7. CATEGORIAS E RESULTADOS
7.1. Categoria 1 – Observação da Realidade, Situação Problema, e Pontos-Chave
7.1.1. O Lúdico da Realidade Identificando os Problemas
A metodologia problematizadora tem seu ponto de partida na realidade (cotidiano) em que se insere o trabalhador, seu campo de atuação. Desta forma, os participantes foram guiados a refletir sobre esta realidade, buscando delimitar, dentro do campo de atuação a observação da realidade a ser trabalhada, a sua realidade, sua função diária, suas atribuições.
Este momento “objetiva olhar o mundo circundante e, a partir de percepções pessoais, realizar uma leitura sincrética ou ingênua da realidade – Síncrese. Nesta primeira leitura distuingui-se o que é periférico do que é central. Assim, de uma primeira percepção global e indistinta, busca-se outra, agora, mais organizada e distintamente percebida” (PRADO et al. 2000, p.
120).
A realidade trabalhada foi: as atribuições dos ACS no cotidiano.
O nosso primeiro objetivo foi de identificar o conhecimento das ACS sobre suas atribuições e motivá-las a pensar de uma forma comprometida e dinâmica.
Começamos a partir daí entender as formas de pensar e conhecer o sujeito da aprendizagem. Através da Dinâmica das Figuras identificamos o conhecimento dos ACS sobre suas atribuições.
A profissão de Agente Comunitário de Saúde caracteriza-se pelo exercício de atividade de prevenção de doenças e promoção de saúde, mediante ações domiciliares ou comunitárias individuais ou coletivas, desenvolvidas em conformidade com as diretrizes do SUS e sob supervisão do gestor local deste”. (BRASIL, 2006, p. 32).
Dando inicio de fato a atividade, foram utilizados cerca de 50 recortes de figuras diversas, distribuídas ao chão, solicitando que as participantes escolhessem três figuras cada e refletissem sobre as mesmas. Em seguida cada uma respondeu ao grupo a questão proposta “o que você vê na figura?”. Após descreverem o que cada figura lhes representava, e o que as levou escolher tais figuras, reportamos para a realidade da comunidade e suas funções dentro da sua micro área de atuação. A seguir os relatos de cada participante acerca de suas figuras:
“Escolhi um bebe, pois lembra meus dois filhos quando eram pequenos;
Escolhi também um avião porque e meu sonho um dia é voar, sempre me vejo voando, espero um dia realizar este sonho; e escolhi também uma família unida, pois é importante para mim” (ROSA).
“Escolhi uma criança pequena, porque lembra minha filha quando era pequena; Uma família, escolhi esta figura porque acho que a família e tudo, e a essência de hoje. E outra figura reflete o voluntariado, acho que apoiar e bom, pois ser ajudante de alguém faz bem” (AMIGA).
Percebemos na fala de “Rosa” e de “Amiga”, como é importante sua família, a união da mesma, seus sonhos e o que esperam da vida. Pudemos notar o amor e o elo que existe entre seus familiares, cabe então se fazer refletir sobre a necessidade de pensar nesse todo, instruir e instigar o profissional ACS, em como deve trabalhar para atender as necessidades da comunidade, sabendo que como ele vê sua família e seus sonhos, assim a comunidade também tem seus valores seus sonhos e necessidades e cabe a ele (ACS) contribuir para que essas famílias cheguem a conquistar e construir parte da qualidade de vida que eles mesmos buscam.
Os membros de uma família unem-se por meio de elos biológicos, políticos, históricos e de afeto. Na dinâmica da vida familiar, novos membros passam a agregar-se pôr meio de vínculos afetivos e também pela própria reprodução biológica esses novos membros que se agregam trazem consigo os seus vínculos prévios, que podem facilitar ou dificultar os relacionamentos familiares. Assim, os membros de uma família sofrem, continuamente, a influência da história dos seus familiares; com isso confere ao plano familiar uma grande dinamicidade (BRASIL, 2003).
Na análise desta categoria podemos observar que para os ACS os relacionamentos entre si são muito importantes para a manutenção do anseio familiar e o bom andamento da família no meio em que esta vive perante a comunidade em si. Na próxima fala “neve”
coloca:
“Escolhi uma criança com uma nota alta de dinheiro, e acho que não se deve por dinheiro alto em mão de criança, pois ela pode vir a se envolver com drogas; Escolhi também uma pessoa em uma cadeira de rodas com AIDS, com câncer, não sei, com dificuldades, sem ninguém, acho que não devemos abandonar as pessoas. Também escolhi uma figura com umas 6 pessoas nuas juntas e se beijando, acho que o que mais se vê hoje em dia na TV, sacanagem que não educa, só estraga, tem traição entre casais, briga de família...” (NEVE).
Ressaltamos na fala de “Neve”, a percepção que o ACS tem acerca das dificuldades existente não só no mundo, mas em sua própria comunidade, e as dificuldades que enfrentam quem tem menos e vive só. É de extremo valor essa preocupação, porque é através dessa visão que ocorrem as mudanças, basta apenas existir reforço a cada dia, nesse caso a capacitação e a educação continuada são as bases que solidificarão a profissão do ACS.
Percebemos que a competência se encontra através da busca contínua dela, e nos ACS deve ser depositado esse título apesar do pouco esclarecimento acerca das suas atribuições.
Concordando com que Faria diz (1998, p. 140):
“Toda pessoa merece respeito, além de sua cultura, nacionalidade, situação de vida; merece respeito para alem de qualquer de suas características.
Todos os homens são iguais ainda perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos cabe o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a própria vida, o direito a educação, a saúde, a habitação, ao lazer. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem”.
Aqui nas falas de “Natureza, Paz e Flor-do-campo” observamos mais uma vez, como falam com carinho sobre suas coisas e as que têm valor para si, as que almejam, passam através das falas uma força interior que cremos ser imprescindível para a função que exercem, e para que essa força, esse carinho para com o que fazem seja exposta em práticas em favor e
beneficio da comunidade, em maior quantidade e qualidade que já o fazem, acreditamos ser necessário, a educação continuada baseada em dinâmicas práticas, educativas e atrativas, para que seja proveitosa para todos, principalmente a comunidade.
“Escolhi a paisagem, viajando eu acho lindo; escolhi também macacos pois acho que devemos tomar conta da natureza, pois nossos netos poderão não conhecer mais. Escolhi essa mão com drogas, para mostrar que nossos filhos estão diante disso tudo, está em todo lugar, em todo lado” (NATUREZA).
“Uma casinha toda arrumadinha, porque lá em casa to com a minha filha morando em três metros quadrados e nada fica no lugar, então escolhi essa casinha arrumadinha, sem barulho. É a paz né, pequei essa companhia, com essa paisagem em paz, eu caminhando, minha casinha arrumadinha, eu chego lá” (PAZ).
“Escolhi uma paisagem, bastante verde, ar puro, uma bicicleta que é meu meio de transporte, e um prato gostoso que ninguém e de ferro né” (FLOR DO CAMPO).
A transformação social necessária para a conscientização da “Saúde para Todos”
pressupõe uma coesão mundial de grupos de base e de indivíduos comprometidos, a fim de controlar as estruturas atuais do mundo (WERNER, 1994, P. 54). O agente de saúde deve ser essa pessoa na comunidade capaz de transformar, conscientizar a população das mudanças necessárias, para juntas formularem propostas de mudanças das suas realidades. Devido a essa convivência que os ACS tem com os moradores, a tendência é que os mesmos detenham informações sobre a realidade local e assim consigam criar mecanismos e articulações que dificilmente os profissionais de saúde atingiriam a curto prazo. “Lua” coloca:
“Eu peguei um leão, porque a gente mata um leão pôr dia né, o brasileiro é assim, tem que lutar muito. E peguei essa mulher com dois penicos no ouvido porque nosso ouvido não é penico, todo dia a gente leva muitos
“xingões”, muito, muito, muito. E escolhi essa mulher esbelta porque gostaria de se assim” (LUA).
Percebemos através dessa fala as dificuldades muitas vezes encontradas pelos ACS ao trabalhar na comunidade, onde ao mesmo tempo são bem recebidos por alguns, são mal tratados por outros. Os ACS durante as oficinas nos relataram que muitos dos usuários não querem recebê-los, pois não aceitam o seu trabalho. Esses problemas são mais comuns nos condomínios, onde é mais difícil trabalhar, relatam que as pessoas os atendem mal, muitas vezes, só no portão. Há ainda as casas com cães perigosos que ameaçam sua segurança.
Conforme “relata” sol:
“Um casal, que representa o amor e o carinho né, que todos nós precisamos, de amor e de carinho, quem não gosta. E escolhi uma pessoa cansada e com frio, porque prefiro o frio ao calor. Escolhi uma moça com um cachorro, parece que ela adora animal” (SOL).
Aqui, além da mãe, o pai e os filhos tem um papel importante nos cuidados de saúde da família, isso devido estar trabalhando ou estar doente. Apesar de não compartilhar os assuntos sobre a arte de cuidar com a rede feminina familiar, em determinados casos o homem (esposo) no apoio da mulher na sua tarefa de cuidar da saúde da família, entre outros, pode ser também um fator de pressão que influencia sobre a maneira, as suas decisões e ações. Isso quer dizer que o homem tem um papel secundário nesse processo, participando, indiretamente como um apoio a mulher, ou pressionando-a para fazer um determinado agir.
Assim o homem acaba assumindo também o papel de cuidador.
“Escolhi esta negrinha porque os cabelos dela parecem com os cabelos doidos da minha filha. Escolhi esse cachorro porque adoro animais e a chave desse carro né, e porque meu sonho e ganhar um carro na tri-mania”
(ESTRELA).
“Escolhi um refrigerante, porque sou movida a refrigerante, não especificamente esse; também escolhi esta cerveja porque meu marido e viciado em cerveja, e esse moço (Reinaldo Gianeccini) porque meu marido e parecido com ele (muitas risadas)” (LIBÉLULA).
“Escolhi este codinome porque lá em casa tem muitos e adoro eles. Escolhi um pai e um filho porque acho que hoje se os pais conversassem mais com os filhos, porque o que mais a gente vê são os filhos na frente da televisão. O segundo que escolhi foi esse pé com havaiana, e também escolhi esse prato que parece feijão, mas são comprimidos” (BEIJA-FLOR)
“Peguei um par de alianças... Também peguei um casal com bebê no colo que lembra minha família, e este bebe que lembra meu filho que eu amo”
(ORQUÍDEA).
“Escolhi essa criança jogando bola, porque acho muito lindo de ver criança brincando. Também escolhi este estudo, porque estudar é o que mais importa, sem isso não somos ninguém. Também escolhi esta carne, porque é muito gostoso comer carne” (JASMIM).
Estas falas referenciam a questão de que as ACS ao descreverem suas figuras envolveram suas famílias, seus lares, entendemos assim como em nosso referencial teórico a importância que tem a família para cada uma delas, mas algumas delas esqueceram-se de reportar para a realidade o que viram nas figuras, talvez devido ao clima estar alegre e descontraído. Entendemos que a família é uma unidade que esta dentro de um processo de transformação com o meio, tem uma história onde todos se relacionam trocando experiências de vida. São pessoas que convivem com todo o processo de viver de seus membros.
Segundo coloca Elsen (1993) podemos considerar família como um sistema ou uma unidade cujos membros podem ou não estar relacionados ou viver juntos. Nela existe um compromisso e um vínculo entre os seus membros e as funções de cuidado da unidade consistem em proteção, alimentação e socialização. Pensando nisto, observamos a importância e a necessidade do profissional ACS em nossa comunidade, profissionais estes que conhecem de perto as famílias e as tem como principal e mais importante em suas vidas, pois trabalhar com saúde comunitária requer do profissional alguns princípios básicos como reconhecer a importância da família e o bem que faz tê-la com saúde. Quando trabalhamos com família, toda e qualquer ação deve ser planejada éticamente, pois a principio estamos
“entrando” no seu ambiente físico e simbólico privado e, por mais que façamos uma boa interação com a mesma, podemos estar aos olhos da família, investidos de um conhecimento próprio, técnico, profissional que nos coloca na situação de “estranhos no ninho”.
E para tanto não depende apenas dos serviços de saúde prestados, mas perpassa pela educação e condições de vida da população, que o papel do profissional de saúde não é o de dirigir as ações de saúde, mas sim dar apoio, ter parceria. Porque temos de reconhecer que a ação comunitária só tem sentido quando os próprios membros da comunidade determinarem suas prioridades e conceberem suas estratégias de ação. E aqui que entra a ação do ACS.
O ACS tem que ser essa pessoa na comunidade capaz de comunicar-se com a população, saber ouvir e sentir as necessidades básicas de saúde da comunidade, e para tanto deve ser treinado para realizar tal serviço. Assim, a enfermeira que pretende trabalhar em comunidade deve estar interessada também na educação e supervisão do ACS, pois ele é o elo principal entre a comunidade e o serviço de saúde, e, portanto deve estar preparado e ciente de sua função dentro da comunidade. Fazendo com que o ACS tenha esse processo de conscientização, devem encaminhar-se para atingir a consciência crítica, que se caracteriza pelo questionamento, pelo comprometimento em atender a comunidade em sua real forma de ser atendida.
Durante o decorrer das atividades, houve total adesão por parte das participantes à proposta e objetivos da oficina, discutindo as diferentes realidades da comunidade, e propostas de atuação em face aos problemas apresentados.
A presença de todas as ACS, que são profissionais chaves dessa função, além da presença de nossa orientadora em todas as oficinas, fez com que as discussões fossem bastante produtivas. Ao final, as participantes fizeram uma avaliação bastante positiva da oficina, tanto nos itens relativos aos conteúdos abordados quanto à organização e destacaram a necessidade do acompanhamento e apoio para continuidade e melhoria das ações do ACS junto à comunidade.
Nesta análise podemos perceber que educar para a cidadania, é também, colaborar para que as pessoas desenvolvam a capacidade de se fazerem sujeitos individuais e coletivos.
A cidadania e um processo em construção. Implica em determinados direitos e deveres, como também no fortalecimento dos espaços de decisão. O exercício da cidadania pressupõe o exercício da participação dos cidadãos em vários espaços da sociedade, as experiências de participação fortalecem as lutas pela cidadania (FANTIM, 1997).
Ao fazerem a descrição da realidade vista nas figuras relacionando à sua própria vida tivemos a sensação que as ACS conheciam as reações humanas observadas e o quanto elas têm essa visão de real. Isto remete-nos a repensar o papel da enfermeira, nossos objetivos da profissão e em nossa posição pessoal e profissional a respeito de nossas habilidades e competências.
Durante as discussões da dinâmica das figuras, os participantes se expressaram com tanta certeza, de que em cada figura visualizada, havia alguma implicação no que se chama de competência profissional. A indagação sobre o seu papel com o seu serviço e com a comunidade apareceu bem nos relatos que fizeram sobre suas figuras. Esses profissionais, ingressaram no mercado de trabalho sem um treinamento formal e regular para trabalhar nessa área de saúde coletiva, que possui uma amplitude imensa. Ao serem admitidos, alguns receberam informações específicas, porém hoje, como trabalham em uma clínica escola recebem treinamentos constantes pelos alunos. Antes de treinar um ACS, consideramos que campanhas devem ser feitas para a população em geral para que se tenha uma compreensão do valor destes profissionais na Estratégia de Saúde da Família.