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Descrição de aspectos fonéticos, fonológicos e morfossintáticos nas narrativas

Para realizarmos esta análise, foi necessário seguirmos alguns procedimen- tos. Inicialmente, foi feito o estudo da fonologia da língua, a partir de um recor- te lingüístico (os dados de Seki). Em paralelo, observamos as características da gramática da língua Krenak, apresentadas pela pesquisadora Seki. Tomando por base os fenômenos fonético-fonológicos e morfossintáticos observados, partimos para a observação e discussão dos mesmos presentes no material de Manizer.

Para chegarmos às propostas finais, focalizamos nossa atenção sobre os seguintes aspectos fonológicos e gramaticais.

Na fonologia: a) identificação das vogais centrais; b) identificação dos segmen- tos nasais que consideraremos como nasais surdas; c) a identificação de possíveis segmentos de contorno; d) identificação de processos fonológicos;

Na gramática foi possível observar aspectos relacionados a:

• ordem;

• formas pronominais (pessoais e possessivas);

• marcadores de tempo;

• advérbios;

• negação;

• empréstimos linguísticos.

Apresentaremos, a seguir, uma breve explanação acerca de cada item, mencio-

Fonética e fonologia

Identificação das vogais centrais

Uma vez que as outras vogais identificadas já utilizavam símbolos e sinais facilmente reconhecíveis (por pertencerem ao alfabeto de fonética internacional até hoje), o principal foco de dificuldades na identificação da formas fonológicas recai sobre a identificação fonêmica das vogais centrais.

A dificuldade é maior sobretudo quando estas vogais se alternam entre si ou são realizações alofônicas de outras vogais, como da vogal alta /i/, sendo todas transcritas por Manizer com o mesmo símbolo [ы]. Neste sentido, é possível identi- ficar que os mesmos itens são ora transcritos com o símbolo russo, ora registra- dos com o símbolo /i/ - ou até mesmo a partir de outras vogais. Assim, conside- rando-se a utilização destes símbolos e as variações registradas, torna-se menos claro saber exatamente com qual vogal do sistema estaríamos lidando e qual vogal Manizer quis expressar através do símbolo por ele utilizado.

Em nosso estudo sobre a fonologia Krenak, vimos que as vogais centrais média alta e central alta são fonemas da língua Krenak, inclusive comprovados por contraste em ambiente idêntico. Mesmo assim, podem se alternar na superfície, sem que isto cause oposição de sentido necessariamente. Ainda, a vogal anterior alta [i], por sua vez, pode se realizar de modo mais tenso e recuado, podendo chegar a uma realização que se assemelha a da vogal central media-alta.

Um dos problemas gerados pela não identificação fonêmica de uma vogal ou da outra é a dificuldade em registrar com precisão algumas formas lexicais, como é o caso do pronome de 1ª. pessoa „ti‟ e a partícula „t‟, de função ainda não exata- mente clara. Em suas transcrições, Manizer parece fazer uma pequena confusão entre estas vogais. Em alguns casos, numa transcrição como „tы’, é possível recu- perar que a vogal em questão se trata, por exemplo, de uma vogal anterior alta /i/, por sabermos da função da palavra na oração (como é o caso do pronome „ti‟).

Assim, se funciona como sujeito, trata-se do pronome „ti‟.

No entanto, nem sempre é possível distinguir a partícula „ti‟, também regis- trada como „tы’ (e ainda com outras vogais, que veremos mais adiante quando tratarmos desta partícula). Ainda, em outras situações, o símbolo „ы’ parece se refe-

rir à vogal central alta. É o caso de alguns itens para os quais encontramos correspondências atuais apresentado tal vogal.

O pronome „ti‟ é registrado de duas formas [ti] e [tы]. Apesar de ficar clara a função do símbolo ы no segundo exemplo, como referindo-se ao pronome „ti‟, no último não podemos afirmar o mesmo, de modo que sua forma fonológica apre- senta-se ainda em aberto.

Identificação dos segmentos nasais surdos

Como vimos, as características articulatórias dos segmentos registrados por Manizer como sequências de nasais precedidas por fricativa velar „xm‟ e das na- sais surdas são semelhantes. Deste modo, hipotetizamos que a ocorrências de tais sequências poderiam se tratar de uma tentativa do autor russo em registrar os segmentos nasais surdos.

Por outro lado, vale ressaltar que em algumas situações tais sequências pare- cem se referir à presença de morfemas presos indicadores de pessoa ou posse, sobretudo o alomorfe de segunda pessoa do singular h-, o qual, seguido de uma palavra que se inicie com um segmento consonantal nasal, tende a ter efeito de percepção semelhante ao da produção da nasal surda.

Alguns dos itens que se refeririam à nasal surda atual não se apresentam necessariamente como nasal surda nos dados de Seki. Uma hipótese que poderia justificar estas ocorrências seria a neutralização da fase de silêncio em início de enunciado nos dados mais recentes da língua. Neste caso, precisaríamos consi- derar que tais itens seriam fonemicamente nasais surdas, entretanto, devido a grande variação de tais itens, iremos manter as formas identificadas por nós como nasal Sonora.

Identificação de possíveis segmentos de contorno;

de Seki, registramos tal alternância entre os segmentos como possível, apesar de não tão freqüente na fala da informante Sebastiana. De forma semelhante, ressal- tamos o comentário de Manizer de que “não há na língua o b e o t de línguas européias. O primeiro geralmente realiza-se como o som mb...isto é, em lugar de b tem-se a sequência de duas consoantes mb” (MANIZER, Manuscrito K I, op 1 N 419-420 p.55).

O segundo exemplo mostra uma das formas de registrar a nasal pré- ora- lizada [bm], cuja marcação é feita através de um acento na última sílaba do item.

Identifica-se também no material de Manizer a marcação do diacrítico de alongamento na tentativa de registrar o contorno.

Identificação de processos fonológicos: consonantização da aproximante palatal; nasalização alofônica e vocalização de codas nasais

Vimos que alguns processos são bastante comuns na língua Krenak. Dentre eles, identificamos no material de Manizer a consonantização da aproximante pala- tal, a nasalização alofônica e a vocalização de codas nasais. No primeiro exemplo visualizamos um caso em que ocorre o morfema ki- seguido da palavra equivalen- te a „costas‟ /jek/, realizado como a fricativa palatal Sonora. Outro exemplo, é o caso da palavra „seu braço‟, que pode ocorrer com ou sem nasalização do morfema hi-.

No último exemplo, vemos a palavra equivalente a „seus olhos‟, /ki-tobm/ que apresenta na última sílaba uma nasal pré-oralizada labial [bm].

Registramos, nos dados de Seki, realizações onde a vogal oral sofria nasaliza- ção. Porem, outra possibilidade, encontrada no material de Manizer, se refere à ditongação da ultima sílaba. Assim, observamos que esta forma pode se realizar por meio de um ditongo nasal. Outro exemplo no mesmo trecho, refere-se ao verbo

„ir‟ , o qual é expresso por meio da ditongação de uma nasal velar na coda.

Aspectos morfossintáticos Ordem

Vimos em Seki (2001) que a ordem dos constituintes na língua Krenak segue o padrão SOV. Vejamos um exemplo retirado de Manizer:

Formas pronominais (pessoais e possessivas)

Os exemplos encontrados nos textos mostram o funcionamento de pro- nomes livres pessoais, mais especificamente dos pronomes de 1ª. e 2ª. pessoas do singular, e a 1ª. pessoa do plural (exclusiva) „ti, hoti. Vemos que sua posição prece- de o verbo, mas pode também ser seguida de advérbio (Texo 7/L6).

Quanto aos exemplos seguintes (Texto 7/L3/L2), observamos a presença dos alomorfes indicadores de posse de 1ª. e 2ª. pessoa a-, os quais costumam vir seguidos imediatamente pelo item possuído.

Forma Livre Forma presa

1ª.Sg ti, tы

2sg. xotti a- 3sg. x-, xj- 1pl. (excl.)

Marcadores de tempo

Os exemplos a seguir ilustram as formas que Manizer encontrou de registrar a partícula responsável por expressar o tempo future. Este item costuma vir pos-

Morfemas we, wa

Vimos em Seki (2000, 2001) que na língua Krenak identificam-se alguns ele- mentos responsáveis por expressar a idéia de comitativo, direcional, posse. Nos exemplos a seguir, percebemos claramente o uso do comitativo -we, para expres- sar „com‟ quem o coelho falou; e o morfema -wa, que se refere ao direcional.

Em Manizer, encontramos o elemento tы, porém, não está claro o seu uso, es- pecialmente porque costuma se encontrar acoplado à palavras que podem ser ora verbos, ora nomes.

Advérbios

Os advérbios são uma classe heterogênea de elementos e podem incluir pala- vras locativas, temporais, quantificacionais, qualificacionais e termos para núme- ros (SEKI, 2001). Observamos no texto alguns destes elementos , como ‘lá’, ´aqui’ .

Negação

A idéia de negação é expressa em Krenak por meio do item ‘nuk’, o qual se

encontra após o verbo ou predicado nominal (SEKI, 2001). Vejamos alguns exemplos encontrados nos manuscritos:

Empréstimos

Interessantemente, é possível encontrar no material de Manizer um número razoável de empréstimos do Português. Percebemos que, mesmo que sendo utili- zados em alternância com os termos na língua Krenak, estes aparecem nos textos.

Os empréstimos podem ser preposições (como „no‟) ou advérbios, mas são identifi- cados especialmente na classe dos nomes. Mesmo assim, Manizer, ao descrever as condições de coleta de seu material, afirma que os indígenas da tribo Krenak „conhe- ciam poucas palavras do português‟. De fato, estes índios certamente não falavam a língua portuguesa com fluência, mas é visível no material coletado pelo autor a presença de elementos do português, conforme vemos nos exemplos a seguir:

Empréstimos

Devemos ressaltar ainda o fato de que vários dos itens emprestados obser- vados nos textos fazem parte de um vocabulário que certamente inclui tais itens na língua indígena, como nomes de animais. Vários destes itens funcionaram em concorrência com os itens na língua. Outros ocorreram somente como emprésti- mo doportuguês. No que se refere a alimento, acreditamos que também seria possível se utilizar o item original na língua indígena, o que não foi feito. Vejamos:

kwei Coelho makak macaco urumbu urubu xapin sapinho poring farinha kumpat compadre