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MULTILETRAMENTOS, MACROLETRAMENTOS E PANLETRAMENTOS 1

Simone de Sousa Naedzold

(Unemat-Cáceres; SEDUC-MT) – [email protected]

Graduada em Letras Línguas Portuguesa e Espanhola e Literaturas de Línguas Portuguesa, Brasileira e Espanhola pela UFSC, Florianópolis, SC; Especialista em Didática pela UNIC, Sinop, MT; Mestre em Letras - Linguagens e Letramentos pela

Unemat, Sinop, MT e Doutoranda em Linguística - Estudos de Processos Discursivos, Unemat, Cáceres, MT; Professora da Rede Estadual de Mato Grosso,

SEDUC, MT.

Resumo:

O presente artigo é parte do resultado de pesquisa a nível de Mestrado Profissional em Letras, ProfLetras, oferecido pela Universidade do Estado de Mato Grosso e a mesma foi realizada entre os anos de 2016 e 2018 em Sinop, Mato Grosso, Brasil, sobre a aprendizagem, os letramentos dos estudantes do Ensino Fundamental II em Escola Estadual. Os objetivos eram aliar a formação continuada de professores ao desenvolvimento de metodologias diferenciadas que possam ser aplicadas em sala de aula e perceber se e como as tecnologias digitais influenciam no processo de aprendizagem dos estudantes que se encontram entre 13 e 14 anos. Neste texto, realizou-se pesquisa bibliográfica sobre alfabetização, letramento; letramentos múltiplos; multiletramentos; letramentos digitais, móveis, impresso; macroletramentos;

panletramentos e suas diversas características. A fundamentação teórica baseia-se em autores como Rojo (2012, 2009); Soares (2014, 2016); Barton e Lee (2015);

Dudeney, Hockly e Pegrum (2016); Candlin e Hadfield (2016) entre outros. Conclui-se que os processos de ensino e de aprendizagem através das diversas formas de letramentos aliadas à formação continuada de professores pode promover mudanças significativas na educação.

Palavras-chave: Alfabetização. Letramentos. Panletramento. Formação Continuada.

Tecnologias Digitais.

1 Este texto, com leves adequações, é um capítulo de minha dissertação, defendida em 2018 e orientada pela professora Doutora Leandra Ines Seganfredo Santos, sob o título de Produção textual com uso de gêneros meme e fanzine no desenvolvimento de capacidades de leitura e escrita de estudantes do 8º ano do ensino

fundamental. Dissertação de mestrado. 2018. Disponível em:

<https://drive.google.com/file/d/1cul9s3KSkZhZ6wPrhjObeovp2cXU4GjB/view>. Acesso em: 30 jul. 2020.

1 Introdução

A nossa era é a era do instantâneo, do tudo-agora-já e passa-pra-frente. É a era das aprendizagens vazias, cheias de complexidades. O desenvolvimento de diversas tecnologias, principalmente digitais, possibilitadas pelo acesso à Internet, nos mostra que as sociedades e as pessoas estão em constantes mudanças e não há muito tempo para pensar se essas mudanças são boas ou ruins, porque quando paramos para analisar, o que estamos analisando já se modificou e estamos em outra fase de desenvolvimento.

Imerso neste meio está o processo educacional, que busca além de um lugar seguro neste mar de informações, posts, memes, mensagens de todos os tipos, mudanças nas orientações educacionais que afetam diretamente o pedagógico.

Nunca, na história da humanidade, tivemos tanto acesso às informações de todas as partes do mundo sobre os mais diversos assuntos, mas, por outro lado, nossos estudantes não conseguem se destacar em avaliações de ranqueamento. O que pressupõe que o acesso à informação não é sinônimo de aprendizagens.

A palavra letramento recebeu nos últimos tempos designações adicionais ou prefixos que aprofundam ainda mais a complexidade do termo ao passo que estipulam dimensionalidades diferenciadas. Assim, temos os letramentos impresso, digital, linguístico, móvel, geográfico, matemático ou numeramento, participativo, em pesquisa, em rede, intercultural, em hipertexto, hipermodal, em jogos, em informação, em filtragem, em codificação, em mídia, classificatório, remix, histórico, biológico, químico, físico, pessoal e ainda os multiletramentos, os macroletramentos e os panletramentos, que são nomenclaturas/termos que estamos lendo nos dias atuais.

Neste texto, faremos uma breve descrição das características dos seguintes termos alfabetização e letramento; letramentos digitais, impresso e móveis;

letramentos múltiplos, multiletramentos e macroletramentos; panletramentos.

2 Alfabetização e letramento

Diante desta realidade, nós educadores, professores da educação básica, principalmente, nos perguntamos: por que nossos estudantes não vão bem nestas provas aplicadas por órgãos estaduais como Adepe-MT; federais como Prova Brasil, Provinha Brasil, ou internacionais como Pisa?

Rojo (2012, p. 28) realizando uma macroanálise sobre o processo de acesso, permanência à educação básica e aprendizagem dos estudantes, nos ajuda a compreender melhor esta situação e afirma que

[...] embora haja acesso, não há permanência e que há gargalos nas séries iniciais de ciclos e nas séries-diploma, tanto no ensino fundamental II como no ensino médio. Essa população que conquistou o acesso, ainda não conquistou, entretanto, a escolaridade de mais longa duração. E isso significa outro tipo de fracasso e exclusão escolar, que se traduz pela reprovação, pela evasão e pelos parcos resultados em termos de aprendizagem, conhecimentos e letramentos que o ensino em geral tem alcançado no Brasil.

As mudanças pedagógicas, por mais significativas e coerentes que sejam, ainda balançam muito e não dispõem de estruturas formais adequadas como livros didáticos e formações de professores, para fundamentar procedimentos metodológicos e inovações curriculares que possam realmente fomentar e assegurar a aprendizagem de professores e estudantes envolvidos no sistema educacional.

O que temos presenciado nos últimos dez anos (2007-2017) são discussões em torno a novas tecnologias e uma busca incessante por teorias que possam auxiliar estas mudanças educacionais. Neste campo, tem se destacado as teorias referentes a diversos tipos de letramentos, letramentos múltiplos, multiletramentos, macroletramento e mais recente panletramentos.

A discussão sobre a elaboração de um conceito mais claro e abrangente de duas palavras muito importantes no campo da educação: alfabetização e letramento é que promoveu e promove muitas pesquisas sobre o tema e uma infinidade de livros e artigos publicados em várias partes do mundo, todos os dias.

Barton e Lee (2015, p. 11-12) referindo-se às mudanças impulsionadas pelas tecnologias, indicam que “Agora é mais aceito o fato de que todos os aspectos da vida, incluindo as atividades cotidianas, as práticas de trabalho e o mundo da aprendizagem, são transformados pelas tecnologias digitais”.

Ao iniciarmos nossa pesquisa, buscamos em Soares (2014) subsídios para fundamentar nossas afirmações, considerando que esta pesquisadora foi uma das

primeiras brasileiras a falar sobre alfabetização e letramento. Deste modo, a autora (2014, p. 47, grifos da autora), enfatiza que “ALFABETIZAÇÃO: ação de ensinar/aprender a ler e escrever” e “LETRAMENTO: estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita”.

Estas diferenças entre os dois termos são importantes porque começam a marcar um trilho no caminho de outros termos que viriam a ser discutidos nos anos seguintes. Lembrando que a primeira edição “Letramentos: um tema em três gêneros”

de Magda Soares é de 1998. Portanto, fechando, em 2018, 20 anos e suas definições dos conceitos referidos ainda são usados como referências básicas e essenciais.

Ainda referindo-se a esses dois conceitos, Soares (2014, p. 47, grifos da autora), afirma que “O ideal seria alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado”.

Soares (2016, p. 29, grifos da autora) ao se referir ao termo letramento, infere que este é composto de duas facetas em sua composição: a interativa e a sociocultural e afirma que

[...] a faceta interativa da língua escrita – a língua escrita como veículo de interação entre as pessoas, de expressão e de compreensão de mensagens;

a faceta sociocultural da língua escrita – os usos, funções e valores atribuídos à escrita em contextos socioculturais.

Ao compararmos as definições de Soares ([1998] 2014, 2016) sobre letramento, observamos que a autora agora é mais específica. Letramento não é apenas “estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita”, mas possui facetas interativas e socioculturais que alargam sua abrangência. A exposição deste novo pensar de Soares (2016), vai além do conceito de letramentos múltiplos de Rojo (2012) e se aproxima dos multiletramentos do New London Group (1996).

3 Letramentos digitais, impresso e móveis

Segundo Candlin e Hadfield (2016, p. 10), no prefácio do livro “Letramentos Digitais” de Dudeney, Hockly e Pegrum

O impacto das novas tecnologias sobre a aprendizagem linguística é enorme e muda o tempo todo, exigindo tanto dos educadores quanto dos estudantes a aquisição de novas habilidades e estratégias para eles poderem ter acesso ao potencial que essas ferramentas lhes podem oferecer.

A fala desses autores nos faz repensar a seguinte situação: quando falamos em aprendizagem escolar não estamos somente nos referindo aos estudantes. Ela abrange toda a estrutura e sistemas escolares, e neste contexto estão inseridos os estudantes, os professores, os coordenadores, os diretores, os secretários de estado de educação, enfim, os gestores da educação. A diferença é que professores, coordenadores, diretores mesmo estando inseridos no processo educacional não fazem avaliação ranqueada.

A pesquisadora italiana Erstad (2008, p. 04) já afirmava em 2008 que “Em muitos países do mundo (Nova Zelândia, Hong Kong, Escócia, Finlândia, Noruega) letramento digital é agora considerado uma área de competência essencial nos currículos escolares”2.

Se o “letramento digital” é uma “competência essencial” então devemos proporcionar aos professores e estudantes atividades, ações e procedimentos que os ajudem a entender e usar de forma útil e promover através dessas ações a construção de conhecimentos necessários para que todos possam ter letramento digital.

Porém, a expressão letramento digital pode gerar confusões, Silveira (2001, p.

33) afirma que “Não basta levar computador para a escola” e esta é uma verdade básica, pois computadores por si só não educam, não promovem o letramento digital e este autor (idem, ibidem) completa que “É preciso discutir seu uso didático- pedagógico e buscar incorporá-los ao processo de ensino e de aprendizagem”, e isso é possível com a formação continuada de professores no âmbito da escola e em cursos de mestrado, doutorado.

É fato que a nossa formação universitária, aquela que nos possibilitou a licenciatura necessária para atuar em sala de aula, não nos formou didática e pedagogicamente para trabalharmos com as tecnologias digitais com o objetivo de

2 Tradução livre realizada do Italiano pela autora.

fomentar as aprendizagens dos estudantes, mesmo porque os professores universitários também não tinham esses letramentos. Porém, como estamos imersos neste mar de informações, não podemos deixar que nosso barco navegue conforme a maré.

As realidades mudam. Das cartas, passamos aos e-mails e dos e-mails às mensagens por WhatsApp e esta é a nossa realidade.

O contato com as tecnologias digitais, principalmente, não é uma opção.

Qualquer atividade que vamos fazer, nos dias atuais, de pagar contas a viajar pelo mundo, as tecnologias digitais estão ali, dando o suporte necessário para que essas atividades sejam realizadas com sucesso e sendo atualizadas a cada momento por seus criadores. São frágeis enquanto sistema? Sim! Porque a maioria dos comandos depende de energia elétrica e de disponibilidade de Internet que são distribuídas através de fios/torres/cabos, e qualquer pane em um ou em outro ou nos dois faz com que o “sistema caia”. Além, é claro, de outros imprevistos.

Para Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 17, grifos dos autores) “Letramentos digitais [...] [são] habilidades individuais e sociais necessárias para interpretar, administrar, compartilhar e criar sentido eficazmente no âmbito crescente dos canais de comunicação digital”. Deste modo, desenvolver letramento digital é um processo natural, porque não temos muitas alternativas, pois, segundo Silveira (2010, p. 65) “A tecnologia de comunicação em rede está sendo usada, reconfigurada e assimilada em ritmo crescente pelas diversas culturas”.

Coadunamos com Dudeney, Hockly e Pegrum (2016) quando afirmam que os letramentos digitais são “habilidades individuais” porque não é uma capacidade que possamos delegar a outros. Ela deve ser construída no interior do nosso cognitivo e aplicada por cada um conforme sua aprendizagem. É social porque somos seres sociais, porque vivemos em grupos necessitamos comunicar e por isso o WhatsApp é uma ferramenta digital tão viciante e útil atualmente. Quando se compreende que é possível conversar com alguém que está a mais de três mil quilômetros de forma instantânea e a sensação é a de presença, isso gera uma tranquilidade grande e a necessidade de conversar com as pessoas sobre diversos assuntos que a distância anteriormente impedia.

Esse uso individual e social do letramento digital pode ser ampliado para as muitas atividades que realizamos, principalmente no campo educacional. Não permitir ou impedir, de algum modo, que nos tornemos letrados digitais é uma forma de interferir em nossas práticas sociais. Tanto educadores, de modo geral, como estudantes precisamos aprender a fazer uso de modo consciente dos recursos digirais e a usá-los a nosso favor. “Precisamos incrementar nosso ensino e a aprendizagem de nossos estudantes de acordo com essas novas circunstâncias”, afirmam Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 19).

Os contextos escolares, com relação ao acesso e ao uso efetivo de tecnologias, estão a cada dia mais longe de sua efetividade para uso dos estudantes. Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 19) afirmam, ao notarem a mudança de laboratório para aparelhos que são dos próprios estudantes, que “Em contextos educacionais altamente tecnológicos, temos a clara tendência de desmonte de laboratórios de informática fixos”.

Neste sentido, observamos que mesmo em escolas em que não haja “contextos educacionais altamente tecnológicos”, os laboratórios estão perdendo suas funções, porém, ao contrário das afirmações desses autores (2016, p. 19, grifo dos autores) de que “em vez disso, usar laptops e dispositivos móveis portáteis, que, na maioria das vezes, são propriedades dos alunos e não das instituições”, computadores dos laboratórios não estão sendo substituídos por nenhuma outra ferramenta tecnológica.

Mesmo que muitos estudantes possuam celulares e tenham acesso à Internet, as escolas os proíbem de usá-los, e um dos motivos é a falta de formação dos educadores, pois não há atividades planejadas com o uso das tecnologias, e também porque as escolas, em virtude do custo, não dispõem de Internet para acesso no desenvolvimento de atividades por professores e estudantes. Muitas delas nem sequer possuem Internet para uso rotineiro dos professores, coordenadores e gestores, como por exemplo, para realizar lançamentos de diários eletrônicos e a conferências dos mesmos no sistema. Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 19) inferem que é necessário o trabalho com letramentos digitais “[...] para ajudar a eliminar a muralha global em termos de acesso digital”.

Henry Jenkins e seus colaboradores (2009, p. 29), citados por Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 23) afirmam que “Antes de os estudantes poderem se engajar na nova cultura participativa, eles têm de ser capazes de ler e escrever”. Essa fala de

Jenkins nos faz retornar as definições de alfabetização e letramento de Soares ([1998]

2014) e Dudeney, Hockly e Pegrum (idem, ibidem) acrescentam que “Esquece-se facilmente que a maior parte da comunicação digital ainda depende da linguagem escrita”.

Assim, o letramento impresso, que é a “[...] habilidade de compreender e criar uma variedade de textos escritos que abrange o conhecimento de gramática, vocabulário e características do discurso simultaneamente com as competências de leitura e escrita” se faz necessário para que não haja lacunas de letramento. Neste sentido, para Rojo (2009, p. 52) “[...] um dos papeis importantes da escola [...] é o de estabelecer a relação, a permeabilidade entre as culturas e letramentos locais/globais dos alunos e a cultura valorizada que nela circula ou pode vir a circular”.

Outro tipo de letramento muito comum é o letramento móvel, que se dá principalmente pelo acesso à Internet móvel. Segundo Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 31, grifos dos autores)

Letramentos móveis: habilidade de navegar, interpretar informação, contribuir com informação e se comunicar por meio da internet móvel, incluindo as habilidades de se orientar no espaço da internet das coisas (onde a informação dos objetos no mundo real está integrada à rede) e da realidade aumentada (onde a informação proveniente da internet se sobrepõe ao mundo real).

Os letramentos digitais, impresso e móveis são os que mais estão em voga neste momento em todos os âmbitos sociais.

4 Letramentos múltiplos, multiletramentos e macroletramentos

Nas pesquisas científicas destes últimos dez anos, observamos que os termos letramentos múltiplos são encontrados em vários livros e artigos. Mas, qual é a diferença entre letramentos e letramentos múltiplos?

Leite e Botelho (2011, p. 02, grifo das autoras), afirmam que “[...] mediante a diversidade de práticas culturais e sociais de leitura e escrita que se fazem presentes na sociedade atual, mais do que letramento ou letramentos, o termo que abarca melhor essa complexidade é letramentos múltiplos”. Já para Rojo (2012, p. 13),

letramento múltiplo aponta “[...] para a multiplicidade e variedade de práticas letradas, valorizadas ou não nas sociedades em geral”.

Para Rojo (2009, p. 108-109, grifos da autora).

O conceito de letramentos múltiplos é ainda um conceito complexo e muitas vezes ambíguo, pois envolve, além da questão da multissemiose ou multimodalidade das mídias digitais que lhe deu origem, pelo menos duas facetas: a multiplicidade de práticas de letramento que circulam em diferentes esferas da sociedade e a multiculturalidade, isto é, o fato de que diferentes culturas locais vivem essas práticas de maneira diferente.

Ao mesmo tempo em que o conceito de letramentos múltiplos vai se modificando, outros conceitos vão aparecendo. A palavra “multiculturalidade”, por exemplo, nos remete ao multiletramento. E, segundo Rojo (2012, p. 13),

[...] o conceito de multiletramento [...] aponta para dois tipos específicos e importantes de multiplicidade presentes em nossas sociedades, principalmente urbanas, na contemporaneidade: a multiplicidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos por meio dos quais ela se informa e comunica.

Multiletramentos é um conceito criado pelo New London Group (1996) que segundo Rojo (2013, p. 14, grifos da autora)

O conceito de multiletramentos, articulado pelo Grupo Nova Londres, busca justamente apontar, já de saída, por meio do prefixo “multi” para dois tipos de

“múltiplos” que as práticas de letramentos contemporâneas envolvem: por um lado, a multiplicidade de linguagens, semioses e mídias envolvidas na criação de significação para os textos multimodais contemporâneos e, por outro lado, a pluralidade e a diversidade cultural trazidas pelos autores/leitores contemporâneos a essa criação de significação.

Dudeney, Hockly e Pegrum (2016, p. 30) nos falam dos macroletramento que definem como “[...] um letramento inspirado em vários outros – e envolve habilidades linguísticas, multimidiáticas, espaciais, cinestésicas e outras”. Este conceito é muito interessante porque nos faz criar um campo cognitivo ainda maior que letramento.

5 Panletramento

Cada conceito criado, modificado, realocado em outros textos vai se modificando e à medida que lemos vamos construindo novas sinapses, novas redes de

comunicação neuronal e este processo não vai ter fim, porque estamos numa sociedade altamente tecnológica.

Este contexto fez emergir um novo termo: panletramento. Esta palavra tenciona acionar todos os processos de construção e todos os conceitos de todas as disciplinas que tantos os estudantes quantos os professores ou quaisquer outras pessoas formaram até o momento para a apreensão de um assunto desconhecido ou não. O letramento matemático se une com o linguístico e forma ou fortalece um novo, o digital, por exemplo, mas aquele letramento matemático continua em construção, o linguístico também continua em construção assim como todos os outros que estão em desenvolvimento. E neste sentido, podemos observar que muitos teóricos atuais ora usam o termo letramento/letramentos, multiletramento ou multiletramentos, letramento múltiplo/letramentos múltiplos mostrando que os termos ainda estão em processo de construção, por mais que novos termos estejam surgindo no meio social.

E, à medida que haja a necessidade de se construir um novo conhecimento, vários letramentos que estão construídos ou em construção são acionados e esses conhecimentos/letramentos já modificados e interrelacionados modificam o novo e continuam a se modificar. Deste modo, sempre será uma nova construção, individual e coletiva, entre dois ou vários letramentos que se fortalecem/modificam para poder construir um novo.

O panletramento se manifesta quando, a partir da leitura de um texto em qualquer formato ou suporte construímos mentalmente relações conceituais com os outros conhecimentos que já elaboramos e à medida que nós mesmos vamos proporcionando a interação do que sabemos com o novo vamos construindo novos conhecimentos. Esse processo mental aciona todos os nossos letramentos previamente construídos ou em construção, elabora, seleciona, relaciona conhecimentos necessários para compreender o assunto que se está sendo lido pela primeira vez, descarta o que não interessa, interfere para a produção de novos conhecimentos. Nesse movimento, novos conceitos vão se formando, elaborando, reelaborando em nosso cérebro de maneira a priori multidimensional e a posteriori unidimensional e forma o novo conhecimento e novamente se mistura com os demais e tudo recomeça. Nesses espiralado processo de construção de novos saberes usamos todos os conhecimentos que já temos construído sejam eles semânticos sintáticos morfológicos, fonológicos, lexicais ou discursivos e, ao mesmo tempo, que

modificamos, construímos um novo conceito, aqueles que usamos para tal continuam em processo de elaborações e reelaborações.

6 Conclusão

Muitos pesquisadores em diferentes Universidades realizam estudos que versam sobre o uso das tecnologias digitais aliadas aos letramentos e como a Formação Continuada de Professores pode fomentar esse processo de aprendizagem seja dos estudantes dos ensinos fundamental e médio seja dos universitários. A

‘pedagogia’ dos letramentos se mostra muito receptiva e influencia as metodologias que produzem conhecimentos e, o mais importante, fazem com que todos os envolvidos no sistema educacional aprendam. Falar de letramento é falar de inovação, de adequação às novas perspectivas educacionais e a Formação Continuada, neste momento, é fundamental. São os diversos letramentos que fundamentam as metodologias ativas e que possibilitam a participação dos estudantes de forma lúdica e responsável e que potencializam a progressão da aprendizagem.

7 Referências

BARTON, David; LEE, Carmen. Linguagem online: textos e práticas digitais.

Tradução de Milton Camargo Mota. São Paulo: Parábola, 2015.

DUDENEY, Gavin; HOCKLY, Nicky; PEGRUM, Mark. Letramentos digitais.

Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2016.

CANDLIN, Chris; HADFIELD, Jill. Prefácio. In: DUDENEY, Gavin; HOCKLY, Nicky;

PEGRUM, Mark. Letramentos digitais. Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo:

Parábola, 2016.

ERSTAD, Ola. La digital literacy nella scuola: l’esperienza norvegese. Italian Jounal of Educational Technology. v. 16. n. 1, 2008. Disponível em:

http://ijet.itd.cnr.it/article/view/332/265. Acesso em: 07 jun. 2017.

LEITE, Josieli Almeida de Oliveira; BOTELHO, Laura Silveira. Letramentos múltiplos:

uma nova perspectiva sobre as práticas sociais de leitura e escrita. Minas Gerias:

Revista Eletrônica da Faculdade Metodista Granbery. v. 10, jan/jun. 2011.

Disponível em: http://re.granbery.edu.br. Acesso em: 09 jun. 2017.

ROJO, Roxane. Gêneros discursivos do círculo de Bakhtin e multiletramentos. In:

ROJO, Roxane. (org.). Escola conectada: os multiletramentos e as TICs. São Paulo:

Parábola, 2013.