E quando comecei a escrever, por volta dos sete anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve.
Comiam maçãs.
Chimamanda Adichie
Décimo primeiro andar. Os pés estão cansados, as mãos estão suadas e os braços tremem. Dizem as boas línguas que, quando estamos prestes a realizar algo benéfico na espiritualidade, intensificam-se as emanações energéticas negativas dos irmãos de pouca luz.
Faço uma pausa e me apoio no corrimão da escada. A respiração está rápida e intensa, e meu corpo capta o ar defumado das ervas. Ergo a cabeça e jogo-a pra trás, na esperança de resgatar o fôlego.
Fôlego. Já estamos acostumadas com isso.
Retorno a posição da cabeça e olho para cima. Mais dois lances de rampa, e eu estaria no décimo segundo, último andar da UERJ. As pernas bambas evidenciavam o cansaço e a energia dispensada para aquela defumação. Apoiada no corrimão da escada,fecho os olhos, me concentro e peço forças. Rememoro o dia da gira. Sem a mesma, a limpeza na UERJ não seria possível.
***
O sino toca; a mãe de santo chama. Os médiuns são convocados ao terreiro, e lá nos posicionamos. Logo após saudar o congá – da direita para a esquerda, conforme ensinado – ,junto com Dalva, avisto, na assistência, a jovem negra que nos uniu naquela roda de conversas pibidiana, onde o processo identitário e a pesquisa, juntos, me encontraram.
Sorrio para Patrícia18, que sorri de volta, com um aceno com a mão direita.
Intimamente, comemoro sua presença e até me surpreendo – novamente – com sua coragem.
O convite para comparecer à gira decorreu após uma longa conversa sobre seu relato na oficina do PIBID. Este reencontro se deu aproximadamente quatro anos depois do acontecido, e, ainda que o tempo tenha passado, não foi uma experiência fácil para Patrícia...
***
Era quase três da tarde quando avistei Patrícia entrando no shopping. Seu sorriso, marca registrada, estampava o rosto redondo de pele escura; e casavam com os longos cabelos negros. Recebi a jovem com um abraço e perguntei se gostaria de comer no restaurante à nossa frente. Ela concordou. Sem filas, rapidamente fomos atendidas e encaminhadas à nossa mesa.
Acomodada, reforcei a explicação dada anteriormente por telefone – havia solicitado uma entrevista com ela a fim de dialogar sobre sua trajetória de vida, principalmente a partir do abuso sexual, de seu processo identitário como mulher negra e dos desdobramentos desde então. Evidentemente, a entrevista só ocorreria mediante concordância de sua parte, a partir
18Nome fictício dado pela jovem, a fim de que sua identidade original seja preservada.
de seu bem-estar. Ela assumiu estar um pouco nervosa, mas gostaria de falar sobre isso por acreditar que seria algo que contribuiria no processo de superação.
Então, ela relata:“Acordei às cinco e vinte para sair às seis da manhã. Ao invés de pegar dois ônibus, queria pegar um apenas. Então,peguei o caminho pela avenida mais próxima, até que vi o cemitério aberto, por onde poderia cortar caminho. Foi aí que fui surpreendida por um rapaz e, de início, não entendi nadado que estava acontecendo... Eu nem sequer imaginava que isso poderia acontecer comigo. E aí, nesse misto de sentimentos, a todo momento, me perguntava ‘por que eu? Por que eu?’ Então, eu consegui gritar. Minha saia rasgou ao tentar desesperadamente me soltar do cara, e, quando um homem apareceu berrando
‘o que que tá acontecendo aí?’, o cara se assustou, e eu consegui fugir. Deixei tudo para trás, mochila, caderno, casaco... Eu só corri de volta para casa, que ficava perto dali.”
Patrícia solta o ar preso nos pulmões, puxa o fôlego e continua:“Já não sabia mais quem era. O dia mal começou. Era estudante, com trabalhos para apresentar, e, naquele momento, apenas meperguntava, me questionava ‘quem sou eu?’. Diversos pensamentos passavam pela minha cabeça, e eu ficava matutando e pensando... ‘se eu não estivesse de saia...’. Os pensamentos iam até além, sabe? Até imaginar o que teria acontecido, se o outro homem não tivesse chegado naquele exato momento, eu imaginei... E não parava de alternar as perguntas ‘quem sou eu?’ e ‘por que eu?’”.
Refletia consigo mesma se teria virado estatística.
Devido ao ocorrido, ela não conseguia ir para a escola mais. Sentia-se mal, triste, com medo, chorosa, e começou a faltar à escola. Cursava o primeiro ano do ensino médio de formação de professores na escola em que o PIBID atuava. Logo, em função da queda da presença escolar, sua mãe foi a primeira a saber do caso, o que não foi algo fácil de ser feito.
Ao notar o estranhamento no comportamento da filha, a mãe questionou as faltas. Foi algo tão intenso que a menina foi parar no hospital e, só assim, conseguiu contar, após quase um mês do ocorrido. Ela só sabia chorar, tinha vergonha, medo sentia-se pior por ter que contar, teve crise de ansiedade e só conseguia chorar e pedir desculpas após relatar o acontecido para sua mãe. Esta, por sua vez, aparentava não acreditar no que tinha acabado de ouvir, haja vista que, por mais que a filha soubesse por comentários superficiais da família que sua mãe havia sido estuprada no mesmo lugar anos atrás, este assunto nunca havia sido conversado diretamente entre mãe e filha. Agora, tendo um novo caso que por pouco não havia sido consumado – diferente do ocorrido com a mãe –, a filha sentia-se com medo de como sua mãe reagiria a todas essas informações.
“Minha mãe e minha família não fizeram muita coisa... Meio que deixaram pra lá.Falavam frases como ‘eles não podem ver uma preta de saia’e ‘homem não pode ver isso’
como se fossem animais selvagens que não têm controle do próprio corpo. E cada vez mais inflada com esses discursos, eu refletia ‘por que tinha que ser a preta de saia?’, ao mesmo tempo que uma parte de mimgritava ‘a saia não teria mudado nada!’.Eu já tinha sofrido assédio de calça também... Maseles insistiam na saia como ‘insinuação’ de algo. Como se fosse culpa minha. E eu só repetia pra mim mesma, o tempo todo, tipo um mantra: ‘eu não sou vulnerável!Nem de saia, nem de calça!’.
Pausa no relato. Ela respira.“Ainda me deixa nervosa falar disso.”.Silêncio. Busco confortá-la, sugiro uma pausa, e ela fica calada por alguns instantes, enquanto aprecia o guaraná gelado. Respira fundo, e eu pergunto se quer parar. Explico que não há sentido em dar continuidade a algo que a faz sentir mal e, caso não fosse possível, aquilo não alteraria o desenrolar das coisas. “Há sempre caminhos possíveis”, lhe digo, olhando em sua direção com um sorriso. “Não há necessidade de se forçar, isso não é obrigação. Fique à vontade pra fazer o que te faz sentir bem.”.
Independente do que Patrícia escolhesse, ela havia me dado a coisa mais importante:
me proporcionou, além do encontro com a pesquisa, o encontro comigo mesma. Com a mulher negra. Nada do que construí desde então teria sido possível sem o seu encontro, sem a sua chegança. Era de suma importância que ela entendesse isso: que as vias ainda não abertas, as impossibilidades de falas, os receios, os silêncios, tudo era pesquisa, tudo fazia parte. E era meu dever como pesquisadora compreender e acolher isso, a fim de assegurar, acima de tudo, o bem-estar, não só dela, mas de todas as minhas interlocutoras na pesquisa. O momento exigia a escuta sensível, a responsividade.Mais do que um espaço de reinvenção dos saberesfazeres, a partir dessa dissertação, possibilito um movimento de catarse e encaminhamento a mim mesma, junto com ela, junto com todas. Eu não seria capaz de andar só pelas situações do cotidiano, não seria capaz de abordar esses apontamentos, mergulhar em mim e alcançar “a linha de chegada” estando só. Pesquisa se dá no conjunto, se constrói no coletivo, e, neste caso, em rodas de conversas que acolhem e curam.
Termino de falar. Dou um sorriso na tentativa de expressar a frase que não saía de minha cabeça: “Está tudo bem”.
Sei que não se tratava disso. Sei que muitas coisas cabem e não cabem no “estar bem”.
Mas também sinto como se a frase fosse maior do que eu. É que ouvi tantas vezes de tantas mulheres... Quantas mães pretas acalentaram meus momentos de dor com essa frase? Quantos
abraços recebidos, quantas mães pretas encarnadas em amigas, tias, mães de amigas, professoras, entidades...
Patrícia quebra o silêncio:“Eu sei. Sei de tudo isso, é só que... Sinto que, se eu parar, não vou dar rumo aessa... experiência”.Eu aceno com a cabeça, enquanto a observocolocar alguns fios de cabelo por trás das orelhas. Mulher preta sempre tem que ser forte? Patrícia definitivamente era.
Ela continua seu relato, menos emotiva. Ao retornar no ano seguinte para a escola, sendo obrigada a cursar novamente o primeiro ano, suas amigas que sabiam do caso usavam sua vivência como exemplo. Além de piadas, afirma: “Já ouvi de uma amiga branca e rica
‘isso aconteceu porque você tava de sainha vindo para a central. Queria o quê?’. E eu não respondi nada, fiquei sem acreditar no que estava ouvindo, sabe?”. Patrícia falava dessa situação como quem não acredita no absurdo que diz e, reflexiva, me questiona, chateada: “A sociedade é um ponto de interrogação?”.
Não consigo responder, apenas a encaro, querendo pedir desculpas pelo tipo de
“acolhimento” recebido. Abro e fecho a boca algumas vezes, sem sucesso de fala. Ela olha pro seu guaraná, balança o canudo dentro da caneca e desabafa: “Atualmente, não me chateio tanto quanto antigamente, pois eu percebo que tem uma intenção de cuidado por trás desse exemplo...Antes, acreditava que aquela fala era ruim. Agora,eu creio numa outra faceta, como alguma coisa construtiva. Apesar de ter essa noção mais positiva, eu ainda fico chateada. Eu não sou exemplo, não gosto de ouvir ‘aconteceu com ela, pode ser com você’. Não perguntam se a gente quer ser esse exemplo, se tá feliz de ser exemplo. E se, antes, eu pensava ‘isso não pode acontecer comigo’, agora, eu penso ‘isso não vai acontecer comigo’”.
Buscando fontes de ajuda, procurou saber sobre outras histórias de abuso e só percebeu que não foi sua culpa quando teve acesso a um relato de uma situação muito semelhante à sua:“(...) com a diferença de que a menina em questão não estava de saia, e sim de calça. Isso foi algo que mudou a interpretação da minha vivência; um estalo aconteceu dentro de mim. Não mesenti só.Ainda que aquilo fosse, por um lado, frustrante de se pensar, por outro, era reconfortante, por saber que entendiam pelo que havia passado.”
Na altura do campeonato, ela só tinha tido acesso a relatos de pessoas que passaram pela mesma situação através de mídias sociais; pessoalmente, só o da própria mãe, que, por sua vez, assim como Patrícia, também acreditava que tal situação nunca ocorreria com a filha.Conforme o passar do tempo, a jovem percebeu que muito se culpava, da mesma forma que sua mãe também fazia. Ambas, em suas respectivas vivências de abuso, acabavam por sentir uma imensa carga de culpa, em suas próprias maneiras de encarar as situações.
Ao dar-se conta desta “coincidência” do culpar-se entre mãe e filha, Patrícia percebeu como isso a influenciou na forma de pensar e repensar o caso. Deu-se conta de queconsiderava suas próprias atitudes que antecederam o abuso para justificá-lo, isentando o agressor em si e pensando alternativas que “provavelmente” teriam mudado o rumo da história, como horários diferentes (“Se eu não tivesse saído mais cedo”),vestimentas diferentes (“Se eu estivesse de calça”), caminhos diferentes (“Se eu tivesse escolhido o caminho de costume para pegar os dois ônibus”). Essas especulações só mudaram de tom após ter acesso a outros relatos, semelhantes e distintos de sua experiência.“Nessas descobertas, entre os relatos que li e outros textos complementares, o que me intrigou de verdade foi o termo feminicídio, do qual nunca havia ouvido falar.”.
A partir daí, buscou relatos de abuso sexual na adolescência em diferentes redes sociais e sites de busca epassou a participar de grupos de ajuda no Facebook. Infelizmente, viu pessoas se suicidarem ou tentarem o suicídio como saída para a dor, o que apavorava Patrícia. Os mais diversos pensamentos lhe atravessavam:“O que eu vou fazer se eu não me suicidar?”; “Eu nunca vou ser vítima.”; “É um suicídio lento quem sofre abuso sexual.”. “Eu percebi que nesse processo tem muitos relatos que acionam gatilhos... Tem muitos relatos que auxiliam na construção saudável de lidar com o trauma, sim. Mas tem muita coisa ruim também. Infelizmente, só percebi este detalhe quando também constatei que estava me suicidando, sem comer, me isolando... Fazendo mal a mim mesma, sabe? E não percebi sozinha... as colegas do colégio que alertaram.”.
Patrícia relatava a ironia do repentino cuidado das amigas. Apesar de no começo, logo após retornar à escola, ouvir frases de deboche e ironia, como “Ah, tava de sainha!” e “Vai para a Central?”, agora curiosamente contava com a ajuda dessas mesmas colegas, que aparentavam se preocupar com sua saúde e bem-estar, a partir da aparição de traços físicos visíveis de seu estado emocional.Todavia, independente de colocações como estas, que reproduzem um discurso profundamente machista, sexista, a jovem tinha amizades com que poderia contar.
Com as falas pejorativas e colegas fazendo piada de sua vivência, a menina tornou-se agressiva e expunha sua raiva de forma verbal, inclusive cortando laços.Quase entrou novamente em depressão,após ouvir da própria famíliaque“queria estudar com aquela saia e ficar gostosinha.”.
Sua saída foi fingir que não estava escutando, mas aquilo, bem como o acúmulo de outros sentimentos provindos de outras falas semelhantes, lhe causavam enjoo, mal-estar,
choro, causando mais indignação a si mesma, por não gostar de aparentar ser uma figura frágil.
“Aos poucos, eu começo enxergar como maior dor e maior força da minha vida.Penso que, a partir da licenciatura em história, posso mudar uma pessoa ou tornar as pessoas melhores para que não façam com outros o que fizeram comigo e com minha mãe, a fim de ajudar na construção de uma geração que cresça sabendo o quanto isso é ruim, tanto para os causadores quando para as vítimas e quem fica de fora... Acho que é uma forma de renascer.”
“Sempre quis trabalhar com pessoas e, apesar de ficar dividida entre medicina e professora de história, eu percebi a diferença de pontos de vistas e opiniões entre uma carreira e outra sobre o mundo, sobre o contexto atual, e achei melhor optar pela docência. Acho grandioso estar perto dos pensamentos das pessoas e eu acho que a sociedade pesa muito nos jovens. Então, eu penso que, sendo professora, eu vou poder ajudar as pessoas jovens, a juventude. Eu acho né?”E dá risadas.
“Ah!”, ela diz ao se lembrar de algo, “O segundo relato mais próximo e presencial que ouvi foi de uma colega do colégioe só surgiu a partir do meu próprio relato”.
“Tem gente que acha que ajuda fazendo piada, usa frases como ‘já passou’, acha que é brincadeira, que não importa tanto assim. Isso não passa, não cicatriza, você lembra do que te aconteceu.Você fica marcada por essas coisas e você lembra de quem fez piada e quem ajudou você nesse processo.Complicado quando a piada vem da própria família, feita por homens. Eles objetificam e julgam a mulher pela sexualidade. Dizem ‘ela não é mau caráter, é vagabunda’. Já discuti muito com minha família por causa de comentários do tipo ‘mas ela mereceu’, sobre casos de abuso sexual de gente conhecida nossa. É cansativo. Todos ficam com raiva, inclusive minha mãe. Sobre uma amiga nossa da vizinhança que apanhava de ferro e era estuprada, meus familiares dizem: ‘ela virou mulher de bandido porque quis, não foi mais que merecido’. Dizem que ela não é vítima, que ela escolheu esse caminho. Acabou que saiu do bairro do Caju com dois filhos do falecido traficante – quem cometia os abusos com ela. Ela tinha dezenove anos. Além disso, A minha família é muito homofóbica, e eu só me assumi homossexual porque meu tio viu e começou a fofocar.”.
Após outro gole do guaraná, ela afirma que, antes das rodas de conversa do PIBID, das trocas com as amigas e professores, não se enxergava negra. Segundo Patricia, “eu era machista, gordofóbica, preconceituosa. Com muita conversa e paciência, fui mudando e entendendo melhor as coisas, e ajudando outras pessoas a entender também.Olha, se eu pudesse, seria hétero. Nunca me aceitei. Sempre soube que era homossexual, e minha família
é evangélica. Minha mãe vivia dizendo que ‘Deus não gosta disso’. Cresci ouvindo essa frase.
Minha família não aceita.”.
“Quando sofri o abuso, fazia um mês que estava namorando. E, após quatro meses de muitas brigas, estranhamentos e mudanças, eu consegui contar para minha companheira o que havia ocorrido. Ela ficou muito triste, mas me apoiou, dizendo frases como ‘você estava indo para o colégio, a culpa não é sua.’. A partir desse momento, ela passou a me levar para o ponto de ônibus.Eu não sabia lidar com aquele trajeto. Pensava ‘que que eu faço agora?’.
Voltar a uma vida normal, mesmo não sendo a mesma...”
“Eu vou ser sincera. Na roda de conversas do PIBID, fiquei com medo de me tornar motivo de piada, mas, enquanto contava, percebi que estava me sentindo mais leve.O assunto machucava muito; e me sentia mais livre para desabafar com quem eu não estivesse tão íntima. Não me sentia à vontade de compartilhar com a família e minha namorada. Então, com quem seria? A roda de conversa do PIBID me deixou muito à vontade para pensar várias coisas. Percebi que nem ali, naquele momento, eu estava sozinha, porque, a partir do meu relato, vários outros foram surgindo. Percebi que outras amigas presentes que também eram fechadas estavam sendo elas mesmas, comentando pelo que passaram também...”
A primeira vez que usou saia após o ocorrido foi em 2017 – o ocorrido foi em 2012, pois a roda de conversa aconteceu em 2013, e ela já cursava pela segunda vez o primeiro ano do ensino médio; repetiu devido às faltas.
“Deixei de fazer aquele trajeto, de me sentir bem andando só. Agora, ando com medo, contra o tempo, ansiosa.Quando saio com minha namorada, sempre peço para ela ‘não me deixa sozinha de jeito nenhum’.Coisas como roupa colada e maquiagem, eu não deixei de fazer, mas faço bem menos do que antes. Fico com os comentários na cabeça, que sempre falam: ‘essa roupa tá vulgar’.”
Perguntei a ela se, ao usar menos maquiagem e roupa colada, sentiu diferença no tratamento na rua, principalmente vindo de homens. Ela responde:“Não. Não foi roupa e nem maquiagem”.
“Hoje, eu consigo falar melhor porque, com o tempo, soube relatar detalhes. Hoje, consigo falar sobre como isso me fragilizou, consigo me expor. Mas, menos de dois anos depois, no início de 2014, sofri novo abuso, por parte de um primo da família. Só pensava em que não fui antes, mas serei agora [estuprada em termos de vias de fato]. A sorte foi que a porta estava aberta e ele não estava na porta. Então, eu consegui correr e fugir. Ele estava sem camisa dizendo o quanto eu era gostosa. Atualmente, só diz que tentou ficar comigo. Ele tinha
trinta e dois anos e eu tinha dezessete na época. Só quem sabe disso é minha mãe, que não o trata tão bem, mas acha que isso já passou, que é só esquecer e bola pra frente.”
Pergunto sobre o que passou em sua cabeça diante desse novo fato. Ela retorna:“Uma coisa que ficou na minha cabeça após isso foi ‘será que isso vai acontecer até que de fato aconteça?’; ‘por que eu?’.Ele [o primo] segue indo lá em casa normalmente, mas eu não me sinto segura lá. Então, eu saio e não fico quando ele está.”.
Ela pretende sair de casa em 2018 e passou para o curso de licenciatura em História na Universidade Federal Fluminense. Pretende trabalhar, ter seu próprio sustento.
Sobre o PIBID, Patrícia revela:“O PIBID foi a melhor coisa que aconteceu na época da escola. Todo colégio deveria ter. Não é só relação professor-aluno, a gente aprende a ter respeito pelo outro de forma natural. O aprendizado acontece com a gente se relacionando como amigos, nos sentimos à vontade, líamos textos e falávamos de nossas vidas, de sexualidade, da educação, de tudo. Era uma aula de verdade sem quadro. Por que não pode ser sempre assim?Me senti bem com a sua dupla por ela também ser negra de cabelo liso, meio índia, negra índia, como eu. E o outro bolsista que eu esqueci o nome foi um dos primeiros homens com quem me senti à vontade para compartilhar o caso. Será que todos os Pibidssão assim?”.
Ao perguntar porque saiu da formação de professores, ela explica:“Medo. Às vezes, até conseguia ir só. Mas era difícil. Era o que eu queria, mas, ao ir, me sentia mal, chegava passando mal na escola. Durante o dia, me sentia bem, estava com pessoas queridas, mas, depois, ao retornar pra casa, o mal-estar vinha de novo.Se pudesse dizer algo para mim há cinco anos, diria: ‘respira, relaxa, isso vai te tornar uma pessoa melhor, você é capaz de tudo’.E penso que em cinco anos, a partir de agora [2017], eu ainda vou conquistar muita coisa!”.
Comento com ela sobre a escolha do curso de História, e Patrícia compartilha seus motivos:“Vejo passado e presente e penso ‘como vai ser? Como foi, como é, como vai ser quando estiver aqui?’. Os professores me ajudaram a ser o que sou hoje, mesmo com tanta coisa ruim, ficou...”.
Ela se emociona e o pranto desce pelo rosto. Sorrio, também emocionada, e estico a mão para alcançar a sua. Ela segura e me sorri de volta. Respira fundo e continua sua fala:
“eles me motivam muito. Eu vou conquistar o que eu quiser com meu esforço e é isso que eu quero passar – quero ter um pouco dos meus professores.”.