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Essas coisas as Musas, língua doce orvalho e de sua boca fluem palavras de mel; os povos todos olham em sua direção ao atribuir juízos com retos julgamentos; ele, então, falando algo sem vacilar, logo mesmo um grande litígio habilmente faz cessar! Pois eis por que há reis conscientes: porque ao povo prejudicado na praça cumprem obras reparadoras inteiramente, consolando-os com palavras suaves. Indo pela assembleia, propiciam-no como a um deus com reverência de mel, e sobressai entre os que se aglomeram. Tal a sagrada dádiva das Musas aos humanos! Pois das Musas e de Apolo que atinge à distância homens são cantores pela terra e citaristas, e de Zeus reis! E é próspero quem quer que as Musas amarem: doce de sua boca flui a voz! Pois mesmo se alguém tendo luto em seu recém-afligido ânimo espanta-se ao sofrer no coração, então um cantor,79 das Musas servo, as glórias dos antigos homens e os grandes deuses que têm o Olimpo e rápido vai se esquecendo das chateações e dos cuidados: nem se lembra, pois rapidamente viraram-no os dons das deusas! Salve, crias de Zeus! Dai-nos o canto desejável! Glorificai a sagrada raça dos imortais que são sempre, os quais da Terra nasceram e do Céu estrelado, e da Noite obscura, e ainda aquele que nutriu oMar salgado!

Hesíodo5

Na epopeia grega, os atributos que enalteciam Zeus eram concedidos por suas filhas cantoras, para aqueles que as honrassem, tal como manifestado na sequência do proêmio. Calíope, conhecida como a inspiradora das poesias lírica e épica, era também uma das nove musas da mitologia grega, filha de Zeus e Mnemosine. A deusa entoava seu canto nos festins do Olimpo, após os violentos combates que abalavam o universo, na guerra dos deuses. A filha de Mnemósine providenciava que os grandes e admiráveis feitos dos heróis fossem lembrados e

5(HESÍODO,2007, p.107).

exaltados por gerações. Sua voz também se elevava através dos poetas, rapsodos, contadores de histórias que se apresentavam nos festins. Desde a Antiguidade, há o entendimento de que o nome Calíope seria formado pela associação de kállos,

‗beleza‘, e ops, ‗voz‘, significando ‗Belavoz‘. Nesse cenário, ensejados pelo desejo de perpetuar a memória de um patrimônio de narrativas legendárias, cujos protagonistas eram personagens de elevada estirpe, munidos com virtudes e feitos excepcionais, surgiu o termo épico, poema longo, que provém do grego épos e significa ‗discurso‘. À vista disso, podemos concluir que a épica adveio da oralidade ancestral grega e que sua produção encontrou paralelos em outras civilizações, como a egípcia, a babilônica, a indiana antiga e, ainda, nas civilizações ocidentais do período medieval, a exemplo das narrativas anglo-saxãs, germânicas e escandinavas. São inúmeras as narrativas produzidas no mundo e há ―uma variedade prodigiosa de gêneros distribuídos entre substâncias diferentes, como se toda a matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas‖

(BARTHES, 2008, p. 19).

Etimologicamente, a palavra narrar vem do verbo latino narrare, que significa expor, contar, relatar, trazer à memória, dar a conhecer, tornar lembrado um acontecimento real ou imaginário. Embora existam ao longo do tempo diversos estudos que abordaram diferentes pontos de vista acerca da definição de epopeia ou narrativa, ainda não há uma acepção categórica que consiga abarcar tal papel.Constatamos, assim, que o termo narrativa apresenta diferentes definições em distintos campos do saber.

Genette (1976, p. 255) define narrativa ―como a representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem, e particularmente da linguagem escrita‖, ou seja, a efígie da realidade, a representação do não verbal em verbal.

Toda narrativa comporta com efeito, embora intimamente misturados e em proporções muito variáveis, de um lado representações de ações e de acontecimentos, que constituem a narração propriamente dita, e de outro lado representações de objetos e personagens, que são o fato daquilo que se denomina hoje a descrição (GENETTE, 1976, p. 262).

Dessa forma, a narrativa apresenta a simbiose entre a história; a construção do ato narrativo, que representa o significado; e o discurso narrativo, o significante, isto é, a ―apresentação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem e, mais particularmente, da linguagem

escrita‖ (GENETTE,1979, p. 265), manifestados nas incontáveis narrativas humanas.

Para o autor (1971), o plano discursivo da narrativa apresenta três aspectos conceituais: o enunciado narrativo, o conteúdo do enunciado e o ato de narrar tomado em si.

Empregamos corretamente a palavra narrativa [récit] sem nos preocuparmos com sua ambiguidade, por vezes sem a percebermos, e algumas das dificuldades da narratologia derivam talvez de tal confusão.

Parece-me que, se quiser começar a ver mais claro desse domínio têm que distinguir-se claramente sob este termo três noções distintas (GENETTE, 1979, p. 23).

No primeiro sentido, a narrativa é concebida ao designar o enunciado narrativo, o discurso oral ou escrito, que assume a relação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos e leva em conta a história e o discurso narrativo que a anuncia. No segundo, a narrativa é a sucessão de acontecimentos, reais ou fictícios, que constituem o objeto desse discurso e seus diversos encadeamentos. Já no terceiro sentido, a narrativa consiste no ato de narrar, a narração de um fato propalado por um narrador.

Este estudo, assim como os estudos de Genette (1979, p. 25), baseia-se

[...] essencialmente, na narrativa em seu sentido mais corrente, isto é, de discurso narrativo [...] um texto narrativo. Mas, como se verá, a análise do discurso narrativo, tal como o entendo, implica constantemente o estudo das relações, por um lado, entre esse discurso e os acontecimentos que relata (narrativa no segundo sentido), por outro lado, entre esse mesmo discurso e o acto que o produz realmente ou ficticiamente: narrativa no terceiro sentido.

Destarte, adotamos nesta Tese a perspectiva da narrativa como discurso e a concebemos tal como Genette (1979). Nesse âmbito, entendemos a narrativa como a forma de organizar nosso discurso, oral ou escrito; as nossas experiências; e os nossos conhecimentos, manifestados pelos elementos da diegese, ao designar o conjunto de ações segundo princípios cronológicos.

No que diz respeito à estrutura da narrativa, Barthes (2008, p.20) menciona que

[...] ou bem a narrativa é uma simples acumulação de acontecimentos, caso em que só se pode falar dela referindo-se à arte, ao talento, ou ao gênio do narrador (do autor) – todas formas míticas do acaso – ou então possui em comum com outras narrativas uma estrutura acessível à análise, mesmo que seja necessária alguma paciência para explicitá-las; pois há um abismo entre a mais complexa aleatória e a mais simples combinatória, e ninguém pode combinar (produzir) uma narrativa, sem se referir a um sistema implícito de unidades e regras.

Para o autor, a narrativa surgiu junto com a própria história dahumanidade.Por conseguinte, suas formas são infinitas e presentes em diferentes organizações discursivas, tempos, lugares e sociedades.

[...] a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela linguagem fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas as substâncias; está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopéia, na história, na tragédia, no drama, na comédia, na pantomina, na pintura, no vitral, no cinema, nas histórias em quadrinhos, no fait divers, na conversação (BARTHES, 2008, p. 19).

Diante disso, ao pensar no gênero marcado pelo modo narrativo do discurso, como é o caso do objeto deste estudo, compreendemos que a narrativa emergiu a partir da história social, ou seja, não existe povo sem narrativa de vida, ―todas as classes, todos os grupos humanos, têm suas narrativas, e frequentemente estas narrativas são apreciadas em comum por homens de cultura diferente, e mesmo oposta‖ (BARTHES, 2008, p. 19).

Ainda em relação à narrativa, podemos esmiuçar também os modos, configurados de acordo com as escolhas do narrador, seja pela representação ou narração. Assim, quando o narrador apenas mostra o fato de forma objetiva, faz uso da representação e, no momento em que conta o acontecimento e expressa subjetividade, utiliza a narração.

Para Genette (1979, p. 25), a narração é o ―acto narrativo produtor e, por extensão, o conjunto da situação real ou fictícia‖. No estudo narratológico que lida com o discurso e a interação social, tem-se a narração como expressão cognitiva complexa, por meio da qual as pessoas narram suas histórias. São as estruturas sentenciais que ilustram a organização da nossa vida e dos espaços. Desse modo, depreendemos que a narração é considerada uma atividade inerente ao ser humano, consistindo no ato de contar ou ler histórias, enquanto a narrativa pressupõe a apresentação de uma sequência de acontecimentos, reais ou fictícios, ensejados pelo desejo do narrador em se revelar ao outro por meio dos acontecimentos relatados.

Charaudeau (2019) concorda com Genette (1979) ao mencionar que os modos de organização da narrativa são caracterizados por uma dupla articulação

―construção de uma sucessão de ações e a realização de uma representação narrativa‖. Diante disso, os discursos se qualificariam como narrativos por

demonstrar uma representação narrativa, haja vista que, sua construção lógico narrativa dar-se-á mediante o processo de narração.

As narrativas humanas permeiam as relações sociais, estabelecendo uma estreita ligação entre a memória e a linguagem. Isso significa que, antes de ser falada ou escrita, existe uma certa linguagem sob a forma de armazenamento de informações na nossa memória. Revelar algo que está memorizado é rememorar uma recordação ou fato por meio do comportamento narrativo. Desse modo, entendemos que as memórias de narrativas de vida de idosos quilombolas são gêneros discursivos advindos de contextos e situações de uso da língua.

Tal qual Charaudeau (2019), consideramos situação como o ambiente físico e social do ato de comunicação, e contexto como o ambiente textual de uma palavra ou de uma sequência de palavras. Presumimos, assim, que a situação equivale à parte externa do ato de linguagem, enquanto o contexto diz respeito ao aspecto interno. Em virtude da perspectiva discursiva e ideológica das narrativas orais e escritas que constituem o corpus deste estudo, buscamos compreender ainda as finalidades discursivas do ato de comunicação. Para tanto, tomamos por base os pressupostos de Charaudeau (2019) ao estabelecer quatro modos de organização do discurso do discurso, sendo eles respectivamente: enunciativo, descritivo, narrativo e argumentativo. Abaixo ilustramos os modos de organização do discurso.

Quadro 6 - Modos de organização do discurso

Fonte: CHARAUDEAU,2019, p. 75.

Marcuschi (2010), influenciado por Werlich, utiliza outra nomenclatura para a classificação intratextual: o que Charaudeau (2019) denomina modos de organização do discurso, nomeia como tipos de texto, e aos tipos de texto, como domínios discursivos. Em seguida apresentamos o quadro de organização dos discursos na perspectiva de Charaudeau e Marcuschim adaptado por Oliveira:

Quadro 7 - Modos de organização do discurso como tipos de texto

Fonte: HENRIQUES;SIMÕES,2004, p. 187.

Cabe mencionar que, para o presente estudo, logramos os termos tal qual Charaudeau (2019). Outrossim, a critério de análise da situação e do contexto discursivo, é considerado apenas o modo narrativo do discurso. Segundo Charaudeau (2019, p. 151), ―o modo de organização narrativo é delicado de se tratar. Por um lado, este modo é objeto, sob diversas formas [...]. Por outro lado, uma longa tradição escolar [...] fez dele seu principal objeto de ensino‖.

A obra Dicionário de Análise do Discurso (MAINGUENEAU, 2004, p. 337, 338) sumariza o modo de organização narrativo como

[...] aquele que permite organizar a sucessão de ações e eventos nos quais os seres do mundo estão implicados [...] com a finalidade de narrar, de contar algo [...] a fim de transmitir uma dada representação do mundo em conformidade com as intenções do narrador/contador.

De acordo com Charaudeau (2019, p. 153), ―para que haja narrativa é necessário um contador (narrador, escritor, testemunha, etc.) investido de uma intencionalidade, isto é, de querer transmitir alguma coisa a alguém, um destinatário‖. Da mesma forma, para que uma sucessão de episódios narrados/contados seja considerada como uma narrativa, é indispensável a inserção do evento em um contexto definido. Assim, infere-se que só haverá narrativa se no

fato narrado houver a presença de um narrador/contador, um destinatário e um contexto.

Evidenciam-se, nesse tocante, as diferentes maneiras de entender o termo contar, que vai além da apresentação de uma sequência de fatos: contar histórias representa uma busca constante e infinitapelas respostas às perguntas fundamentais que o homem se faz: "Quem somos nós? Qual é a nossa origem?" [..]

destino? Em outras palavras: 'qual é a verdade do nosso ser? (CHARAUDEAU, 2019, p. 712). De acordo com o autor, contar envolve a organização dos atos e acontecimentos em sucessão de eventos que formam a estrutura de uma narrativa e caracterizam o modo de organização do discurso.

[...] é uma atividade linguageira cujo desenvolvimento implica uma série de tensões e até mesmo de contradições. [...] é também construir um universo de representação das ações humanas por meio de um duplo imaginário baseado em dois tipos de crenças que dizem respeito ao mundo, ao ser e à verdade (CHARAUDEAU, 2019, p. 154).

Assim, compreendemos a narrativa como uma forma de organização dos acontecimentos, caracterizada pela construção de uma sucessão de ações, motivada pela intenção do sujeito. Já o modo de organização corresponde aos componentes estruturais da narrativa, ou seja, aos elementos organizacionais que podem ser delineados de acordo com os estudos de Adam (1997) e similares ao proposto por Charaudeau (2019), tais como uma situação inicial, uma tomada de consciência firmando um estado de busca e o resultado da ação demandada. Os elementos da narrativa remontam, grosso modo, à definição da intriga, trazida por Aristóteles, segundo a qual uma ação estruturada em começo, meio e fim é centrada no par nó/desfecho, esquema canônico da narrativa, um discurso que apresenta linearidade temporal.

Já para Bruner (1997), a narrativa é o princípio organizador da experiência humana, e apresenta três especificidades:

1) Sequencialidade: a forma como é construída em torno de expectativa canônica diz respeito às leis de conduta estabelecidas por uma sociedade;

2) Realidade versus ficção: a narrativa pode ser real ou imaginária, determinada pela configuração geral do enredo;

3) Excepcionalidade versus generalidade: ela pode forjar negociações entre o excepcional e a canonicidade.

Nesse âmbito, entendemos que explorar a natureza da narrativa seria examinar um modo de raciocínio de um povo ou de uma cultura, pois suas diferentes formas apresentam uma fonte de estudos valiosa e quase inesgotável da memória social. A narrativa não é apenas um texto oral ou escrito, mas um discurso construído por meio das ideias expostas no processo narrativo. Portanto, após ponderarmos considerações acerca dos pressupostos teóricos de narrativa e narração, observamos, a seguir, como se processa a formação discursiva da memória na composição das narrativas orais de idosos quilombolas.