2 MOVIMENTOS SOCIAIS EM SUA GÊNESE HISTÓRICA
"Não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Jamais haverá movimento político que não seja ao mesmo tempo social". (MARX, Miséria da Filosofia apud GOHN, 1997, p. 178)
O Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), do Brasil, é parte intrínseca da organização da classe trabalhadora em defesa de direitos e da própria vida. Nesse caminho, antes do debate sobre esse Movimento, em particular, cabe retomar, ainda que de forma breve, sem aprofundar em toda a sua complexidade, a história da organização dos trabalhadores, em movimentos sociais, na sociedade do capital, considerando seus segmentos, gênero, raça, condições de moradia, de trabalho, e outras situações e características, bem como os conceitos que se forjam no processo.
sociais. Como nos mostra Silva (2001, p.15, apud MARCONSIN, 2019, p. 52), para o economista e sociólogo alemão, Lorenz Von Stein, no século XIX, em torno de 1840, na Alemanha, surge a necessidade de se constituir “um ramo da ciência social que se voltasse para o estudo dos movimentos sociais da época, como o movimento operário e o socialismo, emergente”.
Explicitando o processo, a luta pela diminuição da jornada de trabalho foi a primeira que transcorreu de forma organizada pela classe trabalhadora, dando ensejo, como indicamos acima, à formação do movimento operário-sindical como o primeiro movimento social da modernidade. Isso ocorre porque, como mostramos no capítulo I, para o capital, o fundamento não é produzir mercadoria apenas como valor de uso, mas, produzir valor excedente, gerado pelo trabalho humano, na forma de mais valor.
Ou seja, o trabalho desempenha papel fundante na sociedade do capital, pois o valor de toda mercadoria tem como determinação a quantidade de trabalho materializado nela, mediante o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção (MARCONSIN, 2009). Não se trata de qualquer trabalho e sim do trabalho assalariado, realizado pela classe trabalhadora, como apontamos no capítulo anterior. O capitalista, portanto, utiliza o máximo de tempo na jornada de trabalho para pôr em movimento a força de trabalho em prol de seus interesses egoístas.
Barroco (2001) aponta que, na Europa Ocidental, a emergência do proletariado no cenário político, a partir da segunda metade do século XIX, foi responsável pela materialização do que passou a denominar-se “questão social”, a qual explicitou as sequelas do capitalismo na vida dos trabalhadores, tanto daqueles que se situam no exército ativo, quanto dos que “vegetam na esfera do pauperismo”, nos termos de Marx (1988, p. 43), mas, também, as lutas por direitos de seus setores organizados.
Silva (2001, apud MARCONSIN, p.53) mostra que, do século XIX até meados do século XX, o conceito de movimentos sociais permaneceu associado à luta de classes, em especial, relacionado ao movimento operário-sindical.
Ao longo do processo sócio-histórico, em termos mundiais, em especial após o fim da Segunda Guerra Mundial, como forma de combate aos ataques impostos pelo nazismo e fascismo, movimentos em defesa dos direitos humanos ganham visibilidade, compondo o cenário dos movimentos sociais imprescindíveis até o momento atual.
A partir de meados, também do século XX, até a atualidade, diferenciados movimentos se organizam: feminista, defesa do meio-ambiente, étnico-raciais, da
juventude, estudantil, de luta pela terra, por moradia, de defesa dos LGBT, ecológicos, defesa de direitos humanos e sociais e outros.
Assim, ao longo do século XX adentrando o XXI, diferentes movimentos sociais são construídos na sociedade do capital além do sindical, tanto em termos internacionais como nacionais. Ressalte-se que os temas em luta não dizem respeito às relações de trabalho de forma imediata, como o sindical, mas situam-se no âmbito da reprodução e de direitos identitários (MARCONSIN, 2019). As forças sociais organizadas apresentam-se de diversas maneiras e formas, seja em movimentos na área urbana ou rural e até transcendendo as fronteiras das nações.
Os estudos sobre os movimentos sociais captam, assim, suas diferentes motivações, ensejando a construção de conceitos múltiplos.
Na obra “Teoria dos Movimentos Sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos (1997)”, Gohn traz um quadro geral das concepções e teorias sobre movimentos sociais, contribuindo para o debate da questão. Para a autora (1997, p.
12), ao analisarmos os movimentos sociais importa “abordar preliminarmente dois difíceis aspectos: o próprio conceito de movimento social e as teorias a seu respeito”.
Quanto à primeira, poucos autores se dedicam a definir ou a conceituar o que entendem por movimentos sociais. Acrescenta-se a esta lacuna a profusão de tipos e espécies de movimentos sociais que têm sido tratados da mesma forma, além da não-diferenciação entre movimentos propriamente ditos, lutas, protestos, revoltas, revoluções, quebra-quebras, insurreições e outras formas de ações coletivas. Em relação à segunda questão, há várias teorias dos movimentos sociais, e cada uma tem tido um entendimento sobre o que eles são e a que tipo de manifestação se referem. Para alguns se trata de fenômenos empíricos, para outros são objetos analíticos, teóricos.
Já Ribeiro (2014, p. 102-103), em seus estudos, tendo como base a perspectiva marxista, traz um debate sobre o que se denomina, hoje, de “novos movimentos sociais”, identificando uma relação entre essa concepção e o pensamento pós- moderno.
Ao analisar as lutas sociais na contemporaneidade, o pensamento pós- moderno supõe que as recentes transformações societárias não permitem mais aquelas formas de referências coletivas, como a de classe, que motivou as organizações sociais e políticas do século XIX e início do século XX. Essa forma de pensar considera que ocorre uma erosão da identidade de classe configurada na unidade ampla dos trabalhadores, predominando novas identidades de acordo com novos e múltiplos interesses, sempre parciais, e não mais universais. Assim, os interesses universais e de classes dão lugar aos desígnios grupais específicos e localistas, configurando-se nos chamados “novos movimentos sociais”.
Marconsin (2019, p. 58) também aborda a questão.
Sem a pretensão de esgotar a complexidade da questão, entendemos que o
pensamento pós-moderno e suas análises sobre os novos movimentos sociais têm relação íntima com as novas configurações da sociedade capitalista, construídas em decorrência da crise mundial do capitalismo, iniciada na transição da década de 1960 para a de 1970, quando ganha proeminência o capital financeiro mundializado como padrão de acumulação, com efeitos drásticos para os trabalhadores, intensificando-se esse processo, após os acontecimentos do Leste Europeu, em que se inclui a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no final do século XX.
Ainda para a autora (2019, p. 59) a tradição marxista percebe que, apesar de todas as modificações trazidas pela crise, que construiu novas configurações contemporâneas, “a sociedade ainda continua sob a égide do capital, tendo como base relações antagônicas entre capital e trabalho”. Nesse sentido, a “luta de classes se coloca presente, tendo no horizonte a disputa pelo poder na sociedade”.
Concordamos com Ribeiro (2014, p. 103), quando aponta que é importante, hoje, o reforço da “possibilidade de uma solidariedade coletiva que impulsione formas de organização universalizantes”.
Para Marconsin (2019, p. 60):
Embora sejam de tipos e possuem configurações diferentes, não [há]
contradição entre os movimentos sociais situados nas relações de trabalho - que fazem a luta por direitos do trabalho; aqueles que se situam na esfera da reprodução – que lutam por moradia, saúde, educação, terra, transporte, etc., e os movimentos definidos como identitários – raça, gênero, Lgbti+, etc. São movimentos sociais que se formaram ao longo do século XIX, XX e XXI, de diferentes tipos, que se encontram em um ponto comum: a luta pela obtenção de direitos na sociedade do capital, nos espaços da luta de classes.
Como define Ribeiro (2014, p. 117), esses movimentos sociais expressam as
“contradições sociais determinadas pelo capital”, na sociedade contemporânea. Para Netto (1990, p.143), uns e outros trazem “ambivalências da cidadania fundada na propriedade privada e redimensionam a atividade política, multiplicando os seus sujeitos e as suas arenas”.