2.4 O observável a olho nu
2.4.1 Modo-tarefeiro
Num primeiro momento, parecia que no IPEG, diferentemente do Hospital-Templo onde Das Dores se sentia demasiadamente tutelada pelos colegas de trabalho, haveria maior liberdade de ação. Foi confiada a Maria e a Teodora Egina a gestão do Internato Novo. As
duas tentaram, com insistência, inventar um trabalho possível e potente ali, fazendo uma gestão compartilhada do espaço.
Entretanto, com pouco tempo de trabalho, Maria das Dores se viu refém de tarefas a serem realizadas em regime de urgência e com pouco espaço de manobra para a criação.
Todas as ideias novas eram logo jogadas para escanteio, esquecidas; como, por exemplo, o insight que Maria teve de que as cuidadoras precisavam de formação para o trabalho ganhar algum sentido para elas mesmas, que se sentiam “meras limpadoras de bundas” ou
“mucamas”, como diziam. Nunca conseguiu levar adiante esta ideia, pelo menos não formalmente, embora seu discurso fosse sempre permeado por isso nas conversas e reuniões.
Seria uma ilusão toda aquela liberdade de ação? Em que medida um acúmulo de funções pode ser – além de uma economia para a instituição contratante – um modo de funcionamento extremamente tutelar?
Maria percebia que o cargo de “supervisor” recebia este nome ingrato porque se tratava mesmo do sentido estrito do termo: havia uma convocação por uma SUPERvisão, um olhar SOBRE o trabalho dos cuidadores, e não um cuidado COM o trabalho. E Maria constatava, infeliz, que seu papel ali seria mais próximo ao de um “chefe”, de um “patrão”, lugar que a colocava, de saída, numa relação conflituosa com a equipe que deveria gerir e acompanhar: os cuidadores. Cabia ao supervisor fazer a escala de trabalho dos cuidadores, dar-lhes faltas e advertências e demití-los, quando necessário.
Contudo, não termina aí a lista de tarefas cobradas do supervisor de cada moradia.
Este deveria também:
Fazer todas as trocas da escala solicitadas pelos cuidadores (e eram muitas!);
Atender telefonemas de trabalho para resolver os problemas que surgissem a qualquer hora do dia, ainda que fosse um dia de não-trabalho (bela invenção, o dispositivo celular, não?!);
Fazer reunião semanal com as cuidadoras;
Nos casos em que houvesse demissão de cuidador, realizar processo seletivo para contratação de outro (também era o supervisor quem o fazia, junto ao coordenador técnico do PIS);
Participar da reunião semanal com a diretora e a coordenadora técnica do Polo de Integração social e os supervisores de cada moradia;
Fazer autorização por escrito para qualquer retirada de dinheiro dos moradores do cofre do hospital pelas cuidadoras;
Fazer a prestação de contas em folha timbrada, somando nota por nota, verificando os gastos e o troco sempre que uma cuidadora saísse com um morador, fizesse compras etc;
Fazer contatos com os CAPS de referência dos moradores para agendar consultas, atendimentos e atividades diversas;
Participar de todas as reuniões e grupos de trabalho nos quais se discutissem os casos que iriam para as RTs (e eram muitas, porque foi um período fértil no que tange à abertura de RTs!);
Ler e escrever nos prontuários, apropriar-se dos casos para poder falar sobre eles nas reuniões e grupos de trabalho (apesar disso, a discussão nessas reuniões acabava por girar apenas em torno do território geográfico do paciente, como contará Maria num trecho do diário de campo mais à frente);
Fazer levantamento da situação de cada morador, verificando se recebia algum benefício financeiro e, nos casos negativos, dando entrada no pedido de benefício;
Dar entrada no Riocard Especial para cada morador poder ter gratuidade no transporte público;
Fazer solicitação por escrito para conserto de qualquer coisa que desse defeito no Internato, tipo válvula da descarga, cadeado do armário de fulano etc.;
Responder ofícios do Ministério Público;
Ir à Tutoria Pública receber pagamento dos moradores curatelados pela tutoria;
Fazer contato com os familiares etc, etc, etc.
Quando Maria das Dores pediu demissão, durante o mês de aviso prévio sentou-se, algumas vezes, no computador da sala da equipe técnica para deixar, por escrito, a quem a viesse substituir, as funções que lhe seriam atribuídas. Uma colega, vendo isso, riu e disse: “É um pergaminho, né?! Acho mais fácil você escrever o que ela NÃO vai precisar fazer”.
Assim, os supervisores faziam papel de assistente social, administrador, auditor, contador e patrão, para dizer o mínimo.
Me sinto a própria instituição total15. Ela se encarna em mim quando me demanda um fazer-total. Então eu preciso dar conta de todas as esferas da vida dos cuidadores e dos cuidados prestados? E quem dá conta de mim? Sinto-me absolutamente
15 O conceito de Instituição Total foi cunhado pelo sociólogo canadense Erving Goffman. Ele o define como
“um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente
administrada” (GOFFMAN, 1961, p.11).
afastada da minha ética, das minhas apostas de cuidado. Estou exausta do volume de trabalho que me delegam, me sinto engulida pelos afazeres. Que saco! Eu não quero ser uma administradora na saúde mental. Estou morta. Morta em vida, como todos aqueles corpos mutilados, atrofiados, silenciados que deambulam de um lado ao outro naquele imenso pavilhão, que insiste em existir. Quero apagar do meu corpo a instituição que me habita, que faz cola em mim.
(Diário de Campo 21/01/2013)
O diário de Maria dá pistas da força do hospício, de como seus vetores podem se encarnar nas pessoas e nas práticas, colocando sua engrenagem manicomial a movimentar-se.
Não só Maria se sentia uma coextensão do manicômio; para todos os funcionários, esta temática se fazia presente, como aconteceu, por exemplo, numa reunião em que as cuidadoras contaram dos muitos sonhos que tinham com o IPEG, sonhos que as colocavam de volta naquele lugar, mesmo quando estavam em casa. Das Dores ficava se perguntando:
O que é isto que insiste em aparecer para nós, que aparece nos nossos sonhos, como um fantasma? (Diário de Campo 21/01/2013)
Novamente o conceito de Instituição da Análise Institucional Francesa subsidia análises a que eventualmente se está pouco afeito. Falando de seu companheiro, também socioanalista, Georges Lapassade, Lourau (1993, p. 29) evoca a “descoberta” (ou invenção) disso que se presentifica em todos:
Georges Lapassade fez aparecer o que, de alguma forma, estava escondido [...]. Ele reintroduziu uma coisa que estava fora dos grupos enquanto fora do campo de análise de grupo. E essa ‘coisa’ era a instituição – que faz, cria, molda, forma e é o grupo. [...] O nosso modelo de análise de grupo se funda na compreensão de alguma coisa que é invisível e terrivelmente presente no grupo, como um espectro; isto é, a instituição.
Não somente nas muitas tarefas realizadas a instituição se faz presente. Inúmeras capturas pelo instituído foram se instalando nas práticas do hospício em pauta, ainda que a proposta inicial das moradias tenha sido de ruptura e resistência. A exposição, às vezes, minuciosa, que Maria faz daquilo que viu e experimentou corre o risco de ser lida como simples denúncia. Mas apontar as capturas presentes nos dispositivos e práticas é um exercício de caráter ético-político, na medida em que se pode, com o texto, desentranhar, despessoalizar, desprivatizar a experiência e recolocá-la no plano do impessoal, do coletivo.
Maria das Dores deseja devolver as análises que vem fazendo ao campo de onde elas surgiram, ou seja, o da saúde mental. Trata-se de um trabalho de ascese que a escrita pode conduzir, como sugere Foucault (2012, p.144): “Como elemento de treinamento de si, a
escrita tem, para utilizar uma expressão que se encontra em Plutarco, uma função etopoiéitica: ela é a operadora da transformação da verdade em êthos”.
E se há algum desejo de debater as práticas, é em certo lugar de “intelectual”, na acepção foucaultiana do termo, que se quer realizá-lo:
A função de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer. Com que direito o faria? Lembrem-se de todas as profecias, promessas, injunções e programas que os intelectuais puderam formular durante os dois últimos séculos, cujos efeitos agora se veem. O trabalho de um intelectual não é moldar a vontade política dos outros; é através das análises que faz nos campos que são seus, o de interrogar novamente as evidências e os postulados, sacudir os hábitos, as maneiras de fazer e de pensar, dissipar as familiaridades aceitas, retomar a avaliação das regras e das instituições e, a partir dessa nova problematização (na qual ele desempenha seu trabalho específico de intelectual), participar da formação de uma vontade política (na qual ele tem seu papel de cidadão a desempenhar). (FOUCAULT, 2012, p.243).
Voltando ao tema do “modo tarefeiro” que se alojou nas práticas dos trabalhadores, vale acrescentar que além da tutela operada por ele, pode-se vê-lo também como efeito de uma equipe insuficientemente numerosa para o complexo trabalho de desinstitucionalização, nas condições antes descritas e condensadas nas escalas de cuidadores (vide um exemplo da escala no Anexo A).
Maria sempre sentia dores de cabeça quando montava essa escala. Não só porque não tinha nenhuma competência para mexer no Excel e porque o tamanho das letras era humanamente difícil de enxergar (não era possível aumentá-lo, pois não caberia numa folha);
mas, principalmente, porque era um árduo trabalho esse, o de inventar uma carga horária que fosse razoável para os cuidadores, sem que implicasse um esvaziamento dos turnos. O fato é que não se podia mesmo inventar muito: havia regras claras, exigência de carga horária total no mês (n° de dias úteis X 8) igual para todos, incluindo os plantões noturnos de doze horas, o que fazia com que o somatório nunca desse exatamente igual para todos. Maria sempre procurou burlar essas regras... Que o leitor guarde isso em segredo! Fazia a escala pensando mais no trabalho a ser desenvolvido do que nas normas preestabelecidas.
Se, por um lado, ainda que o cuidado com a equipe fosse relegado a segundo plano, no Hospital-templo a equipe era grandiosa e, de um modo geral, não faltava gente para acompanhar os pacientes (porque se tinha em vista o cuidado com os mesmos em primeiro lugar), no IPEG não se tinha equipe suficiente nem para cuidar da higiene daqueles dependentes moradores – efeito evidente de sua institucionalização anterior... que assim se prolongava. Isto também caracterizava um descuido com a equipe: esta não conseguia se oxigenar com os ares da cidade, com os acontecimentos da vida fora do hospício.
Certamente não é o tamanho de uma equipe que define se as práticas da mesma vão trabalhar no sentido oposto ao da institucionalização; mas algumas condições materiais mínimas são necessárias, como, por exemplo, haver gente suficiente para acompanhar as saídas. Afora o fato de não se contar com funcionários suficientes para dar conta das questões que possibilitam uma saída efetiva do manicômio (saída para uma RT, uma moradia assistida ou, ainda, o retorno à família), como dar entrada em um benefício financeiro, em um Riocard especial, comprar móveis e roupas próprias, etc? Sem supersimplificações, o tamanho da equipe, avaliado em relação às práticas de desinstitucionalização minimamente indispensáveis, continuava a ser visto de forma analítica (e, no caso, muito crítica) por Maria das Dores.
Sempre que fazíamos pedidos por mais equipe, mais pessoal, ouvíamos a resposta:
“se o hospício tiver equipe suficiente e funcionar bem, ele não deixará de existir”.
Mas que preço os ainda ‘residentes’ do hospício pagam para que ele possa vir a fechar? Continuar trancafiados? E que preço os trabalhadores pagam, se desdobrando para trabalhar? (Diário de Campo 03/03/2013)
Maria das Dores observava, a partir das entrevistas feitas e do que ela mesma encontrou, que há uma distância imensa entre o que se idealizou como um programa de moradias e o que se consegue efetivar hoje. A começar pelo fato de que muito se avançou daquele momento para cá: antes eram poucos os pacientes que recebiam benefícios; agora são muitos, chegando a lotar o cofre do hospital. Sobre isso, o relato de seu diário de campo impressiona pela clareza.
Há quem diga que fazemos mau uso do dinheiro dos pacientes, que acaba se acumulando no cofre do hospital, o que torna-se um novo problema: não ter mais espaço no cofre. Ora, mas a gente não está conseguindo ir nem na esquina com eles, que dirá comprar roupas, cama, armário, geladeira, etc. Ou pensar um projeto com esse dinheiro, fazer uma poupança, sei lá. Eles não gastam nada com moradia nem alimentação, isto o hospital fornece. Mas, qualquer uso do dinheiro precisa passar pelo supervisor da moradia, no caso eu ou Teodora Egina precisamos autorizar por escrito a liberação da grana. E depois, temos que preencher um papel de prestação de contas detalhando nota por nota o que foi comprado, qual foi o total, quanto tem de troco... Eu não me sinto, em absluto, capacitada pra isso! Estudei psicologia, se eu quisesse fazer isso estudaria contabilidade. Tem semanas inteiras que eu passo todo o meu turno de trabalho prestando contas, os cuidadores fazem até fila de espera aguardando sua vez. Me sinto tão despotencializada fazendo isso que chegou a passar por mim uma vontade de não tirar mais benefício pra ninguém. Pronto!
Ninguém vai ter dinheiro agora e a gente vai pode fazer outra coisa para além de ficar fazendo contas e pregando notas fiscais. Vamos fazer um acompanhamento terapêutico! Ah, como eu queria... A melhor parte do trabalho em saúde mental é acompanhar as movimentações dos usuários pela vida! Uma das poucas funcionárias no IPEG que não é contratada, mas servidora pública, nega-se a fazer mais do que ela é capaz e afirma categoricamente que as equipes das moradias não deveriam se prestar ao trabalho de prestação de contas. Diz que mexer com dinheiro dos outros é
de uma responsabilidade muito grande e que, se é para todos os pacientes terem benefícios, então o hospital deveria colocar uma equipe, cuja função fosse só a administração do dinheiro dos moradores. (Diário de Campo, 21/08/2012)
Antes, nem todos os pacientes frequentavam um CAPS, mas aqueles que frequentavam eram matriculados em um CAPS vizinho ao hospital. Entretanto, neste momento de maior empenho no cumprimento do princípio da Regionalização16, o cenário é diferente: há pacientes matriculados em CAPS nos mais diversos bairros da cidade.
Temos assistido a uma certa burocratização do conceito de território, creio eu.
Muitas vezes ele é usado com um sentido apenas “geográfico” e não subjetivo, existencial. Se o paciente viveu no bairro X há quarente anos atrás, quando ele foi internado, então o CAPS dele deverá ser nesse bairro. Tudo bem que algumas vezes isso faz sentido e, de fato, o paciente se vê referenciado àquele bairro, mas poucas vezes. Mais parece um jogo de empurra para ver quem topa se responsabilizar por aquele paciente. Outra vezes também ocorre do bairro ser escolhido como território do paciente porque um familiar ou um ex-vizinho mora lá. Acontece que, na maior parte das vezes, o paciente perdera os vínculos com essas pessoas durante o longo período de internação e não se conseguia um resgate apesar das nossas insistentes tentativas. Essa investida na territorialização é interessante, por um lado, pois estávamos quase produzindo um CAPS de clientela única, exclusivo para pacientes crônicos, apenas por ele se situar próximo ao hospital, o que seria uma reprodução do hospício, ou ‘minicômio’ como alguns CAPS têm sido apelidados. Por outro lado, a proximidade possibilitava maior frequência dos pacientes nas atividades, grupos, oficinas. Pois além do fato de a gente, muitas vezes, não ter cuidador suficiente para acompanhar as saídas e esses pacientes não saberem andar sozinhos depois de ano isolados da cidade, o hospital tem só um carro. Então, por exemplo, se fulano não tem beneficio, não tem dinheiro e o CAPS que ele frequenta é num bairro distante, o acesso ao CAPS fica bastante prejudicado, que dirá o acolhimento à crise.
A equipe do CAPS também não vai ao hospital visita-lo na maior parte das vezes, fazer o que a gente chama de ‘busca ativa’. Não frequentar um CAPS está absolutamente na contramão da proposta da Reforma Psiquiátrica de separar lugar de morar do lugar de se tratar, justamente o que não acontecia no hospital psiquiátrico. Quando um paciente não frequenta o CAPS a gente comete a irregularidade de pedir a receita médica à qualquer plantonista do hospital, que às vezes nem vê o paciente, fica só repetindo a receita. Isso é muito manicomial! É horrível trabalhar nessas condições, mas são os jeitinhos que a gente vai dando no dia-a-dia. E quando o paciente entra em crise sem ter um CAPS de referência, o que a gente faz? Bate lá no Polo de Internação de Agudos e pede pelo amor de deus para eles internarem. (Diário de Campo em 14/08/2012)
Quando começou o programa de moradias, praticamente não existiam RTs; hoje, o processo de abertura de RTs está mais acelerado, implicando que o supervisor se ocupe mais de reuniões e de Grupos de Trabalho para a discussão dos casos de saída.
Participei de um grupo de trabalho no qual se discutiu longamente o caso de S., sem que contudo fosse abordada qualquer temática no que diz respeito à clínica, ao modo
16 Os NAPS/CAPS são unidades de saúde locais/regionalizadas, que contam com uma população adscrita definida pelo nível local e que oferecem atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar, em um ou dois turnos de 4 horas, por equipe multiprofissional (Portaria n° 224/1992).
como ela está no mundo... S. era uma moradora que perdera a fala. Mas, alguns anos antes, uma residente de saúde mental havia passado pelo Internato Novo e, no acompanhamento a S., escutou-a dizer a palavra “lixão”. Coincidência ou não, Lixão era o nome de uma comunidade no Município de Duque de Caxias, que naquele momento tinha construído um condomínio com seis casas para receber os egressos de longa-internação de responsabilidade do município. A reunião foi toda dedicada a uma tentativa de persuasão da coordenação do Município de Duque de Caixas a se responsabilizar por S. Havia uma pressa, uma urgência e uma necessidade de se desfazer de pacientes, deturpando o conceito de território. Uma pressa também marcada pela necessidade de abrir vagas no hospital para receber os “novos moradores”. (Diário de Campo 13/08/2012)
Antes não se fechavam hospícios. Agora, muitas clínicas privadas estão sendo fechadas sob intervenção judicial e sua clientela tem sido redistribuída entre os hospitais públicos municipais.
Hoje conheci F., moradora do Internato Novo. Ela viveu trinta anos numa clínica psiquiátrica daquelas que mais parece um campo de concentração e chegara há bem pouco tempo no IPEG. Escutei-a dizer o seguinte: “Num gostei disso não, saí de um hospital e vim pra outro, eu quero uma casinha ‘preu’ morar”. (Diário de Campo, 13/05/2012)
O fenômeno da transinstitucionalização, essa passagem de um hospício a outro, ia ficando cada vez mais comum. Maria das Dores reconhece, evidentemente, a necessidade de fechar tais clínicas. Eis o que registra em seu diário a partir de visita realizada a uma delas:
Aquele lugar é um lixo, um depósito de humanos. Pacientes pelados, cagados, cocô por todo lado, privada transbordando, gente atrofiada de tanto tempo amarrada nos leitos, peles feridas de micose, escabiose e porrada, uma violência institucional absurda. Durante o breve período que estivemos lá, uma mulher segura outra com força e a isola de cara na parede. É mais um nariz que sangra em meio aos tantos fluidos humanos expostos naquele lugar. As pessoas ficam nuas em posição fetal, agachadas no chão em busca de uma ponta de sol que aqueça seu corpo e as faça sentir qualquer coisa. Uma moça me agarra pelo braço e me pede, pelo amor de Deus, para levá-la embora dali. Meus olhos enchem d’água, é um absurdo deixá-la ali! Como meu corpo aguenta? Como podemos seguir vivendo sabendo que as pessoas estão sendo tão maltratadas em lugares tão obscuros? Dói demais encontrar- se com o que a psiquiatria produziu esses anos todos e ainda produz. Pergunto à moça a sua idade, mas ela não sabe mais, chegou lá ainda criança, levada pela FUNABEM. Conheci dois pavilhões imensos que eram os pavilhões das crianças, hoje desativados. Institucionalização desde os cinco, seis, sete anos... Assustador!
Meu encontro com este hospital me fez entender que o trabalho no Internato Novo é de cuidado e não de maltrato. E que é melhor, por ex., para esta moça que pede pra ir embora, estar num Internato Novo da vida do que naquela Clínica. Mas isso não faz do Internato Novo um lugar bom pra se morar, de modo algum. É apenas menos pior. O que vem acontecendo hoje é que a cada trabalho que conseguimos fazer de produzir um mínimo de autonomia com os nossos moradores, quando a gente começa a perceber alguma melhora graças aos cuidados dirigidos a eles, aí eles vão para uma RT e nós recebemos mais pacientes de transinstitucionalização, novamente em estado deplorável. (Diário de Campo em 26/07/2012)