A atenção voltou-se para um pescador pobre que "morava completamente só numa choupana miserável perto do mar e, desde que sua esposa e filha morreram [...] ia para o mar todos os dias, sem se importar com o tempo ou acontecimento" (LYCHACK, 1995, p.96).
Observava de longe, indiferente, as festividades no vilarejo, quando percebeu que sua rede de pesca estava muito pesada. Para sua surpresa, havia capturado uma linda mulher que "tinha cabelos castanhos compridos emaranhados com algas marinhas e conchas [...] a boca e os olhos que estavam inchados [...]. Os braços e sol poente" (LYCHACK, 1995, p.95). Seria o milagre da vida, o retorno da Srta. Oliana. A imagem que o pescador presencia era tida como mágica, encantada, mas a jovem precisava retornar ao mar. "– Devolva-me – disse ela, – Jogue-me de volta [...] explicou que não tinha um livro de histórias encantadas para ele, nada para lhe dar em troca, nenhum desejo a realizar [...] – Apenas me jogue na água – disse ela" (LYCHACK, 1995, p.95).
Transparece na filosofia otimista de Bachelard a evidência de que o homem solitário pode descobrir, a qualquer momento, a voz do acolhimento em espaços
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próximos, assim como o sentido da vida em símbolos que ele manipula no dia-a-dia (FERREIRA, 2005, p.2). Prossegue Ferreira afirmando que:
Caberia ao homem contemporâneo a consciência crítica da necessidade de convergência para valores vitais para que as coisas que ele concebe como coisas do nunca tenham finalmente a sua vez. O raro, que é precioso por ser raro, pode ainda se transformar em bem acessível, havendo para isso apenas a necessidade de o descobrir como valor. Para os excluídos e os deserdados de bens do espírito, que é a forma mais dramática da exclusão, está de pé a possibilidade de serem incluídos, se forem acionados os projetos interiores de uma reposição do que é devido, a esses seres peregrinantes na terra, mas que inocentemente demandam, como meninos carentes do acolhimento materno, os sentidos frontais da vida. (FERREIRA, 2005, p.2).
A imagem da jovem retornando ao mar o fez refletir: "pela primeira vez em muitos anos o homem viu sua vida não como poderia ter sido, mas como era, e seu coração afundou até as profundezas do mar, onde suas redes nunca tinham tocado [...]" (LYCHACK, 1995, p.95). A poeticidade, o devaneio e o cogito do sonhador em dimensões de sentido, da maneira como se apresentam nas proposições de Gaston Bachelard, elevam a consciência e a alegria do viver (FERREIRA, 2005, p.2).
O pescador puxou novamente a rede. Estava repleta de pequeninos peixes, símbolo da vida e da fecundidade. "Em função de sua prodigiosa faculdade de reprodução [...] representa a união" (CHEVALIER, 2009, p.704). Retornou para a praia "escutou os acordeons tristes e o funesto tilintar dos elefantes [...]. A multidão, a maior que já se formara na praia, permaneceu segurando os objetos em seus braços [...] seu barco encalhou e todos os peixes brilhantes espalharam-se sobre a areia como moedas de prata"(LYCHACK, 1995, p.97). A imagem dos peixes reluzindo como moedas de prata é "vista como símbolo da pureza [...] assemelha-se à limpidez de consciência, à pureza da intenção; [...] invoca a fidelidade que de tudo isso resulta" (CHEVALIER, 2009, p.739). Representa o sinal da magia e do alento aos que permaneceram na praia, uma suave eterna gratidão.
Finalmente, o pescador saiu de seu barco e "juntou-se à multidão na praia que esperava melancolicamente pela menina que viria do mar; cada onda e gaivota carregada de milagres sem fim, o mundo ao alcance do encantamento"
(LYCHACK, 1995, p.97).
O tempo e espaço imaginados nesse conto representaram os ensinamentos válidos aplicados em diversos contextos. O desfecho, a moral da história, assume a forma de aforismo.
Segundo Nádia Gotlib, na obra Teoria do conto, tratar da teoria do conto é aceitar uma luta em que a força da teoria pode aniquilar a própria vida do conto – que vale a pena tentar, lembrando-nos de Cortázar:
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se não tivermos uma idéia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência. Só com imagens se pode transmitir essa alquimia secreta que explica a profunda ressonância que um grande conto tem em nós, e que explica também por que há tão poucos contos verdadeiramente grandes. (CORTÁZAR, 2006, p.10).
No último capítulo de A poética do espaço, "A fenomenologia do redondo", Bachelard exprime com maestria o significado das imagens no espaço poético.
Considera como imagens circulares centralizam a vida e permitem estabelecer uma unidade em oposição às pontiagudas que ferem. Sendo assim, as imagens que acolhem dão segurança, acalentam, são todas redondas, o que fez Joë Bousquet escrever: "Disseram-lhe que a vida era bela. Não! A vida é redonda"
(1993, p.235).
Estão presentes nesse espaço as imagens, como energias criadoras que irão dar forma a essa emoção e imprimir no percurso espacial o movimento da história.
Neste contexto fica evidente o retorno para o interior da alma, a busca do isolamento, a necessidade de rever as questões vitais de nossa existência humana; foi realmente o que fez Oliana ao retornar ao seu caracol, ou melhor, ao seu habitat, o oceano, para resgatar a sua existência e vitalidade, envolvida na magia e no encantamento da alma humana.
REFERÊNCIAS
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. Vera da Costa e Silva.
15.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
BACHELARD, Gastón. A poética do espaço. Trad. Antonio de Pádua Danesi.
2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FERREIRA, João. Uma visão poética do espaço segundo Gaston Bachelard (1884-1962). abr. 2005. Disponível em: <http://www.usinadeletras.com.br/
exibelotexto.html>. Acesso em: 05 jan. 2010.
GOTLIB, Nádia Battella, 1946- Teoria do conto. 11.ed. São Paulo: Ática, 2006.
Disponível em: http://groups.google.com/group/digitalsource.
LYCHACK. William. "A feira das fábulas". Tradução de Brunilda T. Reichmann.
In: REICHMANN, Brunilda T. (Org.). Contos de 80 e 90. Curitiba: Tecnodata, 2002.
REIS, Carlos. O conhecimento da literatura: introdução aos estudos literários.
2.ed. Coimbra: Almedina, 2001.
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