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573. Metodologia: a narrativa escolhida e os
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58fig. 6 narrativa em quadrinhos – Peanuts Theme.
É de conhecimento comum que existem diferentes formas de se registrar uma narrativa; esta pode se apresentar na mo- dalidade escrita, oral, sinalizada, ou ainda, através de imagens, de representações cênicas e visuais etc. a sua interpretação na língua de Sinais, portanto, é ainda mais “flexível”, uma vez que as trocas de papéis acontecem através das posições do corpo e suas orientações, somadas às direções do olhar e posições e di- reções da cabeça do sinalizador, sobretudo em discursos diretos, em que as mudanças realizadas pelo narrador evidenciam os diferentes personagens da história. uma segunda possibilidade envolve o discurso indireto, em que o narrador não assume os papéis dos personagens e pode se valer dos mecanismos dêitico- anafóricos como forma de coesão entre os eventos da história.
desse modo, quem sinaliza traz para o espaço de sinalização aquilo que está sendo visto, faz descrições e elabora em outra dimensão as informações que deseja destacar.
apresentamos uma análise da construção textual em língua de Sinais Brasileira, de quatro surdos, oriundos de três estados brasileiros, São paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
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59Esses perfis não são explorados neste trabalho, mas podem servir para futuros pesquisadores, fundamentalmente, aos da área da Sociolinguística.
os participantes recontaram a história de maneira restrita e individual. a eles foi entregue uma ficha onde a história estava anexada (conforme fig. 6), e solicitado que a contassem, a partir do seu ponto de vista, sem qualquer intervenção da parte das pesquisadoras ou de outros surdos. passado o momento de observação, o participante iniciou a interpretação sinalizada da narrativa, a qual foi gravada em vídeo.
consideramos não apenas a maneira de seleção dos ele- mentos linguísticos na manifestação verbal, mas, também, as experiências socioculturais manifestadas na organização do texto sinalizado pelos surdos. todavia, este trabalho não se estende o quanto desejaríamos nesses aspectos, uma vez que pretendemos deixar para uma outra oportunidade análises mais profundas.
Incluímos algumas versões, traduzidas a partir da sinali- zação dos sujeitos da pesquisa por profissionais tradutores e Intérpretes de língua de Sinais Brasileira, gravadas em áudio e transcritas, com o objetivo de evidenciarmos as estratégias discursivas de ordenação dos eventos, os mecanismos de coesão textual em cada uma das línguas, ou seja, na libras e na língua portuguesa do Brasil. Importante evidenciar que os profissionais não tiveram acesso à narrativa em quadrinhos.
3.1. As interpretações e referidas análises
antes de iniciarmos as análises torna-se importante destacar que além dos sinais manuais, constituídos de movimentos,
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60pelas configurações de mãos, direcionalidade e pontos de arti- culação, também o corpo é elemento explorado na produção dos enunciados, portanto, na interpretação da narrativa que se segue. de acordo com Meir et al (2008):
o corpo também pode representar um corpo humano e todos os seus vários órgãos: a boca, olhos, orelha... apontar para um órgão específico pode ter a função de referir-se àquele órgão.
Realmente, os sinais para olhos, nariz, boca, coração, braços e outros órgãos do corpo são frequentemente sinais dêiticos, que apontam para o órgão em questão. os sinais referentes às ações praticadas em vários órgãos do corpo podem ser modulados para expressar a parte do corpo específica envolvida no evento.
o sinalizador pode usar seu corpo para indicar onde no corpo ele/ela foi atingido em um evento. (grifo nosso p.93)
no encadeamento das cenas a seguir podemos observar as maneiras como o corpo, ou parte dele, são utilizados, de acordo com o ponto de vista de cada sinalizante.
a primeira cena do quadrinho apresenta a personagem, localizada no espaço e no tempo (não o cronológico; mas pistas podem revelar o período do dia, a duração dos eventos etc).
as descrições do lugar e do evento inicial, que inclui um dia de neve, frio, em que uma menina brinca de fazer bolinhas de neve, são apresentadas por todos os informantes de maneiras diversas.
ao introduzir a personagem/referente podemos observar que os dois primeiros participantes sinalizarão a marcação morfológica de gênero, feminino, e expressam na face que
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61aquela é uma menina, portanto, uma criança. o seguinte faz a apresentação desta da mesma forma, porém o sinal manual para menina é formado pelas duas configurações de mãos (ver c1a e c1b). o quarto participante evidencia a simultaneidade das línguas de Sinais ao indicar a menina com as cMs padrão para o item lexical, em que as duas mãos constituem o sinal para MEnIna.
cena 1
a1 B1
c1a c1b
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62São possíveis algumas traduções para a língua portuguesa em que destacamos o(s) referente(s) introduzido(s) na cena, conforme recortes do quadro a seguir:
a1 tinha uma menina que estava brincando [...]
uma menina, em num dia de muito frio e de muita neve, resolve brincar [...]
B1 num dia completamente frio onde a neve realmente caía e uma menina estava caminhando... até que viu aquela neve [...]
c1a e c1b uma menininha naturalmente brincando com as bolas de neve [...]
d1 uma menina num dia de neve, muito frio, resolve brin- car com a neve [...]
observamos a introdução da história apresentada pelo narrador, portanto, o corpo dos sinalizantes não faz parte do enredo como personagem. Essa situação também se reflete nas traduções, em que o referente de terceira pessoa aparece pela primeira vez por meio do discurso indireto dos sinalizantes/
narradores.
nas cenas seguintes, os participantes assumem o papel da personagem, incorporam-na e passam a “atuar” na história;
temos uma situação muito comum em narrativas sinalizadas.
de acordo com cuxac (1985; 2000 apud pizzuto et. al, 2008), nessa situação
d1
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63 cenas 2 e 3a2 e a3 B2 e B3
c2 e c3 d2 e d3
o sinalizante “se transforma” na entidade a que ele se refere ao reproduzir, em seu enunciado, uma ou mais ações realizadas pela entidade. Em geral, as entidades a que os sinalizantes se referem são seres humanos ou animais, mas também podem ser seres inanimados.(p. 144)
Vejamos:
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64nesse caso, portanto, há “transferência de pessoa”, ou seja, uma situação em que existe um papel (agente ou paciente) e um processo, tratada comumente como “tomada de papéis”,
“troca de papéis”, em que o corpo do sinalizante é emprestado ao personagem e se transforma na menina que faz a bolinha de neve. Essa estratégia discursiva é natural da gramática das línguas de Sinais, em que o corpo não é apenas um lugar de articulação dos sinais.
Vejamos agora que outro referente aparece na história, a bolinha de neve, e é constituída, ou seja, ganha forma, exa- tamente da mesma maneira que a menina faz nos quadrinhos;
logo, a bola permanece em cena ao mesmo tempo em que as expressões e direções de olhar revelam os desejos da menina e o que ela observa enquanto prepara o seu artefato. percebemos como é difícil uma tradução que dê conta de todos os detalhes que são vistos e das ações interpretadas pelos sinalizantes, porém, é perfeitamente aceitável, uma vez que os sinais não-manuais e as ações simultâneas parecem quase impossíveis de serem traduzidas1.
passamos ao quadro que apresenta as retomadas anafóricas dos referentes. deixamos entre colchetes as elipses, ou seja, informação recuperável no texto em que o termo anafórico não está realizado lexicalmente; e em destaque está o referente que foi reintroduzido.
1 Mas não queremos avaliar essas questões, apenas adotamos essa configuração no trabalho para que também leitores não fluentes e que não conheçam as línguas de Sinais possam compreender nossas análises.
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65cenas 4 e 5
a4 e a5
a2/a3 [ela ou a menina] sentiu vontade de estar brincan- do e [ela] fez uma bolinha apertou [a bolinha] de vários modos [...]
[ela] faz uma bola de neve e [a bola] precisa ficar bem compacta
B2/B3 [...] e até que [ela] viu aquela neve [ela] observou e [ela] começou a apertar fazendo uma bolinha [...] [ela] juntou uma bola de neve e [...]
[ela] brincava fazendo bolinha de neve, c2/c3 [...] brincando com as bolas de neve
d2/d3 [ela] resolve brincar com a neve, faz uma bolinha
a quarta e quinta cenas apontam as mudanças de estado da menina enquanto um novo personagem aparece.
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66claramente temos em a4/a5 um segundo referente que surge, fundamentalmente, pela marcação do gênero, da direção do olhar e direção da cabeça para o lado direito; o personagem é identificado pela configuração de mão de uma pessoa que se aproxima, situação verificada através do movimento da cabeça, que se desloca com a direção do olhar que acompanha o menino.
contudo, a sinalizante demarca que a ação anterior continua acontecendo, portanto, simultaneamente ao aparecimento do segundo personagem. Igualmente à cena do quadrinho, a menina continua a brincar com a bolinha, disfarçadamente.
Já em B4/B5 há somente sinais não-manuais que identificam
B4 e B5
c4 e c5
d4 e d5
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67a presença de algo novo; a cabeça se desloca da direita para a esquerda e a direção do olhar, juntamente às expressões da face, revela a aproximação do menino e surpresa, portanto, à presença de outro personagem na cena. os sinalizantes seguintes optam pelos mesmos mecanismos; permanecem com o sinal manual da bolinha de neve enquanto introduzem o outro referente na história, identificado como uma pessoa, pela cM em destaque.
as traduções dessa cena tomam novos formatos agora:
a4/a52 [...] se aproximou um homem e quando ela viu ele: – la la la... ou seja, fingiu-se completamente de indiscreta, que não estava com aquela bolinha
[...] e ela vê um homem vindo e disfarça com a bola na mão; ele não percebe nada
B4/B5 [...] e aproximou alguém e ela: - la la la... e [ela] fingiu para que esta pessoa não visse que ela estava mexendo com a bolinha
c4/c5 [...] ia passando uma pessoa, quando, de repente
d4/d5 [...] vem uma pessoa, então ela disfarçadamente esconde a bolinha
as sequências seguintes são perfeitamente reproduzidas em língua de Sinais; percebemos que as cenas são transportadas para o espaço de sinalização onde, essencialmente, sinais classi- ficadores e icônicos descrevem o evento. Interessante observar a permanência do referente a bolinha nas mãos, e posteriormente
2 aqui mantivemos o registro um homem, considerando que estamos tratando sobretudo de interpretação, algo aparentemente livre, e não da tarefa do tradutor e intérprete de lS. tencionamos destacar os mecanismos de intro- dução do referente na narrativa, portanto, as estratégias dêitico-anafóricas, entre outras, possíveis na coesão do texto.
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68em apenas uma delas, na do sinalizante em D, ao descrever a trajetória de queda da bola de neve.
cuxac (1985; 2000 apud pizzuto et al, 2008) distingue, ainda, uma outra possibilidade de classificação das estruturas encontradas a seguir, as “transferências de forma e tamanho”, as quais podem descrever pessoas ou objetos, de acordo com a sua forma e seu tamanho através das chamadas “proformas” (tam- bém conhecidas como classificadores). porém, essa definição considera que a iconicidade desses sinais tem papel importante e formal na constituição da gramática da língua, ou seja, os classificadores consideram sobretudo os componentes manuais, enquanto que as “proformas” incluem o papel do comporta- mento do olhar em suas especificações. desse modo, as cenas interpretadas incluem descrição do objeto (a bolinha de neve), desde o início da sua introdução na narrativa; o olhar define a sua forma e se dirige às mãos que compõem a sua estrutura que é detalhada através das expressões faciais do sinalizante.
cenas 6, 7, 8, 9 e 10
a 6, 7, 8, 9, e 10
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69c 6, 7, 8, 9 e 10 B 6, 7, 8, 9 e 10
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70a 6, 7, 8, 9 e 10 [...] e [ela] queria atirar a mesma longe [...] a bola não tinha força e caiu bem pertinho
[...] [ela] disfarça com a bola na mão... ele não percebe nada e ela mira pra tocar e a bola cai no lugar errado
B 6, 7, 8, 9 e 10 [...] e [a bola] cai e ela fica com raiva
[...] [ela] juntou, atirou ... [a bola]caiu super perto c 6, 7, 8, 9 e 10 [...] ela: - ah! Vou pegar essa bola de neve e jogar
[...] - Mas o que aconteceu? A bola se desfez antes de chegar nele
d 6, 7, , 9 e 10 [...] mas quando ela vai jogar a bolinha ela [a boli- nha] ... derrete e cai no chão e ela pensou...
nos eventos descritos, que compreendem as cenas de seis a dez, fica evidente que o mecanismo de coesão utilizado des- creve o movimento do objeto através da mão dominante do
d 6, 7, 8, 9 e 10
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71sinalizante, que percorre a trajetória da bolinha, a qual parte de um ponto estável, portanto, da mão não-dominante. Essa descrição é acompanhada pelas retomadas anafóricas através do olhar dos sinalizantes, que se dirigem à mão ativa; as expressões da face revelam o comportamento do agente, portanto, da me- nina. Essa outra maneira de ilustrar o discurso é denominada de “transferência de situação” em que
a mão dominante expressa o agente e o processo [...], enquanto a mão não-dominante expressa o locativo e o objeto implicado na relação locativa [...]. a expressão facial é congruente com o processo representado. (cuXac 1985; 2000 apud pIZZuto et al, 2008, p.145)
passamos às situações finais da história, em que nos de- paramos com diferentes maneiras de interpretação entre os participantes, porém, altamente interessantes, uma vez que as línguas de Sinais, mesmo que possuam padrões de sinalização e descrição dos eventos, de objetos ou de pessoas, parecem um tanto flexíveis nesses aspectos. podemos observar essa “flexibi- lidade” em situações nas quais é necessário representar o corpo humano (ou de animais, de maneira geral), parte dele, ações praticadas através dele e seus demais movimentos. as partes do corpo localizadas abaixo da cintura raramente funcionam como locais para a articulação de sinais. portanto, as ações praticadas pelas pernas e pés do sujeito, normalmente, não são articuladas por estes membros e podem ser representados pelos braços e mãos. usualmente, em línguas de Sinais, os dedos indicador e médio representam as duas pernas. nesses casos o corpo não faz parte da estrutura fonológica do sinal; as características do
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72sujeito são representadas pela configuração de mão, a qual re- vela que o sujeito da situação possui pernas. assim, ações que expressam ficar em pé, levantar-se, pular, cair, sentar-se, andar, são representadas através dessa cM, podendo ter como apoio a mão passiva em .
para as cenas 11 e 12, portanto, os sinalizantes puderam escolher a melhor forma de descrevê-las, de modo a encadear o enredo. o corpo dos participantes a 11, B e d foi utilizado para fazer a representação do evento; nesse caso, foi a forma mais próxima da ação real utilizada para ilustrar as cenas. Em a 12, c 11e 12, porém, assumem o papel de narrador e des- crevem o evento através dos sinais manuais e não-manuais para representar a queda do menino.
para elas temos as seguintes possibilidades de tradução, nas quais identificamos as operações de coesão textual:
cenas 11 e 12
a 11 e 12
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73B 11 e 12
c 11 e 12
d 11 e 12
a 11/a12 [...] [ela] acabou dando um chute [...] ela sai correndo
B 11/B12 [...] [ela] deu um chute
[...] ela fica com raiva e [ela] chuta c 11/c12 [...] correndo [ela] foi lá e chutou d 11/d12 [...] e ela pensou: - Vou correndo ate lá e
concluímos, portanto, que para identificar o referente menina, e fazer as suas retomadas anafóricas, os sinalizantes
f
74permanecem com o recurso de “transferência de pessoa”. Em seguida, o segundo personagem é recuperado pelo sinal manual, ou melhor, na “proforma”, que identifica a ação sofrida por ele;
as expressões não-manuais se alternam para identificar o estado da menina e do menino na conclusão do episódio.