Quando Buber fala do mundo há uma compreensão de três tipos de mundo: o mundo do Tu, o mundo do Isso e o mundo enquanto estrutura criacional, onde a dualidade do mundo humano pode se efetivar.
Num primeiro momento, se pode pensar que a verdade fundamental do mundo humano é o mundo do Isso, que é um mundo separado e que inspira confiança para o homem; já que o mundo do Tu não inspira tanta confiança assim dada a sua multiplicidade. O mundo do Isso é o mundo ordenado, mas isso não quer dizer que ele seja a ordem do mundo. Ele é somente um dos modos como o homem pode se entender
49 BUBER, Eu e Tu, p.69.
na estrutura do mundo. O mundo ordenado inspira confiança para o homem, pois ele apresenta densidade e duração, ou seja, o homem pode repetir essa estrutura de mundo quantas vezes quiser e pode experimentá-lo. Ele se torna um objeto para o homem.
O mundo do Isso apresenta dois privilégios em sua base: é o espaço onde cada Tu, após o evento da relação tende a transformar-se necessariamente em um Isso; e onde o Isso, se adentrar num evento de relação, pode se tornar um Tu.
O mundo do Isso é coerente no espaço e no tempo. Como é fundamentado pela experiência e utilização, é um mundo onde se pode viver unicamente no passado. Já que o homem não pode viver unicamente no presente, isto o consumiria. Contudo Buber é bem enfático: “O homem não pode viver sem o Isso, mas aquele que vive somente com o Isso não é homem”50.
Num segundo momento compreende-se o mundo do Tu onde a ordem do mundo se dá como presente, e com todas as características que este mundo pode trazer ao homem.
E a força desse momento integram a criação e o conhecimento do homem. Os encontros com o Tu se dão mediante episódios singulares, de um encanto sedutor, que deixam mais questões que satisfações. Eles não trazem uma sensação de segurança, mas sim inquietações que nos são indispensáveis.
Pode-se até pensar que ao produzir o som Tu através das cordas vocais ou mesmo sussurrar um tu amoroso seja condição de proferir a palavra-primordial da relação. Esses acontecimentos podem vir carregados de desejo de utilizar e experimentar e por isso são condizentes com o mundo do Isso.
Por fim, Buber entende que o mundo criacional encontra-se totalmente alheio ao homem. O homem se esquece que esse mundo é o único espaço onde o homem pode se entender com o outro. Mesmo que cada homem tenha o seu próprio mundo, o mundo criacional é um objeto comum para ambos. É neste mundo criacional que o homem pode encontrar o Ser e o devir como uma presença, e o mesmo se diz para as coisas. A presença se desvela ao homem por meio do acontecimento, e o acontecimento é para o homem o Ser. O homem não precisa refugiar-se em um mundo das ideias para vivenciar esses instantes, é neste mundo concreto que ele vivenciará isso.
É na concretude deste mundo que os encontros acontecem e estes são símbolos da ordem do mundo. Este mundo tende a deixar o homem desconfiado, pois a cada novo
50 BUBER, Eu e Tu, p.72.
encontro o mundo se revelará de um modo diferente. O mundo se apresentará transformado.
O mundo é o teu presente, é o lugar onde haverá reciprocidade de doação: “tu lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz Tu e se entrega a ti”51. O homem se torna solitário na relação com o mundo, mais sabe que é ele que o ensina como encontrar o outro e a manter esse encontro. É somente neste mundo e não em outro que o homem é conduzido ao Tu no qual se encontram as linhas de todas as relações.
51 BUBER, Eu e Tu, p. 71.
2 O TU ETERNO
Na terceira parte de Eu e Tu, Buber discorre sobre o Tu Eterno, afirmando que por intermédio do Tu de cada ser de relação saem linhas que cruzam reciprocamente com o Tu Eterno. As relações que se encontram dispostas em suas três esferas têm como finalidade apontar para a relação com o Tu Eterno. Desse modo, cada Tu individualizado torna-se uma perspectiva para ele e através de cada tu individualizado a palavra- primordial serve de invocação para o Tu Eterno, para sua realização e atualização. “As linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no Tu eterno”1.
Mediante o Tu de todos os seres se dá a possibilidade de realizar ou não a relação.
Essa relação torna-se concreta quando o Tu inato se realiza em cada Tu individualizado, mas não se completa em nenhum deles. O Tu inato tem possibilidade de completar-se somente na relação imediata com o Tu que não pode tornar-se um Isso. O Tu eterno é o único Tu que por sua essência não pode se converter em um Isso.
A palavra-primordial pode apresentar dois momentos diferentes de invocar o Tu eterno. Em um determinado momento quando o homem utiliza-se do mito para estabelecer relação, era ao Tu eterno que ele elevava seus cânticos, era para ele que se direcionava seus pensamentos. Como pode ser visto no cântico abaixo:
Onde eu ando - Tu!
Onde paro - Tu!
Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!
Quando estou bem - Tu!
E se a dor me vem - Tu!
Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!
O céu - Tu, a terra - Tu, Em cima - Tu, embaixo - Tu, Em toda parte, onde quer que eu vá, Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!2
De certa forma, todos os nomes dos quais o homem se utilizava para invoca-lo estavam santificados, pois não se tecia comentários ou elucubrações sobre o Tu eterno, estabelecia-se um diálogo direto. Assim, “[...] aquele que proferindo a palavra Deus, quer significar realmente Tu, não importa de que ilusão esteja tomado, invoca o verdadeiro Tu
1 BUBER, Eu e Tu, p. 99.
2BUBER, Histórias do rabi, p. 257.
de sua vida, o qual não pode ser limitado por nenhum outro e com o qual ele está em uma relação que engloba todas as outras”3.
E em um segundo momento, pode ser que a forma de acessar esses nomes seja por meio do Isso, da linguagem do Isso. Aqui não seria um Deus com quem se fala, mas sim um Deus que se fala sobre, um ser organizado e delimitado segundo o pensamento humano; categorizado em sua essência e exaltado por suas obras.
De certa forma, esse Deus categorizado não atinge àqueles que o abominam por causa de suas categorizações e definições. Se ao invoca-lo estiverem fazendo referência ao Tu de sua vida na interioridade de seu ser, eles também estarão dirigindo-se ao Tu eterno.