sido encaminhada de outro modo pelos próprios acontecimentos, para ter levado à guerra. Para exigir uma satisfação do Presidente do Paraguai pela ofensa feita ao nosso ministro o governo mandou a Assunção uma esquadra sob o comando do chefe Pedro Ferreira, que ia como plenipotenciário. A esquadra parou, por intimação, na embocadura do Paraguai, seguindo o chefe em um só vapor, o Amazonas o qual encalhou antes de Assunção. Trocou-se então uma singular correspondência entre o Enviado Brasileiro e o governo paraguaio, acabando este por permitir a subida de vapores menores para safar o Amazonas. Com tais começos a missão estava fadada a nada conseguir. A atitude de Pedro Ferreira foi muito censurada na época: provavelmente, porém, ele fez o que era mais prudente e avisado quando desistiu de forçar a subida do Paraguai [o rio] diante da intimação de López. [...] O espírito do gabinete era de ação e energia; as dificuldades, porém, de uma campanha contra o Paraguai, mesmo nesse tempo, foram melhor apreciados pelo próprio Almirante que preferiu a condescendência ao rompimento. A missão Pedro Ferreira, foi em todo o caso, um desastre diplomático. (NABUCO, 1899, pp.218-219)
Não somente o plenipotenciário brasileiro no Paraguai foi criticado, como os acordos firmados com Francisco Solano López, que representava o governo paraguaio não foram aceitos pelo governo imperial. Em 27 de abril de 1855 foi assinado o tratado de amizade e comércio entre Pedro Ferreira de Oliveira e Francisco Solano López. Entretanto, o governo imperial não aceitou as condições do mesmo, desautorizando os acordos pactuados. O governo brasileiro insistia no direito à plena navegação e discordava das exigências territoriais paraguaias. O tratado foi rechaçado. (TEIXEIRA, 2012, p.102).
Em 1856, José Berges, substituindo Francisco Solano López, foi enviado ao Brasil negociar um novo tratado, após o anterior ser rechaçado pelo governo imperial. E este tratado foi assinado, liberando a navegação do rio Paraguai, às embarcações comerciais do Brasil até o porto de Corumbá, ligando Mato Grosso ao Rio de Janeiro; passagem de dois barcos de guerra de no máximo 600 toneladas. Entretanto, as questões de fronteiras continuavam sem ser resolvidas, até porque com os tratados, a região entre os rios Apa e Branco se valorizaram. Em 1858, novo tratado assinado entre o ministro imperial José Maria da Silva Paranhos e Francisco Solano López adiou a questão sobre a fronteira até 1862. Ficou acertado que até três navios de guerra imperiais poderiam transitar pelo rio Paraguai, sem limites de armamento ou de peso. Teriam, entretanto de passar por inspeção, comprovando sua nacionalidade, procedência e destino quando passassem pelo Forte Olimpo e por Humaitá. (TEIXEIRA, 2012, pp.107-108).
Solano López. A política paraguaia, durante o governo Francia, se caracterizou pelo isolamento, visando manter a independência nacional. Carlos Antonio López procurou fazer o oposto, colocando o Paraguai no jogo político da bacia do rio da Prata. Foi, contudo, principalmente a partir de 1860, que o Paraguai passou a tencionar exportar produtos primários para o mercado mundial e regional e para isso, precisaria acessar o oceano Atlântico. (DORATIOTO, 2014, p.39)
O engenheiro inglês George Thompson menciona, que a guerra contra o Brasil era vista no Paraguai como inevitável, após os eventos narrados. Segundo podemos ler:
O modo como o Presidente López começou a guerra com os argentinos foi ultrajante, mas com o Brasil a guerra era aparentemente inevitável, e se ele não tivesse começado a guerra naquele momento, o Brasil teria pego o Paraguai desprevenido. (THOMPSON, 2014)
O próprio Thompson reconhece que o governo paraguaio já havia advertido Mitre a respeito do seu comportamento na revolução liderada por Venâncio Flores para depor o presidente Aguirre, aliado paraguaio.
No mesmo ano, o governo paraguaio enviou uma nota ao governo argentino reclamando da assistência e apoio dado por aquele governo ao rebelde Flores, e pedindo explicações sobre o armamento na Ilha de Martin Garcia. Esta é uma ilha na boca dos Rios Paraná e Uruguai, e comanda a navegação em ambos – e, consequentemente, a navegação do Paraguai. Na cabeça de López, a Ilha de Martin Garcia teria sido para o Paraguai o que Humaitá era para o Mato Grosso. Por sua posição geográfica ela pertencia à Banda Oriental, mas era (e ainda é) dominada por Buenos Aires. O governo argentino prometeu explicações, mas em 10 semanas eles não as enviaram, e o Paraguai escreveu novamente.
Buenos Aires, entretanto, se evadiu da questão. Estas ocorrências não serviram para melhorar os sentimentos entre os dois governos que nunca foram bons. (THOMPSON, 2014)
Mas por que a rebelião de Flores no Uruguai iria desencadear uma guerra envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai? Acontece que neste momento, a política interna uruguaia não era somente a política interna uruguaia. Dela dependia o equilíbrio de forças no rio da Prata e a navegabilidade dos rios internacionais, como o da Prata. Além disso, para o Paraguai, significava poder utilizar o porto de Montevidéu para ter acesso ao Oceano Atlântico, algo que ficaria impossível, caso Buenos Aires e a Banda Oriental estivessem sob o controle de inimigos do governo paraguaio. Sobre este assunto, Doratioto escreve que:
[...] o caudilho colorado Venancio Flores, vindo de Buenos Aires, iniciou uma rebelião para derrubar o governo blanco do presidente Bernardo Berro. Este se relacionava com Justo José Urquiza, líder da oposição federal argentina, o qual, por sua vez, mantinha contatos com Francisco Solano López, que assumiu a chefia do Paraguai em 1862, após a morte de seu pai. Portanto, no conflito uruguaio havia forças interessadas na organização dos Estados Nacionais na Argentina e no Uruguai e durante a luta aproximaram-se os blancos uruguaios, Francisco Solano López e Urquiza, enquanto os governos argentino e o brasileiro, ambos governados por adeptos do pensamento liberal,
fazendeiros gaúchos com interesses no Uruguai e buscando equilibrar a influência de Mitre junto aos colorados, o governo imperial interveio a favor dos rebeldes colorados.
A intervenção foi possível porque havia a convergência ideológica e de interesses entre Mitre e os novos governantes brasileiros, com estes deixando claro que não tinham interesses em relação ao Estado Oriental que fossem prejudiciais a Buenos Aires. Solano López, por sua vez, via favoravelmente o governo blanco uruguaio, um aliado que controlava Montevidéu, porto alternativo ao da capital argentina para o comércio externo paraguaio. (DORATIOTO, 2014, p.42)
Thompson menciona a solicitação feita por López a Bartolomé Mitre para cruzar o território argentino, antes da invasão do território e declaração de guerra.
Em 5 de fevereiro de 1865, despachos de López para o General Mitre, então Presidente da Confederação Argentina, chegaram a Buenos Aires, pedindo permissão para um exército paraguaio marchar através da província de Corrientes. Mitre recusou este pedido e pediu explicações a respeito da grande força paraguaia que estava se concentrando em suas fronteiras. (THOMPSON, 2014)
E segue mencionando que Francisco Solano López considerava que:
Afirmou-se que Buenos Aires virtualmente declarou guerra ao se recusar a dar passagem às tropas paraguaias por meio de Corrientes, enquanto ela formalmente tinha permitido que os brasileiros subissem o rio e ameaçassem o Paraguai. (THOMPSON, 2014)
Não podemos desconsiderar o fato de que no ano de 1857, foi publicado um estudo sobre o Paraguai na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, intitulado “Diário da diligência do reconhecimento do Paraguai”, escrito por Ricardo Franco da Almeida Sierra, engenheiro militar português. O que é este estudo? Trata-se de um diário de viagem feito ao território do que viria a ser o Paraguai. Viagem esta, ocorrida em 1786. A viagem durou de abril a novembro deste ano, perfazendo seis meses e foram percorridas 600 léguas. A expedição fez profundas descrições do terreno paraguaio, dos rios, da vegetação e das dificuldades que se pode encontrar ao percorrer o país guarani. Inclusive, em momentos do relato, são citadas doenças que os expedicionários em questão tiveram de enfrentar até o fim da viagem. A citada expedição se encontra no Tomo 20, impressa no terceiro trimestre de 1857. Lembrando que as hostilidades entre Brasil e Paraguai teriam ocorrido entre 1854 e 1855.
Jorge Caldeira, no livro “Mauá: empresário do Império”, de 1995, nos mostra a visão de que Mitre estaria interessado em criar as condições para o Império intervir no Uruguai e no Paraguai, para alcançar seus propósitos.
Os alvos foram logo definidos: o Uruguai, sempre o Uruguai, com seu porto concorrente e ameaça permanente para o monopólio da capital sobre as províncias do interior, e também o Paraguai, uma espécie de fortaleza permanente da política federalista, nação obrigada a se fechar contra o exterior como forma de sobreviver à ameaça eterna do barramento de sua única via de comunicação com o mundo, o rio que passava por Buenos Aires. Para cada um desses adversários Mitre preparou uma política bem a seu estilo:
efetiva, maquiavélica ao extremo, com mensuras na superfície e golpes por baixo da mesa. (CALDEIRA, 1995, p.403)
Segundo Caldeira, longe de manter sua neutralidade, Mitre teria manipulado a ação no Uruguai, por intermédio de Venâncio Flores, possibilitando a queda de Aguirre.
As ações contra o Uruguai, apesar da permanente proclamação de ‘neutralidade’ em relação aos seus adversários do governo uruguaio viviam em Buenos Aires, e Mitre empregava alguns em seus próprios exércitos. Deixando-os soltos para conjurar – embora sempre afirmando ao governo uruguaio seu mais total apoio à legalidade – o presidente argentino começou a alimentar um clima de tensão entre os dois países. Um desses emigrados lhe interessava especialmente: Venâncio Flores, ex-presidente da República, e homem estreitamente ligado aos fazendeiros do interior – mas também aos gaúchos [sic] [fazendeiros] do Rio Grande do Sul, pois estivera ao lado deles nos tempos da Revolução Farroupilha. Alimentando seus projetos, Mitre estimulou-os a buscar apoio no interior, fornecendo uma base de apoio discreta e cuidando com carinho de todos os pedidos. E quando sentiu alguma chance, apesar de todas as suas proclamações de neutralidade, armou, equipou e fez desembarcar o exército guerrilheiro de Flores no território uruguaio, em abril de 1863. (CALDEIRA, 1995, pp.403-404).
A referência do autor a Bartolomé Mitre circunscreve não apenas a figura do presidente da Argentina, mas principalmente à classe que ele representava, os comerciantes da oligarquia importadora de Buenos Aires e, secundariamente, os grandes criadores e charqueadores de Buenos Aires.
Caldeira escreve que o presidente argentino teria manipulado o governo imperial, levando-o a atacar os uruguaios, alegando que a honra do país havia sido ferida. Além disso, teria explorado uma rivalidade latente existente entre Mauá, que defendia o progresso pela industrialização, e o Imperador, que acreditava em uma política mais conservadora, ligada à agricultura monocultora e escravista de exportação:
[...] em janeiro, mandou um emissário especial, o embaixador Marmól, ao Rio de Janeiro.
Sua missão: dizer ao imperador que, embora neutra, a Argentina veria com muito bons olhos uma intervenção brasileira no Uruguai que salvasse a honra ferida do imperador e os “direitos ofendidos” dos brasileiros. E para oferecer argumentos adicionais contra o maior inimigo brasileiro do projeto, tratou de intrigá-lo: mandou publicar algumas cartas secretas de Mauá a Flores e ao governo argentino, escritas na época em que tentava o acordo de paz. O conteúdo dessas cartas era pouco claro, mas isto vinha a propósito para sustentar a interpretação de que o banqueiro metia o nariz onde não deveria [...]. Enquanto colhia resultados no Brasil, Mitre reforçou a política de provocações e pequenos incidentes diplomáticos no Uruguai para ter mais munição nas manobras de acossar o governo vizinho e vender ao governo brasileiro a versão de que eles, e não os argentinos eram os agressores na região. Quando vinham reclamações uruguaias, manifestava sempre sua “mais completa neutralidade” nas questões internas do país – e mandava cópias delas para Mármol usar no Brasil. (CALDEIRA, 1995, p.410) O Brasil estaria em uma crise econômica após a política de Itaboraí de restringir a circulação de moedas, contrariando a ideia de Mauá. A política econômica do gabinete conservador liderado por Itaboraí se revelou completamente equivocada. A restrição à
circulação de moedas demonstrou que o Império marchara em direção à crise que estourou na metade da década de 1860 com a falência da casa bancária de Antônio José Alves Souto.
Junto com a casa, Souto e muitas outras empresas seguiram o caminho da falência e até Mauá acabou sendo chamuscado pelo incêndio. O governo teve de esquecer a política conservadora de contenção elaborada por Itaboraí e emitir dinheiro. Mas do Prata vieram notícias que mudaram as atenções do país. Uma delas foi a vitória de Flores em 20 de fevereiro de 1865. Mas uma notícia ainda iria ser, para muitos, a sua salvação. A apreensão do navio Marquês de Olinda em 12 de novembro de 1864 por ordens do presidente paraguaio Solano López. Notícia, também, que muito convinha ao presidente argentino Mitre.
(CALDEIRA, 1995).
O presidente do Paraguai, Francisco Solano López, era a grande vítima da invasão. Sem o Uruguai, temia cair de vez em mãos argentinas; com o rio aberto, temia o progresso do Mato Grosso, concorrente em tudo o que produzia. Para se livrar dos perigos, ousou:
invadiu o Mato Grosso e a Argentina. Não eram grandes invasões, mas mais escaramuças de fronteira, que em outras circunstâncias se resolveriam facilmente depois de umas tantas conversas diplomáticas. Mas naquele momento, transformaram-se na grande oportunidade para desviar a atenção da crise, calar as discussões que começavam, suspender a corrente mudancista, revigorar a força dos amigos do governo. A política de agir para fora para livrar-se das discussões internas se justificavam mais do que nunca.
O próprio imperador, depois de duas décadas e meia de um governo entremeado por conferências e deleites intelectuais, sentiu que tinha de agir pessoalmente para fazer o desvio [...]. Não que ele gostasse muito da ideia, mas sabia que não poderia ser diferente.
Era melhor jogar o futuro de seu reinado nesta aventura que enfrentar a borrasca em casa. (CALDEIRA, 1995, pp.422-423)
Segundo Caldeira, para o Imperador convinha manter as atenções contra um inimigo externo, pois, assim, os erros da política interna ficariam camuflados. Se bem que as necessidades políticas conjunturais do Império contribuíram certamente para a guerra, não foram as determinantes, em um processo que, como vimos, expressava políticas e necessidades gerais e antigas do grande Estado escravista.
Também para Bandeira, as reivindicações do Paraguai sobre o Mato Grosso não eram despidas de razão, pois haviam sido terras claramente pertencentes àquele país, no período colonial, ocupadas pela expansão da fronteira luso-brasileira. Dando lastro a essa assertiva, em seu livro “El Mariscal López”, o historiador paraguaio Juan Emiliano O’Leary escreve que, quando da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso (1777) entre Portugal e Espanha, os territórios ocupados pelos portugueses foram devolvidos ao Paraguai. Seus domínios avançariam ao sul dos limites do Mato Grosso. A partir daquele momento, os paraguaios seriam donos daquela região territorial de fato e de direito. No entanto, sucessivamente, o Estado português, luso-brasileiro, e brasileiro sempre quiseram estender seus domínios até o rio Apa. (O’LEARY, 1921).
Mário Maestri nos dá mais motivos para a preocupação do presidente paraguaio com o fato de que Montevidéu poderia cair nas mãos de aliados do Brasil e da Argentina.
A exteriorização do Paraguai, através do comércio exterior, era uma necessidade premente para a reorientação mercantil implementada por Carlos Antonio López e prosseguida por seu filho. Uma bacia do rio da Prata controlado por Buenos Aires – ou pelo Império – significava o fim do livre acesso ao mercado do Prata e mundial e a dissolução das bases materiais e sociais da reorientação empreendida após a morte do doutor Francia, com o possível fim da própria ordem lopista. Não havia exagero na proposição de que a autonomia da República do Paraguai dependia da autonomia do porto de Montevidéu. (MAESTRI, 2017, p.52)
Acompanhando a disputa entre Argentina e a República Oriental do Uruguai, o presidente Solano López, depois de ser repetidas vezes notificado pelos uruguaios a respeito das intenções argentinas com a militarização da ilha de Martin Garcia, solicitou ao governo Mitre explicações a respeito de suas atitudes. Entretanto, diante das seguidas solicitações de justificativas por parte do governo paraguaio, os argentinos ou respondiam com evasivas ou sequer davam qualquer resposta. O governo uruguaio chegou a solicitar uma arbitragem internacional, que foi recusada pelo fato de eles quererem incluir entre os árbitros, Francisco Solano López, além do imperador Dom Pedro II. Caso essa exigência uruguaia fosse atendida, López e o Paraguai entrariam como parte interessada no litígio envolvendo Uruguai e Argentina. E era exatamente isso o que tanto Mitre como os imperiais queriam evitar, deixando o Paraguai isolado na questão. Apenas em início de 1864, Francisco Solano López enviou formalmente solicitação para que o governo Argentino explicasse a situação da ilha Martin Garcia, ressaltando que a independência uruguaia era imprescindível para o equilíbrio de forças na América do Sul e que a militarização da referida ilha poria em risco a República Oriental. Somente neste momento, López iniciou os preparativos para uma intervenção contra o governo de Bartolomé Mitre, contando para tanto, receber auxílio de Justo José de Urquiza. Porém, quando Solano López obteve autorização do parlamento paraguaio para declarar guerra à Argentina de Mitre, encontrou outro inimigo: o Império do Brasil e um cenário que já lhe era totalmente desfavorável, caindo em uma armadilha meticulosamente armada por Mitre, onde o Paraguai entrava em uma guerra que não poderia vencer. A essa altura, o Uruguai, sob comando de Venâncio Flores já estaria alinhado aos imperiais e à Argentina. (MAESTRI, 2017, pp.52-55).
Então, qual a importância da intervenção brasileira no Uruguai para o início da Guerra do Paraguai? Seria ela o início do conflito entre o Paraguai e a Tríplice Aliança?
Existe essa relação entre a intervenção brasileira e o ataque paraguaio ao Mato Grosso? Ou estes dois eventos ocorreram de forma independente? Esta questão é bastante polêmica,
pois dependendo da resposta, fica clara a posição historiográfica de quem está escrevendo.
Ao adotar a visão de que o Paraguai invadiu o Brasil, sem levar em consideração a intervenção brasileira no Uruguai, tem como objetivo justificar a ação brasileira nos atos seguintes, bem como a guerra, apresentando o Paraguai como agressor. Esta visão foi passada pelos argentinos na invasão de Entre Rios e Corrientes, sem, entretanto, mencionar o pedido feito pelo presidente paraguaio para cruzar o território. E basta lembrar-se também, de que esta visão foi propalada desde a guerra, para, no Brasil, conseguir dar popularidade ao conflito e conseguir com isso, que as pessoas se alistassem nos batalhões de Voluntários da Pátria. Mas esta visão corresponde à verdade?
Em nosso ponto de vista, vemos que o Paraguai tinha no presidente Anastasio Cruz Aguirre (1801-1875), um aliado. Desde o governo Carlos Antonio López (1790-1862), o país vinha se modernizando, mas precisava de um porto. E havia o medo de que caso o Uruguai ficasse sob o comando do partido Colorado, este acesso lhe fosse dificultado, em virtude da relação mais amigável deste grupo político com o Brasil, com quem o Paraguai tinha divergências, já mencionadas neste artigo. Na Argentina, o poder estava também nas mãos dos liberais-unitários de Buenos Aires, agora no governo do país com Bartolomeu Mitre.
López acabou se vendo rodeado de potenciais inimigos, sendo que o presidente argentino não perdia a oportunidade de apoiar os inimigos dos seus inimigos, como fez no Uruguai, armando Venâncio Flores para que este tomasse o poder.
Ao Paraguai, era fundamental manter pelo menos um aliado que lhe garantisse acesso ao mercado internacional. Sendo assim, manter Aguirre no poder naquele paísera uma questão muito importante. Por isso, Francisco Solano López ameaçou que caso o Brasil interviesse no Uruguai, este ato seria encarado como um ato de guerra contra o Paraguai. E caso este ato fosse levado a cabo, haveria represálias. Havia sim uma clara ameaça do presidente paraguaio ao Brasil, que mesmo assim, resolveu atacar o Uruguai. O imperador D. Pedro II atacou o Paraguai deliberadamente provocando o vizinho, com quem já tinha divergências, ou o governo imperial não levou a sério as ameaças paraguaias?
Saraiva primeiro procurou suavizar a proposta de intervenção militar imperial no país oriental, dando a eles condições para cumprir as exigências impostas. Esclarecia que o bloco político social com os quais pretendia construir sua iniciativa seria composto por cidadãos moderados dos blancos, os colorados e os estrangeiros. Ao mesmo tempo, José Antonio Saraiva fechou acordo com a Argentina de Bartolomé Mitre contra o nacionalismo do partido blanco e posteriormente contra o Paraguai. Já haveria, portanto, consciência por parte dos imperiais que uma intervenção no Uruguai, acabaria resultando em uma reação
paraguaia, deixando mais uma vez clara nossa inclinação de que os imperiais tinham consciência de que ao colocar Flores no governo uruguaio, estavam provocando Solano López. Segundo nossa interpretação, este é o passo inicial da Guerra do Paraguai. Antes mesmo de apresentar o ultimato, o Império já se preparava para o conflito, visto que, liderado por Joaquim Marques Lisboa, o futuro Barão de Tamandaré, armou uma vasta frota naval na baía de Montevidéu. Com o ultimato, seriam propostas 63 reclamações, consideradas desmedidas pelo governo uruguaio, sendo inclusive que muitas teriam sido cometidas durante o governo Flores. Saraiva se negou a discutir as reclamações do governo uruguaio, que mencionavam, sobretudo o roubo do gado de seu país para o Rio Grande do Sul, de propriedades e a utilização do trabalho escravizado. Saraiva demonstrava em sua missão, que tencionava impor suas condições pela força ou arrumar um pretexto para a intervenção no Uruguai com a consequente troca de governo. (MAESTRI, 2017, pp.68-70).
Em primeiro lugar, conforme já foi citado, havia já desde o ano de 1857, um estudo meticuloso a respeito da topografia, do clima e das doenças existentes no território paraguaio, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Por que foi feito este estudo e para quem? Em segundo lugar, não nos parece lógico que um governo não levaria a sério uma ameaça de ataque militar. Principalmente em se tratando de um país com quem já havia divergências e questões mal resolvidas por causa de fronteiras e da navegação dos rios. E em terceiro lugar, nos parece sim, seguindo interpretações do historiador Francisco Doratioto, em “Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai”, de 2002, que o governo brasileiro considerava sim a possiblidade de ter de se defender e entrar em uma guerra contra o Paraguai, mas acreditava que venceria facilmente, pela ausência de bons comandantes militares no potencial inimigo, além de ter como certa a aliança com Argentina de Mitre. Ou seja, não é que o Brasil acreditava que o Paraguai estava blefando quando ameaçou atacar, mas sim, podemos dizer que o governo imperial subestimou o inimigo. Dessa forma, somos levados a crer que a intervenção imperial no Uruguai foi o primeiro passo da Guerra do Paraguai.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme colocado na premissa, o objetivo deste artigo foi analisar a crescente tensão existente entre Brasil e Paraguai, principalmente a partir da década de 1850 até o desencadeamento da guerra, ocorrida entre 1864 e 1870. Divergências cujas resoluções foram sendo postergadas até chegarem a um ponto em que não haveria como resolvê-las de