3.2 As Comunidades Eclesiais de Base: um modo de participação dos leigos na missão da
3.2.1 Movimentos originantes das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil
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fazendo-os desenvolver uma consciência crítica que relacione e sintonize sua vida e história com a salvação; a “valorização do potencial evangelizador dos pobres”, abrindo-lhes à dimensão “profético-missionária da Igreja”; e à “sensibilidade aos novos sujeitos históricos da sociedade e seu espírito associativo e os novos sujeitos na Igreja”. 198
Desse modo, a partir dessas presentes e fundamentais caracterizações citadas e vividas pelas CEBs no Brasil, orientações dadas para a ação evangelizadora dos planos pastorais e diretrizes da CNBB, podemos ver e afirmá-las como espaços onde o laicato pode firmar-se na missão eclesial.
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apesar de já encontrar analogias em outros continentes199. De acordo com José Marins, as origens das CEBs no Brasil são fruto de três esforços convergentes que marcam de maneira entusiasta a Igreja no país:
a preocupação evangelizadora-comunitária, expressa através dos catequistas populares de Barra do Piraí (RJ) em 1956; o Movimento de Educação de Base (MEB), com a catequese radiofônica (Natal, RN); as experiências de apostolado dos leigos, os esforços de renovação paroquial, dentro de um amplo movimento de renovação que se codificou nos planos nacionais de pastoral200.
Esses três movimentos são caracterizados como células iniciais do que serão as Comunidades Eclesiais de Base, como ficarão conhecidas essas experiências nascentes na Igreja latino-americana e que possuem como berço a preocupação da vida pastoral e eclesial do Brasil.
O movimento de Barra do Piraí, de acordo com Guimarães, surge do empenho missionário do bispo Dom Agnelo Rossi, bispo daquela diocese em 1956. Seu trabalho consistiu na formação de leigos chamados de “catequistas populares” e que eram responsáveis por comunidades onde não havia a presença do padre. Esses catequistas leigos reuniam o povo, em nome do bispo, com certa periodicidade para a oração, catequese, a leitura da Palavra201. De acordo com Guimarães, o bispo Dom Agnelo Rossi se sentiu tocado por um testemunho de uma senhora que sentia a ausência da Igreja numa celebração de Natal202. Essa formação dos catequistas torna-se um dos movimentos precursores do que vem a ser conhecido como as CEBs. Com efeito, “a ação dos leigos e sua valorização na vida dessa Igreja eram um esboço do papel do leigo sonhado pelo Vaticano II e vivido pelas comunidades atuais”203.
Ao comentar essa experiência Marins afirma que:
com os catequistas populares se conseguiu um responsável (coordenador) da comunidade eclesial, que se preocupava em batizar em casos de urgência, em sugerir o ato de contrição ao moribundo, em
199 Cf. MARINS, José. Comunidades eclesiais de base na América Latina. Concilium, Petrópolis, v. 4, n. 104, p. 22, 1975.
200 Ibidem, p. 22-23.
201 Cf. GUIMARÃES, Almir Ribeiro. Comunidades de Base no Brasil: uma nova maneira de ser Igreja. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 18.
202 Segundo Guimarães: “Parece que tudo começou quando uma velhinha, por ocasião da visita pastoral, contou ao bispo que nas festas de Natal as igrejas protestantes do lugar onde morava ficavam todas iluminadas e cheias de gente. Os católicos escutavam seus cânticos e ficavam tristes ao ver que sua igreja estava fechada. Não havia padre para celebrar a missa de Natal, e não havia motivo para que a vida eclesial parasse por causa da ausência do padre”. Ibidem.
203 Ibidem, p. 19.
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assistir espiritualmente aos agonizantes. Em lugar das capelas mais dispendiosas, construíram-se salões de reunião, que serviam para a catequese, para a escola e para ensinar corte e costura às pessoas do lugar (promoção humana)204.
Dessa experiência da catequese popular sugiram na região aproximadamente 475 núcleos exclusivamente “como centros de comunidades orantes, de vivência da palavra de Deus e vida fraterna”205. Assim, esse movimento aparece como um dos movimentos precursores e impulsionadores da experiência das CEBs no estado do Rio de Janeiro.
O segundo movimento considerado por Marins como consonante para o surgimento das CEBs no Brasil é o Movimento de Educação Comunitária de Base (que ficara conhecido pela sigla MEB) criado em 1968. Esse movimento de Educação de Base surge na arquidiocese de Natal (RN) como proposta e busca por algo que pudesse aliviar o sofrimento do povo nas diversas áreas da vida. Sua grande contribuição visava proporcionar àquele povo melhores condições de vida empreendendo assim o compromisso sócio-educativo de conscientização e busca por soluções para os graves problemas que se impunham206.
Segundo Marins, neste aspecto e visando tornar efetivo esse compromisso de conscientização foram criadas
escolas radiofônicas, como centros de educação, veículos de educação e conscientização, sementes de Igreja. Em 1963 eram 1410 escolas radiofônicas na arquidiocese de Natal. Através delas reuniram-se grupos de pessoas para alfabetizar-se, formar uma comunidade, menor que o povoado e a paróquia. Todos os participantes eram católicos. O trabalho era orientado pela arquidiocese. Então se catequizava pelo rádio. Aos domingos as comunidades (sem presbítero) se reuniam em torno aparelho do rádio para responder à missa que o bispo celebrava e para escutar a sua palavra 207.
O MEB surgiu assim como um empreendimento que visava a conscientização do povo e, para chegar a isso, utilizando-se do rádio, foi formando e educando as comunidades não apenas em caráter religioso mas também na promoção humana. Desse modo, esse movimento visando a evangelização, promoção humana e organização catequética em suas liturgias, sem a presença do padre “permitiu às pessoas tomar consciência de seus problemas e de seus próprios valores. É nesse contexto que nasceu a palavra conscientização, que, daí em diante
204 MARINS, 1975, p. 23-24.
205 Cf. ibidem.
206 Cf. GUIMARÃES, Almir Ribeiro, op. cit., p. 19.
207 MARINS, 1975, p 24.
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será muito empregada”208. Como a experiência foi muito bem acolhida pelo povo, logo se espalhou pela região Nordeste e Centro-Oeste do Brasil209.
Uma terceira experiência considerada fundamental para o surgimento das CEBs no Brasil são os planos de Pastoral elaborados pela CNBB. A partir de 1962 a Igreja do Brasil fará sua organização sistemática da pastoral, movimento precedido por uma série de movimentos como: o Movimento do Mundo Melhor, os grupos da Ação Católica, o Movimento Familiar Cristão. Esses movimentos ajudaram na criação de um clima de renovação e revisão da pastoral210. A elaboração e publicação desse novo plano de pastoral ficou a cargo da CNBB que, para atender a solicitação do Papa João XXIII elaborouou o Plano de Emergência para a Igreja do Brasil (PE), preparando desta maneira os espíritos para acolher as mensagens e o novo dinamismo a partir do Concílio Vaticano II.
Consequentemente, “esse plano visava à renovação da paróquia (princípios dessa renovação, exigências fundamentais, objetivos principais)”211. O PE serviu para de preparar e iluminar a elaboração do novo Plano de Pastoral de Conjunto, publicado em 1966 e executado de modo progressivo até 1970. Esse novo plano insistia no desígnio salvífico que se manifesta na Igreja visível e, como tal, requer estruturas na Igreja que possam torná-lo manifesto por elas. Para tanto, “este objetivo requer ainda a renovação das diversas estruturas em que se realiza esta comunidade de Igreja: comunidade de base, a paróquia, a zona pastoral, a diocese, as regiões pastorais, a conferência episcopal, o conselho continental, a Igreja universal”212.