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O CORAÇÃO DO HOMEM

No documento PDF A Queda dum Anjo (páginas 45-48)

E

ntremos no coração de Calisto Elói.

Cuidava o leitor que não tínhamos que entender com aquela entranha do homem? Estou que a julgaram inviolável às suspeitas da história em acto de tanto alcance na biografia deste personagem!

Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado.

Naquela idade, se há fibras virginais no coração, eram as dele.

Casara com sua prima Teodora, menina estimabilíssima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva deixou-se ir pela mão do pai à casa do esposo.

Não ia alegre nem triste. Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo. Logo que o pai lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas três dúzias de galinhas e parre- cos, que ela criara, não lhe ficou na casa natal coisa para sérias saudades.

Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o bulício das festas nupciais se aquietou e a mãe do noivo lhes disse: «Meninos, cada mocho a seu soito» — frase ameníssima que em pouco e depressa exprime a muita poesia de toda aquela família.

Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete horas da manhã, já estava a ler a Viagem à Terra Santa, por frei Pantaleão de Aveiro; e, à mesma hora, a noiva andava de pé sobre um catre de pau preto rendilhado, com uma vassoira de giesta, a limpar teias de aranha do tecto.

A Queda dum Anjo Camilo Castelo Branco

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Almoçaram e foram visitar o pai e o sogro, em cuja casa janta- ram. Durante a visita, a Sr.a D. Teodora esteve a ensinar uma criada a engomar as camisas do pai; e Calisto, como descobrisse num armário um tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um fôlego, e tirou apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquela medicina, diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a ele que o Sr. D. João IV, nas doenças graves, se medi- cava com um veterinário.

Ora, deste começo de amores, infiram, senhores, o restante daquela doce vida!

Teodora tomou a cargo os cuidados domésticos de sua sogra, e muitos do trato com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não saía da livraria onde a mulher, como amável sombra, o ia visitar, e, olhando com desdém sobre os in-fólios, dizia-lhe:

— Ó homem, ainda não acabaste de ler esses missais?

— Isto não são missais, menina. Não estejas a profanar os meus clássicos.

A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lesse pela vigé- sima vez as Sete Partidas de D. Pedro. E o bom marido lia-lhe pela vigésima vez as Sete Partidas, porque estavam escritas em portu- guês de lei.

Vida para invejar! Paraíso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do montante de fogo vedar a entrada!

Discorreram anos, sem que o morgado tivesse de perguntar à sua consciência a explicação do mínimo alvoroço de sangue na pre- sença de mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar utensílios agrícolas; pernoitava por diversas casas da província, famosas pela beleza das donas, e contava-lhes casos miríficos de suas leituras, se acontecia não achar livro velho que lhe deliciasse o serão.

Da maior, e talvez única dor literária da sua vida, fui eu causa.

Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas à leitura amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta- -me que deixou o volume com as margens anotadas de galicismos e manchas de toda a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei naquele lusitaníssimo coração!

Afora este incidente, as boninas da vida campestre floriam imarcessíveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura;

salvo quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse,

retaliava descaridosamente e revelava a quebra contingente de todo o homem imperfeito de sua natureza. Isto criou-lhe inimigos;

mas detraidores de sua fidelidade marital nenhum tentou infamar- -lhe o bom nome. Das virtudes conjugais de Teodora até me treme a pena somente de escrever isto para encarecê-las! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas daquela matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornélias, Pôncias e Árrias.

Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

Aí está um novo Daniel à beira da fornalha. Aí está o homem- -anjo! Quarenta e quatro anos imaculados! Um coração que, se algu- mas imagens tem gravadas, são as dos frontispícios aparatosos de alguma edição princeps, de algum Elzevir anotado por Grenobius.

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atural coisa é que este sujeito, intangível às carícias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração.

Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala de um antigo desembargador do paço, que era pai de duas galantes senho- ras, uma casada e outra solteira.

Soou aos ouvidos de Calisto Elói que uma das ilustres damas enodoava sua gentileza e prosápia, violando os deveres de esposa.

Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e comunicou ele o seu espanto e dor ao colega abade.

O abade desfechou-lhe na cara uma estralada de riso civilizado, e disse-lhe:

— Ora o morgado tem coisas! V. Ex.a parece que caiu, há pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso destes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe correr o mundo…

— Que remédio! — atalhou o morgado — mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins à porta das casas cuja desordem de costumes me escandalizar. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

— Faça V. Ex.a o que quiser; porém, consinta que eu reprove similhante procedimento, por duas razões: seja a primeira, que o desembargador e a família receberam o Sr. morgado com cordial afecto; segunda razão, é que V. Ex.a já não está em idade de perder

XI

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