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Recuar para avançar na luta

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 66-69)

pensamento de alguns teóricos sobre esta religião mostrou-se importante, tendo em vista que a pesquisa se deu em um terreiro de candomblé – o terreiro Ile Àse Nila Odé – Alto de Oxossi, fundado em 06/06/1975 pelo babalorixá Ícaro de Oxossi, que segue a tradição iorubá Efan e tenta preservar a história a e a cultura africana em seus cotidianos com seus ritos, práticas e na crença. Considero que assim a compreensão da leitura do texto possa ser facilitada principalmente para os que ainda não conhecem as religiões de matriz africana que sobreviveram no Brasil.

Entre os séculos XVI e XVII o conceito de raça se modifica mais uma vez, passando a denominar relações de superioridade entre diferentes grupos europeus, deixando de utilizar critérios morfobiológicos para estabelecer relações de dominação pautadas nas diferentes classes sociais. Entre os séculos XVIII e XIX a questão da existência ou não das raças ganhou força com a indagação sobre a origem do homem, fazendo oposição às ideias igualitárias do Iluminismo. Assim, surgiram duas grandes vertentes: a monogenista e a poligenista. A primeira delas, monogenista, se fundamentava nas escrituras bíblicas, que defende a origem da humanidade em uma única fonte comum, sendo as diferenças entre os humanos produto da maior ou menor degeneração. Em seus estudos, Schwarcz (1993) nos diz que “... pensava-se na humanidade como um gradiente – que iria do mais perfeito (mais próximo do Éden) ao menos perfeito (mediante a degeneração)” (SCHWARCZ, 2002, p. 62).

Esta é a base para o racismo religioso, em que, no livro de Gênesis – Gn 2, 10 – 14, fala-se sobre a existência de um rio que saía do Éden e dividia-se em quatro braços: Físion, Geon, que rodeia a terra de Cruch, Tigre e Eufrades, sendo Cruch descendente de Cam, filho de Noé. E, em Gn 9, 18-27 há uma narrativa da maldição de Noé sobre Canaã, filho de Cam, e toda a sua descendência. Os teólogos da época, então, defendiam a ideia de que se Cam é antepassado de Cruch e a África é a terra de Cruch, então ela é a terra da maldição (OLIVEIRA, 2017).

Já a segunda vertente, a poligenista, com estudos realizados na Sociedade Anthropologica de Paris, liderados por Paul Broca, famoso anatomista e craniologista, que

“acreditava na imutabilidade das raças e traçando, inclusive, paralelos entre o exemplo da não-fertilidade da mula e uma possível esterilidade do mulato” (SCHWARCZ, 1993, p. 54- 55) e defendia a existência de vários centros de criação, que corresponderiam às diferenças raciais observadas, com a análise biológica do comportamento humano, dando alicerce ao racismo científico.

Faltava, então, apenas, contribuir para esta evolução através da conversão cristã para que se livrassem dos seus pecados. “Governar é fazer crer” (CERTEAU, 2007, p. 159). Foi nesse sentido que a escravidão foi abençoada pela Igreja Católica como o melhor caminho para a conversão desses povos ao cristianismo, considerado como sua a única e verdadeira salvação. E, com este mesmo pensamento a Igreja Católica interferiu na educação religiosa nas escolas brasileiras. O lema dos discursos católicos: “Se não é possível encher de gente sã o imenso território do Brasil, povoemo-lo de ideias sadias” (CARVALHO, 1998, p. 210).

Nessa resistência contra a invasão de tais males, a cruzada moral não visava somente a

disciplinarização da população pobre, mas visava, também, construir um muro de aço moral que fosse capaz de “impedir que a miséria urbana contaminasse física e moralmente as elites”.

A imposição do catolicismo aos povos escravizados sempre foi alvo de críticas, afinal, trata-se de povos com sua própria história, sua cultura e sua religião que se viram negados.

“‘Venderam’ o espírito africano na pia do batismo católico assim como, através da indústria turística, comerciam o negro como folclore, como ritmos, danças e canções... Nada é sagrado para a civilização ocidental branca e cristã” (NASCIMENTO, 2016, p. 148). A demonização dos seus rituais e suas crenças se perpetua até hoje, quando uma boa parte dos brasileiros ainda atribui ao mal às religiões de matrizes africanas e percebemos, a todo o instante a incansável perseguição religiosa que os que professam essa fé sofrem e que podem gerar, inclusive, violência. “... legitimidade se origina na ilegitimidade de uma violência”

(CERTEAU, 2007, p. 158). Além de ser uma violência e quase um genocídio cultural (uma vez que as religiões trazidas com os seres humanos escravizados tenham que lutar, até hoje, para não serem extintas), a imposição do catolicismo significou, também, um não pertencimento dos povos africanos com a nova crença, que nada tinha a ver com sua história e com sua fé.

Evidenciava-se e ainda se evidencia, por um lado, o racismo pela marca, pelo que se traz no fenótipo; por outro lado, o racismo pelo que se sente e se acredita, ou seja, pela origem e ancestralidade. Segundo Oracy Nogueira (2006), o preconceito pode ser por marca (pela cor da pele, que prevalece no Brasil) ou por origem (de acordo com a ascendência). Além disso, toda e qualquer manifestação de fé discordante permanece no campo do folclore. “Ateísmo, feitiçaria, mística: estes três fenômenos sincronizados remetem o fato de que as igrejas se tornam incapazes para munir referências homogêneas à vida social” (CERTEAU, 2007, p.

157).

Para Abdias do Nascimento, eis o racismo ao estilo brasileiro:

não tão óbvio como o racismo dos Estados Unidos e nem legalizado qual o apartheid da África do Sul, mas institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país (NASCIMENTO, 2016, p. 111).

Das várias maneiras de se institucionalizar o racismo, a sociedade opera para a manutenção do racismo com o governo, pelas leis, pelo capital, com as forças armadas e com a polícia. As classes dominantes contam, também, com potentes ferramentas de controle social e cultural, como os meios de comunicação de massa: rádio, televisão e imprensa. Além

desses e, talvez o mais importante e eficiente, tem sido o sistema educativo marcado pelo racismo institucional, pois, segundo Nascimento (2016): “O sistema educacional funciona como aparelhamento de controle nesta estrutura de discriminação cultural. Em todos os níveis do ensino brasileiro – primário, secundário, universitário – o elenco das matérias ensinadas...”

(p. 113). Neste sentido perverso de currículo não há, somente, a tentativa de apagamento da história de um povo, da sua cultura e civilização, que é parte indissociável da história do povo brasileiro. As referências comumente encontradas no currículo sobre o africano e afro- brasileiro têm o despudor de reforçar a alienação e a negação da identidade negra, que coloca as populações negra e branca caminhando lado a lado e não juntos.

da classificação grosseira dos negros como selvagens e inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra”;

da operatividade do “sincretismo” religioso à abolição legal da questão negra através da Lei de Segurança Nacional e da omissão censitária – manipulando todos esses métodos e recursos – a história não oficial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se vem perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina ironicamente designada “democracia racial” que só concede aos negros um único

“privilégio”: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora (NASCIMENTO, 2016, p. 111).

Desde o início da colonização vários instrumentos foram usados pelo poder escravizador na tentativa sem fim de aniquilar, definitivamente, a vitalidade cultural africana.

Para Nascimento, as culturas africanas “foram mantidas num verdadeiro estado de sítio”

(2006, p. 123) a fim de serem perseguidas e exterminadas. Dentre as mais variadas formas de perseguição e agressão espiritual, mais ou menos violentas, estava o batismo compulsório, que aconteciam nos portos de embarque africanos ou nos portos de desembarque brasileiros.

A Igreja Católica, outro instrumento de legitimação da escravidão, também possuiu homens, mulheres e crianças escravizados, tendo perseguido e atacado as crenças religiosas africanas.

Ainda assim, “algumas delas conseguiram persistir em sua estrutura completa, enquanto outras sobreviveram através de certo elemento ritual e de uma ou outra divindade cujo culto se manteve” (NASCIMENTO, 2016, p. 124).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 66-69)