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O preconceito na sociedade e no contexto escolar

Neste tópico, pôde-se perceber, de acordo com pressupostos adornianos, qual deveria ser o caminho e a possibilidade da educação: direcionar os sujeitos rumo à emancipação, sem descuidar de levar em consideração o contexto histórico, cultural e político. Pensando na realidade brasileira, entende-se que a escola e a educação formal ainda carecem de subsídios e articulações para ser de fato efetivas. Todavia, não é impossível buscar formas de se opor à barbárie por meio da educação.

Adorno e colaboradores (201912), realizaram, nos anos 1950, um estudo importante que abordava questões como o preconceito, a violência e o autoritarismo. Trata-se dos Estudos sobre a personalidade autoritária. Em tal estudo, os pesquisadores se dedicaram a investigar o preconceito antissemita na sociedade norte-americana do período. A intenção era verificar se, nos Estados Unidos, existiam indivíduos potencialmente antissemitas, o que foi “medido” tendo em vista as características individuais, falas e questionários que foram aplicados, uma vez que, dadas as condições políticas e sociais do momento, não existia ou seria difícil encontrar indivíduos que se declarassem abertamente antissemitas. Esse foi um estudo de grande porte em que, para além dos questionários e resultados quantitativos, os autores – sobretudo Adorno – se dedicaram a fazer análises psicossociológicas em busca da compreensão integral do funcionamento dos indivíduos.

Apesar da preocupação inicial da pesquisa voltar-se ao preconceito antissemita, os pesquisadores puderam observar que, nos indivíduos preconceituosos, esse preconceito se generalizava para outros grupos étnicos, raciais e de gênero. Partindo dessas análises, Adorno et al. (2019, p. 74), afirmam que “[...] o antissemitismo é baseado em maior medida em fatores relativos ao sujeito e à sua situação total do que nas características efetivas dos judeus” e “[...]

o local para se buscar os determinantes das opiniões e atitudes antissemitas é dentro das pessoas que as expressam”. Isso significa que a suscetibilidade de um indivíduo ao preconceito depende, em maior grau, de suas necessidades psicológicas e, em menor grau, das características individuais daquele que ele escolhe para sofrer violência pois, como dizem os autores, “a mera existência do outro é motivo de irritação” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 151).

Por exemplo, usualmente o alvo do bullying ou preconceito é escolhido por apresentar características “inferiores” de acordo com a percepção do bully. Essa projeção de violência pode estar relacionada à medos, angústias ou, ainda, características do próprio bully que não podem ser toleradas à sua consciência e se manifestam na interação violenta para com o outro.

Nesse sentido, Horkheimer e Adorno (1985) confirmam que a essência do antissemitismo, por mais que se esconda, é a violência.

Em seu texto “Elementos do Antissemitismo”, Horkheimer e Adorno (1985) afirmam que essa projeção é falsa, pois, ao tornar o ambiente semelhante a projeção, o exterior se torna o modelo para o qual o interior se ajusta; o estranho se torna familiar e o que é familiar carrega algo de hostil. Em resumo, os impulsos que o sujeito não admite em seu interior como seus são

12 Estudos sobre a personalidade autoritária se trata da tradução publicada em 2019, de alguns capítulos da obra

“A personalidade autoritária” desenvolvida por Adorno e colaboradores.

atribuídos externamente à vítima escolhida. Nas palavras dos autores, “o que repele por sua estranheza é, na verdade, demasiado familiar” (HORKHEIMER; ADORNO,1985, p. 150).

Ainda segundo Horkheimer e Adorno (1985), o real problema da projeção de um preconceito é a ausência de reflexão, tanto sobre o objeto quanto sobre si, perdendo assim a capacidade de se diferenciar do outro. Nesse processo, diante da pressão do superego, o ego projeta no mundo exterior os impulsos agressivos do id, constituindo, uma ameaça a si mesmo.

Os autores compreendem o preconceito como resultado da relação dialética estabelecida entre indivíduo sociedade e cultura.

É possível perceber que o preconceito invade todos os espaços e camadas da sociedade e, quando se pensa no campo político, ele é utilizado como ferramenta para fortalecer a si próprio e descredibilizar o oponente. As eleições presidenciais de 2018 foram um momento em que essa situação ficou evidente. O atual presidente da república, eleito nesse período, utilizou de discursos de ódio e, muitas vezes, de notícias falsas para desmoralizar e descredibilizar seus oponentes. Tal atitude o fortaleceu bastante, já que passou a ser seguido por aqueles que pensam de forma semelhante e que antes não se sentiam à vontade para se expressar dessa maneira.

O item II, em “Elementos do antissemitismo: limites do esclarecimento”, expressa bem essa relação:

[...] Eles saem a pilhar e constroem uma ideologia grandiosa para isso, e falam disparatadamente da salvação da família, da pátria, da humanidade. [...] A ilha racional é inundada e os desesperados aparecem agora unicamente como os defensores da verdade, os renovadores da terra, que têm de reformar até seu último recanto. [...] A ação torna-se realmente um fim em si autônomo, ela encobre sua própria falta de finalidade. [...] A cegueira alcança tudo, porque nada compreende (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 142).

Contudo, o preconceito não atinge somente aqueles considerados conservadores, reacionários etc., mas também os considerados progressistas e revolucionários na medida em que em determinadas situações repelem aqueles que tem pensamentos ideológicos que divergem dos seus. Ao mesmo tempo, é importante considerar que todos os sujeitos carregam preconceitos internalizados pela via da cultura.

A esse movimento de vestir determinada postura e/ou posicionamento que vem junto de um “título” – o progressista ou o conservador – Horkheimer e Adorno (1985), chamaram de mentalidade do ticket, em que o indivíduo, incapacitado de perceber as contradições sociais ocasionadas pela perda/enfraquecimento da experiência, acaba por assumir uma “persona”

resistente aos pensamentos que se opõe a ela. Sobre a experiência, Adorno et al. (2019) afirmam

que esta seria o antídoto ao preconceito. Entretanto, experiência não significa simplesmente

“ter contato”. Para os autores:

Não existe um hiato simples entre a experiência e a estereotipia. A estereotipia é um dispositivo para se ver as coisas confortavelmente; uma vez que, no entanto, ela se alimenta de fontes inconscientes profundas, as distorções que ocorrem não podem ser corrigidas somente pelo olhar real. [...] Mesmo quando colocadas lado a lado com membros de grupos de minorias tão destoantes quanto possível do estereotipo, elas os perceberão através das lentes da estereotipia e permanecerão contra eles, não importando o que eles sejam e façam. [...] O otimismo em relação aos efeitos profiláticos de contatos pessoais deve ser descartado. Não se pode “corrigir” a estereotipia pela experiência; deve-se reconstituir a capacidade de se ter experiências para evitar o crescimento de ideias malignas no sentido mais clínico e literal possível (ADORNO et al., 2019, p. 262-263).

Crochík (2015), afirma que o preconceito é uma atitude mediada por dimensões cognitivas, afetivas e uma tendência para a ação. O aspecto cognitivo diz respeito aos estereótipos que se criam em torno de determinado objeto, como também à argumentos bem elaborados sobre ele que, por meio de uma ideologia, os justificam. A dimensão afetiva opera no sentido de negação da identificação com o alvo do preconceito, fazendo surgir no indivíduo sentimentos de desprezo e indiferença para com o alvo. Já a tendência para a ação se orienta por essas duas dimensões anteriores; ao mesmo tempo que se incorpora/compreende o alvo do preconceito, não se pode admiti-lo como parte do grupo, ocasionando um comportamento de segregação e marginalização.

Para compreender melhor esse movimento de falseamento e negação da realidade, Crochík (2015) traz um exemplo dos judeus que foram levados a viver na esfera do comércio durante muitos anos, por conta de todo o contexto histórico e político que estavam inseridos. O preconceituoso utiliza desse dado para acusar a categoria “judeu” de ser materialista e ganancioso, deturpando e negando um fato histórico transformando-o em algo já dado ou natural.

Ainda pensando em como a violência faz parte do processo de desenvolvimento da sociedade, pode-se partir dela para lançar luz sobre como diferentes tipos de preconceitos são construídos no decorrer da história. Seja pelo gênero, etnia, ou limitações físicas e intelectuais, a gênese desses preconceitos se dá pelo trabalho, isto é, aqueles que possuem as características exigidas para se inserir no mundo do trabalho são valorizados. As mulheres eram vistas como inferiores, devido a pouca força física, impossibilidade de estudar, assim como as pessoas com algum tipo de deficiência, que aos olhos da sociedade não serviam para trabalhar devido a suas

características físicas, demonstrando, assim, essas características se constituem como forças que incluem ou excluem determinados grupos da sociedade.

Como já mencionado anteriormente, constitui-se como um desafio da humanidade lutar, interna e externamente, para minimizar e/ou erradicar a violência. Desse modo, a manifestação de preconceitos está ligada com esse movimento interno de negar características próprias ao sujeito, manifestando externamente de modo a projetar no outro, de maneiras agressivas ou com convicções agressivas, tudo aquilo que não podem aceitar em si mesmo. Desde características individuais até mesmo às grupais.

3 VIOLÊNCIA E PRECONCEITO MANIFESTADOS NOS QUESTIONÁRIOS: O INDIVÍDUO A SOCIEDADE E A ESCOLA

Esta parte da pesquisa contém dados relativos à investigação empírica. Consideramos essa etapa de extrema importância pois ela proporciona elementos para percebermos como a questão da violência aparece e é compreendida na realidade e nas relações interpessoais, tanto em sociedade, quanto na escola. Antes de começarmos a exposição, é necessário deixar claro alguns pontos.

Por conta do atual cenário de pandemia em razão do vírus da COVID-19, a metodologia planejada inicialmente precisou ser repensada e transposta para a presente realidade. Devido a isso, foi necessário realizar a pesquisa de maneira online13. Anteriormente, os dados seriam coletados, por meio da metodologia conhecida como grupo focal, em escolas de ensino médio da cidade de Jataí. Após as mudanças acarretadas pela pandemia, todos os procedimentos de coleta de dados migraram para o ambiente virtual, sendo mantido, no entanto, o mesmo público:

escolares do ensino médio. Como instrumento de coleta de dados, utilizamos o questionário online, que foi disponibilizado na plataforma Google Forms (Apêndice A). O questionário foi dividido em 2 partes: a primeira parte contém perguntas fechadas sobre as características sociais, econômicas e demográficas dos estudantes. Tais perguntas visam traçar um perfil dos respondentes. A segunda parte contém perguntas abertas sobre a temática da violência e seus desdobramentos na sociedade e na escola. Essa sessão visa conhecer as percepções, opiniões e entendimentos dos estudantes a respeito dessa problemática.

A última pergunta da segunda parte do questionário é um convite ao estudante para que participasse de uma chamada de vídeo com a pesquisadora, individualmente, a fim de comentar sobre as respostas apresentadas no questionário aberto. Essa parte não foi obrigatória. Sendo assim, participaram apenas os estudantes que se sentiram à vontade, como será abordado no capítulo 4. Acreditamos que esse procedimento proporcionou contribuições à formação dos estudantes, tanto acadêmica, quanto humana, posto que a função da chamada de vídeo seria estimular a fala, o diálogo e o pensamento desse estudante para as questões sociais que nos cercam.

As videochamadas foram realizadas por meio do recurso Google Meet em razão do seu fácil acesso, usabilidade. Além disso, tal ferramenta promove segurança, sigilo e a proteção dos

13 Em razão dessa mudança metodológica, o trabalho passou por mudanças no cronograma, uma vez que a aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa, só foi dada no final do mês de outubro de 2020 e a coleta de dados iniciada no final de novembro de 2020.

dados dos usuários. As chamadas de vídeo foram gravadas a fim de auxiliar a pesquisadora no momento de transcrição desses momentos.

Quanto aos participantes, optamos por nos restringir aos estudantes que possuíam idade igual ou superior a 18 anos e que residissem nas cidades com escolas de ensino médio sob jurisdição da Coordenação Regional de Educação de Jataí. 17 escolas que oferecem ensino regular, integral, militar e EJA compõem o escopo traçado. Tais escolas estão localizadas em 9 municípios, sendo eles: Jataí, Serranópolis, Chapadão do Céu, Aporé, Itajá, Lagoa Santa, Itarumã, Caçú e Aparecida do Rio Doce. A divulgação dos questionários foi feita por intermédio da Coordenação Regional de Educação de Jataí que, através dos e-mails administrativos, convidou as escolas a participar e divulga a pesquisa aos seus estudantes. Todos os participantes preencheram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE - Apêndices B e C) antes do questionário e da entrevista, autorizando a coleta e utilização de seus dados.

Mesmo tendo seguido todos os procedimentos metodológicos planejados anteriormente para a divulgação do questionário, tivemos uma intercorrência que fez com que o tempo transcorrido nessa parte da pesquisa fosse maior que o esperado. Aguardamos um tempo maior que o planejado em busca de ampliar o número das respostas obtidas. As respostas começaram a serem registradas em fevereiro de 2021. Todavia, quando analisadas, foi observado que muitas delas haviam sido elaboradas por alunos menores de 18 anos. Devido a isso, tais respostas foram desconsideradas. As respostas válidas, portanto, foram 17, e 5 estudantes participaram do procedimento de entrevista.