A língua pode ser vista como o reflexo cultural de uma sociedade. Estudar uma língua a partir de suas características puramente linguísticas é uma atividade que se resumiria apenas à observação e estudo dos aspectos fonéticos, morfológicos e/ou sintáticos. Contudo, para se compreender a cultura e a sociedade, é preciso ir além daqueles e adentrar também no nível do léxico, o qual nos permite detectar particularidades relacionadas àquelas. Neste sentido, a língua se torna
[...] o interpretante da sociedade [...] pelo fato de que se pode isolar a língua, estudá-la e descrevê-la por ela mesma sem se referir a seu em- prego na sociedade, e sem se referir a suas relações com as normas e as representações sociais que formam a cultura. Em contrapartida, é impossível descrever a sociedade, descrever a cultura, fora de suas ex- pressões linguísticas. Neste sentido a língua inclui a sociedade [...] (BEN- VENISTE, 2006, p. 97-98).
Indiscutivelmente, é através da língua que são refletidas a cultura e a socieda- de de um povo. Diante disso, enveredamos pelas subáreas da Lexicologia2: a Sema- siologia e a Onomasiologia e em seus critérios de classificação lexical, sendo que a Semasiologia parte do significante para o significado, já a Onomasiologia, em uma relação opositiva àquela, toma o conceito/significado dos objetos ou coisas como ponto de referência para se chegar ao significante. A seguir, apresentamos duas fi- guras que representam o tratamento dado pela Semasiologia e pela Onomasiologia ao nome e ao significado/ conceito.
2. De acordo com Abbade (2006), a Lexicologia possui seis subdivisões ou ciências afins, a saber: a Lexi- cografia, a Terminologia, a Semântica, a Etimologia, a Semasiologia e a Onomasiologia.
Figura 1: Semasiologia Figura 2: Onomasiologia
Fonte: (BALDINGER, 1966, p. 28). Fonte: (BALDINGER, 1966, p. 28).
A partir das figuras elaboradas por Baldinger (1966), constatamos que a Sema- siologia e a Onomasiologia se opõem e se complementam ao mesmo tempo. Essa duplicidade de aspectos nos remete ao signo linguístico, que é composto por um significante e um significado, ou melhor, a união entre a imagem, que elaboramos do objeto em nossa mente e o objeto representado no mundo real.
Apropriando-se da Onomasiologia e com o intuito de fazer um possível levan- tamento e análise do léxico, os autores do Sistema Racional de Conceitos desenvol- veram a sua primeira proposta em 1952, na qual defendiam a criação de dicionários ideológicos que classificassem os conceitos, os quais, segundo eles, são mais está- veis e mais tendentes à generalização do que a palavra (C.f. CASTILHO; CARRATORE, 1967). Contudo, mesmo depois de sofrerem críticas assaz diversas sobre a eficiência do Sistema Racional de Conceitos em trabalhos científicos que envolviam línguas naturais diferentes, Rudof Hallig e Walther von Wartburg não se deram por vencidos e, ao invés disso, fizeram modificações no Sistema Racional de Conceitos, em 1963.
Assim, para a realização deste trabalho nos apropriamos da segunda versão.
Esta teoria trata do estudo de qualquer língua natural partindo, primordial- mente, de conceitos pré-científicos, que abarcam os conhecimentos de mundo ad- quiridos a partir de experiências cristalizadas nas palavras, a fim de estabelecer
linguagem viva, traduzindo a vivência cultural do povo [...]” (BASSETO, 2005, p. 77) – a qual classifica as lexias a partir dos significados e não dos significantes.
Assim, o Sistema Racional de Conceitos foi desenvolvido a partir de uma pi- râmide tripartite, composta por três esferas que se distinguem e se completam simultaneamente, a saber: esfera A – O Universo, esfera B – O Homem, e esfera C – O Homem e o Universo, sendo que para cada esfera há subdivisões ou subesferas, que fazem referência àquelas.
Na primeira esfera, O Universo, os autores partem do universal para as espe- cificidades, atribuindo àquele um lugar de destaque e independente da existência humana. Essa divisão conceitual é subdividida em quatro partes, as quais são: I - O céu e a atmosfera; II – A terra; III – As plantas e IV – Os animais.
Na segunda esfera, O homem, é atribuída ao ser humano uma espécie de consciência de si mesmo, incluindo todos seus pensamentos, seus sentimentos, sua vontade, seu trabalho e seu poder criador. Essa esfera também é subdividida em quatro partes, a saber: I – O homem, ser físico; II – A alma e o intelecto; III – O ho- mem, ser social e IV – A organização social.
Na primeira parte - O homem, ser físico – são tratados conceitos referentes ao homem, enquanto ser que tem um corpo com funções, órgãos e forma. São abor- dadas também a vida, a morte, a saúde e a reprodução.
Na segunda parte – A alma e o intelecto – são abordados conceitos concernen- tes à alma e ao intelecto, como, por exemplo, a memória, a consciência, a imagina- ção, os sentimentos, as vontades, a moral e as sensações.
Na terceira parte – O homem, ser social – os autores destacam os fatos sociais do ponto de vista das relações estabelecidas a partir do convívio social, tais como:
as relações trabalhistas, as atividades práticas, as relações de parentesco e de ami- zade, casamento e diversão e lazer.
Na quarta parte – A organização social – são apontados os conceitos relaciona- dos com a vida em sociedade, como, por exemplo, as crenças e a religião, o Estado, o ensino e a instrução, a organização judiciária e as guerras/conflitos sociais.
Na terceira esfera, O homem e o Universo, são apresentados os conceitos ba- seados na relação existente entre o homem e o universo. Esta esfera é subdividida em duas partes: I – A priori e II – A ciência e a técnica. Em I – A priori são delimitados conceitos sobre os objetos, referindo-se ao seu estado, forma, dimensão, matéria,
qualidade, quantidade, valor, causalidade, tempo e movimento. Já em II – A ciência e a técnica há conceitos no tocante à ciência e à técnica e à ciência e indústria (PAULA, 2007; QUEIROZ, 2002).
No entanto, neste trabalho, apresentamos apenas as lexias constantes na esfe- ra B – O homem, mais especificamente na subesfera I – O homem, ser físico – vida humana em geral, por se tratarem de lexias que fazem remissão à vida humana.
A pirâmide tripartite: o léxico em evidência
Adotamos e, em alguns casos, adaptamos as divisões e subdivisões do Sistema Racional de Conceitos, atendendo aos seguintes critérios:
• Para as entradas lexicais, as lexias foram apresentadas em letras mai- úsculas e em negrito, seguidas pela classificação genérica da categoria gramatical a que pertencem;
• As entradas dos nomes (substantivos e adjetivos) foram feitas pelo masculino e feminino singular;
• As entradas dos verbos foram feitas pelo infinitivo;
• Após a entrada e a classificação apresentamos a significação da lexia no contexto específico, seguida de um exemplo do texto e, na medida do possível, as demais indicações presentes na ação de desquite e os respectivos fólios e linhas;
• Os exemplos foram apresentados de acordo com a ordem em que aparecem no texto, com a lexia destacada em negrito (QUEIROZ, 2002).
Da ação de desquite ao estudo do léxico: aplicando a teoria do siste- ma racional de conceitos
B – O HOMEM
I - O HOMEM, SER FÍSICO
• Vida humana em geral
1. Nascimento
NASCIMENTO (s.m.): ação de nascer; nascença.
Contexto: “[...] Saibam quantos este publico instrumento de pro- / curação bastante virem, que no Anno do Nascimen- / to de Nosso Senhor Jesus Christo [...]” (f. 5r, l. 19-21);
IDADE (s.f.): tempo de vida decorrido desde o nascimento até uma determinada data tomada como referência.
Contexto: “[...] Valentim José de Souza,/ com cincoenta e quatro annos/
de idade casado negociante/ natural da cidade de Ca-/ choeira e residente nesta ci-/ dade [...]” (f. 24r, l. 29-30 – f. 24v, l. 1-4; f. 27r, l. 14; f. 29r, l. 27).