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3 DA FIXAÇÃO DE PISO SALARIAL INFERIOR AO PISO SALARIAL ESTADUAL

Como visto no capítulo anterior, o salário é a contraprestação paga e devida diretamente pelo empregador ao empregado, tendo em vista a relação de emprego existente entre ambos, ao passo que a remuneração possui um conceito mais amplo, abrangendo tanto o salário, como as gorjetas pagas por terceiros.

Nesse sentido, dentre o universo da remuneração, verificou-se a existência do piso salarial, correspondente ao valor mínimo a ser pago à determinada categoria abrangida pelo sindicato à frente da negociação coletiva. Nesse enfoque, observa-se que a previsão do piso salarial se dá mediante negociação coletiva, formalizada através de acordo ou convenção coletiva de trabalho, ou através de sentença em dissídio coletivo.

Todavia, existe uma autorização excepcional, advinda de norma constitucional, que permite aos Estados e Distrito Federal a fixação do piso salarial previsto no inciso V, do artigo 7º, da Constituição Federal312. Trata-se da figura do piso salarial estadual, do qual passa-se ao estudo, para, então, adentrar no objetivo buscado no presente trabalho, qual seja, a verificação da possibilidade da negociação coletiva instituir piso salarial inferior ao previsto em lei estadual.

Constituição, e pelo qual os Estados perdem sua soberania a partir do ingresso, preservando, porém, uma autonomia política limitada. 313

O federalismo possui, como um de seus elementos essenciais e caracterizadores, a repartição de competências. Diante da inexistência de hierarquia entre os entes federativos, e como meio de garantia da autonomia dos mesmos, a Constituição Federal consagra uma divisão de competências. 314

Nas palavras de Uadi Lammêgo Bulos:

Repartição ou divisão de competências é a técnica pela qual o constituinte distribui, com base na natureza e no tipo histórico de federação, os encargos de cada unidade federada, preservando-lhes a autonomia política no âmbito do Estado Federal. 315

Nesse campo, surge uma orientação geral para se proceder com a estruturação da repartição de competências. Trata-se do princípio da predominância do interesse, cujo objetivo é nortear a referida repartição, baseando-se na natureza do interesse incumbido a cada entidade política. 316

No Brasil, a concretização do mencionado princípio se dá, sucintamente, da seguinte forma: à União cabe tratar de matérias mais amplas, cujo interesse é geral ou nacional; aos Estados-membros competem os temas de interesse regional; aos Municípios competem os assuntos de interesses restritos, ou seja, os interesses locais; e, por fim, cabe ao Distrito Federal a temática de interesse regional e local. 317

A repartição de competências, em matéria legislativa, confere à União poderes para legislar acerca dos objetos dispostos nos 29 incisos do artigo 22, da Constituição Federal, restando evidenciada certa supremacia em relação aos demais entes federativos, tendo em vista a relevância das matérias. A referida competência é privativa da União, o que significa dizer que pode ser delegada aos Estados. 318

Neste contexto, cabe salientar a distinção entre a competência privativa e competência exclusiva. André Ramos Tavares diferencia:

313 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada e legislação constitucional. 7. ed.São Paulo: Atlas, 2007. p. 599

314 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p.

1093

315 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 757

316 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de Direito Constitucional. p. 757

317 ALMEIDA, Fernanda Dias Menezes. Competências na Constituição de 1988. 3. ed. São Paulo:

Atlas, 2005. p. 74

318 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 22. ed. São Paulo: Atlas, 2007. p. 291

Designa-se privativa a competência passível de delegação. Quando vedada esta possibilidade, a competência é exclusiva. A dogmática constitucional brasileira em vigor, contudo, advirta-se, não segue essa proposta doutrinária. No art. 22, caput e parágrafo único, encontra-se empregado o termo no sentido apontado pela doutrina clássica. Já no art. 52 (que anuncia estabelecer uma competência privativa do Senado Federal), a idéia presente, na realidade, consoante a doutrina clássica, seria a de competência exclusiva, pois não pode haver delegação. 319

Tem-se, portanto, que a principal diferença entre as competências exclusiva e privativa incide no fato da segunda ser delegável aos Estados-membros, enquanto a primeira não admite delegação. 320

A figura da delegação encontra óbice no parágrafo único do artigo 22, da Constituição Federal, possibilitando a atribuição das matérias constantes nos incisos do mencionado artigo aos Estados-membros, conforme se verifica:

CRFB/88, Art. 22 - Compete privativamente à União legislar sobre:

[...]

Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo.

Por intermédio da delegação, o ente político, titular da competência legislativa privativa, transfere, total ou parcialmente, certa parcela de poder à outra entidade federativa. Desta forma, pode-se dizer que a competência privativa é uma competência delegada. 321

A possibilidade de delegação somente prospera se observado o preenchimento de três requisitos: formal, material e implícito. O requisito formal condiciona a delegação via lei complementar; pelo requisito material somente pode ser delegado um ponto específico de uma matéria existente entre os incisos do artigo 22, da Constituição Federal; por fim, o requisito implícito determina que a Lei Complementar deverá delegar certo ponto de sua competência a todos os Estados, sob pena de ferimento do princípio da igualdade federativa. 322

Dentre os incisos dispostos no artigo 22, da Constituição Federal, compete à União legislar privativamente sobre Direito do Trabalho, de modo em que o

319 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p.

1096

320 ALMEIDA, Fernanda Dias Menezes. Competências na Constituição de 1988. p. 79

321 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de Direito Constitucional. p. 760

322 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 22. ed. São Paulo: Atlas, 2007. p. 294

parágrafo único do mesmo preceito legal prevê a delegação de competência, mediante Lei Complementar, autorizando os Estados a legislar sobre pontos específicos do Direito do Trabalho, destacando-se, para o estudo da presente temática, o piso salarial. 323

A criação do salário mínimo no Brasil ocorreu na década de 30, através do Decreto-lei n. 388/30, sendo fixado por comissões paritárias, das quais faziam parte empregados e empregadores, presididas por técnicos em assuntos socioeconômicos. 324

A primeira lei a versar sobre o salário mínimo foi a Lei n. 185325, de 14 de janeiro de 1936. A fixação dos primeiros valores referentes ao salário mínimo se deu pelo Decreto-lei n. 2.162326, de 01 de maio de 1940. Seu valor atingia a média de 240 mil réis, no entanto, a divisão do país em regiões e sub-regiões acabou por fixar quantias diferentes de salário mínimo. 327

Em 1984, mediante o Decreto n. 89.589328, deu-se a unificação do salário mínimo no país. Em 1988, com o advento da Constituição Federal, houve a previsão do salário mínimo no artigo 7º, IV, in verbis:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

[...]

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe

323 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

2011

324 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do Trabalho. 25. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 302

325 BRASIL. Lei n. 185, de 14 de janeiro de 1936. Institui as comissões de salário mínimo. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 jan. 1936. Disponível em <

http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=21191>. Acesso em: 18 out. 2011

326 BRASIL. Decreto-lei n. 2.162, de 01 de maio de 1940. Institui o salário mínimo e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 04 mai. 1940. Disponível em <

http://www2.camara.gov.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-2162-1-maio-1940-412194- publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 18 out. 2011

327 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

2011

328 BRASIL. Decreto n. 89.589, de 26 de abril de 1984. Fixa novo salário-mínimo para todo o território nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 27 abr. 1984. Disponível em <

http://www2.camara.gov.br/legin/fed/decret/1980-1987/decreto-89589-26-abril-1984-440055- publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 18 out. 2011

preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;

Nesse norte, é certo que o salário mínimo possui algumas características próprias: é devido a todo trabalhador; deve ser fixado em lei; é nacionalmente unificado; deve ter reajustes periódicos; e é vedada sua vinculação para qualquer fim. 329

O salário mínimo acarreta impacto direto nas contas públicas, notadamente no tocante a Previdência Social, despesas com seguro-desemprego, bem como em gastos com a Assistência Social. Entretanto, é a Previdência Social que concentra maior debate político e econômico, observado que o valor do salário mínimo é o menor a ser pago aos benefícios previdenciários, nos termos do §2º, do artigo 201, da Constituição Federal: 330

Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a:

[...]

§ 2º Nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o rendimento do trabalho do segurado terá valor mensal inferior ao salário mínimo.

Diante dos impactos diretos do aumento do salário mínimo nas contas da Previdência Social, verificava-se, no ano de 2000, que para cada real acrescido, os gastos do Governo Federal aumentavam em R$ 200 milhões. Aproximadamente, 75% deste total era impulsionado pela Previdência Social, uma vez que perto de 65% dos benefícios são pagos no valor de um salário mínimo, correspondendo a 35% dos valores totais dos benefícios. 331

Como forma de reduzir a pressão por aumento do salário mínimo, o Governo Federal levou ao Congresso Nacional projeto de lei complementar para autorizar os estados a instituírem pisos salariais, regulamentando o inciso V, do artigo 7º da

329 CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. 33. ed. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 138

330 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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331 BRASIL. Ministério da Fazenda. Salário mínimo no Brasil: evolução histórica e impactos sobre o mercado de trabalho e as contas públicas. Disponível em

<http://www.fazenda.gov.br/portugues/salariominimo/salario_evolucao.asp> Brasília: 2000. Acesso em 18 out. 2011

Constituição Federal. Surge, neste cenário, a figura do piso salarial estadual, prevista na Lei Complementar n. 103332, de 14 de julho de 2000. 333

Em meio às críticas que apontavam certo conservadorismo nos reajustes do valor pertinente ao salário mínimo, o Poder Executivo Federal encontrou uma solução para dividir a pressão pela majoração do salário mínimo, vindo a criar o piso salarial estadual. 334

Para tanto, duas barreiras constitucionais precisaram ser enfrentadas. A primeira diz respeito ao salário mínimo, pois este, nos termos do artigo 7º, IV, da Constituição Federal, é o menor valor a ser pago aos trabalhadores. A segunda incide na incompetência dos estados para legislar em matéria de Direito do Trabalho, competindo privativamente à União, conforme disposição do artigo 22, I, da Constituição Federal. 335

O primeiro obstáculo se mostrava insuperável. Em 1984, a legislação ordinária havia unificado o valor do salário mínimo, com o intuito de evitar qualquer discriminação, por exemplo, no sentido de ocorrer movimentação das empresas para as regiões com salários inferiores, ou migração dos trabalhadores para os locais em que o valor do salário mínimo era maior. No mesmo sentido, a Constituição Federal, em seu artigo 7º, IV, previu expressamente a unificação nacional do salário mínimo. 336

332 BRASIL. Lei Complementar n. 103, de 14 de julho de 2000. Autoriza os Estados e o Distrito Federal a instituir o piso salarial a que se refere o inciso V do art. 7o da Constituição Federal, por aplicação do disposto no parágrafo único do seu art. 22. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 jul.

2000. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp103.htm>. Acesso em: 18 out.

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333 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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334 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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335 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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336 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

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Nessa linha, qualquer proposta de criação de salário mínimo fixado pelos estados, com base no inciso IV, do artigo 7º, da Constituição Federal, restaria inconstitucional, como assevera Sérgio Pinto Martins: “Seria inconstitucional a Lei Complementar nº 103 se legislasse sobre salário mínimo, que é nacionalmente unificado.” 337 Buscou-se, portanto, a regulamentação no inciso V do referido artigo, cuja previsão de piso salarial não restringe seu âmbito de abrangência, conforme se verifica:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

[...]

V - piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho;

Ademais, cumpre ressaltar a transcrição de parte do Projeto de Lei Complementar n. 113, de 2000, convertido na Lei Complementar n. 103, de 2000:

Deve-se notar que a delegação aos Estados e ao Distrito Federal para instituir pisos salariais diferenciados não interfere na competência para fixação do salário mínimo unificado de que trata o inciso IV do art. 7º da Carta Magna, que continua a ter a sua regência fixada em lei federal. O que se propõe, com base no disposto no art. 7º, V, da Constituição, é que seja fixado um piso salarial de cada unidade da Federação para os empregados que não tenham piso salarial instituído por lei federal, convenção ou acordo coletivo de trabalho. 338

O piso salarial, segundo conceito admitido por muito tempo pela doutrina, seria aquele oriundo das negociações coletivas entre as categorias econômicas e profissionais, fixado mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho, cujo valor corresponde à importância mínima a ser paga aos integrantes das categorias abrangidas pelos respectivos instrumentos. 339

337 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do Trabalho. 25. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 305

338 BRASIL. Projeto de Lei Complementar n. 113, de 2000. Autoriza os Estados e o Distrito Federal a instituir o piso salarial a que se refere o art. 7º, inciso V, da Constituição Federal, por aplicação do disposto no seu art. 22, parágrafo único. Data de apresentação: 24 mar. 2000. Disponível em:

<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=25752> Acesso em: 17 out. 2011

339 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

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A Constituição Federal, ao prever o piso salarial em seu artigo 7º, V, atendeu a natureza coletiva adotada doutrinariamente, caso em que seu valor não seria fixado em lei, mas teria origem nas negociações coletivas de trabalho. 340

Ocorre que, quando da criação da Lei Complementar n. 103, de 14 de julho de 2000, houve o surgimento de um novo conceito de piso salarial, como sendo aquele fixado pelos estados para alcançar certas categorias profissionais. 341

Nesse viés, é certo que não há inconstitucionalidade na Lei Complementar n.

103/2000, bem como nas leis estaduais por ela autorizadas, posto que regulamentam o piso salarial, sobre o qual não há exigência de unificação nacional, nos termos do artigo 7º, V, da Constituição Federal. 342

O segundo obstáculo implicava na competência privativa da União em legislar sobre matéria de Direito do Trabalho, disposição inserta no artigo 22, inciso I, da Constituição Federal. No entanto, a solução encontrava previsão no próprio artigo 22, cujo parágrafo único estabelece:

CRFB/88, Art. 22 - Compete privativamente à União legislar sobre:

I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho;

[...]

Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo.

Como já mencionado, para que se possa proceder com a delegação, alguns requisitos devem ser observados. Ainda que não exista possibilidade de delegar competência aos Estados para legislar genericamente acerca do Direito do Trabalho, há a possibilidade de conferir competência para legislar sobre matérias

340 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

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341 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

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342 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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específicas, respeitada a criação de lei complementar.343 Nesse sentido, vale ressaltar o trecho do Projeto de Lei Complementar n. 113:

[...] Trata-se de competência legislativa da União a ser delegada nos termos do parágrafo único do art. 22 da Constituição Federal. Essa delegação legislativa destina-se a autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias compreendidas como competência legislativa privativa da União. [...] A faculdade de delegar competências legislativas, atribuída ao legislador, deve ser exercida dentro dos limites impostos pelo texto constitucional. Em primeiro lugar, a autorização deve ser realizada por lei complementar. Em segundo, a autorização deve tratar apenas de questões específicas. Entende-se que a presente proposta obedece nitidamente a esses dois pressupostos. 344

Assim, dá-se o surgimento da Lei Complementar n. 103, de 14 de julho de 2000, cuja ementa “Autoriza os Estados e o Distrito Federal a instituir o piso salarial a que se refere o inciso V do art. 7º da Constituição Federal, por aplicação do disposto no parágrafo único do seu art. 22”.

Consoante a referida norma legal, através de lei de iniciativa do Poder Executivo, os Estados e o Distrito Federal ficam autorizados a instituir piso salarial aos empregados que não observam piso salarial fixado em lei federal, convenção ou acordo coletivo de trabalho. 345

Trata-se da preservação do incentivo à negociação coletiva, vislumbrada no artigo 7º, inciso XXVI346, da Constituição Federal. Assim, é necessário verificar a existência de instrumento normativo sobre certa categoria, da qual pertence o empregado, pois, em caso negativo, haverá a incidência do piso salarial estadual. 347

343 ALMEIDA, Fernanda Dias Menezes. Competências na Constituição de 1988. p. 108

344 BRASIL. Projeto de Lei Complementar n. 113, de 2000. Autoriza os Estados e o Distrito Federal a instituir o piso salarial a que se refere o art. 7º, inciso V, da Constituição Federal, por aplicação do disposto no seu art. 22, parágrafo único. Data de apresentação: 24 mar. 2000. Disponível em:

<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=25752> Acesso em: 17 out. 2011

345 Lei Complementar n. 103/2000, Art. 1º - Os Estados e o Distrito Federal ficam autorizados a instituir, mediante lei de iniciativa do Poder Executivo, o piso salarial de que trata o inciso V do art.

7o da Constituição Federal para os empregados que não tenham piso salarial definido em lei federal, convenção ou acordo coletivo de trabalho.

346 Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

[...]

XXVI - reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho;

347 KÜMMEL, Marcelo Barroso. Piso Salarial Estadual: Constitucionalidade e Obrigatoriedade.

Disponível em: < http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1766> Acesso em: 17 out.

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O exercício do direito conferido pela lei deve observar algumas regras, como ressaltado por Luciano Martinez:

Anote-se que, nos termos do §1º do art. 1º da precitada Lei Complementar n. 103/2000, a autorização para a instituição de piso salarial proporcional à extensão e à complexidade não poderá ser exercida: a) no segundo semestre do ano em que se verificar eleição para os cargos de governados dos Estados e do Distrito Federal e deputados estaduais e distritais; b) nem em relação à remuneração de servidores públicos municipais. 348

A primeira limitação encontra justificativa na medida em que a fixação de piso salarial em vésperas de eleições poderia ser entendida como um fator estratégico para captação de votos. A segunda limitação por sua vez, encontra óbice no artigo 37, X349, da Constituição federal, cabendo à Câmara de Vereadores a instituição dos vencimentos de seus servidores públicos, através de lei municipal. 350

Frisa-se, ainda, que há autorização para que o piso salarial estadual possa ser estendido aos empregados domésticos, conforme preceitua o §2º, do artigo 1º, da Lei Complementar n. 103/2000. 351

Há, assim, o nascimento do piso salarial estadual, nomenclatura que se diferencia dos valores fixados a título de piso salarial mediante negociação coletiva.

Do mesmo modo, sendo os Estados detentores da competência para instituir tal figura, através de lei de iniciativa do Poder Executivo, não há como utilizar a qualificação de piso salarial regional. Por fim, a denominação de salário mínimo regional encontra-se totalmente equivocada, embora seja comumente utilizada, pois,

348 MARTINEZ, Luciano. Curso de Direito do Trabalho: relações individuais, sindicais e coletivas do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 350

349 Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade,

moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

[...]

X - a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4º do art. 39 somente poderão ser fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices;

350 MARTINEZ, Luciano. Curso de Direito do Trabalho: relações individuais, sindicais e coletivas do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 350

351 Lei Complementar n. 103/2000, Art. 1º - Os Estados e o Distrito Federal ficam autorizados a instituir, mediante lei de iniciativa do Poder Executivo, o piso salarial de que trata o inciso V do art.

7o da Constituição Federal para os empregados que não tenham piso salarial definido em lei federal, convenção ou acordo coletivo de trabalho.

[...]

§ 2o O piso salarial a que se refere o caput poderá ser estendido aos empregados domésticos.

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