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Multiculturalismo, diferenças e desigualdades

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 35-40)

Muita gente não deixa a gente viver em tranquilidade. As vezes as pessoas visitam a gente na aldeia e dizem que a gente não precisa de nada. Índio parece imortal. Que índio não precisa de hospital. Meu pai precisou de ser internado. Pajé precisa de remédio? Índio é povo. Índio sofre. (Informação verbal).

Prof. Algemiro da Silva, 2015.

As questões do multiculturalismo e da diferença tornaram-se, nos últimos anos, mote dentro de uma ideologia educacional crítica e com isso, percebe-se a necessidade de construção de um currículo diversificado nas escolas de um modo geral, mas sobretudo, as escolas das aldeias. É irrefutável que até mesmo em empreendimentos oficiais, essa dita diversidade cultural é empregada.

Todavia, muitas vezes é tratada de forma marginal, ou insuficiente ou mesmo genérica, como apresenta-se na esfera educacional, quando são incluídas num currículo mínimo de uma disciplina qualquer e definida seu escopo por “Temas Transversais”.

Coaduno com o argumento apresentado por Nobre (2005) na sua tese de que o programa de magistério indígena pressupõe um olhar mais compreensivo e também conhecedor do tipo de criança a ser formada, e que as especificidades dessa criança Guarani Mbya do Rio de Janeiro muitas vezes não semelhante a nossa criança não indígena. Ele traz informações que ampliam o nosso entendimento da significativa distinção em que a EEI deve ter em dissonância com o modelo juruá (branco).

Construir um currículo diferenciado autenticamente indígena, ou em outras palavras, não haveria uma escola indígena "pura". Essa utopia é inverossímil, no sentido de não poder ser construída, já que o currículo escolar é um construto não-indígena. Só em um processo de formação continuada é possível para os educadores empreenderem a construção de um currículo diferenciado, pois tal tarefa, que é coletiva, exige estudo, pesquisa, enfim, reflexão sobre a prática pedagógica. Não é portanto, um trabalho exclusivo de assessorias ou de Secretarias de Educação. (NOBRE, 2005, p.120.)

Assim repenso sobre esse pressuposto conceitual tão profundo e tão bem explicitado por Nobre (2005). O que diferencia os conhecimentos indígenas dos conhecimentos considerados universais e ditos científicos? Sigo dialogando com o autor Santos (2007), que coaduna com os mesmos princípios norteadores, e que dispõe sobre o pensamento do mundo moderno, que é um pensamento abissal cuja definição seria:

Num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que estas últimas fundamentam as primeiras e estabelecidas por meio de linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o “deste lado da linha” e o “do outro lado da linha”. A divisão é tal que “o outro lado da linha” desaparece como realidade, torna-se inexistente e é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção de inclusão considera como o “outro” (SANTOS, 2007, p.71).

Dá-se a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. O universo “deste lado da linha” só prevalece na medida em que esgota o campo da realidade relevante: para além da linha há apenas inexistência, invisibilidade e ausência não-dialética. Existe uma distinção entre os saberes visíveis e os saberes invisíveis, porém, ambos os lados (visível e invisível) estão separados por linhas que distinguem o saber dominante dos saberes incompreensíveis pelo saber dominante. Para refletir sobre esse tema, trago também as contribuições do escritor Daniel Munduruku (2015), indígena graduado em Filosofia, História e Psicologia, doutorado em Educação e pós-doutorado em Literatura:

Educação é a estratégia usada por uma determinada cultura para transmitir os conhecimentos que acha fundamentais para a formação da identidade das suas crianças. A escola vai transmitir estes conhecimentos baseada numa tradição. O Brasil não olha para as sociedades indígenas como modelo identitário. A história mostra que foi preciso menosprezar a sabedoria nativa para que o país ganhasse sua própria identidade social.

Quando, no entanto, o Brasil olhar para os indígenas com o espírito da diferença e da autonomia estará preparado para receber o que estes povos têm para ensinar. Por enquanto, o Brasil é um adolescente que não consegue ouvir, aceitar e respeitar os mais velhos.

(MUNDURUKU, 2015)

Entretanto as questões do multiculturalismo e da diferença podem surpreender quando são reconhecidas, inclusive pelo oficialismo, dito isso, percebo como durante esses anos de convívio com as aldeias Guarani Mbya, constantemente as questões objetivas de provas como o próprio Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que, desde que essa pesquisa vem sendo realizada, nos anos de 2015 e 2016 abordou a temática indígena com bastante propriedade, bem como entrelaça legítimas questões de conhecimento a serem verificados em discentes não-indígenas, e nacionalmente.

Conceitos como diferença, identidade, diversidade e alteridade são amplamente repetidos e cotidianamente colocados a julgamento por professores que atuam nas salas de aula. Questiona-se, portanto, o que está em jogo na identidade amplamente construída nos materiais outrora didáticos e que configurariam uma pedagogia e um currículo sem estarem centrados na diversidade, mas na diferença, concebida como um processo e não uma essência.

Pensar o currículo a partir de uma perspectiva multicultural exige, nas palavras de Amaro (2014), "o enfrentamento da colonialidade”. Para o autor:

Não sem resistência, povos indígenas foram escravizados e dizimados de forma violenta pela colonização pretensamente civilizada. (...) com atraso de mais de cinco séculos, as comunidades indígenas conquistam a garantia de terem seus conhecimentos, costumes e hábitos reconhecidos como parte da riqueza cultural do país e da formação de seu povo. A valorização de suas práticas culturais, religiosas e a preservação das línguas originárias de cada povo foi, a partir daí garantida como forma de ruptura com a histórica subalternização. (AMARO, 2014, p. 182)

Diante do contexto da nossa realidade política atual, de completo desequilíbrio de poder, paradoxalmente inflamado pela tensão inserida nos debates públicos e nas relações internacionais,

entre igualdade e diferença, percebemos que a maioria dos grupos minoritários étnicos brasileiros, negros (a saber, quilombolas) e indígenas, irá se apropriar muitas vezes dos recursos audiovisuais, e com essa tecnologia proporcionar a sua luta de resistência em prol de uma maior inserção social em defesa de sua identidade específica, seja no cenário nacional, e internacional.

Essencialmente, a concepção de primitivo, atrelada ao indígena, assim como a percepção de raça inferior, intitulada ao negro e de uma superioridade racial branca, são fenômenos socialmente construídos e, historicamente produzidos. A identidade nacional, um elemento de coesão nacional geralmente monocultural, agora – como resultado da exigência de diversos movimentos sociais identitários – passa a conviver e a respeitar o direito à auto identificação. É impactante perceber a variedade de formatos de certidões de nascimento fornecidas pela FUNAI, por exemplo. Antes, a exclusão completa do nome indígena; hoje a possibilidade de colocar os dois nomes, português e indígena, em Guarani, e inclusive nortear o posicionamento, permitindo a colocação, por importância, do nome indígena no início.

Como afirma a pesquisadora argentina Emília Ferreiro (2001) sobre o contexto latino- americano da escola pública:

A escola pública, gratuita e obrigatória do século XX é herdeira da do século anterior, encarregada de missões históricas de grande importância: criar um único povo, uma única nação, anulando as diferenças entre os cidadãos, considerados como iguais diante da lei. A tendência principal foi equiparar igualdade à homogeneidade. Se os cidadãos eram iguais diante da lei, a escola devia contribuir para gerar estes cidadãos, homogeneizando as crianças, independentemente de suas diferentes origens. Encarregada de homogeneizar, de igualar, esta escola mal podia apreciar as diferenças. Lutou não somente contra as diferenças de língua, mas também contra as diferenças dialetais da linguagem oral, contribuindo assim para gerar o mito de um único dialeto padrão para ter acesso à língua escrita. ( CANDAU,2014, p.35)

Outro aspecto importante para pensarmos sobre a definição de identidade entre os povos indígenas está diretamente relacionada com o território, sagrado por ser parte de cada um, sempre visto e integrado a um coletivo. A sociedade capitalista fortalece a ideia de uma identidade sempre individualista e fragmentada em relação à biodiversidade do planeta, visão muito distante daquela construída cotidianamente pelos Guarani Mbya, assim como para outros povos indígenas.

No Seminário Museus e Emergências Contemporâneas: Dja Guatá Porã25, promovido pelo Museu do Mar em julho de 2017, Tonico Benites, um pesquisador doutorando Guarani Kaiowá nos mostra como a compreensão de mundo dos povos tradicionais, principalmente indígenas como ele,

25 Em Guarani, o Belo Caminhar. A exposição surgida de um diálogo entre culturas indígenas e práticas museológicas, lança luz sobre povos que têm resistido às violências do processo de colonização e da atualidade, mantendo e reinventando os modos de ser indígena no Rio de Janeiro do século XIX. Guaranis, Puris, Pataxós, indígenas em contexto urbano e questões como a língua, comércio, as mulheres, a arte, o meio ambiente e a educação indígena são articulados a momentos significativos do processo de constituição do país e do Rio de Janeiro de hoje. A curadoria é de Sandra Benites (Guarani, mestranda em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ”), José Ribamar Bessa, Pablo Lafuente e Clarissa Diniz. A mostra permaneceu em cartaz até 4 de março de 2018.

está baseada no conceito de harmonia com o território e da responsabilidade por esta harmonia com a natureza. O juruá, ao contrário, estabelece uma política econômica que destrói, utiliza, mas sempre interessado com o lucro.

No entanto, apesar dos povos indígenas pensarem nessa concepção de coletividade, não podemos imaginá-los como uniformes. A fala do escritor Daniel Munduruku, durante o 19º Seminário FNLIJ Bartolomeu Campos de Queirós, Encontro Nacional de Escritores e Artistas Indígenas (2017) FNLIJ no RJ enfatiza esse pensamento:

Entendi, então, a lógica da teia. Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida e o que fere, machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra. Foi aí que entendi que a diversidade dos povos, das etnias, das raças, dos pensamentos é imprescindível para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso o sol e a água para dar forma ao arco-íris.Não somos donos da teia da vida”, mas somos tal como o rio... (e sorri) teimosos...resilientes...sobreviventes… (informação verbal) (MUNDURUKU, 2017)26

Na lógica inserida pelo sistema neoliberal na política atual, e pelos desdobramentos da globalização, tende-se pela criação de uma cultura global, homogênea, e uma padronização, que eliminaria as diferenças entre todos os povos. No Brasil, as origens não são únicas, nem simples, mas com grande diversidade cultural, composta de indígenas, africanos, portugueses e imigrantes.

Stuart Hall (2003) afirma ser “o resultado do maior entrelaçamento e fusão, na fornalha da sociedade colonial, de diferentes elementos culturais” (p.31). Assim, percebe-se que o conceito de identidade se apoia sobre uma concepção de diferença: por um lado, está atrelado a uma ideia que depende da construção de um Outro, e de uma oposição rígida entre o dentro e o fora.

A gente fica muito feliz mesmo...É a primeira apresentação do Coral TEKOA YAKÃ PORÃ27... Uma cultura linda...Uma cultura indígena Guarani Mbya. A gente não pode jamais deixar essa cultura morrer...Sem cultura a gente não é nada. A gente tem que ter cultura sim. Independente de ser indígena, ser quilombola, caiçara, ou qualquer pessoa.. É importante passar nossa cultura pra nossas crianças, para nossa juventude...É importante saber de onde vem...pra onde vai...Eu fico muito feliz...Agradeço o convite de estar divulgando a nossa cultura, nossa realidade (Informação verbal). (KEREXU, 2017) 28

26 Informação verbal obtida com Daniel Munduruku, durante o 19º Seminário FNLIJ Bartolomeu Campos de Queirós, Encontro Nacional de Escritores e Artistas Indígenas (2017) FNLIJ, no RJ

27 Em Guarani Coral da Aldeia com Queda D`Agua Bonita. O grupo é dissidente da Aldeia Itaxi em Paraty Mirim e fez a caminhada para criar uma nova tekoa/aldeia em Ubatuba em 2017.

28 Informação verbal obtida com Ivanildes Kerexu,, liderança Guarani Mbya na Flip (Feira Literária Internacional), 2017.

Figura 1 - Coral da aldeia Yakã Porã na Flipinha, Paraty

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2017.

Nesse capítulo, procuramos discutir a ilogicidade de inserir-se uma padronização na educação dos povos originários. Mesmo havendo a comunhão dos povos indígenas sob o conceito da coletividade, não são uniformes, preservam-se diferenças entre todos os povos. No Brasil, existe/resiste uma grande diversidade cultural. Achamos prioridade revisitar os conceitos de identidade, hibridismo, memória coletiva e multiculturalismo sob a ótica de vários estudiosos, para percebermos posteriormente que o conceito da identidade se apoia sobre uma concepção de diferença correlacionada à construção de um Outro. No capítulo seguinte, apresentamos o contexto do povo Guarani Mbya no Rio de Janeiro e, sendo assim, faremos uma apresentação geral das sete aldeias Guarani no estado do Rio e, especificamente, da aldeia pesquisada em Angra dos Reis.

2 MBYA TEKOA SAPUKAI PYGUA KUERY – OS SUJEITOS DA PESQUISA

Os Guarani mantêm com a terra uma relação de vida e de cuidado. Eles respeitam a terra e explicam que foi criada por Nhanderu, a partir de uma pessoa, um Karai.

Nhembo’e Bergmaschi

Neste capítulo apresentamos um pouco do contexto da vida desses professores Guarani Mbya na rotina da aldeia de Sapukai, em Angra dos Reis, na região da Costa Verde, no estado do Rio de Janeiro.

A terra indígena destinada ao povo Guarani Mbya no estado do Rio de Janeiro situa-se no bairro de Bracuhy, na cidade de Angra dos Reis. O Governo do Estado do Rio de Janeiro somente abordando a região da Costa Verde, concentra sob a responsabilidade da SEEDUC, além da tekoa Sapukai, que é a maior, mais 3 aldeias indígenas, a saber: Rio Pequeno, Itaxi e Araponga, perfazendo um total de 4 aldeias Guarani na região. A reserva Sapukai, no Bracuhy, tem aproximadamente 45 anos de reconhecimento. Foi demarcada e homologada pela FUNAI em 1995 em uma região tradicionalmente ocupada por famílias Guarani. A reserva mede 2.116 hectares, possuindo 330 Guarani Mbya divididos em 60 famílias.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 35-40)