CAPITULO 2 IDEOLOGIA DO SISTEMA CAPITALISTA
2.5 Neoliberalismo: a atual Ideologia do Capitalismo
2.5.2 O Neoliberalismo e o Consenso de Whasington
86
contribuíram para a globalização naquele período, principalmente em decorrência de o dólar ter lastreado o comércio.
A globalização é inevitável, tanto na perspectiva política quanto econômica.
Segundo Béland, na atualidade, não se admite “pensar em afastar os continentes e os povos e submeter novamente os mercados planetários a um protecionismo hermético.”132 Acrescenta que “a globalização econômica acompanhará o futuro, pois ela é uma etapa da evolução dos conhecimentos e das ciências, e induzirá à globalização política os Estados de diversos países do mundo que se tornaram interdependentes. Um retorno ao passado é impossível”133.
A integração global das nações, do trabalho, das mercadorias e do capital financeiro – a globalização – decorre do “avanço das ciências teóricas e das novas tecnologias”. 134 Mises, em “Liberalismo”, argumenta em favor dos avanços tecnológicos para o desenvolvimento de uma complexa rede de relações econômicas em proporções internacionais. Ademais, os frutos desse avanço da tecnologia concorrem para a satisfação das carências das grandes massas135.
Uma grande rede; que integra satélites, software e hardware; está estendida sobre todo o Planeta. A transmissão de voz, dados, imagens se efetiva instantaneamente, independentemente da distância. Nesse sentido, o capital financeiro migra com muita facilidade para o lugar mais propício para “crescer” sem gerar nenhuma produtividade. Os rentistas não têm nenhuma preocupação em contribuir para o bem dos outros. Buscam somente as rendas nos investimentos nacionais ou transnacionais.
87
O “Consenso de Washington” foi uma reunião promovida pelo Internacional Institute for Economy, em Washington (EUA), em 1989. A direção da reunião coube ao economista John Williamson, com o objetivo de avaliar a situação dos países periféricos, mais especificamente os da América Latina, e, em decorrência:
[...] discutir as reformas necessárias para que a América Latina saísse da década que alguns chamaram de perdida, da estagnação, da inflação, da recessão, da dívida externa e retomasse o caminho do crescimento, do aumento da riqueza, do desenvolvimento, quem sabe até [...] da igualdade137. Como resultado dessa reunião, John Williamson publicou um artigo que continha um “receituário” para os países latino-americanos, como “consenso” dos principais centros e círculos de poder sediados na cidade de Washington. Esse receituário continha o seguinte decálogo de determinações para os países periféricos, principalmente os da América Latina138: a. “Disciplina fiscal – O Estado deve exercer rígido controle de seu orçamento, cortando os gastos públicos e evitando déficit orçamentário, mantendo o equilíbrio no planejamento econômico e financeiro”.
b. “Direcionamento dos gastos públicos – Os investimentos do Estado serão aplicados em obras e projetos que propiciem retorno e tenham efetividade, principalmente na infraestrutura, para evitar supérfluos”.
c. “Reforma tributária – Os tributos não devem refrear a produção e as operações internacionais, baseando-se mais nos impostos indiretos do que nos diretos”.
d. “Liberalidade financeira – Dar fim às restrições ao crédito e entidades creditícias, principalmente as internacionais, dando liberdade e equidade às organizações nacionais”.
e. “Taxa de câmbio – Adotar câmbio de mercado livre, evitando rígido controle pelo Poder Público, como o Banco Central do Brasil”.
f. “Liberalização do comércio exterior [...] – Redução das alíquotas de importação e estímulo à exportação, visando à globalização da economia;
[...]”.
g. “Liberalização do capital externo – Eliminação de todos os entraves ao ingresso de capitais estrangeiros e à instalação de agências bancárias;
implantação de empresas”.
h. “Privatização de empresas – Evitar a instalação de empresas estatais e eliminar as já existentes, passando-as à iniciativa privada [...]”.
i. “Desregulamentação da economia - Evitar a monitoração da economia por meio de leis regulamentadoras e controles do processo econômico.
Adotar, de forma mitigada, o regime do laissez-faire. Adotar orientação
137FIORI, O Consenso.
138 Essas determinações foram reproduzidas e comentadas em artigo por ROQUE, O Consenso.
88
nas relações trabalhistas com maior flexibilização das leis do trabalho, com a rigidez das formas de contratação”.
j. “Respeito à propriedade intelectual – É o respeito às marcas, patentes, invenções, modelos e outros bens de propriedade intelectual, que, no Brasil, é chamado de Direito de Propriedade Industrial. Combater a pirataria, principal agressão à propriedade intelectual das empresas. [...]”.
Esse receituário, na verdade, é a tradução do programa neoliberal do Primeiro Mundo, principalmente a partir da vitória de Margareth Thatcher e Ronald Reagan139. O cumprimento desses princípios era condição para obter empréstimos dos organismos internacionais, como, por exemplo, o FMI, para que as situações econômica e financeira dos países fossem saneadas e estabilizadas, e eles pudessem ingressar de forma competitiva no mercado internacional.
Por essa época, o Brasil havia sofrido com os choques do petróleo e as altas taxas dos juros norte-americanos, o que elevou sua dívida externa. Isso não era muito diferente em outros países. Por outro lado, os preços das commodities brasileiras caíram. O México, diante da crise, decretou moratória de sua dívida externa em 1982.
No Brasil, as diretrizes do Consenso de Washington começaram a ser implementadas, de forma tímida, no governo de José Sarney. Seu sucessor, o presidente Fernando Collor de Melo, avançou no processo de liberalização da economia brasileira. É paradigmática a referência que ele fez à indústria automobilística, ao comparar automóveis nacionais a carroças140. No início de seu governo, ele abriu o país à importação de veículos141. Isso, na realidade, representava o caminho que o Brasil trilhava, no sentido liberalizante mais intenso da Economia.
A Política Industrial e de Comércio Exterior (PICE) de 1990, do governo Collor, postulou papéis mínimos para o Estado, como “a estabilidade econômica, a reconstrução de um ambiente favorável aos investimentos e o reforço do sistema educacional básico e de infraestrutura científica e tecnológica.”142 O programa de competitividade industrial seguiu evidentemente essas orientações. A função do Estado passava a ser de articulação, mobilização e catalisação dos esforços nacionais de modernização. Para tanto, o Estado tinha
139FIORI, O Consenso.
140 Os comentários do presidente Fernando Collor sobre a semelhança dos veículos nacionais com carroças foram feitos durante sua campanha eleitoral. Cf. FATIMANEWS. Governo Collor.
141 A Medida Provisória 158 garantiu a isenção ou redução de impostos sobre importação. Essa Medida Provisória é de março de 1990, no entanto, em 12 de abril do mesmo ano, ela foi convertida na Lei n. 8.032, de mesmo teor.
142 ERBER, A política industrial, p. 325.
89
de participar, de forma ativa, da construção da infraestrutura, da promoção da capacitação tecnológica, do incentivo ao progresso e busca da qualidade e produtividade143.
A implementação das regras do citado consenso continuou no governo de Itamar Franco, que substituiu Fernando Collor devido ao seu impeachment. O novo presidente prosseguiu com a política de privatização das empresas estatais, dentre as quais a Embraer.
Nos dois mandatos do Presidente Fernando Henrique Cardoso, intensificou-se a política neoliberalizante. Assim, em 1995, foi elaborado e implementado o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, que, alinhado com as determinações do Consenso de Washington, apresentava as seguintes medidas “inadiáveis”:
(1) o ajustamento fiscal duradouro; (2) reformas econômicas orientadas pra o mercado, que, acompanhadas de uma política industrial e tecnológica, garantam a concorrência interna e criem as condições para o enfrentamento da competição internacional; (3) a reforma da previdência social; (4) a inovação dos instrumentos de política social, proporcionando maior abrangência e promovendo melhor qualidade para os serviços sociais; e (5) a reforma do aparelho do Estado, com vistas a aumentar sua “governança”, ou seja, sua capacidade de implementar de forma eficiente políticas públicas.144 Nesse processo de reforma do Estado, destacou-se Bresser Pereira – ministro da Administração Federal e Reforma do Estado – que procurou modernizar as estruturas e processos da administração pública. Por essa época, a obra de dois norte-americanos – David Osborne e Ted Gaebler – intitulada “Reiventando o Governo”145, tornou-se bestseller internacional e influenciou os processos administrativos, os agentes políticos e técnicos brasileiros. A reforma do Estado explicitava que a burocracia de Weber, baseada da racionalidade, havia sido promissora por muito tempo, mas já apresentava desvios. Esses autores orientavam que o Estado devia ser gerido de forma empreendedora e demonstravam que, mesmo em suas atividades mínimas, ele precisava desburocratizar-se e assumir uma administração de cunho mais gerencial, buscando a eficiência e eficácia.
Nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, as privatizações foram intensificadas. Dentre as empresas estatais que passaram para a iniciativa privada, destacam-se as do setor de telecomunicações, a Companhia Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional.
143 Ibid., p. 325.
144BRASIL, Plano Diretor, p. 11.
145 OSBORNE; GAEBLER, Reiventando o governo, p. 13 – 25.
90