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NAS TRILHAS DE UM ANDARILHO: O MARQUÊS DE PELLEPORT

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 41-60)

O libelista, jornalista e homem de letras da França do século XVIII Anne Gédéon Lafitte de Pelleport, ou simplesmente Marquês de Pelleport, foi certamente uma das figuras mais intrigantes de seu tempo. Autor de romances infamantes contra a nobreza francesa, cheios de calúnia e erotismo, esse polêmico escritor de libelos tentou fazer da literatura um meio de ascensão social e enriquecimento através da chantagem, metendo-se em negociatas obscuras, achacando os membros da corte de Versalhes, e negociando com agentes secretos enviados por eles para suprimir as atividades dos libelistas que, como ele, haviam migrado

para Londres para fugir de lettres de cachet e de lá produziam e divulgavam seus romances difamatórios. De acordo com Robert Darnton:

Quando escritores parisienses descobriam sua carreira estagnada, seu aluguel atrasado ou uma lettre de cachet [carta de prisão ou de exílio] pairando sobre sua cabeça, pegavam a estrada e buscavam fortuna onde quer que pudessem explorar o fascínio por todas as coisas francesas. Eram tutores, tradutores, mascateavam panfletos, dirigiam peças, metiam-se no jornalismo, aventuravam-se no mundo das publicações e espalhavam a moda parisiense por toda a parte, de boinas a livros. A maior colônia de expatriados estava em Londres, que recebera de braços abertos refugiados desde a perseguição dos huguenotes e as aventuras de Voltaire. (...). Os refugiados franceses aprenderam truques da imprensa britânica, mas também aperfeiçoaram um gênero próprio: o libelo (libelle), um relato escandaloso da vida privada de grandes figuras da corte e da capital. O termo não é muito usado em francês moderno, mas pertencia ao vocabulário comum no comércio livreiro no Antigo Regime; e os autores de tais obras eram registrados nos arquivos da polícia como libelistas (libellistes) (DARNTON, 2015, p. 10).

Esse aventureiro das letras vivia entre os expatriados franceses radicados em Londres, em um submundo de autores indigentes conhecido como Grub Street17, no qual os mesmos estavam imersos em duras condições de vida, e se submetiam a todo tipo de subemprego, sobretudo na imprensa marrom, compondo poemas, panfletos difamatórios e tudo o mais que lhes pudesse render alguns trocados. Nesse meio, Pelleport se tornou conhecido tanto pela sua grande habilidade enquanto escritor, quanto por seus desregramentos morais, sendo descrito muitas vezes como um patife movido unicamente pela busca por satisfazer suas necessidades e seus desejos. Jean Claude Finni, outro libelista contemporâneo de Pelleport, o descreveu

―não sñ como autor dos piores libelos produzidos em Londres, mas também como um ‗patife‘, um ‗monstro‘ e um discípulo de Diágoras [filñsofo ateu do século V a. C.]‖ (DARNTON, 2015, p. 32).

Os estudos do historiador cultural Robert Darnton, grande estudioso do Século das Luzes, são hoje a maior fonte contemporânea de informações sobre a trajetória de Pelleport e sobre sua obra. Na introdução feita ao romance Os boêmios (2015), do Marquês de Pelleport, Darnton faz um breve relato sobre as qualidades estéticas e temáticas da referida obra, e celebra a recente reedição americana, por ele viabilizada no ano de 2010 (a primeira desde 1790), a qual trouxe a lume esse importante exemplar da literatura libertina do século XVIII, depois de um lapso de mais de 200 anos. Darnton nos oferece dados sobre o contexto de produção desse romance libertino a partir da menção a aspectos biográficos de Pelleport, e

17 O termo referia-se, simultaneamente, a uma rua em Londres onde havia uma imensa concentração de autores indigentes, atraindo ―escritores fracassados desde os tempos elisabetanos‖ (DARNTON, 2015, p.8); e também passou a ser usado como termo pejorativo para se referir a escritores medíocres, de baixo valor literário.

tece comparações com a vida e a obra de outro importante escritor do período, o Marquês de Sade:

Enquanto o marquês de Sade rascunhava Os 120 dias de Sodoma na Bastilha, outro marquês libertino numa cela próxima escrevia uma novela – igualmente afrontosa, cheia de sexo e calúnia, e mais reveladora do que tinha a dizer sobre as condições dos escritores e do escrever em si. No entanto, o vizinho de Sade, o marquês de Pelleport, hoje é completamente desconhecido, e seu romance, Os boêmios, quase desapareceu. Apenas uma meia dúzia de exemplares é encontrada em bibliotecas pelo mundo (DARNTON, 2015, p. 7).

Uma das facetas desta obra destacada por Robert Darnton trata justamente do retrato das condições sob as quais viviam os escritores da França no século XVIII, bem como do sistema de produção e comercialização de obras clandestinas, num contexto marcado pela presença de uma imensa leva de autores indigentes, os quais submetiam seu talento a todo o tipo de atividades (lícitas ou ilícitas), como forma de garantir o sustento na dura rotina da Grub Street. Embora a famosa Grub Street estivesse situada em Londres, o termo foi usado, por extensão, para se referir também ao contexto de indigência de escritores fracassados presentes em Paris, os quais, diferentemente dos franceses radicados em intensa concentração na rua londrina, ―estavam espalhados em sñtãos por toda a cidade‖ (DARNTON, 2015, p. 9).

Em seu intuito de justificar a importância da obra em questão, Robert Darnton nos diz que o referido romance ―merece ser resgatado do esquecimento porque oferece um passeio pelo interior das zonas mais coloridas, porém menos familiares da vida literária. E é também uma excelente leitura‖ (2015, p. 9). Darnton relata ter se deparado com o romance Les bohémiens quando se debruçava por pesquisar a biografia do Marquês de Pelleport, por ser este, segundo o pesquisador, ―um dos personagens mais interessantes‖ encontrados pelo mesmo ―durante muitos anos cavoucando arquivos‖ (2015, p. 7). Segundo as fontes a que teve acesso durante sua pesquisa, Darnton caracteriza o Marquês de Pelleport como sendo:

...de acordo com todo mundo que o conheceu, um velhaco, um tratante, um patife, um sujeito realmente canalha. Encantava e seduzia aonde quer que fosse, deixando uma trilha de sofrimento atrás de si. Tinha uma vida miserável, pois foi deserdado pela família e dependia da perspicácia e da pena para escapar da penúria. Foi um aventureiro que passou a maior parte da vida na estrada. Seu itinerário o levou pelas rotas que ligavam Grub Street, Paris, a Grub Street, Londres, e seu romance oferece um relato picaresco de ambas (2015, p. 9-10).

Essa figura intrigante, contemporânea de Sade e da Revolução Francesa, tinha sido, assim como muitos outros escritores expatriados, obrigado a fugir da França por conta de uma lettre de cachet emitida no intuito de levá-lo à prisão. Pelleport esteve preso tantas vezes que

a maioria das fontes acessadas por Darnton para compor a sua biografia vem dos relatórios de suas prisões, como os documentos da Bastilha contidos em La Bastille dévoilée (1789) e La Police de Paris dévoilée (1790), e em memórias de seus contemporâneos mais ilustres, como Brissot de Warville, com quem Pelleport teve laços de amizade, parcerias nos negócios e, sobretudo, grandes desavenças. Entre os registros dos interrogatórios dos prisioneiros da Bastilha, figura o de Brissot: ―Intitulada ‗Mémoire pour le sieur Brissot de Warville‘, a denúncia começava com um esboço do caráter de Pelleport: ‗temperamento vigoroso‘, ‗humor agradável‘, mas ‗tem um amor violento por mulheres e prazer, que é sua perdição‘‖

(DARNTON, 2015, p. 27).

Brissot fora preso um dia depois de Pelleport por suspeita de envolvimento em suas negociatas com libelos. É certo que, na tentativa de se livrar das acusações, jogaria a culpa unicamente em Pelleport, o que torna seu depoimento um tanto tendencioso. Entretanto, a descrição do caráter de Pelleport feita por Brissot não deixa de despertar interesse, sobretudo se somada às declarações de outros libelistas com as quais as suas coadunam. De acordo com Darnton, Brissot afirmara que ―Pelleport tinha sagacidade de sobra, modos corajosos, um desenfreado gosto pelo prazer e um escárnio profundo por todo o tipo de moralidade‖ (2015, p. 22). A imagem de Pelleport se completa com o conhecimento sobre a aversão que Félicité, esposa de Brissot, tinha do autor, visto que a mesma ―considerava Pelleport um canalha tão grande que não permitia sua entrada na casa dela – conquistando assim seu ódio imorredouro (outro tema que apareceria em Os boêmios)‖ (DARNTON, 2015, p. 28).

Ao recompor as pegadas desse polêmico autor através de um trabalho de pesquisa minucioso nos arquivos do 1700, bem como ao trazer novamente a lume uma obra há muito sequestrada dos olhos do público e da crítica, Robert Darnton não só nos brinda com um instigante exemplar da literatura libertina do século XVIII, diretamente entrelaçada à vida de seu intrigante autor, como também nos possibilita vislumbrar uma importante janela para o sistema de produção, circulação e recepção literária nos momentos que antecederam a Revolução Francesa.

2.1. Biografia

Anne Gédéon Lafitte de Pelleport nasceu em 1756 em Stenay, uma pequena cidade perto de Verdun, às margens do rio Mosa, e morreu em Paris no ano de 181018. Nascido em uma família da velha aristocracia da espada, da corte de Monsieur (irmão do rei Luís XIV), Pelleport era descendente de gerações sucessivas de chefes militares. De acordo com o relato presente em La Police de Paris dévoilée (v. II):

Ele é filho de um cavalheiro de Monsieur, o qual era filho de um senhor de Joyeuse Grandpré, amante de sua mãe. Ele foi demitido de dois regimentos em que serviu, Beauce e Isle-de-France, na Índia, foi trancado por ordem do rei, por requisição de sua família, quatro ou cinco vezes por atrocidades contra a honra: ele foi casado na Suíça, onde vagou por dois anos19 (MANUEL, 1790, p. 235, tradução nossa).

No último capítulo de seu romance Les bohémiens, Pelleport faz uma incursão autobiográfica através da personagem de um peregrino, cuja trajetória coincide em vários pontos com a vida do autor. De acordo com esse mesmo relato autobiográfico de Pelleport, seu pai, capitão de cavalaria, tinha certo desprezo pelas letras, e desejava a carreira das armas também para seus filhos. Entretanto, uma criada parisiense contratada por sua mãe lia para o pequeno Pelleport as Fábulas, de La Fontaine, e o Dom Quixote, de Cervantes. Em pouco tempo Pelleport havia aprendido a ler e, ao contrário dos irmãos, demonstrava desde cedo um forte pendor para as letras, fato esse que não agradou nem um pouco ao pai, ―mas como tinham me ensinado a manejar as armas, um pouco a dançar, como eu montava muito bem um cavalinho, e ia arregaçando lindamente as anáguas de nossas criadas, logo se fez a paz‖

(PELLEPORT, 2015, p. 232). Seu pai então permitiu que Pelleport tivesse um tutor, o qual inicialmente tentara lhe ensinar o catecismo, falhando miseravelmente, e por fim acabou se detendo nos mitos gregos e ensinando a Pelleport as fábulas de Fedro. Essa situação durou pouco, pois a mãe de Pelleport faleceu precocemente e, conforme é relatado em La Police de Paris dévoilée (v. II), ―seu pai se casou em segundas núpcias com a filha de um alberguista de Stenay, chamado Givry20‖ (MANUEL, 1790, p. 235-236, tradução nossa), a qual, enquanto madrasta, não tinha uma boa relação com os filhos do primeiro casamento. O tutor de

18 Para as datas de nascimento e de morte de Pelleport optamos por nos basear em Darnton (2015), o qual cita como fontes La Bastille dévoilée (1789), La Police de Paris dévoilée (1790), e Biographie universelle (Michaud) ancienne et moderne (1843-65). Entretanto, há fontes que citam as datas de 1754 para o nascimento e 1807 para a morte, em Liège (fontes, ao que parece, acessadas pelo próprio autor das orelhas da edição brasileira de Os boêmios, o qual reproduz ali essas informações).

19 O texto em língua estrangeira é: ―Il est fils d‘un gentilhomme de Monsieur, qui luimême étoit fils d‘un M. de Joyeuse Grandpré, amant de sa mère. Il a été renvoyé de deux régimens dans lesquels il a servi, Beauce et l‘Isle- de-France, dans l‘Inde, a été renfermé d‘ordres du roi, à la réquisition de sa famille, quatre ou cinq fois pour des atrocités contre l‘honneur: il s‘est marié en Suisse, où il a erré pendant deux ans.‖

20 O texto em língua estrangeira é: ―Son pere a épousé en secondes noces la fille d‘un aubergiste de Stenay, nommé Givry‖.

Pelleport então foi demitido, e o autor foi enviado para estudar em Paris. Consta em La Police de Paris dévoilée (v. II) que:

Ele é aluno da escola militar, e não é o melhor que ela fez: ele tem dois irmãos que também eram alunos e saíram como ele, desagradávelmente dos regimentos em que eles foram colocados; a única diferença entre eles é que eles são menos espirituosos do que ele21 (MANUEL, 1790, p. 235, tradução nossa).

Pelleport era o filho mais velho de uma família de cinco filhos, sendo três homens e duas mulheres. Ele e os dois irmãos seguiram a carreira das armas, enquanto suas irmãs foram mandadas para um convento. Durante sua permanência na Escola Militar em Paris, Pelleport

―ficou muito amigo de um de seus professores, um abade que lhe ensinou os clássicos num espírito de puro paganismo‖ e que, devido a intrigas criadas por outros, enciumados da relação prñxima dos dois, ―acabou sendo expulso do corpo docente‖, não sem antes presentear

―ao jovem poeta nascente cñpias de Ovídio, Virgílio e Horácio‖ (DARNTON, 2015, p. 48).

Essa familiaridade com os clássicos seria uma marca presente em diversas obras de Pelleport, a exemplo do Les bohémiens.

2.1.1. Entre a pena e a baioneta

Já como militar, o marquês de Pelleport serviu em dois regimentos, Beauce e Isle-de France, tendo inclusive viajado de Saint-Malo em missão a Madagascar e à Índia, quando foi a Pondichéry em um navio comandado por um capitão chamado Patrice Astruc, em 1774.

Mas após uma carreira desastrosa no exército, acabou sendo expulso dos dois regimentos em que serviu. De volta à França, Pelleport passou a frequentar o círculo literário de Edme-Jany Mentelle, professor de história e geografia da Escola Militar em Paris de quem o autor havia sido aluno, com pretensões a deixar sua marca na ―república das letras‖. Durante esse convívio, conheceu Brissot de Warville, um advogado que havia comprado seu diploma à Universidade de Reims e que tinha aspirações a philosophe, estabelecendo com ele uma relação de grande amizade (ao menos por um certo tempo). Brissot havia trabalhado

21 O texto em língua estrangeira é: ―Il est élève de l‘école militaire, et ce n'est pas le meilleur qu'elle ait fait: il a deux freres qui y ont été aussi élevés [sic], et qui sont sortis de même que lui, désagréablement des régimens dans lesquels ils ont été placés; la différence qu'il y a entre eux seulement, c‘est qu‘ils ont moins d'esprit que lui‖.

revisando provas da edição francesa do Courier de l’Europe em Bolougne-sur-Mer, onde por sua vez houvera conhecido Marie-Cathérine Dupont (mãe de Félicité Dupont, que viria a ser sua futura esposa), viúva de um comerciante, e que tocava sozinha os negócios de seu falecido marido. Madame Dupont era amiga de Mentelle, e havia lhe recomendado a Brissot, quando da ida deste a Paris. Félicité, que fora hospedada aos cuidados de Mentelle, passou, assim como Brissot, a frequentar o círculo literário, onde os dois se conheceram. Brissot, Félicité e Marie-Cathérine Dupont seriam, mais adiante, algumas das pessoas ridicularizadas por Pelleport em seu roman à clef satírico Les bohémiens.

Após ter sua prisão solicitada por sua própria família através de uma lettre de cachet devido a ter cometido ―atrocidades contra a honra‖22, Pelleport fugiu para Liège, na Bélgica, e depois para a Suíça, no final dos anos de 1770, sendo lá recebido em Neuchatel por Pierre- Alexandre DuPeyrou, protetor de Rousseau, período em que o autor se envolveu com uma antiga camareira da mulher de seu anfitrião. O casamento de Pelleport é mencionado em um documento presente em La Bastille dévoilée: ―Nascido com uma fortuna muito limitada, o Marquês de Pelleport casou-se com a senhorita de Leynard no principado de Neuchâtel‖23 (MANUEL,1789, p. 66-67, tradução nossa). DuPeyrou inicialmente se opôs ao casamento dos dois, mas após a consolidação do matrimônio aceitou a situação e conseguiu para Pelleport um emprego como tutor na casa de um fabricante próspero chamado Jean Didiey, em Le Locle, onde o autor se fixou com sua esposa e teve pelo menos dois filhos. Durante esse período, Brissot manteve intensa correspondência com Pelleport, o qual passava adiante suas propostas de publicação a um editor da Société Typographique de Neuchâtel, onde este último esperava, sem sucesso, conseguir um emprego. Acerca desse período da vida de Pelleport, marcado pela frustração de expectativas, Darnton afirma que: ―Trocou Paris pela Suíça, onde esperava obter um emprego na Société Typographique de Neuchâtel. Mas tudo o que conseguiu foi um emprego de tutor na Le Locle próxima, e em pouco tempo viu-se sobrecarregado com uma família‖ (DARNTON, 2015, p. 21).

2.1.2. O jornalista maledicente

22 Em um relatório de policial de 1874 publicado em La Police de Paris dévoilée (v. II), o escrivão menciona apenas ―atrocités contre l‘honneur‖ (MANUEL, 1790, p. 235), sem, entretanto, fazer quaisquer especificações quanto à natureza de tais ações.

23 O texto em língua estrangeira é: ―Né avec une fortune très-bornée, le marquis de Pelleport épousa la demoiselle de Leynard dans la principauté de Neuchatel‖.

Em 1783, Pelleport abandonou a família e seguiu para Londres, em busca de fortuna.

Lá reencontrou Brissot já casado com Félicité, e passou a trabalhar no Courrier de l’Europe.

Como jornalista maledicente e polêmico que era, Pelleport não demorou a fazer sentir o veneno de sua pena nas páginas do jornal, o que lhe trouxe alguns reveses. Sobre esse período no Courrier de l’Europe, Darnton afirma que Pelleport escrevia ―sobre toda a sorte de assuntos e dava-se muito bem com seu editor, Antoine Joseph de Serres de La Tour, porém não com o responsável pela publicação, Samuel Swinton, devido a comentários impertinentes que ofendiam alguns assinantes‖ (2015, p. 49). Pelleport menciona um desses imbróglios em que se envolveu por exagerar na mordacidade de sua pena durante o capítulo autobiográfico

―Histñria do peregrino‖, presente em Les bohémiens. No referido capítulo, Pelleport se passa por ―uma assinante‖ do jornal que, supostamente, havia enviado uma carta ao jornal em que se queixava das ―baixezas com que a madame de Sillery e suas semelhantes infectam a educação das crianças (...). E nossa correspondente dizia ainda em sua epístola que o estilo do sr Berquin era digno do marquês de Mascarille, que se tornara pastor‖ (PELLEPORT, 2015, p. 238). O texto de Pelleport motivou uma queixa aos proprietários do jornal, com consequências negativas para o autor. De acordo com Darnton:

Pelleport se refere a um protesto do marquês Du Crest, chanceler do duque de Orléans, contra uma carta publicada no Courrier de l’Europe que criticava os textos pedagógicos de sua irmã, madame de Silleri, condessa de Genlis (1743-1830).

Evidentemente, foi Pelleport quem escreveu a carta e, portanto, quase perdeu o emprego, pois Du Crest queixou-se a Samuel Swinton, dono de dois terços do Courrier. Alfred Berquim, que também se sentiu insultado pela carta, era conhecido como autor de contos morais para crianças (2015, p. 310).

A maledicência que, ao que parece, já estava presente na escrita de Pelleport enquanto jornalista, brotaria com ainda mais vigor em sua lavra como libelista, elevando essa arte da difamação a um nível notável no que se refere à qualidade literária, mas também demonstrando um potencial satírico altamente destrutivo e caluniador, pondo a nu as intimidades alheias, e colorindo-as com as tintas do erotismo e do escândalo.

2.1.3. O escritor libertino

Em Londres, Pelleport encontrou uma grande leva de escritores expatriados que viviam como indigentes e se dedicavam, entre outras atividades, à escrita de libelos. Muitos haviam fugido da França por conta de lettres de cachet emitidas na intenção de os prender.

Segundo Darnton, ―a maior colônia de expatriados estava em Londres‖ (2015, p. 10), onde esses atuavam como tutores, tradutores, mascateando panfletos, dirigindo peças teatrais e se inserindo no meio jornalístico. Dentre suas aventuras no mundo das publicações da imprensa britânica, esses autores dedicavam-se sobremaneira à produção de libelos, atacando em seus relatos escandalosos pessoas de grande notiredade na corte francesa, expondo-lhes a vida privada e atirando à lama sua reputação, utilizando-se para isso de muita calúnia e difamação.

Darnton descreve a atividade dos que viviam de escrever libelos da seguinte forma:

Graças à informação provida por informantes secretos em Paris e Versalhes, criavam livros e panfletos que caluniavam todo mundo, desde o rei e seus ministros até figuras públicas e atrizes. Seus trabalhos circulavam pelo comércio de livros clandestino na França e eram vendidos abertamente em Londres, especialmente numa livraria na St. James Street dirigida por um expatriado de Genebra chamado Boissière (2015, p. 11).

Embora o público francês já estivesse habituado a ler relatos escandalosos sobre a vida privada de pessoas públicas, esses libelos publicados a partir de 1770 foram considerados ameaçadores devido à crise política que marcou a época. Darnton menciona, inclusive, o intrigante caso do mais famoso dos libelos: Le Gazetier Cuirassé, de 1771, escrito por um expatriado francês radicado em Londres chamado Charles Théveneau de Morande. O libelo expunha a vida da corte francesa, com destaque para o chanceler Maupeou, causando um escândalo tão grande que, quando Morande anunciou uma continuação do mesmo, ―um ataque à madame Du Barry intitulado Mémoires secrets d’une femme publique‖ (DARNTON, 2015, p. 12), o governo francês tentou raptá-lo ou mesmo assassiná-lo. Sem sucesso, o governo francês findou por comprar seu silêncio a peso de ouro, de modo que a segunda obra foi integralmente suprimida. Tal caso teria, de certa forma, estimulado os outros libelistas a transformarem a produção de libelos em uma ―operação de chantagem‖. Morande, apñs o acordo, teria se tornado espião do governo francês, delatando muitos dos seus ex-colegas libelistas radicados em Londres.

Figura 8 – Frontispício de Le Gazetier cuirassé

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 41-60)

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