salários acima do mínimo). 212
207 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Manual de Direito do Trabalho. p. 225
208 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. p. 771
209 ALMEIDA, Amador Paes de. CLT comentada: legislação, doutrina, jurisprudência. p. 216
210 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. p. 771
211 CLT, Art. 82 – [...]
Parágrafo único - O salário mínimo pago em dinheiro não será inferior a 30% (trinta por cento) do salário mínimo fixado para a região, zona ou subzona. Parágrafo único - O salário mínimo pago em dinheiro não será inferior a 30% (trinta por cento) do salário mínimo fixado para a região, zona ou subzona.
212 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. p. 813
Há que salientar o disposto no §2º, do artigo 458 da CLT, o qual enumera algumas utilidades em que resta afastada a natureza salarial:
CLT, Art. 458 – [...]
§ 2º Para os efeitos previstos neste artigo, não serão consideradas como salário as seguintes utilidades concedidas pelo empregador:
I – vestuários, equipamentos e outros acessórios fornecidos aos empregados e utilizados no local de trabalho, para a prestação do serviço;
II – educação, em estabelecimento de ensino próprio ou de terceiros, compreendendo os valores relativos a matrícula, mensalidade, anuidade, livros e material didático;
III – transporte destinado ao deslocamento para o trabalho e retorno, em percurso servido ou não por transporte público;
IV – assistência médica, hospitalar e odontológica, prestada diretamente ou mediante seguro-saúde;
V – seguros de vida e de acidentes pessoais;
VI – previdência privada;
A Súmula 367, do TST, por sua vez, dispõe acerca de outras utilidades in natura que não integram o salário:
TST, Súmula n. 367 - UTILIDADES "IN NATURA". HABITAÇÃO.
ENERGIA ELÉTRICA. VEÍCULO. CIGARRO. NÃO INTEGRAÇÃO AO SALÁRIO
I - A habitação, a energia elétrica e veículo fornecidos pelo empregador ao empregado, quando indispensáveis para a realização do trabalho, não têm natureza salarial, ainda que, no caso de veículo, seja ele utilizado pelo empregado também em atividades particulares.
II - O cigarro não se considera salário utilidade em face de sua nocividade à saúde.
Destaca-se, ainda, que a habitação e a alimentação fornecida pelo empregador a título de salário utilidade não podem corresponder, respectivamente, a mais de 25% e 20% do salário fixado contratualmente. 213
Destarte, a natureza salarial da utilidade fornecida será vislumbrada quando da sua concessão como forma de compensar o trabalho pelos serviços prestados.
Ocorrendo a necessidade de proporcionar o benefício para a realização dos serviços, como instrumento ou ferramenta de trabalho, não haverá a caracterização do salário in natura, e sim, mera utilidade. 214
213 SAAD, Eduardo Gabriel. Consolidação das Leis do Trabalho: comentada. 41. ed. atual., rev. e ampl. São Paulo: LTr, 2008. p. 464
214 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. p. 772