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Principais características do Neoliberalismo

CAPITULO 2 IDEOLOGIA DO SISTEMA CAPITALISTA

2.5 Neoliberalismo: a atual Ideologia do Capitalismo

2.5.1 Principais características do Neoliberalismo

Além das características oriundas do Liberalismo Clássico, o Neoliberalismo tem outras para serem aplicadas ao mercado, primeiramente, e à sociedade, subsidiariamente, pois esta se organiza segundo a Economia. Dentre essas características, destacam-se Estado mínimo, financeirização da Economia, globalização.

O principal defensor do Estado mínimo é o filósofo americano Robert Nozik. Esse estado neoliberal limita-se às funções de “proteção dos cidadãos contra a violência, roubo, fraude e fiscalização de cumprimento de contratos [...].” Este é o tipo de estado guarda- noturno113. No desempenho de seu papel, não pode violar direitos individuais. Portanto, não

110 Ibid., p. 14.

111 HARVEY, O neoliberalismo, p. 11.

112Cf. LEITE, Economia de comunhão, p. 52: A principal crítica do neoliberalismo é a regulamentação estatal.

113 NOZIK, Anarquia, Estado, p. 42.

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pode ser usado em benefício de uns nem deve proibir as pessoas de realizar atividades para o bem delas114.

Na obra “Anarquia, Estado e Utopia”, vislumbra-se a posição radical de Nozik, em relação ao formato do estado, na medida em que ele apresenta os contornos do que é um estado ultramínimo:

Estado ultramínimo mantém o monopólio do uso de toda força, exceto a necessária à autodefesa imediata e dessa maneira exclui a retaliação privada (ou de alguma agência) por lesões cometidas e exigência de indenização. Mas proporciona serviços de proteção e cumprimento de leis apenas àqueles que adquirem suas apólices de proteção e respeito às leis. Pessoas que não adquirem ao monopólio um contrato de proteção nenhuma proteção recebem.115

O Estado mínimo116 ou quase ausente exige remuneração pelos serviços de proteção e é praticamente um ente privado. Ele surge da associação de pessoas no estado de natureza, com vistas em exercer a proteção do grupo, sem chegar a constituir um governo, mas um grupo de natureza privada. Muitas associações surgem, mas apenas uma se torna dominante. Esse monopólio cresce com o “processo de mão invisível e através [sic.] de meios moralmente permissíveis, sem que o direito de pessoa alguma seja violado e sem que sejam apresentadas reivindicações a um direito especial que os outros não possuem.”117 O princípio da “Mão invisível” de Adam Smith emerge no contexto, expressando que praticamente tudo se resolve com a lógica da Economia de Mercado.

Por sua vez, Friedman defende que o governo deve ser não apenas limitado, mas também desconcentrado, para não cercear a liberdade individual das pessoas. A ele cabem somente os papéis essenciais, como, por exemplo, o estabelecimento de normas e o arbitramento de suas interpretações118. Quando os governos ultrapassam esse papel essencial e entram nas questões econômicas, os resultados são prejudiciais ao mercado e, consequentemente, à população. Para a “estabilidade e o crescimento econômico”, urge reduzir a intervenção do governo.119

As medidas governamentais para o bem-estar social (keynesianismo), na concepção dos liberais, têm sido mais prejudiciais. Assim, por exemplo, o programa de habitação concentra num mesmo lugar “crianças-problema” e contribui para o crescimento da

114 Ibid., p. 9.

115 Ibid., p. 42.

116Ibid., p. 43. O proponente do Estado ultramínimo, “grandemente preocupado em proteger direitos contra a violação, transforma esta na única função legítima do Estado e alega que todas as demais são ilegítimas, porque implicam em si a violação de direitos.”

117 Ibid., p. 132. Subsidiariamente ver também a p. 27.

118 FRIEDMAN, Capitalismo e liberdade, p. 12 – 13, 44, 182.

119 Ibid., p. 43 - 44. Cf. p. 37: “Toda ação de intervenção governamental limita a liberdade individual diretamente [...].”

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delinquência juvenil. Por outro lado, essas crianças levam problemas para as escolas da região onde o conjunto habitacional está implantado. Para evitar essas questões, Friedman sugere que, ao invés de dar a habitação, o governo forneça dinheiro, pois, assim, as pessoas assistidas não se concentram. Ao contrário, ficam dispersas120. Para o autor, as “pessoas-problemas”

têm de ficar separadas.

Apesar de defender um Estado ou governo mínimo, Friedman121 aceita a intervenção governamental para a mitigação da pobreza. Sugere que uma das maneiras de fazer isso é o imposto negativo, pelo qual, pessoas pobres recebem do Estado subvenção em dinheiro. Isto é mais útil ao indivíduo, pois não interfere em sua liberdade. Friedman defende que o subsídio seja destinado às pessoas pobres, e não às de determinada classe, idade, grupo trabalhista.

A outra característica do Neoliberalismo é a financeirização, que consiste no atual modo de funcionamento do Capitalismo no âmbito mundial e de forma sistêmica. Teve origem na década de mil novecentos e oitenta. Está fundamentada na lógica da especulação, que consiste em comprar ou vender ativos com expectativas de revendê-los ou recomprá-los, obtendo lucros nos mercados de ações, imóveis, créditos e outros ativos122.

O capital, quando toma a forma financeira, deixa de ser produtivo ou empregado em atividades comerciais, pois, em certa medida, é fictício. Assim, representa “títulos de propriedades sobre riqueza futura”, sob diversas formas (ações, títulos públicos e outros)123.

Esse modo do Capitalismo atual impacta tanto as economias nacionais quanto as internacionais. O capital financeiro não tem fronteira. Ele é transnacional, porque não se restringe a esse ou àquele estado124. Na perspectiva neoliberal, a financeirização exerce função primordial, para retomar e fomentar as relações internacionais125.

Um marco importante para o fenômeno da financeirização consiste no fortalecimento do dólar na década de 1980. Assim, “a elevação das taxas de juros nos EUA atraía a centralidade das aplicações financeiras daquele país”126.

120 Ibid., p. 161 – 171,182. O autor faz comentários como “as leis de salário mínimo”, assistência à velhice, redistribuição de renda, seguridade social. Entende que as intervenções dos governos – com foco nos Estados Unidos –, na área social, têm reflexos mais negativos que positivos.

121 Ibid., p. 173 – 176. Friedman sugere o funcionamento do imposto negativo.

122 BASTOS, Financeirização, crise, p. 1.

123 Ibid., p. 2. O termo fictício foi usado por Marx, no terceiro volume (cap. XXV a XXXI) de O Capital.

124 Ibid., p. 1.

125 HAYEK, Caminho da escravidão, p. 205: “Em nenhum outro campo pagou tão caro por abandonar o liberalismo do século XIX como naquele em que esse abandono se iniciou: o das relações internacionais.”

126POCHMANN, Dominação financeira.

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A globalização financeira ganhou escala e passou a liderar em novas bases a ordem capitalista mundial. Os banqueiros do mundo todo se uniram, conformando grau de poder jamais visto, capaz de submeter empresas e países à lógica financeira, inclusive parcela da política, que tem crescente presença de parlamentares e governos operando como verdadeiros funcionários do capital fictício.127

Tanto as repercussões positivas quanto as negativas se alastram a partir de um ponto a todo o sistema financeiro plasmado sobre o Planeta. À guisa de exemplo, cita-se a crise de 2007 – 2008 – quando “bolha imobiliária”, que teve início nos Estados Unidos da América, repercutiu em diversos países, trazendo cosequências trágicas no âmbito econômico, social e político.

A liberalização e a desregulamentação do mercado, a globalização e o avanço das Tecnologias das Informações e das Comunicações constituem fatores importantes para a financeirização da Economia. Em um sistema de mercado totalmente livre, o capital, principalmente na forma financeira, migra para os locais onde as condições de lucro são mais favoráveis. Essa liberdade, em certa medida, está relacionada com a desregulamentação do mercado, na medida em que o Estado revoga todas as normas protecionistas que impedem a livre circulação do capital financeiro. Hayek afirma que “em nossos dias não é necessário acentuar que haverá poucas esperanças de ordem internacional ou de paz duradoura enquanto cada país puder aplicar quaisquer medidas que julgue úteis ao seu interesse imediato, por mais nocivas que sejam para os outros”128.

Outra característica é a globalização que não é fenômeno novo. Ele já existia bem antes, haja vista os ciclos sistêmicos129 de acumulação nos quais havia um polo ordenador da Economia e as periferias influenciadas. A globalização atual é mais ampla, pois alcança quase toda a Terra. Na perspectiva neoliberal, busca-se a migração do trabalho130, do capital e das mercadorias comuns para qualquer parte do sistema capitalista que, com sua visão cosmopolita, domina o mundo. Dentre esses elementos capitalistas, o que tem maior facilidade de transitar pela Terra é o capital financeirizado, porque a financeirização é uma estratégia econômica que fomenta a globalização. Esse fenômeno é almejado pelos liberais e, em certa medida, dissuade os governantes das pretensões de guerra e fomenta a paz131, a qual leva ao aumento da riqueza mundial. As orientações de Bretton Woods, em certa medida,

127Ibid.

128 HAYEK, Caminho da servidão, p. 205.

129 Para maiores esclarecimentos sobre ciclos sistêmicos de acumulação, ver ARRIGHI, O longo século.

130 MISES, Liberalismo, p. 52. “O que afirmamos é que somente um sistema baseado na liberdade para todos os trabalhadores garante a maior produtividade do trabalho humano, e é, por conseguinte, de interesse de todos os habitantes da terra.”

131 Ibid., p. 53 e seguintes. A paz é um dos fundamentos do Neoliberalismo.

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contribuíram para a globalização naquele período, principalmente em decorrência de o dólar ter lastreado o comércio.

A globalização é inevitável, tanto na perspectiva política quanto econômica.

Segundo Béland, na atualidade, não se admite “pensar em afastar os continentes e os povos e submeter novamente os mercados planetários a um protecionismo hermético.”132 Acrescenta que “a globalização econômica acompanhará o futuro, pois ela é uma etapa da evolução dos conhecimentos e das ciências, e induzirá à globalização política os Estados de diversos países do mundo que se tornaram interdependentes. Um retorno ao passado é impossível”133.

A integração global das nações, do trabalho, das mercadorias e do capital financeiro – a globalização – decorre do “avanço das ciências teóricas e das novas tecnologias”. 134 Mises, em “Liberalismo”, argumenta em favor dos avanços tecnológicos para o desenvolvimento de uma complexa rede de relações econômicas em proporções internacionais. Ademais, os frutos desse avanço da tecnologia concorrem para a satisfação das carências das grandes massas135.

Uma grande rede; que integra satélites, software e hardware; está estendida sobre todo o Planeta. A transmissão de voz, dados, imagens se efetiva instantaneamente, independentemente da distância. Nesse sentido, o capital financeiro migra com muita facilidade para o lugar mais propício para “crescer” sem gerar nenhuma produtividade. Os rentistas não têm nenhuma preocupação em contribuir para o bem dos outros. Buscam somente as rendas nos investimentos nacionais ou transnacionais.