4.1 O Estágio Supervisionado no Consórcio CEDERJ
4.1.2 O Componente Curricular Estágio Supervisionado no CEDERJ
4.1.2 O Componente Curricular Estágio Supervisionado no CEDERJ: Perspectivas
Durante o Estágio Supervisionado I, o tutor presencial acompanha as atividades desenvolvidas pelos alunos nas escolas parceiras, em encontros presenciais nos polos, com o objetivo de esclarecer dúvidas e sugerir ações alternativas. No Estágio Supervisionado I, a prioridade é a inserção do aluno no universo educacional. São abordadas nessa etapa do estágio questões abrangentes e contextuais que perpassam o âmbito do espaço escolar (GOMES; CUNHA, 2006), como mostradas a seguir:
Estágio I- Tema Central: Tensão no Espaço Educacional Tipo: Observação e Investigação
• Questões contextuais que implicam diretamente as culturas escolar e docente que são construídas no interior da escola:
Formato e organização do Sistema Educacional - verbas destinadas à Educação;
- investimento em pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias;
- renda per capita dos brasileiros em geral;
- políticos populistas e doutrinas oportunistas;
- índice de desemprego;
- instituição da economia informal;
- invasão populacional dos centros urbanos;
Indicadores educacionais
- alfabetização e taxas de analfabetismo;
- universalização do ensino;
- distorção série/ idade;
- taxa de promoção e repetência;
- carga horária escolar;
- melhoria do perfil do magistério;
- avaliação institucional;
- democratização de acesso ao Ensino Médio.
Itens norteadores para uma postura investigadora das diversas formas de organização das atividades curriculares e da prática reflexiva para a atuação docente:
Embasamento sobre as diferentes tendências pedagógicas visando à fundamentação da própria prática;
Reconhecimento de exigência de uma nova postura das instituições de ensino e localização no espaço da sociedade:
- formação continuada: direito à igualdade de oportunidades/dever das políticas públicas;
- revisão da gerência educacional instituída;
- identificação do modelo estático da escola e avanço deste modelo para uma concepção mais dinâmica: proposta político filosófica; metodologia;
espaço escolar; currículo escolar; papel do diretor e papel do professor;
relações no interior da escola;
- visão sistêmica da escola perpassando pela importância da liderança participativa, responsabilidade social, valorização do comportamento organizacional e avaliação institucional.
Pilares da gestão democrática
- democratização do processo de construção social da escola;
- elaboração compartilhada de seu projeto pedagógico;
- aplicação de avaliação institucional como instrumento diagnóstico;
- compreensão da teia de relações no interior da escola;
- promoção de nova trama de relações favorável à aprendizagem dos alunos;
- educação voltada para a diversidade;
- Posicionamento frente às questões de discriminação e intolerância em relação às variedades culturais de grupos na escola. (CUNHA et al., 2006, p. 16/17)
No Estágio I, a coordenação não é por área disciplinar, considerando que nesse período do estágio o aluno não pratica a docência. Em síntese, no Estágio I, as atividades pedagógicas propostas para o aluno são de observação, investigação e reflexão sobre a prática docente. Pela natureza dessas atividades, a maioria dos trabalhos realizados pelo aluno estagiário envolve análise, reflexão, resenhas críticas etc.
A nossa atenção está especialmente direcionada para os Estágios II, III e IV, considerando que a tônica desse trabalho de pesquisa é o estudo da qualidade da relação teoria- prática docente, pois é a partir do Estágio II que o aluno dá início às participações em sala de aula. Nesses períodos de estágio, o tutor presencial cede lugar para o regente-tutor, ou seja, o aluno é orientado e supervisionado por um professor regente de turma de sua disciplina específica de formação. É importante mencionar que o material didático elaborado pela coordenação de disciplina é encaminhado ao regente-tutor para facilitar o desenvolvimento das atividades a serem realizadas durante o estágio, como as planilhas de avaliação de aulas e de coparticipação nas atividades diversas.
O Componente Curricular Estágio Supervisionado é desenvolvido em quatro etapas semestrais, em um total de dois anos, tendo início no meio do curso de graduação por ter como pré-requisito Prática de Ensino I. A partir do Estágio II, o aluno inicia gradativamente a prática docente com atividades de coparticipação, e, nos estágios subsequentes, ministra aulas sob a orientação do regente-tutor.
O regente-tutor contribui de modo significativo para o desenvolvimento dos conteúdos pedagógicos, distribuídos, nos Estágios II, III e IV, apresentados a seguir, pois ele acompanha o aluno durante todo o período de estágio, inclusive participando efetivamente dos processos de avaliação desse aluno.
No Estágio II, de acordo com o currículo, o aluno deve ser estimulado à análise da política educacional vigente com o contexto social e econômico da realidade que vivencia, futuro campo de sua ação profissional (GOMES; CUNHA, 2006).
É no estágio II que o aluno inicia a coparticipação sob a orientação do regente-tutor; e como a proposta é que ele seja instigado a uma postura investigadora das diversas formas de organização das atividades curriculares no interior da escola, o dinamismo dessas ações se reflete no conteúdo pedagógico desenvolvido durante essa etapa do estágio (GOMES; CUNHA, 2006), como podemos ver:
Estágio II- Tema Central: Roda Viva da Escola Tipo: Investigação e Coparticipação
• Questões de aproximação da realidade escolar e a prática da reflexão do estágio.
Exigência de confronto da postura acadêmica x postura crítica do aluno, capaz de revelar tanto situações problemáticas na prática pedagógica quanto suas possíveis soluções.
- conhecimento da forma de elaboração do planejamento à avaliação da disciplina instrumentadora em questão;
- análise documental dos instrumentos gerados pela disciplina (planejamento, material didático, material documental, avaliação etc.);
- análise da aplicabilidade da metodologia pontuada no projeto pedagógico da escola;
- conhecimento e reflexão sobre os resultados da produção docente e produção discente;
- concepções/impasses e alternativas sobre o saber-pedagógico x fazer- pedagógico;
- possibilidades de trabalho interdisciplinar na escola.
Construção da identidade do educador
- estímulo ao exercício de autoconhecimento do aluno estagiário;
- consolidação de referencial teórico capaz de desvelar as teorias pedagógicas que sustentam a práxis educativa;
- enriquecimento da formação profissional;
- compreensão e enfrentamento do mundo do trabalho. (CUNHA et al., 2006, p. 18)
No Estágio Supervisionado III, o aluno está mais próximo das diversas atividades pedagógicas realizadas no interior da escola. O papel do regente-tutor é muito importante, pois ele deve contribuir para o fortalecimento e a reconstrução da identidade do aluno, a partir da provocação da análise da prática vivenciada (GOMES; CUNHA, 2006). Os principais conteúdos pedagógicos trabalhados durante o Estágio Supervisionado III são mostrados em seguida:
Estágio III- Tema Central: Projeto Pedagógico Tipo: Participação e Cooperação
Reorientação da prática pedagógica
- a relação entre a formação de um professor e a instrução;
- necessidade de conscientização de que a prática pedagógica envolve comportamento de observação, reflexão, análise crítica e reorganização de ações e atuações no espaço escolar, para o desvelamento de atitudes, valores e normas que reproduzem os valores dominantes;
- análise da natureza e da função dos conteúdos escolares nos planejamentos educacionais e no currículo;
- essencialização e transposição dos conteúdos e de atividades comuns do cotidiano da escola e da sala de aula na busca de ações e atuações que reorientem o fazer pedagógico;
- reconhecimento da regência de classe e da prática da avaliação como atividades de diagnose capazes de revelarem dificuldades e fomentarem soluções diferenciadas para as necessidades do aluno. (CUNHA et al., 2006, p. 19)
A última etapa do componente curricular Estágio Supervisionado culmina com a expectativa que se instala na participação interativa do aluno com o “fazer pedagógico” (GOMES; CUNHA, 2006).
Estágio IV- Tema Central: Fazer pedagógico
Tipo: Participação interativa no âmbito de sua disciplina na unidade escolar de 2º segmento de Ensino Fundamental e Ensino Médio
- participação na elaboração de planejamento cooperativo acompanhado pelo regente-tutor;
- participação na definição do processo de avaliação da disciplina instrumentadora, como deflagrador de novas ações pedagógicas;
- exercício da regência de turma/atendimento à demanda dos alunos;
- elaboração de proposta de trabalho ou unidade de ensino pertinente à série/ turma onde realiza o estágio;
- preparação de material didático;
- participação na elaboração de proposta interdisciplinar envolvendo as demais disciplinas do currículo. (CUNHA et al., 2006, p. 19)
No Consórcio CEDERJ, durante os Estágios II, III e IV, o aluno estagiário experimenta atividades de coparticipação, investigação, cooperação, participação ativa da prática pedagógica de sua disciplina, desenvolvidas na escola parceira (escola pública de ensino médio e/ou do 6º ao 9º ano do ensino fundamental). No material didático utilizado pelo estagiário, composto de quatro volumes, um para cada etapa do estágio supervisionado, encontramos roteiros de observação, fichas específicas de variadas atividades pertinentes à prática pedagógica, questionários sobre aspectos abordados na aula e observados ou não na prática do estágio etc.
Muitos de nós tivemos uma formação pedagógica nos cursos de licenciatura em que o estágio se constituía na prática de algumas poucas aulas dadas para obter o grau de aprovação na disciplina. O Estágio Supervisionado praticado no Consórcio CEDERJ deu um passo significativo para mudar essa realidade, com a criação de
um componente curricular que tem como objetivo articular e integrar a teoria e a prática entre os conteúdos das disciplinas acadêmicas do núcleo de formação específica dos cursos de licenciatura e o conhecimento da realidade na organização do espaço escolar (CUNHA et al., 2006). Mas, como na maioria dos cursos de formação docente, ainda está aquém das expectativas quanto à formação do professor para a prática educativa na atualidade.
A minha atuação como coordenadora possibilitou uma investigação mais profunda do desenvolvimento dessa proposta pedagógica. Ao tomar ciência de como o Estágio Supervisionado era praticado no Consórcio CEDERJ (licenciaturas/pedagógicas UERJ), fiquei surpresa ante a qualidade do material didático para o acompanhamento semipresencial, a distribuição da carga horária para a realização das atividades, a qualidade do trabalho desempenhado pelos profissionais envolvidos, enfim, pela estrutura organizacional do componente curricular.
Ao mesmo tempo, comecei a me inteirar do papel do Estágio Supervisionado na formação do futuro professor, também, sob a visão dos alunos estagiários. O que me chamou a atenção foi a dificuldade apontada para lidar com questões vigentes que norteiam o espaço educacional, no âmbito da sala de aula e que, na versão dos estagiários, não ocupam lugar de relevância no espaço acadêmico.
É oportuno aqui um relato que envolve a minha prática como tutora a distância, durante três anos (de 2007 a 2009), antes de assumir a coordenação. Já nessa época, pude perceber que os relatórios e trabalhos apresentados pelos estagiários mostravam dificuldade com o uso de vocábulos como: reflita, analise etc., o que denotava a falta do hábito de pesquisa. Para pensar, criticar, enfim, para elaborar um trabalho que exija reflexão é preciso um referencial... O que acabava ocorrendo era o uso do senso comum por meio do “achismo” em detrimento da pesquisa fundamentada.
Esse é um exemplo que me inquietava ante a instauração de um possível ciclo que mantém as coisas estagnadas, ou seja, a impossibilidade de cobrar rigor por reconhecer que os alunos não correspondiam às expectativas pressupunha que eles não precisavam sair do seu estado de inércia, levando-os, portanto, de alguma forma, a permanecer na ignorância...
Para formar um profissional em condições do exercício cotidiano da reflexão de modo que, a partir dos problemas concretos vivenciados na realidade escolar, seja capaz de buscar a resolução dos mesmos, Zeichner (2008,p. 545) atenta para o conceito de reflexão, pois vemos na fala do autor a importância que os formadores de educadores devem atribuir às ações de ensino que incluem:
1. Consequências pessoais – os efeitos do ensino sobre o desenvolvimento social e emocional dos estudantes e de suas relações sociais; 2. Consequências acadêmicas – os efeitos do ensino sobre o desenvolvimento intelectual dos alunos; e 3. Consequências políticas – os efeitos acumulativos da experiência escolar sobre as mudanças de vida dos estudantes.
Nas palavras de Zeichner (2008), a reflexão significa muito pouco, pois de alguma forma todos os professores são reflexivos, para o autor o que importa é o que queremos que os professores reflitam e como.
A ligação da reflexão docente com a luta por justiça social significa que, além de certificar-se que os professores têm o conhecimento de conteúdo e o conhecimento pedagógico (...), precisamos nos certificar que os professores sabem como tomar decisões, no dia-a-dia, que não limitem as chances de vida de seus alunos; que eles tomem decisões com uma consciência maior das possíveis consequências políticas que as diferentes escolhas podem ter. (ZEICHNER, 2008, p.546)
No acompanhamento dos alunos, durante o primeiro período de estágio, já nos deparamos com a dificuldade encontrada para o cumprimento do conteúdo pedagógico proposto, principalmente no que tange à carência de referências que norteiem os objetivos a serem atingidos, o que já deflagra a dicotomia entre teoria e prática. Como uma bola de neve, desde o início, esse vazio deixado pelo tratamento superficial dessas questões cruciais vai assumindo proporções comprometedoras no que se refere ao desempenho do futuro professor.
O conteúdo pedagógico prevê, por exemplo, que durante o estágio o aluno deve se apropriar de conhecimentos e saberes que possibilitem: o confronto da postura acadêmica x postura crítica do aluno, análise documental, consolidação de referencial teórico capaz de desvelar as teorias pedagógicas que sustentam a práxis educativa (Estágio II); a relação entre a formação de um professor e a instrução (Estágio III); a participação na elaboração de proposta interdisciplinar (Estágio IV), mas, esses elementos que integram a proposta curricular passam longe de um
tratamento adequado a uma formação docente qualificada para a contemporaneidade. Além de perpetuar situações/problemas não resolvidos, isto denota o hiato existente entre a formação docente e os elementos/aspectos que caracterizam o universo educacional nos ensinos fundamental e médio. A minha experiência como professora nesses segmentos contribuiu para um maior entendimento da realidade que os estagiários vivenciam nas escolas.
A partir dessas percepções, propus para os alunos estagiários pesquisas, elaboração e resenha de textos, relatórios e fóruns de discussão, destacando a importância da análise e da avaliação das propostas curriculares do estágio. O olhar crítico desses alunos, motivado por uma efetiva participação, resultou em uma relação dialógica profícua durante o nosso convívio. A minha dedicação à leitura de artigos, livros, dissertações, teses sobre a prática docente, mais especificamente sobre o Estágio Supervisionado, agregada à ampla revisão da literatura do nosso componente curricular contribuiu para o encaminhamento de questões que eram, a meu ver, o ponto- chave para o desenvolvimento de um trabalho de pesquisa.
Além de analisar/investigar o que afligia/desmotivava os alunos estagiários, o que eles consideravam/apontavam como causas para a eterna crise na educação, e que medidas deveriam ser tomadas a curto e médio prazos, a escolha gradativa de temas/assuntos propostos para estudo possibilitou a construção de um acervo significativo de material pesquisado, que constituiu a base inicial da dissertação em tela.
4.2 Uma Proposta Metodológica para o Estágio Supervisionado: a elaboração