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Quando a moradia ganha institucionalidade

O Programa de Moradias, na modalidade “dentro do hospital”, é, de saída, um projeto arriscado: tanto pode operacionalizar uma passagem de dentro para fora dos muros como perpetuar o hospício. É também arriscado pelas irregularidades que sustenta.

Será que para operacionalizar a desinstitucionalização é preciso conviver com certas irregularidades? Não há projeto de lei ou portaria que preveja a criação de moradias dentro do hospital17, principalmente com um número de moradores que excede, e muito, o limite colocado para as RTs18. Nas moradias inseridas no contexto do hospital e, por isso, submetidas à rotina do mesmo – horário das refeições de acordo com o setor de nutrição;

lavagem de roupas numa lavanderia que, de certo modo, foi feita para não ter que separar as roupas de cada pessoa; só existindo uniformes, as roupas pessoais volta e meia não retornavam para a pessoa certa; horário de tomar a medicação etc. –, não havia, por outro lado, os serviços especializados que se esperam de um hospital, como atendimento médico, psiquiátrico, psicológico e do serviço social.

A proposta era bem radical: a de que as moradias tivessem o máximo de semelhança possível com uma RT. Desejava-se separar o lugar de morar do lugar de tratar, e isso era feito sem qualquer regulamento: o projeto fora levado à frente por puro engajamento de seus precursores. Não se trata aqui, cumpre ressaltar, de sugerir que sejamos todos legalistas e só atuemos a partir dos protocolos pré-fixados. Pelo contrário, no ponto em que se encontra a Reforma – logo ela, um movimento disparado pelos trabalhadores, anterior a qualquer publicação de lei –, é preciso que os trabalhadores se arrisquem a criar saídas criativas, que prescindam das normas em favor da vida! Ora, mas somente porque muito se avançou no campo da Reforma Psiquiátrica, deve-se paralisar a crítica?

Não é aceitável que o estado das coisas atuais nos conforte! Ainda existem muitos hospícios de pé. Fora os “pequenos hospícios” que se atualizam em serviços abertos (CAPS, RTs, etc)... Eu não quero mais ouvir a máxima “já foi muito pior” para cada crítica que faço ao funcionamento e às práticas que encontro em saúde mental. O modelo antigo NÃO é referência para mim! Qual é o sentido de usar essa frase? Para acalmar os ânimos, para arrefecer as críticas? Onde foi parar o devir-militante dos trabalhadores que radicalizaram no pontapé inicial da Reforma, arrancando grades, derrubando muros? (Diário de Campo em 04/04/2013)

Ainda que aqui se faça relativa apologia do não-legalismo, da invenção de práticas outras, do rompimento de protocolos, afirma-se igualmente que é preciso recolher os efeitos do que se produz com tais atitudes, e não “cegar-se” frente às atualidades. Até mesmo porque as engrenagens manicomiais se encarnam com facilidade nas condutas, capturando inclusive

17 De acordo com o artigo 1° da Portaria nº 3.090 de 2011, os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) devem se manter como unidades de moradia, inseridos na comunidade, devendo estar localizados fora dos limites de unidades hospitalares gerais ou especializadas, estando vinculados à rede de serviços de saúde.(Grifo Nosso).

18A Portaria nº 3.090 também define que os SRT passem a existir em duas modalidades, tipo I e tipo II, sendo a primeira com limite máximo de oito moradores, e a segunda com limite de dez moradores. (Grifo Nosso).

aquilo que presumidamente caminha na direção oposta. Por isso, a aposta é feita numa Reforma que “vai se dando”, afirmando-a como um campo permanente de disputa, um embate cotidiano.

Se, num primeiro momento, conforme contam os entrevistados, não se desejava que as moradias internas ao hospital fossem consideradas um “serviço”, este era um desejo difícil de sustentar. A respeito, relata Maria das Dores:

Foram muitas as conversas com outros serviços da rede em que as moradias pareciam algo incompreensível aos olhos de quem não trabalhava nelas. Lembro-me de uma conversa com um setor vizinho, o Pólo de Internação de Agudos, na qual discutíamos a internação ou não de F. E pra explicar pra eles que F. está no hospital, mas não está num regime hospitalar? Eles ficavam nos perguntando: “Como assim?

Vocês não têm leito clínico lá na moradia? Vocês não podem conter os pacientes em crise?”. E a gente respondia: “não, a gente não pode conter, a gente tenta fazer daquilo uma moradia, a gente não tranca ninguém. Se a gente quiser dar conta da crise, então temos que voltar a ser enfermaria”. Numa outra conversa, com um CAPS, perguntaram por que nós não poderíamos fazer o acompanhamento dos pacientes na moradia, indagavam sobre a necessidade de aqueles pacientes irem ao CAPS. De um modo geral, convocava-se a moradia a ocupar um lugar, assumir um papel, definir-se em alguma função. A equipe se via explicando, a todo o momento, que não era um serviço. Mas... será? (Diário de Campo em 20/01/2013)

Chegou um momento em que as Moradias não resistiram a uma certa institucionalidade. Talvez isso tenha ocorrido desde que elas passaram a ser parte de um Programa institucional, de uma direção de trabalho vinculada à direção, tornando-se assim um setor do hospital: o Pólo de Integração Social.

No artigo “Reforma Psiquiátrica Brasileira: Resistências e Capturas em Tempos Neoliberais”, Barros (2003) aborda o processo de institucionalidade de outro dispositivo, o CAPS, mas achamos que suas reflexões podem nos ajudar a pensar sobre todo e qualquer dispositivo do campo da saúde mental. Afirma a autora que o referido processo é necessário na medida em que dá um lugar àquele serviço, legitima o seu papel, lhe dá visibilidade.

Entretanto, há sempre o risco de que tal necessidade “se transforme em institucionalização cronificada e cronificadora, reproduzindo o asilamento do qual se quer escapar” (BARROS, 2003, p. 199). Corre-se então o risco de que, com as portas abertas das moradias, se veja entrar “pela porta dos fundos o manicômio disfarçado, retendo usuários-pacientes nos novos muros abertos” (BARROS, 2003, p. 203).

Barros (2003, p. 205) ainda indaga sobre a existência da chamada “rede”, visto que se tem feito notar uma ausência de portas de saída; e se “entendemos serem características principais de uma rede sua acentralidade, sua conectividade e sua produção permanente, o que temos visto funcionar é menos uma rede e mais um conjunto de pontos ligados frágil e

burocraticamente”. Nessa linha, cumpre dizer que ainda que o Programa de Moradias tenha como norte a saída definitiva de todos os moradores do hospital, enquanto isso não acontece muitos continuam a não fazer qualquer uso de outros serviços da rede. Alguns, inclusive, que há muito aguardam a abertura de RTs, acabam tendo como porta de saída a morte.

Contudo, ainda é possível afirmar o caráter de resistência do Programa de Moradias, desde que o vejamos como um processo em permanente construção: “Estranha vicissitude essa da resistência: não poder parar seu processo de resistir, sob o risco de que ‘resistências’

instituídas ao ‘resistir’ vençam. Eis o paradoxo da resistência. Eis o paradoxo do qual a reforma psiquiátrica brasileira não deve conjurar, mas habitar.” (BARROS, 2003, p. 206).

Sendo assim, pode-se dizer que a construção de uma rede substitutiva não assegura definitivamente o fim da relação manicomial: práticas manicomiais podem se dar em serviços abertos, como os CAPS, os ambulatórios, as Estratégias de Saúde da Família (ESF), etc. E, sem catastrofismos, pode-se mesmo indagar por que motivo, a partir de um certo momento, inaugura-se um novo modo de organização em saúde mental, no qual a antiga centralidade hospitalar se fragmenta em moradias internas e se espalham por aí os novos serviços ditos

“abertos”...

Se não se pode ignorar a militância na condução da Reforma Psiquiátrica, que, com sua força disruptiva, produz novas relações com a loucura e, para tanto, novos dispositivos, tampouco se devem relegar a segundo plano importantes análises feitas por autores como Foucault e Deleuze. Estas advertem que “uma tal nomadização da clínica não é independente da própria falência das instituições de reclusão”, conforme a síntese efetuada por Pelbart no prefácio do livro Clínica Peripatética. (PELBART, 2008, p. 13)

O mesmo Pelbart, por sinal, em discurso bem mais remoto, proferido na comemoração do Dia da Luta Antimanicomial de 1989, em São Paulo, no Plenário de Trabalhadores de Saúde Mental, faz uma convocação a radicalizar o chamamento principal da época, ou seja,

“por uma sociedade sem manicômios”. Nessa direção, indaga: “o que significa de fato, no plano da cultura, essa utopia asséptica de uma sociedade em que os loucos não mais estariam confinados nos asilos, nem discriminados nas famílias, nem segregados no trabalho?”

(PELBART, 1990, p. 132). Aponta assim para o risco de que a extinção da fronteira simbólica que separa a sociedade e seus loucos acabe por produzir mais uma minoria identitária, tal qual fora feito em relação aos homossexuais, aos índios etc. Em suma, aponta para o risco de se estar, “sob o pretexto de acolher a diferença, simplesmente abolindo-a. [...] Não estaremos, através de uma tecnologia soft, baseada na brandura e na diluição, domesticando a fera que os

habita (os loucos) e nos livrando da estranheza que eles transmitem?” (PELBART, 1990, p.

132-133).

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