interações e por modos de organizar os textos de modo a conceber a linguagem como prática sociocultural.
Halliday (1976, p. 136) assim aborda a metafunção ideacional:
A linguagem serve para a manifestação de “conteúdo”: isto é, da experiência que o falante tem do mundo real, inclusive do mundo interior de sua própria consciência. Podemos denominar este aspecto de função ideacional, embora ele possa ser facilmente entendido tanto em termos conceituais como em termos comportamentais (Firth, 1968: 91). Ao desempenhar tal função, a linguagem também estrutura a experiência e ajuda a determinar nossa maneira de ver as coisas, de modo que exige algum esforço intelectual vê-las de outra maneira que não aquela que nossa linguagem nos sugere.
A metafunção ideacional ou experiencial, portanto, é relacionada à variável do contexto de situação campo, na medida em que opera com o sistema de transitividade, no qual a oração assume papel central. Por meio dessa metafunção, é possível mapear, nos diversos gêneros textuais, processos oracionais subjacentes à interação.
Por exemplo, no contexto de situação de venda de um produto é comum que haja a representação oracional por intermédio de verbos como “vender”, “comprar”
ou “alugar” (vende-se uma máquina; aluga-se uma máquina); em contextos de situação em que se deve gratidão, geralmente o verbo mais frequente é “agradecer”
(agradeço a presença de todos). A metafunção ideacional, desse modo, é condicionada pelos processos verbais e seus recorrentes significados léxico- gramaticais.
Halliday (1976, p. 146-150) foi um dos primeiros linguistas funcionalistas a assinalar o caráter processual da transitividade oracional. Seu estudo sobre as
“orações de ação” (por exemplo, em torno de verbos como “fazer”), “orações de processos mentais” (em torno de verbos como “pensar”) e “orações de relações” (em torno de verbos como “ser” e “parecer”) tornou-se referência nas investigações sobre transitividade.
Nesses estudos, orações elencadas por Halliday (1976, p. 146-150), como
“ela apreciou o presente” e “o presente foi apreciado por ela”, foram cotejadas por meio de processos de proeminência, em que um item da cadeia sintagmática recebe foco de informação (no caso da passiva) pelo fato de haver uma mudança considerável na composição regencial do verbo “apreciar”, cuja transitividade foi afetada pela preposição “por”. Segundo o linguista, é possível manter o foco no participante “ela”, tanto na posição inicial da oração quanto na posição final.
Halliday (1976, p. 136-137) aborda da seguinte forma a metafunção interpessoal:
A linguagem serve para estabelecer e manter relações sociais: para a expressão de papéis sociais, que incluem os papéis comunicativos criados pela própria linguagem – por exemplo: os papéis de perguntador ou respondente, que assumimos ao fazer uma pergunta ou respondê-la; e também para conseguir que coisas sejam feitas, por via de interação entre uma pessoa e outra. Através desta função, que podemos chamar interpessoal, os grupos sociais são delimitados e o individual é identificado e reforçado, pois a linguagem, além de capacitá-lo a interagir com as outras pessoas, serve também para a manifestação e desenvolvimento de sua própria personalidade.
Na metafunção interpessoal a variável de contexto de situação mobilizada é a das relações, já que o falante/escritor pode participar de modo ativo ou passivo ao ato da interação verbal. Nessa metafunção, cumpre destacar, conforme salienta Halliday (1976, p. 154), que “a própria linguagem define os papéis que as pessoas podem assumir”.
Sendo assim, na metafunção interpessoal há menção aos conteúdos proposicionais (CABRAL; FUZER, 2014, p. 105) da oração, que é vista como troca de informações. A proposição, na GSF, “é algo sobre o que se pode argumentar, seja negando-a, afirmando-a, colocando-a em dúvida etc.” (CABRAL; FUZER, 2014, p. 105) e, de certo modo, a proposição molda os papéis sociais dos interlocutores na troca de informações.
Por exemplo, a interação entre um chefe e um empregado é mediada por trocas mais ou menos estáveis de perguntas e respostas. Nesse sentido, os conteúdos proposicionais moldados em forma de perguntas tendem a ser geralmente elaborados pelo participante20 chefe, que direciona suas perguntas ao participante empregado, cuja papel social é responder às indagações do seu superior.
Pela proposta da metafunção interpessoal, é incomum que um empregado faça perguntas ao seu superior, já que aquele, socialmente falando, é subordinado a este. No entanto, a troca de informações proposicionais entre ambos permite que um empregado tire dúvidas (sobretudo, em relação a dúvidas que possam comprometer a correta execução de uma tarefa) com o chefe. No geral, essas
20 Na GSF, a designação “participante” refere-se aos sujeitos ativos ou afetados pelo processo da transitividade verbal.
dúvidas não corresponderiam a situações sociais como o atraso do chefe ou outras insatisfações que afetam a hierarquia social nas interações diárias.
Halliday (1976, p. 137) elege o texto para a manifestação dessas relações interpessoais. Segundo ele, é por meio do texto que a linguagem é habilitada aos usos linguísticos:
Por fim, cumpre à linguagem possibilitar o estabelecimento de vínculos com ela própria e com as características da situação em que é usada. Podemos chamar a este aspecto função textual, pois é a que capacita o falante e o escritor a construir “textos”, ou passagens encadeadas de discurso que sejam situacionalmente apropriadas; outrossim, ela capacita o ouvinte ou o leitor a distinguir um texto de um conjunto aleatório de orações. Um aspecto da função textual é estabelecer, num discurso, relações coesivas entre uma oração e outra.
Ainda segundo Halliday (1976, p. 155), “a unidade básica da linguagem manifestada não é uma palavra ou uma oração, mas um „texto‟”. Nesse âmbito, a metafunção textual constitui-se como função habilitadora, já que mobiliza o modo como as mensagens serão habilitadas a funcionar como texto (como gênero textual concreto).
Conforme explica o mentor da GSF, não importa para a organização da mensagem a extensão dos itens léxico-gramaticais (há orações de uma única palavra, por exemplo, que são textos). A relevância dessa teorização recai justamente sobre o fator da textualidade implicado na organização das mensagens em contextos reais de uso da linguagem.
Na metafunção textual, localiza-se, ainda, uma velha discussão acerca da
“estrutura de informação” (HALLIDAY, 1976, p. 157). O linguista britânico faz uma distinção entre tema (estrutura de tópico) e rema (estrutura de comentário). O tema, dentro da unidade textual, está “associado com o „dado‟”, e o rema, “com o novo”.
De acordo com essa perspectiva, um texto é uma mensagem em que o sistema de organização – a léxico-gramática – opera com informações dadas ou velhas, ao passo que progride por meio de informações em constante atualização, as chamadas estruturas novas.
Para a GSF, o texto passa a ser visto como uma unidade em que os elementos do sistema são responsáveis pelo encadeamento de informações de tema e de rema. De modo geral, encontram-se integradas à metafunção textual as
outras metafunções, já que está no texto a maior unidade de significação para Halliday (1976), o potencial de significado da língua.
Conforme sintetizam Cabral e Fuzer (2014, p. 32),
metafunções são as manifestações, no sistema linguístico, dos propósitos que estão subjacentes a todos os usos da língua: compreender o meio (ideacional), relacionar-se com os outros (interpessoal) e organizar a informação (textual). (...)
As três metafunções da linguagem definem a oração como uma unidade gramatical plurifuncional: é organizada de acordo com os significados ideacionais, interpessoais e textuais (estrato semântico), em que a oração é vista como uma composição – oração como representação, oração como interação e oração como mensagem (…).
As metafunções são mapeáveis na segmentação textual e contribuem para a interpretação do todo linguístico. Diferentemente, de outras abordagens funcionalistas (em que um texto tende a fazer transparecer apenas uma função), na teoria sistêmica há manifestação das três metafunções, o que confere a esse modelo teórico maior capacidade genérica para lidar com os diversos textos que circulam na sociedade.
Como se verá a seguir, há uma distinção básica entre a oração (a unidade com potencial de significado analítico para a GSF21) e o complexo oracional (concebido pela sua organização em pares oracionais). O que não se pode perder de vista na teoria da GSF é que a oração não é tratada apenas com um modelo formal de análise; antes disso, a oração é abordada na sua constituição léxico- gramatical que afeta, por conseguinte, o todo significativo de um texto.
A oração não é estudada apenas em torno da predicação verbal. Como ela é o conjunto realizável das três metafunções, seu escopo sistemático permite que cada constituinte – no dizer de Halliday, grupo – assuma uma função no âmbito maior do texto. Neste trabalho, o estudo das orações circunscreve-se a este projeto maior: formar o complexo oracional, que é, na verdade, uma estrutura complexa em que convergem orações para a articulação do texto.
21 Diferentemente da perspectiva estruturalista/formalista, que enxergava ora no morfema ora no fonema as menores estruturas indivisíveis, a GSF estuda o potencial de articulação de orações para formar textos. Nesse sentido, os trabalhos de Halliday (1976; 1982; 2014) concentram seus esforços descritivos na oração.