CAPÍTULO 4 OS DESAFIOS DAS REPRESENTAÇÕES E SUAS
4.4 O ACOMPANHAMENTO DAS DELIBERAÇÕES EMITIDAS
intervenções,voltar-se à garantia de interesses particulares. A modalidade participativa em questão encontra espaço de atuação no Conselho Municipal de Assistência Social pela maior representatividade das organizações sociais prestadoras de serviços no conselho, por depender dos recursos públicos oriundos do Estado para manutenção das suas atividades.
Ainda nas inferências a respeito do recorte da entrevista, o vínculo que as entidades sociais têm com o Estado prevê um certo grau de subordinação da primeira em relação a segunda, e deixa claro uma das expectativas e/ou conveniências que os levam a participar. Presumivelmente, essa forma de participar acaba por colaborar em construir ideologias desagregadoras, e, com isso, as identidades políticas se fraturam, e, consequentemente, enfraquecem-se por não defender causas mais gerais, ou seja, proposições que representem a imagem de toda sociedade.
Portanto, a influência da realização de interesses e objetivos específicos (POULANTZAS, 1977) que as prestadoras de serviços da PMAS têm, é percebido como meio, pela vantajosa parceria celebrada com o governo municipal, e que lhes trazem algumas benesses. Paradoxalmente, essa questão se tornou mais complexa quando se evidenciou que os representantes das entidades sociais são uns dos que mais colaboram com a formação de agendas e vocalizações, que estão relacionadas intimamente a questões mais gerais que envolvem a PMAS. Para tanto, há de se reconhecer que o processo participativo pensado agora conjuga a sinergia entre interesses individuais/profissionais e coletivos/sociais como determinante para a existência da participação.
4.4 O ACOMPANHAMENTO DAS DELIBERAÇÕES EMITIDAS PELO CMASFSA
municipal, mas, nem por isso, a instância de controle social se exime de monitorar seus desdobramentos como identificaremos a seguir.
Para iniciar a reflexão proposta, importa considerar, todavia, que o acompanhamento dos desdobramentos das deliberações emitidas pelo conselho, conforme relatou mesa diretora 1, é bastante limitado, pois a comissão de fiscalização que é a responsável por tal atividade, e regimentalmente só pode ser exercida por conselheiros. Estes trabalham em outros espaços, e o trabalho no CMAS é exercido de forma voluntária. Sendo assim, seus horários são limitados, e também existe um volume muito grande de equipamentos e entidades sociais que operacionalizam a PMAS. Por estas razões que a limites no monitoramento da realização efetiva das deliberações.
Dando segmento a este trabalho e, sobretudo, não se deslocando do epicentro analítico a ser discutido, aspirou-se algumas explicações sobre o passo a passo adotado pelo Conselho Municipal de Assistência Social na emissão de encaminhamentos originados das constatações dos atores envolvidos para o aprimoramento da Política Municipal de Assistência Social de Feira de Santana.
Diante do exposto, foi verificado que, no seu curso, os encaminhamentos envolvem variados atores com determinado poder de decisão como visualizaremos através dos seguintes depoimentos:
Olha. Na verdade, a gente tem um espaço de escuta; um espaço de discussão de demandas; a gente escuta os conselheiros; a gente escuta quem traz a demanda; a gente dialoga com a gestão e a gente encaminha. Depois, acompanha e monitora o que a gente encaminhou, caso a gente tenha encaminhado uma determinada demanda e ela não está sendo executada/implementada, como já foi encaminhada a gente traz ela de volta como pauta, para que a gente possa rediscutir. Porque não se pode mais voltar atrás. De repente só se pode voltar atrás quando a legislação dá espaço para isso e se o município não teve condições de executar. Temos visto que algumas coisas que se delibera no conselho e a gestão não consegue executar, o próprio Estado obriga a cumprir e eles tem se tornando aliados do conselho municipal. Se tá na legislação em algum momento tem que acontecer (SOCIEDADE CIVIL2).
Vai depender de caso a caso, por exemplo se for para as entidades socioassistenciais o correto é se dirigir diretamente a direção da entidade. A gente senta, explica e isso vem acontecendo a muito tempo com as entidades. Com o setor público é algo mais complicado, porque na hora ‘H’ as pessoas se saem da responsabilidade, então hoje a gente tá trabalhando muito se a
demanda é da proteção social básica a gente perpassa pelo diretor da Assistência, pela coordenadora da básica e aí se for ligado a um equipamento tipo o CRAS, aí a gente vai entrar em contato com a coordenadora daquele CRAS, porque as vezes é uma situação específica daquele CRAS, mas quando é uma situação do todo que vemos nos relatórios aí cobramos a gestão. Então nossa obrigação é cobrar esse processo. Quando a coisa é ligada diretamente ao secretário é nele mesmo que vou bater, porque a gente vai de acordo com quem está vinculado (MESA DIRETORA1).
O que está em apreço, neste momento, é colaborar com uma discussão que oriente os processos imprimidos pelo conselho na oportunidade de demandar soluções ao poder público, que são originadas pelas constatações feitas pelos atores participantes das reuniões do Conselho Municipal de Assistência Social de Feira de Santana.
Dentro desse panorama, os depoimentos de Sociedade Civil 2 e Mesa Diretora 1 produziram respostas contundentes no que concerne à inquirição posta.
Certamente, o primeiro revela que o passo a passo do conselho na emissão de encaminhamentos toma forma, a princípio, a partir da própria natureza do conselho, que se constitui como um espaço que depende do debate para tomada de decisões, e que, vale dizer, a argumentação que fundamenta o debate pode se originar de variadas fontes como já foi discutido no item 4.1 dessa dissertação.
É externado também que as tomadas de decisões não se esgotam em formulações retóricas como revela Governo 1: “[...] então assim, não é uma coisa desamarrada, nem falada por falar. Eu percebo que o Conselho [...] trabalha, realmente, aquilo a que se propôs”. Consequentemente, o que é deliberado é monitorado por meio de fiscalizações em equipamentos públicos ou entidades prestadoras de serviços da política de assistência, para que se faça cumprir o que foi deliberado. Posicionamento defendido e registrado conforme vocalizado:
[...] tudo que é deliberado é cobrado. O conselho não só faz a reunião do conselho, ele tem um acompanhamento preciso e sistemático das ações da política. Esse acompanhamento é feito por meio de fiscalização em locus, visitam todos os equipamentos na hora que eles quiserem, o conselho não marca visita, simplesmente vai [...] (GESTÃO MUNICIPAL).
Outro fator relevante nesse processo é que o conselho usa de suas prerrogativas legais para convidar os tais equipamentos ou entidades para explicar
os motivos de não estarem executando as deliberações, com se torna evidente no discurso de Governo 1:“ele é entrevistado, arguido, é mostrado pra ele a demanda que foi vista, que foi fiscalizada, que foi trazida pela sociedade civil, e, por sua vez, o conselho orienta aquele equipamento como fazer, de que forma fazer, de que forma ficaria melhor”. Essa fala remete a outros depoimentos que nos leva a autenticar o conselho como um espaço pedagógico dentro do âmbito da Política de Assistência Social do Município de Feira de Santana.
O segundo depoimento explicita que, na resolução de problemas identificados no conselho, a medida necessária para o momento é procurar, dentro da rede socioassistencial104, quem são os responsáveis e/ou agentes públicos que resolverão a demanda originada nos debates do conselho. Assim, quando se afirma que há um número variado de sujeitos que devem prestação de contas, é possível observar que os encaminhamentos emitidos pelo conselho municipal passam por diferentes espaços e pessoas, e se realizam por uma multiplicidade de processos que dificultam sobremaneira a harmonia entre a deliberação e sua efetividade (TEMPLE, 2013).
O conjunto de questões dessa unidade de análise sinaliza a complexidade envolvida no entendimento dos entraves que o Conselho Municipal obtém na Gestão da Política de Assistência Social do Município de Feira de Santana. Nos casos que envolvem entidades sociais que são prestadoras de serviços, além dos encaminhamentos, em algumas oportunidades,são necessários momentos reservados de instrução voltados àquelas unidades, para adequação entre como se encontra o serviço e como deve estar o serviço após a deliberação.
Por outro lado, quando a demanda está ligada aos equipamentos da administração pública direta do município, os procedimentos são mais complexos,
104A rede socioassistencial é um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, que ofertam e operam benefícios, serviços, programas e projetos, o que supõe a articulação entre todas estas unidades de provisão de proteção social, sob a hierarquia de básica e especial e ainda por níveis de complexidade (BRASIL, 2005, p. 94). A exemplo, em Feira de Santana-Ba a rede socioassistencial é composta por 15 (quinze) CRAS, 3 (três) CREAS; o Centro Pop Rua; a casa de Acolhimento de Crianças e Adolescentes Raul Freire; o Centro de Convivência D. Zazinha Cerqueira;
o Centro Integrado de Capacitação e Apoio ao Adolescente e Família – CICAF; o Centro Juiz Walter Ribeiro; o Acessuas/Trabalho, o Centro de Referência Maria Quitéria – CRMQ; a Casa Abrigo e os programas complementares de Convivência Social e Cidadania nos Conjuntos Minha Casa Minha Vida e Feira Produtiva. Há, ainda, 4 (quatro) Conselhos Tutelares e 8 (oito) Conselhos Municipais de Direitos e de Gestão vinculados à rede em comento.
porque, como bem falou Mesa Diretora 1, cada problema originado da execução da política de assistência que precisa passar pelo crivo do conselho, e neste, após as decisões tomadas, as proposições passam por diferentes pontos da rede pública municipal, considerados por Foucault (1998) como micro-poderes.
Para mais, conforme observado e relatado na fala acima, a esfera estadual não fica de fora dessas relações de poder, pois, nas oportunidades de seus acompanhamentos proativos em relação à execução Política Municipal de Assistência Social, tem encontrado fragilidades que são apontadas por meio de relatório de auditorias. Desse processo, são criados planos de providência105 e de apoio106 para o enfrentamento das dificuldades verificadas no seu decurso (BRASIL, 2005).
As propostas de enfrentamento, se não realizadas pelo município, podem acarretar “bloqueio ou suspensão de recursos cofinanciados, comunicação ao Ministério Público para tomada de providências cabíveis, exclusão das expansões de cofinanciamento dos serviços socioassistenciais e equipamentos públicos”
(BRASIL, 2005, p. 16) dentre outras sanções. Sendo assim, foi percebida a participação do Governo do Estado como mais um nível da escala da rede de poderes quando, no uso de suas atribuições, exerce influência no aprimoramento da PMAS.
Certamente, o objetivo desse momento é dispor de elementos empíricos e teóricos para elucidar o entendimento não jurídico do poder nos processos de trabalho do Conselho Municipal de Assistência Social. Em relação a isso, a contribuição firmada acima revela que todo encaminhamento emitido pelo conselho para a realização do aprimoramento da PMAS precisa, organizadamente, passar em várias mãos, por ordem hierárquica, presumindo, assim, passar pelas diferentes fases do processo decisório. Portanto, concordamos com Foucault (1998) quando
105O Plano de Providências constitui-se em instrumento de planejamento das ações para a superação de dificuldades dos entes federados na gestão e execução dos serviços, programas, projetos e benefícios socioassistenciais, a ser elaborado pelos Estados, Distrito Federal e Municípios (BRASIL, 2005, p.15).
106O Plano de Apoio decorre do Plano de Providências dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e consiste no instrumento de planejamento do assessoramento técnico e, quando for o caso financeiro, para a superação das dificuldades dos entes federados na gestão e execução dos serviços,programas, projetos e benefícios socioassistenciais (BRASIL, 2005, p.16).
diz que o poder deve ser entendido com algo que não está sujeito a um indivíduo, entretanto, a capacidade de exercício do poder se dá em rede, isto é, ele circula.
A rigor, é óbvio que, pelas relações de poder nos processos que envolvem a contribuição do Conselho Municipal na Gestão da Política de Assistência Social do Município de Feira de Santana também serem entendidas como algo que circula, abre-se uma brecha para críticas no que concerne às limitações que esta instância de controle social tem na efetividade das suas deliberações, como será apresentado na figura que segue:
Figura 4 – Rede influenciadora de tomadas de decisões da Política de Assistência Social de Feira de Santana
Fonte: Dados empíricos Elaboração Própria
Para melhor ilustrar, proteções significam as proteções sociais, básica e especial previstas na Política Nacional de Assistência Social, já discutida nesse estudo, e são setores da Secretaria Municipal de Assistência Social. Técnicos de
Conselho Municipal
Técnicos de Referência das
Proteções e outros Departamentos
Coordenadores dos Equipamentos
e Entidades Sociais em Geral
Técnico de Referência dos Equipamentos e Entidades Sociais
em Geral Chefias das
Proteções e Entidades Sociais
em Geral Diretores em Geral
Executivo Municipal
referência são profissionais responsáveis pela gestão ou execução dos serviços relacionados a cada proteção social. Equipamentos são instituições públicas da administração direta e executores terminais da PMAS.Entidades sociais são prestadoras de serviços da PMAS.
Como está sendo visto na figura acima, o entendimento a ser seguido é conceber o conselho como o agente emissor de decisões, mas que depende de um grande número de pessoas e departamentos ligados à Política Municipal de Assistência Social para que as deliberações emitidas venham serem efetivadas.
Tudo isso comprova que se, em algum momento das diferentes fases do processo decisório,algum agente não estiver alinhado tecnicamente, politicamente, eticamente, dentre outros fatores, cria-se grandes chances da deliberação travar em algum momento e não atingir os resultados esperados quando elaborada.
A perspectiva deliberativa adotada para este estudo presume decidir, após debate livre entre cidadãos de distintas orientações ideológicas, e dentro de um âmbito institucional e democrático, assuntos de interesse público. Ao decorrer do estudo, percebeu-se que as deliberações são formalizadas pelos instrumentos consensuais que o conselho se apropria.
Assim sendo, foi possível apreender, nas observações do campo empírico da pesquisa, que existem deliberações feitas dentro de uma ordem menos formal, quais sejam os acordos verbais nos momentos das reuniões, mas que nem por isso perdem sua legitimidade democrática, sendo que suas reclamações pautam-se mais em contribuir na organização ou reorganização de assuntos menos complexos relacionados à PMAS.
Por outro lado, há as deliberações formais, a saber, as resoluções, que, por seu caráter vinculante, não dão margem de escolha para que o agente público, equipamento público ou entidade social não ponha em prática o que foi deliberado.
Em caso de descumprimento, estes podem ser reclamados juridicamente (CUNHA, 2013). Sobre estas, será disponibilizado 2 (dois) gráficos: gráfico 1 e gráfico 2, com o intuito de apresentar a capacidade deliberativa por meio de resoluções feitas pelo Conselho Municipal de Assistência Social condizentes aos anos de 2015-2016, e que, de acordo com a análise documental, estão em partes consubstanciadas aos assuntos mais debatidos do conselho.Os resultados encontrados no que concerne à capacidade deliberativa formal do conselho no ano de 2015 demostrou que houve a
elaboração de 20 (vinte) resoluções, sendo que, no ano de 2016, houve uma crescente que apresentou a emissão de 23 (vinte e três) resoluções como veremos na sequência.
Gráfico 1: Deliberações por meio de resolução emitidas pelo Conselho Municipal de Feira de Santana no ano de 2015
Fonte: Resoluções do Conselho Municipal de Assistência Social emitidas no ano de 2015 Elaboração: Própria
0 1 2 3 4 5 6 7 8
Gráfico 2: Deliberações por meio de resolução emitidas pelo Conselho Municipal de Feira de Santana no ano de 2016
Fonte: Resoluções do Conselho Municipal de Assistência Social emitidas no ano de 2016 Elaboração: Própria
Em virtude da assertiva imprimida na página 142, houve uma declarada preocupação em interpelar os sujeitos de estudo dessa pesquisa quanto a como o conselho municipal reage frente ao não cumprimento do conjunto de resolutividades deliberadas, originadas dos problemas verificados na execução da Política Municipal de Assistência Social. Diante disso, tornou-se pertinente explicitar as seguintes contribuições:
[...] A gente vai até o fim com a gestão, quando a gestão erra, comete tropeço, por incapacidade ou quando a gente percebe que a própria equipe não conseguiu da conta nós vamos juntos tentando resolver. Quando a gestão não executa porque não conseguiu executar por encontrar diversos entraves a gente vai até o fim para buscar resolução a esses entraves a gente não só tem discutido com quem vem representar a gestão da Assistência , a gente tem ido ao encontro do gestor maior da pasta, ao encontro do gestor do fundo, ao encontro dos coordenadores das proteções, já agendamos audiências com o prefeito para discutir algo que a própria secretaria não dava conta e que não é resolvido a gente rediscute de novo[...](SOCIEDADE CIVIL 1).
[...] bem. Quando a gente vê que o prazo se estica e não acontece, aí a gente vai para o gestor maior, o prefeito, se leva a questão para 0
0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5
ele. Inclusive tivemos uma reunião esse ano levando a questão do Centro Pop, a respeito da lentidão na construção e ele diante da gente lá pegou o telefone e ligou para pessoa responsável e já deu ordem para que agilizasse e agilizou a construção porque estava parada. Então assim, é o que de fato a gente pode fazer. Assim o nosso maior desafio é fazer cumprir o que foi pactuado [...](SOCIEDADE CIVIL2).
Perante o exposto, nas oportunidades de deliberações inconclusas, mesmo aquelas vinculantes, o Conselho Municipal de Assistência Social de Feira de Santana procura se pôr como parceiro do executivo municipal, bem como dos seus equipamento e entidades, realizando consultas para colaborar na aplicação efetiva do que foi deliberado. Outra estratégia usual é recorrer diretamente ao chefe do executivo municipal, a saber, o prefeito.
Em outras situações o conselho de assistência precisa usar do seu poder disciplinar e também de sua representatividade política, como concluiu mesa diretora 1: [...]“a gente já suspendeu algumas continuidades de serviços [...]. A gente suspende para ter um redirecionamento desse processo. A gente cobra de mais as instituições, e o governo só vai na pressão”.Detectou-se, nas observações, uma determinação muito relevante para que todas as deliberações do conselho sejam efetivadas, contudo, as deliberações que são de responsabilidade de aplicação do governo são mais morosas e demandam mais trabalho e tempo para serem executadas.
A especificidade dessa reflexão se constrói quando se detecta a desigualdade deliberativa entre os encaminhamentos feitos às entidades prestadoras de serviços, de um lado, e aos equipamentos do governo municipal, de outro. Enquanto o exercício do poder do conselho voltado às entidades prospera quase sempre, com os equipamentos do governo é diferente. Como fora dito nas alocuções acima, quando se esgotam as estratégias legítimas do conselho em fazer valer as deliberações direcionadas para os equipamentos do governo, procura-se o chefe do executivo.
Nesse sentido, Giles (1985) entende esse processo como a tentativa de recorrer ao Estado, isto é, contextualizando a discussão, ao chefe do executivo municipal, e considera-lo estrategicamente como representante do bem comum.Esta constatação também encontra apoio nas reflexões de Sader (2014), quando discute as características do Estado Bonapartista. Em síntese e finalmente, quando o
Estado se apresenta como aparelho que representa os interesses gerais de toda sociedade, abre-se espaço no seu interior para grupos organizados clamarem pela realização de seus interesses.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Estado moderno brasileiro tem passado por algumas mudanças organizacionais e estas tem indicado uma maior abertura para grupos organizados expressarem as suas legítimas demandas. Por consequência, há de se considerar o aprofundamento da democracia nesses processos. No Brasil, temos os Conselhos Gestores de Políticas Públicas, que são espaços de cogestão, bem como de exercício do poder compartilhado entre representantes da sociedade civil e do governo e demais atores sociais em tudo que concerne ao trato da coisa pública, respeitando-se, assim, a política setorial em que se atua.
No que se refere à criação dos Conselhos Municipais de Assistência Social, é correto afirmar que esta ocorreu a partir de implementações contidas na Lei nº 8.742, de7 de dezembro de 1993, denominada Lei Orgânica da Assistência Social.As determinações legais aí contidas aprovaram a fundação de tais instâncias deliberativas. As principais características dos conselhos municipais perpassam por diretrizes que reforçam a participação por meio de organizações representativas e da população em geral na formulação e controle das políticas públicas.
Em volta dos critérios firmados acima, elaborou-se uma proposta de estudo que buscou fôlego em dissertar e compreender os procedimentos e contradições, à luz das relações de poder, sobre a participação no conselho municipal (2015-2016) e sua contribuição para a gestão da política de assistência social de Feira de Santana- Ba. O percurso adotado para conhecer o objeto de estudo dentro dos seus recortes foi entender quais estratégias os atores sociais usavam para formular seus discursos. Em seguida, como eram negociadas, no conselho, as variadas demandas, e, por fim, se existiam, após a tomada de decisões, ações de monitoramento que contribuíam na efetivação deliberativa.
No contexto dessa discussão, a perspectiva gerada para esta pesquisa parte do pressuposto de que, ao considerar o conselho municipal como uma instância deliberativa e com prerrogativas legais de influenciar nas decisões concorrentes voltadas a Política Municipal de Assistência Social - PMAS de Feira de Santana-Ba, presume-se que o conselho dispõe de uma contribuição original na gestão da PMAS.