Compreendemos que esses critérios são relevantes, pois nos orientam a selecionar os gêneros que são adequados ao trabalho escolar. O autor, ainda, afirma “ser aconselhável estudar os gêneros essenciais ao entendimento do jornal, pois eles funcionam em conjunto, de modo que a explicação de um depende de se explicar outro ou outros” (BONINI, 2011, p. 66).
São muitos os estudos relacionados aos gêneros jornalísticos. Como também são numerosas as propostas de trabalho que vêm sendo desenvolvidas no contexto escolar dentro dessa perspectiva. No nosso caso, a sequência didática que apresentamos tem como foco o gênero reportagem, especialmente as que são veiculadas no meio digital.
Considerando os critérios apresentados por Bonini (2011), dentre os gêneros jornalísticos, selecionamos a reportagem, uma vez que essa “representa uma atividade textual de grande importância na esfera jornalística, uma vez que objetiva a divulgação de um fato, porém de maneira mais aprofundada, apresentando elementos de comprovação, descrição detalhada [...]” (BROCARDO E COSTA-HÜBES, 2015, p. 8).
Na subseção a seguir, trataremos com maior especificidade do gênero reportagem, por entendermos que não há como pensar numa proposta de ensino dessa natureza, sem dispor de uma análise descritiva que explicite as dimensões ensináveis do gênero a ser transposto para a sala de aula. Ou seja, como ponto de partida, é necessário um estudo que forneça as potencialidades didáticas do objeto de ensino.
De início, podemos constatar que este gênero representa uma atividade textual de grande importância na esfera jornalística, uma vez que objetiva a divulgação de um fato, porém de maneira mais aprofundada, apresentando elementos de comprovação, descrição detalhada e, em muitos textos, destaca-se até recursos de argumentação.
Pode-se afirmar, portanto, que se configura como uma notícia ampliada. Sua circulação se dá, normalmente, em diversos veículos/suportes, o que influencia, de certa forma, em sua constituição, tanto formal quanto linguística (BROCARDO;
COSTA-HÜBES, 2015, p. 8).
Com a descrição apresentada pelas autoras nos parece possível obter uma visão ampla acerca da reportagem. Trata-se de um gênero pertencente ao domínio jornalístico, conforme já mencionado, e que tem como propósito comunicativo a divulgação de um fato de maneira mais detalhada e aprofundada. Esse, inclusive, é um dos critérios adotados para diferenciar a reportagem da notícia, gêneros considerados muito próximos. Assim, afirmam Brocardo e Costa-Hübes (2015):
[a reportagem] inicia-se por um lead narrativo (primeiro parágrafo ou, às vezes, na forma de uma gravata, subtítulo, box), aproximando-se, dessa forma, do gênero notícia, diferenciando-se desta, porém, pelo fato de a reportagem aprofundar-se na análise do tema, apoiada em dados, fatos, fontes, discursos de autoridade, que lhe conferem maior fundamentação. Diferencia-se da notícia, então, em relação ao enfoque do conteúdo, extensão, abrangência e profundidade (BROCARDO;
COSTA-HÜBES, p. 19).
Dessa forma, compreendemos que há de se selecionar quais fatos noticiar e o como relatá-los à população. Para tanto, as grandes agências de comunicação produzem seus manuais de redação e de estilo jornalístico, que definem os conceitos por eles utilizados.
Martins Filho (1997), no Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, considera a reportagem a essência de um jornal e também a diferencia de uma notícia, ao declarar que:
A notícia, de modo geral, descreve o fato e, no máximo, seus efeitos e consequências. A reportagem busca mais: partindo da própria notícia, desenvolve uma sequência investigativa que não cabe na notícia. Assim, apura não somente as origens do fato, mas suas razões e efeitos. Abre o debate sobre o acontecimento, desdobra-o em seus aspectos mais importantes e divide-o, quando se justifica, em retrancas diferentes que poderão ser agrupadas em uma ou mais páginas. A notícia não esgota o fato; a reportagem pretende fazê-lo (MARTINS FILHO, 1997, p. 254).
Assim notamos que cabe à reportagem uma abordagem mais intensa a respeito do fato. No Manual, por exemplo, sugere-se que se planeje a escrita, previamente, e que se colha o máximo de informações possíveis para que se tenha material suficiente para redigir o texto.
Conforme Silva (2012, p. 194), seria, portanto, o propósito comunicativo do gênero reportagem: “informar a respeito de um assunto (ou desdobramentos de um fato), não estando
diretamente relacionados a temas do momento”. Contudo, Brocardo e Costa-Hübes (2015, p.
16) ressalvam que “observamos que este gênero objetiva, implicitamente, formar a opinião dos interlocutores a respeito de determinado assunto, o que foi possível determinar na análise da utilização de modalizadores por parte do locutor”. Assim, a reportagem não deixa de contribuir para a formação da opinião do leitor, ainda que, na maioria das vezes, o repórter tente manter-se imparcial diante do fato por ele relatado.
Baltar (2003), por sua vez, evidencia a complexidade do gênero ao afirmar que:
É o gênero mais complexo e mais elaborado do jornalismo. Segundo o Manual de Redação da Folha de São Paulo, fazer uma reportagem é dirigir-se a um determinado local para, de volta à redação, relatar ao leitor por meio de palavras e/ou imagens o que se passou ali. Envolve coleta minuciosa de dados, entrevistas, consultas a outras mídias como rádio, tevê e internet (BALTAR, 2003, p. 118).
Observamos que ao analisar três reportagens veiculadas em uma revista on-line, Silva (2012) constatou que duas características linguísticas recorrentes nos textos analisados foram a inserção de outras vozes no texto e a relação entre elementos verbais e não verbais.
Segundo o autor,
Um dos aspectos linguísticos levantados foi o uso de inclusão de vozes, com o objetivo de manter a suposta objetividade jornalística tão desejada. O outro corresponde à relação entre os elementos verbais e não verbais, de modo que constatamos a relação de ilustratividade entre verbal e fotografias e de complementaridade entre o texto verbal e o infográfico. A ilustratividade das fotografias tem o objetivo de despertar o interesse do leitor, pois, ao folhear as páginas da revista e se deparar com a imagem de uma celebridade, por exemplo, o leitor tende a parar e ler a matéria. A complementaridade dos infográficos, por sua vez, tem a função de enxugar o conteúdo do texto, pois apresenta em forma de tabulação informações que o jornalista considera como de segundo plano. O estudo dessa relação indica que os elementos não verbais deixam de ser encarados como decoração para o verbal e passam a um papel na leitura do texto como um todo (SILVA, 2012, p. 204).
Dessa forma, compreendemos que a inserção de outras vozes no texto é um recurso, frequentemente, utilizado pelo autor. Dito de outra forma, o repórter se reporta a outras vozes, a dizeres dos outros para demonstrar a veracidade de sua própria voz. Assim, a reportagem costuma ser um texto repleto de vozes que se cruzam, se contrapõem, concordam e discordam entre si.
Quanto ao uso de elementos não verbais, como é o caso da fotografia, esses contribuem para chamar a atenção do interlocutor e são importantes para compreensão do texto em sua totalidade. A presença de fotos, imagens, cores, vídeos caracteriza a reportagem como um gênero multimodal. Nesse sentido, Gaydeczka (2007) afirma que:
As reportagens são gêneros multimodais, ou seja, são riquíssimos na utilização de diferentes formas de interação textual, possibilitando o desenvolvimento de habilidades de leitura de outras linguagens, além da linguagem verbal tradicionalmente considerada na escola. Com as inovações tecnológicas, as reportagens apresentam a escrita de uma forma ousada. E sua forte presença na vida cotidiana está alterando a forma de leitura e de apreensão do conhecimento, pois, as informações são apresentadas de forma sucinta, concisa, associando recursos visuais a textos explicativos (GAYDECZKA, 2007, p. 108).
A partir do que argumenta a autora, o conceito de multimodalidade nos gêneros é recente, mas vem despertando o interesse de estudiosos da linguagem como Kress (2004) e Dionísio (2005), aqui no Brasil. Com os avanços da tecnologia, a recorrência a esses recursos se multiplicou. Em contrapartida, exige-se certa aprendizagem multimodal, ou seja, o leitor precisa aprender a ler palavras e imagens.
Quanto à estrutura da reportagem, Gaydeczka (2007) reporta-se a cinco elementos, a saber: o título, o subtítulo ou gravata, o olho, o lead e o box. A autora assim descreve cada um desses elementos da seguinte maneira:
Nos títulos dados em gêneros jornalísticos, há implícita uma função apelativa com a finalidade de chamar a atenção do leitor e atrair seu olhar, deixando-o decidir o que quer ler e provocando a leitura do texto todo. [...] A gravata da reportagem, ou seja, o subtítulo, são as linhas colocadas abaixo do título que têm a função de completar o título e de apresentar de maneira resumida o assunto a ser tratado no texto. O olho ocorre como recurso gráfico no qual é retirada uma frase de efeito ou impactante e é colocada em destaque entre aspas dentro de um pequeno boxe ou espaço e em meio às colunas em que são escritas as reportagens. [...] O lead é o relato inicial do texto devendo informar o que é mais importante no texto e não o mais interessante. E outro elemento característico é o box, que é uma caixa de texto diferenciada pela cor e ganha destaque por utilizar textos combinados com tabelas, gráficos ou fotos referenciando-se ao assunto (GAYDECZKA, 2007, p. 111).
Com isso, observamos que a reportagem circula, socialmente, por meio de suportes impressos (jornais, revistas), assim como por meio das mídias eletrônicas (rádio, televisão, computador). Acerca dessa questão, Brocardo e Costa-Hübes (2015, p. 16) sinalizam que:
Com relação ao contexto físico, ainda, cabe-nos ressaltar o papel do veículo/suporte e sua influência sobre a constituição do gênero. Nesse sentido, observamos, nas reportagens analisadas, que estas não se mostram indiferentes ao veículo/suporte em que circulam, definindo, de certa forma, o formato do gênero, ao privilegiar estratégias, preferências estilísticas utilizadas na constituição do texto (BROCARDO; COSTA-HÜBES, 2015, p. 16).
Nesse sentido, não podemos negar é que, perante uma sociedade marcada por mudanças no campo das tecnologias digitais, os gêneros se modificam, se transformam e muitos passam a incorporar outras linguagens que não somente a verbal. É a respeito da
chegada de tais tecnologias e seus efeitos na linguagem oral e escrita que se encarrega a próxima subseção.