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4. JUNHO DE 2013

5.1 Metodologia

leva em conta a publicidade dos dados analisados. Por isso, optou-se por analisar somente posts públicos de páginas públicas, ou seja, que se encontram disponíveis para qualquer pessoa que acessar o endereço das páginas, mesmo tendo sido publicados em uma rede social on-line privada.

As possibilidades temáticas de estudos no campo da internet são inúmeras (FRAGOSO, RECUERO & AMARAL, 2012) e, consequentemente, são variadas as ferramentas e métodos de análise utilizados para cada objeto de estudo. Os métodos variam de análise de conteúdo, análise de redes sociais, teoria fundamentada, etnografia virtual, entre muitas outras.

Para este trabalho, optou-se por fazer uma análise qualitativa dos posts publicados (durante as manifestações), apropriando-se das técnicas da análise de conteúdo. A pesquisa qualitativa segundo Flick (2009) busca descrever e entender fenômenos sociais por meio de diversas abordagens, como a investigação de experiências entre indivíduos e grupos, a análise de interações e comunicações e também a investigação de documentos (textos, imagens, vídeos) de experiências e interações.

Essas abordagens têm em comum o fato de buscarem esmiuçar a forma como as pessoas constroem o mundo à sua volta, o que estão fazendo ou que está lhes acontecendo em termos que tenham sentido e que ofereçam uma visão rica. As interações e os documentos são considerados como formas de constituir, de forma conjunta (ou conflituosa), processos e artefatos sociais. Todas essas abordagens representam formas de sentido, as quais podem ser reconstruídas e analisadas com diferentes métodos qualitativos que permitam ao pesquisador desenvolver modelos, tipologias, teorias (mais ou menos generalizáveis) como forma de descrever e explicar as questões sociais (e psicológicas) (FLICK, 2009, p. 9).

Uma das características apontadas por Flick sobre a pesquisa qualitativa é que ela parte da ideia de que “método e teoria devem ser aplicados àquilo que se estuda” (FLICK, 2009, p. 9). Segundo o autor, se os métodos existentes não se ajustam a necessidade da pesquisa eles devem ser adaptados ou, então, devem-se criar novos métodos e abordagens. E é sob esse entendimento que propomos desenvolver essa pesquisa. A análise de conteúdo em sua forma tradicional é um dos métodos de pesquisas disponíveis no qual documentos são transformados em “textos”55 para serem interpretados (CHIZZOTTI, 2006). Essa análise consiste na aplicação de regras sistemáticas por meio das quais os pesquisadores podem extrair dos conteúdos analisados significados importantes para a sua pesquisa. “Consiste em relacionar a frequência da citação de alguns temas, palavras ou ideias em um texto para medir

55 Aspas do autor (CHIZZOTTI, 2006).

o peso relativo atribuído a um determinado assunto pelo seu autor” (CHIZZOTTI, 2006, p.114). Nesse sentido, o autor reforça:

Pressupõe, portanto, que um texto que contém sentidos e significados, patentes ou ocultos, que podem ser apreendidos por um leitor que interpreta a mensagem contida nele por meio de técnicas sistemáticas apropriadas. A mensagem pode ser apreendida, decompondo-se o conteúdo do documento em fragmentos mais simples, que revelem sutilezas contidas em um texto. Os fragmentos podem ser palavras, termos ou frases significativas de uma mensagem (CHIZZOTTI, 2006, p.115).

A análise de conteúdo clássica, como nos afirma Bauer (2004) é uma técnica que ajuda a “produzir inferências de um texto para o contexto social, de maneira objetivada” (BAUER, 2004, p. 191). Dessa forma, a interpretação do conteúdo segue em direção ao referencial teórico e o objeto de pesquisa do pesquisador ou pesquisadora. “Através da reconstrução de representações, os analistas de conteúdo inferem a expressão dos contextos, e o apelo através desses contextos (BAUER, 2004, p.192) ”. A análise de conteúdo pode ser quantificável e, algumas vezes, implica em uma análise estatística ao tentar estabelecer uma frequência de palavras, temas ou ideia em um conteúdo (CHIZZOTTI, 2006).

Os textos mais utilizados para análise de conteúdo tradicional podem ser livros, jornais, revistas, artigos, cartazes de publicidade, relatos, entrevistas entre outros (CHIZZOTTI, 2006, p. 114). Nesse sentido, Bauer (2004) destaca que esses conteúdos podem nos dizer muito sobre os pensamentos, sentimentos e discussões das pessoas em determinado momento.

O autor nos lembra que análise de conteúdo trabalha tradicionalmente com materiais escritos, mas um procedimento semelhante pode ser aplicado a imagens ou sons. Nesse sentido, cabe aqui ressaltarmos como a análise de conteúdo será feita neste trabalho.

A análise de conteúdo é um método que vem ganhando espaço na análise de discursos56 produzidos em ambientes on-line (LINDGREN & LUNDSTROM, 2011 apud RECUERO, ZAGO & BASTOS, 2014) e, atualmente, muitas pesquisas feitas em redes sociais on-line têm utilizado a técnica para interpretar dados coletados na internet (PERINI &

PEREIRA, 2014; PEREIRA, 2015; RECUERO, ZAGO & BASTOS, 2014; GOMES &

56No texto “O Discurso dos #ProtestosBR: análise de conteúdo do Twitter”, Recuero, Zago e Bastos (2014) entendem o termo “discurso” como uma forma de representação e reprodução ideológica, que compreende “o domínio geral de todas as afirmações, algumas vezes como um grupo individualizado de afirmações, outras vezes, como uma prática regulada que reflete um número de afirmações” (Recuero, Zago e Bastos, 2014, p. 201 apud FOUCAULT, 1999, p. 80).

LONDERO, 2014; RECUERO, ZAGO, 2010). No entanto, é preciso fazer algumas considerações sobre o uso dessa técnica neste trabalho.

A linguagem da web é construída de hipertextos57, que reúnem, além de textos, imagens, vídeos e links numa mesma unidade de análise (FRAGOSO, RECUERO &

AMARAL 2012). Dessa forma, restringir a análise dos posts somente aos textos publicados poderia trazer um grande risco para a pesquisadora em não entender o contexto e interpretar de forma equivocada os acontecimentos durante o período da análise. Os posts publicados, muitas vezes, continham imagens – que variavam entre fotografias, cartazes ou memes com temas relacionados às manifestações – e links, que direcionavam a outras redes sociais, principalmente para vídeos disponibilizados no YouTube.

Dessa forma, optou-se aqui por considerar que links, imagens e vídeos fazem parte do texto e que, por isso, devem ser interpretados dentro das unidades de análise em que estão inseridos. Assim, ao analisarmos os posts, levamos em consideração as imagens e links disponíveis em cada unidade, levando em conta que eles completam o conteúdo da mensagem. Além disso, os memes possuem características importantes que devem ser levadas em conta na nossa análise58, uma vez que pelo seu caráter viral eles conseguem popularizar de forma rápida e simples o conteúdo de uma mensagem. As hashtags também são elementos importantes nas redes sociais, uma vez que elas muitas vezes não são utilizadas apenas para cumprir seu objetivo inicial, que é indexar informações, e passa a expressar desejos e vontades dos indivíduos. Como veremos, as hashtags aqui serviram para reunir informações das páginas (como foi o caso do #BHnasRuas), mas também foram importantes para mobilizar as pessoas por meio dos quadros de ação pessoal (como foi o caso do

#vempraruabh).

57 De acordo com a definição de Lévy (1996) o hipertexto é constituído de nós, que são os elementos de informação como parágrafos, páginas, imagens entre outros e as formas de ligação entre esses nós, como referências, notas, indicadores, botões que efetuam a passagem de um nó para outro. Por se estruturar em rede, o hipertexto se opõe ao texto linear.

58De acordo com o site Museu de Memes, a ideia do termo meme tem sua origem na década de 1970 a partir do trabalho do etólogo Richard Dawkins, que criou o termo para designar uma unidade de replicação que fosse responsável por transmitir os conteúdos culturais. O termo foi alvo de críticas e atualizações ao longo dos anos e, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, memes começam a se difundir nas redes sociais online e se propagar viralmente, tomando a forma como conhecemos hoje. Os memes se tornaram uma das formas de representar elementos da cultura popular na internet. Hoje, memes são um fenômeno típico da internet, e podem se apresentar como imagens legendadas, vídeos virais ou expressões difundidas pelas mídias sociais. Próprios do universo das comunidades virtuais, eles são geralmente compreendidos como conteúdos efêmeros, vulgarmente encarados como “besteirol” passageiro ou “cultura inútil”, fruto de sua utilização da linguagem do humor (MUSEU DE MEMES, 2015). Eles se caracterizam por construir de forma compartilhada significados da cultura. Ele vai ganhando contexto de acordo com o olhar sobre o conjunto. Fonte:

<http://www.museudememes.com.br/o-que-sao-memes/>. Acesso em 30 jun. 2015.