• Nenhum resultado encontrado

O cronista da mestiçagem

No documento Alessandra Greyce Gaia Pamplona_Tese.pdf (páginas 92-200)

A simplicidade estrutural e conteudística dessa primeira crítica literária é, se não completamente, um resultado de como as circunstâncias de publicação na imprensa diária interferem na produção de um autor. José Veríssimo vê-se colocado (assim como aconteceu nas crônicas sobre eventos históricos) na situação de ter que interromper seu trabalho com as crônicas teatrais para tratar de assunto literário, o que explica, em certa medida, a apreciação um tanto descompromissada do livro do escritor Carneiro Vilela, sem o habitual estudo que vinha fazendo das peças teatrais. Exemplo disso, também, foi o uso, nos textos dos dias 8 e 9, de uma linguagem relacionada ao contexto irremediável da polêmica, de que se servia O Liberal do Pará e o A Boa Nova.

metodista. Um mês após, recebia a comenda do governo português, que o agraciava por conta de sua participação no Congresso.

Ainda em 1881, concorre a uma vaga de professor para a cadeira de francês do Liceu Paraense, momento este, aliás, conturbado, pois, não aceitando a nota recebida no concurso, provocou − apoiado pelo jornal para o qual colaborava, Gazeta de Notícias − uma extensa contenda contra seus avaliadores, o presidente da província e jornais opositores. Em setembro, ainda como oficial da secretária, foi nomeado para servir em comissão de bibliotecário público, em cuja direção permaneceu até dezembro de 1882.

Na Gazeta, afora o estudo sobre Emílio Littré, publica, em 28 de setembro de 1881, “O elemento africano e a nacionalidade brasileira”, por conta dos 10 anos de promulgada a Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871. Diferente do que aconteceu n’O Liberal do Pará, em que ao autor foi destinada uma secção particular por um longo período, nesse jornal sua colaboração parecia eventual, para o que não havia necessidade de uma coluna específica. No entanto, seus escritos ocupavam sempre a segunda página, na qual vinha, geralmente, a coluna destinada aos assuntos da hora e o folhetim, em contraste com a primeira página, onde apareciam as costumeiras notícias sobre a província, especialmente sobre a movimentação comercial, e excepcionalmente, nesse dia, aparece uma nota dando salvas ao visconde de Rio Branco, em cujo gabinete se tomou a iniciativa da referida lei que alforriava crianças filhas de escravas. A localização na segunda página, portanto, não era um demérito, considerando o formato do periódico, e, muito menos, estava distante do que se tratava nesse dia.

O artigo não se ocupa da lei em si, de suas consequências econômicas e estruturais, apesar de, inevitavelmente, nele estarem implícitos esses temas. A preocupação está em perceber como o elemento africano vem sendo tratado pela ficção, isto é, pelos escritores que se interessam por estudar a nacionalidade brasileira. Ao destacar esse ponto, consequentemente, inscreve-se numa discussão conduzida por Silvio Romero, mostrando, pela própria exposição das matérias no texto, que compartilha do movimento de renovação das ideias de 1870.

Inicia afirmando que a originalidade brasileira está relacionada ao “produto étnico” do cruzamento de crenças, de costumes e das línguas do índio, do branco e do negro e que, se no século XIX prevalece a heterogeneidade, “daqui a um século será um corpo sociológico perfeitamente homogêneo”, o que trará à nacionalidade

do Brasil “um desenvolvimento mais seguro e menos sujeito a comoções” do que o da nação do norte da América, “a quem falta a coesão de moléculas” (VERÍSSIMO, 1881f, p.2). O uso dessa linguagem representativa de suas influências ratifica o lugar da ciência e constitui um modo de apontar o que os estudos anteriores não teriam feito, donde a frase que segue: “Não há muito tempo [...] ninguém no Brasil pensava assim”, ou seja, faz questão de distinguir que seu lugar é diferente das tradições representadas pelo visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo de Varnhagen, para quem eram todos portugueses, e por Gonçalves Dias, Magalhães e os poetas todos até José de Alencar, que teriam falseado o índio.

A partir daí, são expostas as bases do pensamento que atribui à mestiçagem racial a particularidade da nacionalidade brasileira, assunto, de acordo com o autor, posto em relevo por Ferdinand Denis, bem como por ele próprio, José Veríssimo, já em 1877:

[...] em 1877 em estudos que passaram desapercebidos, nós escrevíamos que o verdadeiro povo brasileiro era o resultado dos cruzamentos — e, tratando do elemento que particularmente nos ocupa neste artigo dizíamos:

“O elemento africano em contato íntimo com a nossa família, e cruzando-se largamente em todo o país forma hoje com os dois outros, o tupi e o português, a nacionalidade brasileira e, cumpre notar, foi ele que, pela escravidão, nos trouxe os únicos dos nossos costumes que se podem chamar originais.” (VERÍSSIMO, 1881f, p.2).

O livro referido é Primeiras páginas, resultado da reunião de alguns textos publicados na imprensa periódica. O capítulo em que essa questão é exposta é o terceiro, intitulado “A literatura brasileira: sua formação e destino (relance) ”, no qual Veríssimo trata de igual tema não com a mesma diplomacia e comedimento vistos em 1881 e 1889,44 pois se lá é cedido espaço a expressões como “barbárie estúpida”, aqui (1881) ressalta a primazia de ter, antes mesmo de Sílvio Romero, publicado sobre o assunto:

Estas ideias, manifestadas por nós em 1878, época da publicação do nosso livro, tivemos o prazer sincero de vê-las confirmadas pelo ilustre escritor brasileiro o sr. Sílvio Romero (1879-1881) apenas com uma diferença.

44 Em 1889, nos Estudos brasileiros, Veríssimo seguindo um pressuposto seu indicado no prefácio a esse livro, de que algumas opiniões no Primeiras páginas foram acidentais, e que, em (1889), as rejeita , retifica de vez seu julgamento sobre o papel do elemento negro na formação brasileira, expresso em nota de rodapé, a fim de que o original seja mantido na íntegra. Afirma: “Fui

profundamente injusto com a raça negra, na qual tenho antepassados. Ela é porventura superior à indígena e prestou ao Brasil relevantes serviços. ” (VERÍSSIMO, 1889a, p. 10).

Nós havíamo-las assentado para o elemento africano, ao menos empiricamente, enquanto que ele chegara às mesmas conclusões estudando profundamente as manifestações do sentimento estético do nosso povo (VERÍSSIMO, 1881f, p.2).

Os textos aludidos de Sílvio Romero são ao menos dois, os que saíram na Revista Brasileira de 1879 e 1881, respectivamente “A poesia popular no Brasil”

(tomo I – jun.-set.) e “A questão do dia: a emancipação dos escravos” (tomo VII − jan.-mar.). Ou seja, as ideias, da maneira como estão expostas, sugerem não somente a inserção pelo próprio José Veríssimo de sua imagem num eixo de discussão, compartilhado por eminentes escritores, mas, sobretudo, a sua astúcia de ter precisado informações sobre o elemento africano tão somente pela via empírica, diferentemente da abordagem de Romero, que identificou a peculiaridade da nacionalidade via estudo de contos e cantos, reunidos no que este escritor chama de “poesia popular”.

Mesmo sendo utilizada a estratégia discursiva de distanciar-se do sergipano no quesito método, a Veríssimo não escapa o objetivo de bem demarcar a influência cultural do negro num cenário que pleiteia, maiormente, sua libertação, tendo em vista as consequências econômicas. E o tema é ampliado, pois não seria mais “um sentimentalismo discutível” que exigiria a emancipação dos escravos, mas, sim, “a ciência social que pede que ela se faça mais breve possível” (VERÍSSIMO, 1881f, p.2), e sem a qual, todos os setores da sociedade – e não somente um – estariam comprometidos.

O problema da escravidão é tratado de maneira abrangente, como um problema social, que faz parte de uma agenda de estudos da qual se interessam os escritores da geração de 70, afastados, por conta disso, da tradição romântica, que sequer percebeu no cruzamento racial uma via de acesso ao legítimo componente da nacionalidade brasileira. Assim, o autor não se ocupa exclusivamente do elemento africano e da nacionalidade brasileira, mas também da localização do espaço dos escritores brasileiros nessa conjuntura, de que é exemplo o seu próprio e o de Sílvio Romero.

A recepção desse texto pareceu morna, se assim considerarmos as poucas notas sobre ele espalhadas por algumas folhas da imprensa, como O Liberal do Pará e o Diário de Belém, com valor apenas informativo, e não crítico.

Os quatro itens agrupados no conjunto “Notícias do dia a dia” compreendem uma produção jornalística aparecida entre os anos de 1878 e 1881, caracterizada por uma variedade temática discorrida basicamente no formato de crônica. A análise dessa circunstância jornalística aponta para a maneira como se desenvolve a produção literária do escritor à medida que lhe é solicitada intervenção, ora a serviço do programa político do jornal, ora em conformidade com alguns posicionamentos ideológicos deste periódico, ora resultado da maneira como encara o autor a sua realidade.

Assim, não é somente a sua individualidade a responsável pela concretização de textos; muitos deles transformam-se à medida que são lidos, como aconteceu − para ficarmos em um exemplo somente − com as crônicas sobre o Cântico dos Cânticos, nas quais Veríssimo muda de uma forma discursiva essencialmente descritiva, ausente de expansões críticas, para um tom obcecado pela bandeira positivista, também com raríssimos sinais investigativos, justamente porque seu leitor imediato (A Boa Nova) decidiu criticá-lo em suas bases filosóficas. De um extremo ao outro, essa postura de Veríssimo atribui o ganho à polêmica em si, que foi alimentada de joguetes argumentativos, o que é de estranhar-se em quem se dizia um discípulo do positivismo na imprensa, postura já bastante modificada quando trata de Emílio Littré três anos depois.

Se assim, isoladamente, forem avaliadas as ditas crônicas, perder-se-ia muito do conjunto crítico de José Veríssimo, a contar pelas crônicas teatrais, em que, em sua grande maioria, há análises bem ajustadas e fundamentas no princípio da escola realista, no mesmo momento em que a referida querela com A Boa Nova era estabelecida, por exemplo.

Portanto, para esses textos produzidos no cotidiano, o que vale, além de sua contextualização (incluindo aí sua circulação e recepção, quando possíveis), é a maneira por que serão apropriados pelos futuros leitores. Dessa forma, não se afirmará, por exemplo, que o escritor foi um exímio defensor de Littré na Amazônia, sem antes notar como foi estabelecida tal defesa, se ela variou com o tempo, e a quem ela mais privilegiou, se o próprio cronista ou se o referido filósofo.

7 REFLEXÃO SOBRE AS CONDIÇÕES DA PRODUÇÃO LITERÁRIA NO BRASIL

Até 1880, afora o serviço público, a participação de José Veríssimo na imprensa restringiu-se a O Liberal do Pará, onde uma boa quantidade de textos em variados assuntos foi dada à estampa, tendo o autor ainda publicado o volume Primeiras páginas (1878), conforme mencionado em itens anteriores. Nesses seus escritos, questões de produção e circulação de obras se faziam recorrentes, quer como artifício retórico − ao utilizar a fórmula do estado de escassez das letras no Brasil ou na província do Pará, sem relacioná-la de modo direto ao tema que lhe serve de apoio −, quer como argumento para legitimar e provar a precariedade desse mesma província. Ou seja, era a ordem do dia, também, tratar dos seguintes temas: a indiferença do público e do governo para coisas que se julgavam relevantes; o número escasso de casas editoras na província; os altos preços cobrados para se publicar um livro; a falta de regulamentos das instituições culturais;

a presença quase exclusiva de obras e de editores estrangeiros no mercado; a ausência de leis para o reconhecimento da atividade de escritor.

A geração na qual estava inserido compartilhava, se não de todos, ao menos das duas últimas preocupações aludidas. A lista de consequências desses eventos também é extensa. Citemos apenas uma marca discursiva, no que se refere a Veríssimo, e que a crônica ajudou muito a desenvolver: a quase obsessão de nunca creditar a uma peça teatral, por exemplo, o estatuto de bem executada, mesmo reconhecendo nela “avanços” em relação a outras, quando atuou como crítico de teatro em 1878, atitude necessária para quem desejava imprimir na sociedade os pressupostos da escola à qual estava vinculado.

As condições de produção literária tornam-se temas de interesse principal quando solicita a palavra no congresso realizado em Lisboa, em setembro de 1880, para “responder às justas censuras do mui distinto escritor português, Pinheiro Chagas” (VERÍSSIMO, 1880, p. 37).45

45 José Veríssimo não intitulou o seu discurso. A fim de melhor inseri-lo nas Referências, optamos por adotar a denominação atribuída pelos organizadores do Congresso: “Sobre a literatura brasileira”

(“Sur la littérature brésilienne”, no original). Roberto Acízelo de Souza, tradutor da versão de que ora nos utilizamos, assim preferiu intitulá-lo, considerando trechos do próprio discurso de Veríssimo: “O estado atual da literatura brasileira e a questão da propriedade literária”.

Compondo a agenda de atividades da Association littéraire et artistique internationale, fundada em 1878, o Congresso de Lisboa, antecedido pelo de Paris e pelo de Londres, procurava dar andamento ao programa estabelecido previamente no ano de 1879. Era assim que procedia a associação, cuja “finalidade [era] a defesa dos direitos de propriedade intelectual em todos os países, elaboração de leis e convenções internacionais e o estabelecimento de relações de solidariedade entre escritores e artistas de todas as nações” (LERMINA, 1900, p. 6; tradução nossa).46 O resultado imediato foi a Convenção de Berna, em 1886, que preconizava a reciprocidade de “proteção dos direitos dos autores sobre suas obras literárias e artísticas”,47 a qual foi primeiramente subscrita por Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Inglaterra, Haiti, Itália, Luxemburgo, Montenegro, Mônaco, Suíça e Tunísia.

O Brasil se integraria ao grupo somente em 1922, mas já pela Lei No 496, de 1o de agosto de 1898, inicia-se a organização legal da questão. No império, algumas leis davam conta disso, mas nenhuma delas, de fato, assegurava o reconhecimento da propriedade literária e artística no Brasil, o que, em 1879, vira motivo (dentre vários exemplos no mesmo gênero) para o escritor português Manuel Pinheiro Chagas dirigir-se, por meio de uma carta, ao imperador do Brasil, requerendo atitudes mais firmes sobre a propriedade literária.

O próprio Veríssimo, em crônica teatral, reconhecia, advogando a favor dos escritores, as dificuldades advindas da falta de leis ou de artigos mais claros que garantissem a propriedade literária. Prova disso seria não somente o uso indiscriminado por empresários teatrais de peças estrangeiras, mas também a limitação que impunham os descendentes de escritores ao acesso de suas obras:

De fato, a representação de dramas franceses, ou outros, geralmente traduzidos em Portugal, nada custa aos empresários, pois não temos com nenhum país tratados que garantam a propriedade literária, enquanto que os dramas nacionais pertencem aos autores ou aos seus descendentes que para deixarem-nos representar exigem, como é justo, uma indenização.

Portanto não são só interesses da arte e do bom gosto que agora advogo, são também os interesses dos nossos escritores, que se não tivessem outro

46 No original: “L'Association littéraire et artistique internationale a été fondée en 1878, sous le

patronage de Victor Hugo; elle a pour objet la défense du droit de propriété intellectuelle dans tous les pays, la préparation de lois et de conventions internationales et l'établissement de liens de

confraternité entre les écrivains et artistes de toutes le nations. ”

47Artigo 1o da Convenção de Berna, consultada no site: UNESCO. Apresenta informações sobre a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Disponível em:

http://www.unesco.org/culture/natlaws/media/pdf/bresil/brazil_conv_berna_09_09_1886_por_orof.pdf.

Acesso em: 13 jul. 2015.

ofício estavam certamente condenados a morrer de fome (VERÍSSIMO,1878f, p.1).

No Congresso, em sessão pública do dia 22 de setembro de 1880,48 Pinheiro Chagas, na ocasião seu vice-presidente, reconhecendo que “a questão da propriedade literária não é uma questão de mercantilismo,[...], é uma questão de independência para o escritor [...]” (CHAGAS, 1880, p. 35-36; tradução nossa), e que a contrafação existe, sendo os escritores suas vítimas, acusa o Brasil de ignorar seus direitos mais legítimos e incontestáveis, ao permitir a apropriação sem autorização de obras literárias e teatrais de escritores portugueses.49 Assim, continua seu discurso:

Estamos, em face do Brasil, Senhores, nas mesmas condições em que a França já esteve em face da Bélgica; mas a Bélgica enfim reconheceu o direito sagrado da propriedade literária, e o Brasil, que é no entanto um país que compreende todos os nobres pensamentos, um país que não recua diante de qualquer sacrifício para realizar as mais santas aspirações da civilização moderna, o Brasil não a quer reconhecer. [...] Vejo aqui nobremente representados quase todos os países do mundo civilizado, vejo mesmo representado o Brasil por um dos membros desta brilhante falange de jovens escritores que, neste momento, renovam as formas e as tendências da literatura brasileira. Pois bem! Eu proporia que o Congresso emitisse um voto acerca desta questão, proporia mesmo, se isso não for contrário aos nossos regulamentos, que nos dirigíssemos aos escritores brasileiros, e sobretudo ao nosso eminente confrade, Sua Majestade o Imperador, que é também um literato e um sábio, exortando-os a serem em seu país os campeões desta causa sagrada, e a apagar de sua legislação, todavia tão esclarecida, esta mancha de sombra (CHAGAS, 1880, p. 36, tradução de Roberto Acízelo de Souza).50

48 Pinheiro Chagas não intitula sua comunicação. A fim de identificá-la nas Referências, utilizaremos o seguinte título, que dá conta, resumidamente, da fala do escritor português: “Notas sobre a literatura portuguesa e a questão da propriedade literária”.

49 No original: “La question de la propriété littéraire n'est pas une question de mercantilisme, comme on le croit, comme on le dit, c’est une question d’indépendance pour l’écrivain [...]. /Tout ce que je viens de dire, messieurs, vous prouve que je suis tout à fait de l’avis du rapport sur la question de la traduction, mais je voudrais qu’auparavant on condamnant bien hautement le vol littéraire, dans sa forme la plus odieuse, c’este-à-dire la contrefaçon. Elle existe encore, et nous en sommes les victimes. Tandis que nous reconnaissons ici, sans arrière-pensée et d’une voix unanime, le droit des écrivains étrangers à la propriété de leurs ouvres, même après la transformation que la traduction leur fait subir, même après le travail qu’un traducteur s’impose, nous voyons méconnus nos droits le plus authentiques et les plus incontestables par la contrefaçon brésilienne, et par le sans-gêne avec lequel les théâtres du Brésil jouent nos pièces sans notre autorisation [...]. Nous acteurs vont gagner une fortune au Brésil en jouant nos pièces [...].”

50 No original: “Nous sommes vis-à-vis le Brésil, messieurs, dans le mêmes conditions où la France était jadis vis-à-vis la Belgique; mais la Belgique a reconnu enfin ce droit sacré de la propriété

littéraire, et le Brésil, qui est pourtant un pays qui comprend toutes les nobles pensées, un pais qui ne recule devant aucun sacrifice pour réaliser les plus saintes aspirations de la civilisation moderne, le Brésil ne veut pas le reconnaître. [...] Je vois ici noblement représentés presque touts les pays du monde civilisé, je vois ici même représenté le Brésil par un des membres de cette brillante phalange de jeunes écrivains, qui dans ce moment, on peut le dire, renouvellent les formes et les tendances de

Ao término dessa exposição, e requerendo o Congresso que o Brasil − que havia então recém-abolido a escravidão − continuasse sua obra civilizatória com o reconhecimento dos princípios da propriedade literária, Veríssimo pediu a palavra, argumentando que, por não haver Estado pequeno nem homem secundário, era dever seu informar que não eram brasileiros, mas sim portugueses e franceses os principais editores no seu país, e que, muito menos, os literatos seriam os responsáveis pela contrafação de obras. Em seguida, a requisição do escritor para tratar do assunto foi posta em votação e aprovada, para ser realizada no dia 24 de setembro.

Antes desse dia, porém, outro brasileiro, Santa-Anna Nery, já participava ativamente, na condição de membro da Association, das discussões sobre a propriedade literária, inclusive publicando, no número 9 do Bulletin e em cumprimento ao pedido da comissão de tradução, um artigo sobre este tema do ponto de vista literário no que se refere especificamente ao Brasil. Nesse texto, há a ideia renitente, compartilhada por Veríssimo, de que “[...] são os editores de livros, os diretores de teatro e arranjadores de peça que são culpados pelas pilhagens...

forçados. Estes nomes são, quase todos, se não todos, estrangeiros estabelecidos no Brasil ou que estão aqui somente de passagem[...]” (SANTA-ANNA NERY, 1880, p.

72).51

Por se tratar de um documento para conhecimento do Congresso em si, o texto de Santa-Anna Nery parece não ter sido amplamente divulgado no Brasil, diferentemente da intervenção de Veríssimo, que, por ter sido feita em sessão pública, obteve bastante visibilidade nos jornais nacionais. O fato é que esses escritores não estavam isolados na causa que era assunto ordinário no século XIX.

O pronunciamento de José Veríssimo inicia com a declaração de que ele não estava ali representando oficialmente nem o governo, nem qualquer associação literária brasileira, mas pelo simples motivo de interessar-lhe o tema dos direitos da obra literária, e, como escritor, se via na qualidade de explicar as condições literárias de sua terra motivado pelas palavras de Pinheiro Chagas. Essa matéria é assentada

la littérature brésilienne. Eh bien! je proposerais que le Congrès émit un voeu au sujet de cette question, si cela n’est pas contraire à nos règlements, qu’on d’adressât aux écrivains brésiliens, et surtout à notre éminent confrère, Sa Majesté l’empereur, qui est aussi un littérateur et un savant, en les adjurant d’être chez eux les champions de cette cause sacrée, et d’effacer dans leur législation, si éclairée pourtant, cette tache d’ombre.”

51 Santa-Anna Nery não intitula sua comunicação, porém ela é referida pelo Bulletin de 1900 como:

“Rapport de M.F. de S. A. Nery”, sendo também assim identificada nas Referências deste trabalho.

No documento Alessandra Greyce Gaia Pamplona_Tese.pdf (páginas 92-200)

Documentos relacionados