Adotamos como viés metodológico a pesquisa de natureza qualitativa e de cunho etnográfico, uma vez que nos interessa também compreender os fenômenos que envolvem os sujeitos e o contexto da pesquisa, da mesma forma que suas intrincadas relações sociais, culturais, históricas e identitárias. A etnografia como estratégia de pesquisa qualitativa é considerada uma metodologia de investigação científica, que proporciona ao pesquisador a imersão no campo pesquisado, a fim de observar e interagir com os sujeitos investigados. Para tanto, o pesquisador deve ir a campo e assimilar o fenômeno estudado, a partir dos significados que os indivíduos dão às suas ações dentro do espaço em que constroem suas relações sociais, ou seja, uma relação dinâmica entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito (BAPTISTA, 1994).
Neste sentido, lidamos com a leitura de entidades, considerando ―não apenas agentes interpretativos de seus mundos, mas também aqueles que compartilham de suas interpretações à medida que interagem com outros e refletem sobre suas experiências no curso de suas atividades cotidianas‖ (MOREIRA, 2002, p. 50). A etnografia como perspectiva de investigação qualitativa, apresenta-se nesse estudo como a melhor escolha metodológica, em virtude de combinação das técnicas, recursos e estratégias interativas.
Depreendemos, portanto, que na pesquisa etnográfica o pesquisador se insere na realidade social investigada com a finalidade de observar as percepções e comportamentos da rotina diária do grupo social.
[...] é uma maneira de estudar pessoas em grupos organizados, duradouros, que podem ser chamados de comunidades ou sociedades. O modo de vida peculiar que caracteriza um grupo é entendido como a sua cultura. Estudar a cultura envolve um exame dos comportamentos, costumes e crenças aprendidos e compartilhados do grupo (ANGROSINO, 2009, p. 16).
Inserido no campo de pesquisa, o pesquisador poderá utilizar múltiplos métodos e estratégias de coleta de dados para a assimilação do objeto estudado.
Para Angrosino (2009, p. 34), ―é um método de pesquisa que busca definir padrões previsíveis de comportamentos de grupo [...] baseado em trabalhos de campo, personalizado, multifatorial, de longo prazo, indutivo, dialógico e holístico‖, sendo necessário que o estudioso conheça e siga alguns critérios para o desenvolvimento da pesquisa, como por exemplo: eleição do campo de pesquisa, escolha das técnicas de coleta de dados, interpretação e apresentação dos dados. López (1999, p. 48) também descreve as principais fases para a realização de uma investigação científica de cunho etnográfico:
1ª fase - se apresentam as questões relativas à investigação e marco teórico preliminar, selecionando um grupo para o estudo. 2ª fase - se aborda o acesso ao cenário, a escolha dos informantes chaves, o início das entrevistas e as técnicas de coleta de dados e de registro. 3ª fase - a coleta de dados. 4ª fase - análise e interpretação dos dados.
Assim como Angrosino (2009) e López (1999), ao iniciarmos o trabalho de pesquisa a campo, procuramos observar fenômenos de estudo a partir das perspectivas de vida dos membros do lócus investigado. Seguindo as diretrizes de pesquisa propostas pela etnografia, elegemos como campo de estudo uma comunidade quilombola rural do interior do estado de Mato Grosso do Sul.Para a coleta de dados, realizamos entrevistas em rodas de conversas com idosos, gravadas em áudio e vídeos, transcodificadas, retextualizadas e analisadas de acordo com os pressupostos dos estudos da língua mencionados nos primeiros capítulos dessa Tese.
Para que esta investigação fosse possível, houve a imprescindibilidade em estabelecer relação de confiança mútua entre pesquisadora e sujeitos da comunidade investigada. Nesta perspectiva, buscamos estudar as vivências dos sujeitos de uma comunidade tradicional com a finalidade de entender suas práticas e
atitudes em contextos reais de uso da Língua Portuguesa nas modalidades oral e escrita.
[...] dar Voz a uma minoria silenciosa; é caminhar em um mundo desconhecido; é abrir caminhos passando nas contingências para a autodeterminação, para a inclusão na escola, na vida social, no mundo da existência solidária e cidadã. Fazer etnografia é um pouco de doação de ciência, de dedicação e de alegria, de vigor e de mania, de estudo e de atenção. Fazer etnografia é perceber o mundo estando presente no mundo de outro, que parece não existir mais (MATTOS; CASTRO, 2011, p. 45).
A etnografia surgiu na Antropologia Cultural e Sociologia Qualitativa e é considerada um modelo de investigação tradicional utilizada pelos cientistas sociais para estudar a realidade social. No entanto, hoje em dia, ocupa também lugar reconhecido entre as várias possibilidades de estudar os fenômenos que envolvem os seres humanos. Assim, a etnografia, colabora tanto com as investigações da área das ciências humanas quanto das ciências da linguagem, principalmente em trabalhos correlatos a esta Tese, em que a pesquisadora se propõe a investigar aspectos inerentes à vida em sociedade, costumes, religiosidade, tradições, histórias, nuanças que dizem respeito à constituição social da memória individual ou coletiva, resguardadas na modalidade oral, escrita ou multimodal da língua, assim como se manifesta tal processo, quando realizado por estudantes, os quais visam eternizar a fala dos idosos em uma comunidade tradicional quilombola.
Tanto para a realização da aplicabilidade teórica proposta nesta pesquisa quanto para a análise linguística do objeto de estudo, optamos como viés metodológico uma pesquisa de natureza qualitativa e de cunho etnográfico, visto que nos interessa compreender os fenômenos que envolvem os sujeitos e o contexto da pesquisa, incluindo suas relações sociais, culturais, históricas e identitárias sob a perspectiva sociodiscursiva.
Assim, construímos oficinas de Língua Portuguesa, doravante OLP, aplicadas em projeto de classe para estudantes quilombolas, mais especificamente numa turma de 9º Ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Zumbi dos Palmares, localizada no município de Jaraguari, interior de Mato Grosso do Sul.
Para a execução das OLP, houve a imprescindibilidade de submissão do projeto de doutorado à autorização da Secretaria de Estado e Educação de Mato Grosso do Sul por meio da coordenadoria de diversidade étnico-racial, da direção colegiada da escola Zumbi dos Palmares, da Associação quilombola, bem como do
Conselho de ética da UERJ. Após obtermos as anuências dos órgãos representativos legais, as atividades constantes na OLP passaram a compor o plano de aula mensal do professor de Língua Portuguesa da turma correspondente, que reconhecemos nesta pesquisa como professor colaborador.
No capítulo seguinte, apresentamos os procedimentos adotados para a construção das produções discursivas que constituem o corpus de análise desta pesquisa.
5 PROCEDIMENTO USADO PARA CONSTRUÇÃO DO CORPUS DE ANÁLISE
Neste âmbito, apresentamos, ainda, as atividades aplicadas em projetos de classe, por meio de oficinas de Língua Portuguesa, que constituíram as produções discursivas dos estudantes quilombolas e serviram de arquétipo para análise posterior. À vista disso, também ensejamos a prática apresentada como uma alternativa trabalho para o estudo da língua em uso e aplicabilidade teórica em sala de aula.
5.1Retextualização multimodal: teoria aplicada em oficinas de Língua