É dever do Estado28 garantir as liberdades constitucionais inerentes a qualquer cidadão livre. Vivemos num estado laico, em que todos os espaços, inclusive os espaços públicos
28Segundo a Constituição Federal de 1988, Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes, relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
II - recusar fé aos documentos públicos;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.
Disponível em: https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/con1988_06.06.2017/art_19_.asp
escolares, não podem fazer nenhuma opção religiosa. Porém, quando olhamos de perto o que vemos, mais uma vez na nossa história vergonhosa de racismo religioso e preconceito racial, é a valorização do cristianismo com músicas, apresentações, festas, cartazes etc. Ainda, segundo a Constituição de 1988, a liberdade religiosa deve consistir em que todo o homem deve ser imune à coação, tanto por parte dos grupos sociais ou de pessoas particulares, de maneira que ninguém obrigue qualquer pessoa a agir contra a própria consciência, nem se impeça a alguém de agir de acordo com seus próprios pressupostos ou crença, em particular ou em público, dentro dos devidos limites. Mas, a raça de um indivíduo, ainda hoje, é um fator determinante para que se respeite ou não o outro. Munanga (2003), ao discutir sobre o conceito de raça, nos ajuda a encaminhar:
o conceito de raça tal como empregamos hoje, nada tem de biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e dominação. A raça, sempre apresentada como categoria biológica, isto é natural, é de fato uma categoria etno-semântica. De outro modo, o campo semântico do conceito de raça é determinado pela estrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a governam (MUNANGA, 2003, p. 4).
Sendo assim, para além do conceito de raça como categoria biológica temos, também, o conceito de raça condicionado às relações de poder da sociedade a partir do modelo eurocentrado, que estabelece, inclusive, a religião de um indivíduo.
A religião deveria nos fortalecer como algo que nos leva ao bem comum a todos.
Porém, o fundamentalismo religioso impossibilita o diálogo e a aceitação do outro e das escolhas que o outro pode fazer. O extremismo é quando esse fundamentalismo é levado a ações que se materializam em violência, seja ela simbólica, psicológica ou física. Assim, o Decreto Lei nº 2.84829 de 07 de dezembro de 1940, em seu artigo 208, diz que: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”, sob a pena de detenção, de um mês a um ano, ou multa. Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.
No Brasil, a Lei nº 7.71630, de 5 de janeiro de 1989, alterada pela Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões em seu artigo 20: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Contudo, a legislação não afasta o direito à
29 Acessado em 20 de novembro de 2017: https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10612290/artigo-208-do- decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940
30 Acessado em 19 de novembro de 2017: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9459.htm
crítica que os seguidores de uma denominação religiosa ou mesmo de quem não tem religião, podem fazer aos de outra e vice-versa.
Este direito à crítica a uma religião é um direito garantido na Constituição Federal do Brasil de 198831, pela cláusula democrática, presente no art. 1º: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito”, pelo art. 5º, IV32: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”, pelo art. 5º, VI33, (“é inviolável a liberdade de consciência e de crença”, pelo art. 5º, VIII34, “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”, e pelo art. 5º, IX35, “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Também são aplicáveis o previsto no art. XVIII36 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que expressa que “toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”, combinado com o artigo XIX37, também da Declaração dos Direitos Humanos, que expressa que “toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão”.
Para isso, qualquer sujeito deve ter a liberdade e o direito de escolha do seu credo e qualquer discriminação decorrente das escolhas religiosas, asseguradas pelo direito das liberdades individuais, é considerado crime.
Embora o Estado seja legalmente laico, o Brasil nunca conseguiu, efetivamente, alcançar uma democracia religiosa e respeitosa em sua sociedade. Muitos espaços públicos ainda apresentam práticas que ferem o direito à laicidade. Com a escola não é diferente. Os setores laicos travaram um embate desde a chegada dos jesuítas, mas temos a permanência do ensino religioso e de práticas religiosa que favorecem apenas a alguns no cotidiano escolar.
31 Acessado em 19 de novembro de 2017:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
32 Acessado em 19 de novembro de 2017:
https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.asp
33 Acessado em 19 de novembro de 2017:
https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.asp
34 Acessado em 19 de novembro de 2017:
https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.asp
35 Acessado em 19 de novembro de 2017:
https://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.asp
36 Acessado em 19 de novembro de 2017: https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10133.htm
37 Acessado em 19 de novembro de 2017: https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10133.htm