presidentes que lançaram mão desses recursos em suas campanhas, como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Os algoritmos servem, inclusive, para verificar o posicionamento político dos indivíduos e controlar e direcionar os conteúdos que eles têm acesso a fim de levá-los ao conflito ideológico e influenciá-los a enxergar aquele que pensa diferente como um inimigo.
Tais motivações são, muitas vezes, geradas por meio das fake news 8.
Essa produção, parte de uma premissa de esclarecimento, apresentando-se como uma opção formativa dentro de uma plataforma de streaming, e representa um aspecto da dialética da tecnologia, que, mesmo sendo um produto rendido aos moldes da indústria cultural, ainda proporciona certa possibilidade formativa de oposição à barbárie.
Quando se analisa os grandes nomes dessa indústria de empresas que fornecem serviços na internet, é impossível não pensar em Google, Facebook e Instagram. É inegável que o Google pode ser considerado a plataforma mais poderosa entre estas, uma vez que detém a maior concentração de poder econômico e político na internet. O primeiro requisito para que o indivíduo adentre o mundo virtual é fazer um e-mail Google para habilitar seu smartphone.
Assim, desde seu primeiro passo na internet, a identidade do sujeito já é coletada por essa empresa. Por tratar-se de um serviço que organiza e disponibiliza uma vasta quantidade de conteúdos e informações, aparentemente de maneira gratuita, tende-se a criar uma admiração com tamanha generosidade. Porém, nos bastidores, toda a nossa movimentação online é registrada e transformada em publicidade e anúncios que surgem na tela, esperando pelo seu click. Essa é a lógica que mantém essa oferta generosa sempre funcionando e sempre disponível.
Se por um lado a humanidade se desenvolveu a largos passos no que diz respeito a técnica e tecnologia, por outro lado, ocorre um empobrecimento do pensamento que dificulta ainda mais a busca por emancipação e autonomia. Dessa maneira, compreender a formação do homem na sociedade burguesa, os produtos tecnológicos e os processos de dominação ou coesão em que a sociedade está inserida, proporciona maior possibilidade de apreender os elementos que estão implicados na compreensão da violência nos dias de hoje em sociedade e nas redes sociais.
No tópico anterior, foram abordadas as relações entre violência e redes sociais, assim como a forma particular de funcionamento dos indivíduos no ambiente virtual. Neste tópico serão tratadas as relações entre violência e formação, o que não se limita à educação escolar propriamente dita, mas também a inclui.
Em seus escritos sobre educação, Adorno (1995) revela uma forma de compreensão do que seria a educação e para onde ela deveria direcionar os indivíduos. Em “Educação e emancipação”, de 1970, Adorno aponta que desbarbarizar a educação tornou-se a questão mais urgente atualmente. O autor fala isso tendo como referência o Holocausto como o acontecimento que revela a livre manifestação da barbárie, com os mais variados exemplos de extermínio, preconceito, opressão, genocídio, tortura, dentre tantos outros casos deploráveis.
Em tópicos anteriores a definição da barbárie foi explorada, mas é importante relembrar o que o autor entende pelo termo.
Adorno (1995) a compreende como um estado atrasado em relação ao desenvolvimento da sociedade em seu aspecto tecnológico. Assim, tendo a sociedade tido oportunidades de experimentar situações formativas civilizatórias, os sujeitos ainda se encontram tomados por uma agressividade primitiva, um impulso de destruição. Ele compreende esse “estado atrasado”
como uma falha da cultura, isto é, sendo a cultura aquilo que introduz o sujeito à sociedade por meio da repressão dos seus impulsos primários, o fato da sociedade – inclusive, até os dias atuais – estar tomada por esse estado de barbárie demonstra que a cultura não cumpriu sua função. Isso se dá em razão da experimentação, por parte dos sujeitos, de uma falsa cultura ou semicultura moldada pelos padrões da indústria cultural.
No que tange à compreensão de Adorno (1995) sobre a educação, pode-se dizer que, para ele, ela não se restringe à mera transmissão de conhecimentos, mas deve conduzir para a produção de uma consciência verdadeira. Essa concepção pode ser “aplicada” tanto à educação escolar quanto à educação de âmbito social. O autor compreende que isso é, inclusive, uma necessidade política, ou seja, a consciência verdadeira seria premissa para uma sociedade verdadeiramente democrática. Talvez por esse motivo é possível constatar, ao longo da história, como as experiências democráticas carregam uma certa “fragilidade”.
Quando olhamos para o Brasil isso se torna evidente, passamos por um golpe militar que usurpou a democracia por um tempo, e após essa experiência, temos pouco mais de 30 anos de retomada democrática, sendo essa frequentemente ameaçada. O impeachment da presidenta eleita democraticamente, a ascensão da extrema direita no Brasil nos últimos anos, a eleição de um candidato assumidamente preconceituoso, intolerante e negacionista, que a todo momento
ameaça novo golpe militar são exemplos que refletem uma formação dos indivíduos voltada para a inflexão e a heteronomia.
Assim, a educação consciente, feita por intermédio das instituições de ensino, deve fortalecer a resistência dos indivíduos na direção contrária à adaptação e do conformismo. Mas, o que se observa é que a barbárie consegue adentrar até mesmo o ambiente escolar, funcionando como uma força antagônica à formação cultural. Considerada como o local principal de produção de cultura e formação humana, a escola tende a ser cobrada por todas as mazelas da sociedade. É esperado que ela dê conta desde o desenvolvimento tecnológico até a formação cultural, ignorando que a educação/formação é também uma responsabilidade social.
É uma incumbência social porque tanto a formação humana quanto os comportamentos violentos são construídos socialmente na interação do indivíduo com o outro e as instituições.
Dessa forma, desbarbarizar a educação não depende apenas das condições oferecidas pelo espaço escolar, a este, cabe a promoção do diálogo e reflexão sobre essas contradições. Todavia, a escola também reproduz a violência manifestada na sociedade, uma vez que – como explanado no capítulo 1 – se encontram, no interior da escola, diferentes manifestações de violência, seja física, verbal, psicológica etc. Por isso, é importante que na dialética entre combater a violência e ao mesmo tempo ser um local de reprodução da mesma, a educação escolar possa promover a reflexão sobre como isso é construído para que possa ser superado.
Há, também, outros aspectos importantes que devem ser analisados: as condições materiais de existência são iguais para todos? Todos têm acesso à educação e aos bens culturais?
Sabe-se que a resposta é negativa, ainda mais se tratando da realidade brasileira, onde se observa tantas desigualdades sociais, problemas de acesso à educação, acesso à saúde, e outros diversos problemas de acessibilidade. Para compreender melhor esse cenário, alguns números serão apresentados.
Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica9 de 2020 revelam informações importantes em relação a essas diferentes realidades. Segundo o documento, 1.092.039 crianças, adolescentes e jovens de 04 a 17 anos estavam fora da escola em 2019 e, como mostra o próprio documento no item “indicador de equidade”, predominam nesse grupo integrantes das famílias mais pobres, sendo estes, em sua maioria, pessoas negras, indígenas ou
9 De acordo com o site todospelaeducacao.org.br, se trata de uma publicação que reúne os principais números e estatísticas de todas as séries, da creche ao ensino médio. Realizada pela Editora Moderna em parceria com o Todos pela Educação, a publicação traz as informações divididas pelas modalidades (infantil, fundamental, médio, educação profissional, Educação para Jovens e Adultos (EJA), educação especial), além de alguns recortes temáticos (remuneração e carreira docente, alfabetização, financiamento, desigualdade, entre outros) etc.
quilombolas (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2020). Portanto, é difícil falar de uma educação universal quando esse direito nem está ao menos garantido como deveria.
Outro importante ponto de destaque são as intervenções políticas e ideológicas que são feitas no interior da escola na intenção de limitar ainda mais o caminho até a emancipação e dificultar a resistência. Projetos como o “Escola sem partido10” que visa a criminalização da chamada “Ideologia de gênero11”, andam de mãos dadas no sentido favorável à heteronomia e são exemplos explícitos de como o interesse político pode interferir até mesmo na transmissão de conteúdos na escola, falseando a realidade e deturpando o conhecimento. Projetos como esses reafirmam e validam a violência e o preconceito à diversidade. Nesse sentido, Adorno (1995, p. 116-117) afirma: “enquanto a sociedade gerar a barbárie a partir de si mesma, a escola tem apenas condições mínimas de resistir a isso [...] A desbarbarização da humanidade é o pressuposto imediato da sobrevivência”.
A banalização da violência é, também, outro fenômeno que ocorre na escola que dificulta ainda mais essa posição de resistência. Com tal banalização, assim como mostrado também no capítulo 1, a tendência é de que a violência escolar seja naturalizada. Para Adorno (1995), não há como conceber uma sociedade humanizada e justa sem que as pessoas sejam totalmente aversas à violência. Portanto, é necessário atenção ao esforço da não naturalização da violência, independente do contexto discutido.
No texto “Educação após Auschiwtz”, Adorno (1995) deixa evidente que cabe, à educação, o esforço de se articular e conceder as condições para que Auschiwtz não se repita.
Tal esforço se dá pelo estímulo ao pensamento autônomo e emancipado. Por isso, alerta para o fato de que “[...] a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. É isto que apavora” (ADORNO, 1995, p.
119). Essas condições seriam o próprio sistema econômico atual, que estimula a competição, exploração e o consumo exacerbado a todo momento, características estas que direcionam nossa consciência para a inconsciência.
Essa inconsciência pode também ser entendida como uma “pressão” exercida pelo todo sobre o particular, que tende a dificultar a resistência. Isto é, as forças internas que poderiam
10 Projeto de Lei n. 7180/2014, impede o uso dos termos “ideologia de gênero”, “gênero” ou “orientação sexual”
em salas de aula.
11 O Projeto de Lei n. 4893/2020 tipifica como crime a conduta de quem, nas dependências de escolas públicas de ensino, adote, divulgue, realize ou organize qualquer tipo de conteúdo, palestra, disciplina etc. vinculada à discussão de gênero/sexualidade. Esse termo é utilizado de maneira pejorativa por setores mais conservadores da sociedade, que acreditam que a escola, ao falar sobre esses assuntos vai contra os valores tradicionais da família.
Temem também, que essa discussão possa induzir crianças à uma sexualidade precoce, ou a serem homossexuais ou transexuais.
ser voltadas para a busca do esclarecimento são usurpadas pela indústria cultural por meio do estímulo ao consumo de seus produtos, assumindo autoridade sobre o indivíduo (ADORNO, 1995). Nas palavras do autor: “[...] a organização do mundo converteu-se a si mesma imediatamente em sua própria ideologia. Ela exerce uma pressão tão imensa sobre as pessoas, que supera toda a educação” (ADORNO, 1995, p. 143). Por isso não se pode deixar de perceber as enormes dificuldades que se posicionam em oposição à autonomia em nossa organização de mundo.
Nesse arranjo, a formação ocorre de modo a absorver e aceitar as condições heterônomas que são postas pelas instituições, pela configuração política e pela educação. Dito isso, Adorno (1995) apresenta algumas alternativas de contraposição a essa tendência, sendo uma delas o que ele chamou de “giro para o sujeito”. Tal alternativa pode ser entendida como o ato de apresentar a realidade e os fatos como eles realmente aconteceram – a exemplo de Auschiwtz e dos inúmeros exemplos de violência que existem na história e no cotidiano – para que, assim, ao se horrorizar com esses acontecimentos, eles não voltem a acontecer, através da autorreflexão crítica. Assim afirma o autor:
É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos (ADORNO, 1995, p. 121).
Adorno ainda acrescenta que, aliado ao giro para o sujeito, seria importante que os indivíduos pudessem se manifestar genuinamente no mundo, no sentido de não reprimir suas angústias:
Tanto é necessário tornar consciente esse mecanismo quanto se impõe a promoção de uma educação que não premia a dor e a capacidade de suportá- la, como acontecia antigamente. Dito de outro modo: a educação precisa levar a sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exigem, então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo inconsciente e reprimido (ADORNO, 1995, p. 127-128).
Com isso, o autor reforça que a angústia não deve ser reprimida e não deve mais ser promovida uma educação que premie a dor e a capacidade de suportá-la. Quanto mais espaço à angústia, mais desaparecerá seu efeito destrutivo. A educação para a dureza deve ser veementemente rejeitada.
Neste tópico, pôde-se perceber, de acordo com pressupostos adornianos, qual deveria ser o caminho e a possibilidade da educação: direcionar os sujeitos rumo à emancipação, sem descuidar de levar em consideração o contexto histórico, cultural e político. Pensando na realidade brasileira, entende-se que a escola e a educação formal ainda carecem de subsídios e articulações para ser de fato efetivas. Todavia, não é impossível buscar formas de se opor à barbárie por meio da educação.