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REGENERAÇÃO

No documento PDF A Queda dum Anjo (páginas 59-63)

Ó

coração sensível! Ó pecadora Catarina, que vais agora expiar o teu crime na cruz da saudade! Aquele Calisto, cuidando que te salvava, matou-te!

Não foi tanto quanto diz a apóstrofe; mas, de feito, Catarina, quando recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e reflexões, como as faria S. Francisco de Sales a madame du Chantal, entendeu de si para consigo que devia morrer de respeito e raiva. O fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embar- car-se. Não referia o diálogo com Calisto; dava, porém, como certa uma tempestade a prumo das cabeças deles delinquentes. «Irei, dizia ele, morrer longe da mulher que amo, para lhe não sacrificar os créditos e os filhos. Se souberes que eu morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciência que eu te amei, como já ninguém ama sobre a face da terra.»

Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados à felicidade da vida. Expunha as consequências funestas das paixões. E termi- nava dizendo que as lágrimas o não deixavam continuar.

Que dama resistiria, depois disto, à Parca dura?

Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providen- ciar em artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

Nestas cogitações a surpreendeu a mana Adelaide, mostrando- -lhe uma carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e honestamente, à menina solteira, no propósito de casa- mento. Este Vasco, de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com

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desprazer os amores da dama, que havia de ser sua cunhada. Even- tualmente soubera ele do embarque do Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo referiram-lhe que o sujeito, perguntando acerca dos amores de Catarina Malafaia, respondera fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escândalos, com que ele não queria brincar, porque a mulher, entusiasta e apaixonada mais que o necessário, seria capaz de o fazer assumir as funções de marido não canónico.

Pouco mais ou menos, era daquela amável contextura o período que D. Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

D. Catarina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos, abraçou-se neles, e disse à irmã:

— Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes inocentes.

Meu amado marido, como eu te quero hoje! Como eu sinto o teu coração a consolar-me nestes remorsos!…

Ora, eu não tenho a caridade de crer nos remorsos de D. Cata- rina; mas piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido, fineza que ele devia agradecer-lhe com as suas mais melífluas carícias.

E veio logo a suceder que o esposo, surpreendido pela extre- mosa ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu branda- mente a explicação da improvisa mudança. Catarina, imaginosa como todas as pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que afinal se convencera que o seu Duarte a não traía:

suspeita de tanta força para ela, que pudera empeçonhar, com as serpes do ciúme, a felicidade de duas almas ligadas por paixão.

Duarte ficou lisonjeado e satisfeito. Seguiu-se confessar ele também as suas vagas desconfianças quanto à lealdade da esposa.

Aqui é que foi a cena, digna de mais conspícuo narrador. A ofendida senhora pregou os olhos no firmamento de madeira, espreitou por ele o empíreo, com a dupla vista que dá a angústia, e murmurou:

— Céus! Que injustiça!

Era dor que lhe encolhia os folipos das lágrimas. Não arranjou a chorar. Caiu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas daquela natureza! E, tapando a face com as mãos alvíssimas, balbuciou, desentalando-se dos suspiros:

— Oh! que infeliz! que infeliz!

Duarte inclinou-se com os lábios ao colo de Catarina, e disse afectuosamente:

— Perdoemos um ao outro. Estes ciúmes recíprocos dizem que nos amávamos por igual.

Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe fal- tasse fôlego de despejo para sustentar a cena, envergonhou-se de si mesma e teve dó do marido, a quem ela, e pai, e irmã deviam a decência, estado, representação e sociabilidade com as primeiras famílias de Lisboa.

Instantes foram estes de consciência reabilitada, que puderam muito com ela no decurso da vida, e prometem ser-lhe amparo até ao fim.

É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é único dos meus apontamentos, em igualdade de circuns- tâncias. Ainda há gente boa e de muitíssima virtude; isto é que é verdade.

O fautor deste sucesso, com que a gente se consola, foi, sem debate, Calisto Elói, aquele anjo!

Com que delícias de alma contemplava ele a restaurada ven- tura daqueles casados, e o júbilo do desembargador! E os agradeci- mentos do ancião, que bem lhe faziam ao peito honrado! E os afec- tos de Catarina, que de todo ignorava ter sido ele o agente do seu sossego; porém, muito lhe queria pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestara a culpa!

Afora o desembargador, uma pessoa única sabia que o morgado tinha sido o conciliador engenhoso da paz da família: era Adelaide.

Esta menina vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quisesse esposar, fazendo-a cúmplice dos desvios da irmã.

Agora, já mais esperançada na realização do casamento, via com olhos agradecidos o bom provinciano, e atendia-o com os desvelos de extremosa amiga. A isto a incitava o pai, que frequentes vezes lhe dizia:

— Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e pudesses amá-lo, filha, que prazer o nosso, se…

— Oh! papá… — atalhava quase sempre a menina — pois eu havia de casar com ele?…

— Porque não? Honra, riqueza, ciência e nobreza… que mais querias tu, filha — perguntava o pai.

Adelaide sorria-se, e murmurava de si consigo…

— Ainda bem que ele é casado, senão eu tinha que ver com a jarreta da criatura!…

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No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou- -lhe a jogar as damas, prenda em que o morgado revelou uma ina- bilidade que excede todo o encarecimento.

E

is que, a súbitas, do coração de Calisto ressalta a primeira faísca de amor!

Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes pró- logos. Sei que o leitor ficou passado com esta notícia. Grita que a inverosimilhança é flagrante. Não pode de boamente consentir que se lhe desfigure a sisuda fisionomia moral do marido de D. Teodora Figueiroa. Quer que se limpe da fronte deste homem o estigma de um pensamento adúltero. Honrados desejos!

Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui à minha beira o demónio da verdade, inseparável do historiador sincero, o demónio da verdade que não consentiu ao Sr. Alexandre Herculano dizer que Afonso Henriques viu coisas extraordinárias no céu do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Elói não adulterou em pensamento! Estes são os ossos malditos do ofí- cio; esta é a condenação dos infelizes artífices que edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano os cimen- tos da sua obra.

Ai! Se Calisto Elói foi de repente assalteado do dragão do amor, como hei-de eu inventar prelúdios e antecedências que a natureza não usou com ele?! Se o homem, espantado, a si mesmo se interro- gava, e dizia: «Isto que é?!», como hei-de eu dizer ao leitor o que foi aquilo?!

O que ele sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a sueca de parceiro com Adelaide, à razão de cruzado novo a

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