2. Os anos 1940-2000
3.2. O apoio da rede familiar e de conterrâneos
Os fatores indicados na primeira parte deste capítulo como atra- tivos do Brasil não explicam sozinhos o grande número de libaneses que para cá vieram ao longo dos últimos 120 anos, em relação ao número de libaneses em outros países de imigração como os Esta- dos Unidos ou a Argentina. Para se compreender tal fato, deve-se considerar o próprio sucesso desta imigração como um dos princi- pais atrativos de libaneses para o Brasil – como se nota no depoi- mento de Ibrahim el-Zoghbi:
Antes do meu pai vir pra cá outros amigos da mesma aldeia dele já tinham vindo, então escreveram cartas dizendo o que eles estavam achando do Brasil. Falaram que aqui era uma terra promissora, que tinha muitas regi- ões que estavam começando – o Brasil tinha condições
* Dados apresentados por Clark Knowlton, Oswaldo Truzzi e Manuel Diégues Jr.
apontam os homens sírio-libaneses como um dos grupos estrangeiros com a maior taxa de casamentos com mulheres brasileiras.
de atender às necessidades econômicas desses imigrantes, e realmente atendeu.
Nota-se que, por ser um grupo cuja imigração nunca foi ofici- almente estimulada, os libaneses tiveram uma inserção mar- cadamente urbana, sendo raros os que se dirigiam às fazendas. Isso ocorria não obstante grande parte dos imigrantes libaneses serem na origem agricultores e terem experiência comercial apenas na me- dida em que comercializavam os excedentes da colheita familiar.
Aqui chegados no final do século XIX, sem possibilidade fi- nanceira de investir em terras ou em estabelecimentos comerciais, os imigrantes pioneiros adotaram o ofício de mascate, que permitia uma rápida acumulação sem a inversão de nenhum capital inicial, pois as mercadorias eram consignadas por um parente já estabele- cido. Depois de alguns anos de trabalho, enquanto muitos retornaram ao Líbano, onde se destacariam em suas localidades de origem pela riqueza amealhada no Brasil, outros preferiram aqui se estabelecer – normalmente através da abertura de um armazém de secos e molhados em cidades do interior que ainda não dispunham deste benefício (nas maiores cidades, além dos secos e molhados, outros negócios comumente mantidos por sírios e libaneses eram lojas de tecidos, restaurantes, bares e similares) – como narra Marcello Mutran:
Meu avô veio pro Brasil por volta de 1880, 1890, e se radicou no Rio de Janeiro. [...] Sei que foi um mascate típico, como todos aqueles, e na virada do século ele já estava entre os libaneses ricos do Rio de Janeiro. Deve ter feito muito dinheiro mascateando, e eu sei que por volta de 1910, 1915, ele tinha três lojas.
Uma vez estabelecida a lojinha, era comum que o imigrante chamasse seus parentes no Líbano para virem aqui trabalhar – fos- se como sócios ou empregados da loja, fosse como mascates que recebiam a mercadoria em consignação para vender nas vilas, fa- zendas e bairros afastados:
André Gattaz
Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes
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Omar Cassim: E foi assim que o papai, com treze anos de idade, aportou no Brasil – em 1906. Veio para São Paulo, foi encaminhado para o interior do estado e foi dar na cidade de Barretos, onde por informação ele encontrou pessoas da mesma cidade natal ou da mesma região em que ele morava, no Líbano.
Mustafa Rahal: Tinha um parente meu me esperando no porto – ele tinha vindo pro Brasil alguns anos antes.
[...] Quando cheguei em São Paulo, fiquei conhecendo mais gente; conheci um outro parente, primo do meu pai, que depois veio a ser meu sogro. Ele tinha loja na 25 de Março e recebeu a gente de braços abertos.
Jihad Hamad: Meu pai veio para cá porque conhecia parentes da minha mãe que tiveram a experiência de ter vindo aqui pro Brasil e foram bem sucedidos. [...] Aqui em S. Bernardo tinha uns parentes que o receberam – havia essa solidariedade da pessoa vir antes, ter uma experiência e chamar o parente pra vir e apoiá-lo, dar mer- cadorias pra ele, isso era o normal.
Como diz o entrevistado Emad Musleh, que trabalhou como mascate em seus primeiros meses no Brasil, “sempre tem um tio de um primo de não sei quem que vai fornecer os primeiros negócios pra você sair vendendo.” Supunha-se que o primo, sobrinho ou co- nhecido que trabalhasse como mascate em poucos anos acumularia o capital para também abrir uma loja ou armazém – o que nunca foi visto como uma ameaça aos que se estabeleciam primeiro, pois pela lógica da acumulação de capital, nesse momento os pioneiros já estariam investindo na indústria têxtil, em terrenos e na educação dos filhos.
O interessante é notar que este processo, bastante represen- tativo da primeira leva da imigração libanesa (1881-1920), conti- nuou mantendo-se ao longo das décadas, vindo a ser encontrado ainda nos anos de 1970 – especialmente entre os imigrantes muçul-
manos, como indicam os depoimentos a seguir:
Ali Saifi: Aqui no Brasil já estava o irmão mais velho [do meu pai], Muhammed. Eles começaram a trabalhar em socie- dade na lojinha, mas como sociedade entre irmãos é difícil, ele saiu e começou a mascatear. Ele mascateou durante três anos, pegando mercadorias em consignação de parentes que estavam aqui – se vender, paga. E graças a Deus, através dessas colchas, desses lençóis, ele conseguiu le- vantar tudo o que ele tem hoje, foi aí que ele conseguiu a base...
Ibrahim El-Zoghbi: Meu pai, quando chegou ao Brasil, foi mascate no interior do Paraná. [...]. Ele já tinha contatos com amigos da mesma aldeia que vieram antes que ele e começou a mascatear como todos fizeram. Depois es- creveu para outros amigos, que também vieram, e começaram a trabalhar: saíam pros sítios, regiões de siti- antes, e vendiam o que traziam de São Paulo.
Embora a mascateação continuasse atraindo imigrantes ao longo do século XX, porém, não mais se repetiu a rápida acumu- lação permitida nas primeiras décadas do século, anos em que o Brasil passou de país monocultor-escravagista a industrial- imigrantista, quando a urbanização favoreceu a formação de grandes fortunas. Não obstante, pode-se afirmar que em geral a masca- teação permitiu um relativo crescimento econômico e o posterior estabelecimento de negócios comerciais, e embora desde os anos 1950 já não fosse mais tão provável a ascensão à indústria e a gran- des riquezas, esta possibilidade continua até os dias de hoje atraindo libaneses descontentes com os rumos políticos e econômicos de seu país. Apoiados por familiares e conterrâneos que lhes garantem em- pregos e todo o apoio logístico nos primeiros tempos, os libaneses têm facilitado o processo de imigração, a inserção no mercado de trabalho e a adaptação sócio-cultural.
André Gattaz
Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes
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