2.1 Uma teoria sem família?
2.1.1 Considerações gerais
2.1.2.3 O problema que “não” tem nome: o amor-conflito
só a relação entre marido e esposa, mas também a relação destes com sua prole. Esse formato fordista da família, visto por outro ângulo, possui efeitos negativos, na medida em que cerceia a liberdade de novos estilos e projetos de vida de todos os seus integrantes.
A família é, pois, injusta, porque se conforma em uma instituição política centrada em um único sujeito, o homem, pai de família, o qual inibe o crescimento do papel ativo dos demais – leia-se aqui não só a esposa, mas também as crianças. A primeira cisão existe em função do gênero, e a segunda, em função das gerações. As ações de seus membros não serão regidas pelo seu self e/ou por um consenso associativo, mas sim por um roteiro pré-fabricado, que as divide de acordo com as diversas categorias: homem/pai, mulher/mãe e criança/filho.
Assim, a família contemporânea é de fato uma associação política marcada por uma injustiça sistêmica, na medida em que determina a seus membros papéis engessados. Ela reproduz uma característica pré-moderna, típica das sociedades feudais – a imobilidade.
Outro ponto interessante da análise de Okin situa-se na percepção quanto a uma diferença essencial de abordagem de Rawls e de outros filósofos políticos. Conquanto Rawls não tenha conseguido lidar em um primeiro momento com esse tema por meio da argumentação, tendo pressuposto a família como justa215, de certa forma, não afastou a possibilidade de se discutir uma ideia de justiça que abarcasse a família e as mulheres (novamente, e como todos, esqueceu as crianças). Outros autores, como veremos a seguir, sequer admitem que usemos a palavra justiça e família em uma mesma frase.
ímpeto consumista, decretou: vou levar os dois. Uma pausa para a foto. #famíliafeliz,
#famíliaéamor, #amominhafamília217.
Vamos fazer um vídeo. E como trilha sonora: Bryan Adams. “I swear to you, I will always be there for you – there-s nothin´ I won´t do. I promise you – all my life I will live for you – we will make it through. Forever we will be. Together you and me… together a family…” E voi là.
O que vemos, pois, é que a história da família moderna seguiu o caminho do amor romântico218, construído de forma paralela e em associação a dogmas religiosos219. Se antes, na sociedade feudal, as associações e relações pessoais giravam em torno da ideia de domínio, algo bastante concreto, com a passagem para uma sociedade moderna, a família passou a gravitar em torno de uma ideia mais abstrata – a saber, o afeto. É o que Phillip Ariès chama de
“sentimento de família”, o que por sua vez, a seu ver, está intimamente conectado com o sentimento de infância:
217 “Em sua crítica de Rawls, Sandel assume explicitamente e colabora com a visão de Hume sobre a vida familiar, de modo a defender a tese de que há importantes esferas sociais em que a justiça é uma virtude inadequada. (...) Sandel, por outro lado, sustenta a reivindicação de Rawls de que o primado da justiça é manchado pela existência de numerosos grupos sociais nos quais as circunstâncias da justiça não predominam.
Entre esses grupos, caracterizados por suas ‘identidades comuns e propósitos compartilhados mais ou menos claramente definidos’, a família ‘pode representar um caso extremo’. (...) Primeiramente, ele concorda com Hume em que, nessas associações íntimas ou solidárias… os valores e objetivos dos participantes coincidem intimamente o suficiente para que as circunstâncias de justiça prevaleçam a um grau relativamente baixo’. Em
‘uma situação mais ou menos ideal de família’, a afeição espontânea e a generosidade prevalecerão”. (…) Podemos aprender mais sobre por que a justiça é uma virtude necessária às famílias, examinando a segunda falha no argumento de Sandel, que é: ele se baseia em uma explicação ainda idealizada, mítica, da família”. OKIN, Susan M. Op. Cit. 1989b, pp. 28-29.
218 “O amor romântico é o maior sistema enérgico dentro da psique ocidental. Na nossa cultura é – mais ainda que a própria religião – a arena em que homens e mulheres tentam conseguir a transcendência, plenitude, êxtase e sentido para a vida. (...) O amor romântico não é apenas uma forma de ‘amor’, mas é todo um conjunto psicológico – uma combinação de ideias, crenças, atitudes e expectativas. Essas ideias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações”. JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo. 1997. pp.
12-14.
219 Muito embora a família tenha se dissociado paulatinamente do domínio religioso, como bem destacado por Philip Ariès, na sua análise sobre a iconografia da Idade Moderna, de certo se trata de um movimento não linear.
Podemos constatar a força da religião na concepção da família através de um exemplo recente. Em 1994, o Papa João Paulo II lança a “Carta às famílias”, com destaque para os seguintes trechos: “(...) 2. Dentre essas numerosas estradas, a primeira e a mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se. Com efeito, normalmente ele vem ao mundo no seio de uma família, podendo-se dizer que a ela deve o próprio facto de existir como homem. (...)2. Dentre essas numerosas estradas, a primeira e a mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se. Com efeito, normalmente ele vem ao mundo no seio de uma família, podendo-se dizer que a ela deve o próprio facto de existir como homem. Quando falta a família logo à chegada da pessoa ao mundo, acaba por criar-se uma inquietante e dolorosa carência que pesará depois sobre toda a vida.
A família tem a sua origem naquele mesmo amor com que o Criador abraça o mundo criado, como se afirma já «ao princípio», no livro do Génesis (1, 1). (...) O mistério divino da Encarnação do Verbo está, pois, em estreita relação com a família humana”. Grifou-se. Texto obtido em https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1994/documents/hf_jp-ii_let_02021994_families.html, com acesso em 08/02/16.
De modo geral, a cena de gênero moderna nasceu da ilustração das alegorias tradicionais da Idade Média. Mas a distância entre o tema antigo e sua nova expressão é enorme. Esquecemo-nos da alegoria das estações e do inverno quando contemplamos um quadro de Stella, representando uma noite ao pé do fogo: de um lado da grande sala, os homens ceiam, enquanto do outro, em volta da lareira, as mulheres fiam ou trançam junco e as crianças brincam ou são lavadas. Não é mais o inverno, é o serão. Não é mais a virilidade ou a terceira idade, é a reunião de família.
Nasce uma iconografia original, estranha aos velhos temas desgastados que no princípio ela havia ilustrado. O sentimento da família constitui sua inspiração essencial, uma inspiração muito diferente da das antigas alegorias. Seria fácil elaborarmos um catálogo de temas repetidos ad nauseam: a mãe vigiando a criança no berço, a mãe amamentando a criança, a mulher fazendo a toalete da criança, a mãe catando o piolho na cabeça da criança (operação corriqueira e que aliás não se limitava às crianças, pois Samuel Pepys se submetia a ela), o irmão ou a irmã tentando ver o berço na ponta dos pés, a criança na cozinha ou no celeiro com um criado ou uma criada, a criança fazendo compras em um armazém220.
Rawls também conhece essa melodia. Afinal, ao avaliar a família como um celeiro da formação moral, adentra na questão da moralidade da autoridade, passa a fazer uma análise da relação existente entre pais e filhos, isto é, entre os adultos e as crianças da família com base no amor. Inicia sua análise com a ideia de que as crianças são seres desprovidos de conhecimento necessário para avaliar os preceitos e as ordens daqueles em posição de autoridade. Na sequência, avalia que esses preceitos estariam de “acordo com uma interpretação razoável dos deveres familiares, conforme definidos pelos princípios de justiça”.221 Reconhecido, pois, esse pequeno e praticamente desnecessário tópico, adentra naquilo que de fato importa: “o amor”. Nos dois parágrafos seguintes, Rawls menciona os termos “amar”, “amor” e “afeto”, nada menos que dezesseis vezes222.
Afinal, dizem os filósofos políticos, se estamos diante de uma “esfera de amor”, de interesses iguais, e de sentimento, de afeto, de união, e devoção mútua, estamos falando de algo que não se mistura com a ideia de justiça, algo que maravilhosamente pertence ao mundo sagrado, do divino, e não dos homens. Porque, vejam bem, a ideia de justiça pressupõe escassez e conflitos, relações de poder, redimensionamento de recursos e direitos. Temos que lidar com um pressuposto de liberdade entre iguais e ainda pensar no princípio da diferença, na igualdade de oportunidade justas. Já nos deparamos com muitos conflitos nas ruas. Isso é
220 ARIÈS, Phillippe. Op. Cit.. p. 142.
221 RAWLS, John. Uma teoria de justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 571-573.
222 Veja-se o seguinte trecho: “Os pais podemos supor amam o filho e, com o tempo, o filho passa a amar os pais e confiar neles. Como ocorre essa mudança na criança? Para responder a essa pergunta, presumo o seguinte princípio psicológico: a criança só passa a amar os pais se primeiro eles a amam de forma manifesta. Assim, os atos da criança são motivados, inicialmente, por certos instintos e desejos, e seus objetivos são regidos (quando o são) por interesse próprio racional (em um sentido apropriadamente restrito). Embora a criança tenha potencialidade para amar, seu amor pelos pais é um novo desejo que surge em razão do reconhecimento do evidente amor que eles lhe têm e de se beneficiar dos atos em que o amor deles se expressa”. Ibidem. p. 572.
um problema que apenas existe da porta para fora. A casa é o lugar da paz, do amor das mulheres e da inocência infantil223. Deus nos proíba de pensar em tamanho sacrilégio224.
Em suma, o raciocínio, portanto, que predomina como linha geral da filosofia política, e também, em particular, da teoria da justiça, nos leva à seguinte conclusão: a promoção da justiça e o amor não podem conviver lado a lado. São conceitos que pertencem a dimensões diferentes. Não há sentido em discutir qualquer aspecto de justiça em uma relação que já é justa, porque onde há amor, há justiça. Resumidamente, onde o amor entra, a justiça, ou melhor, a injustiça saí, e vice-versa. Não existe uma situação-problema a ser estudada, ou um objeto para a filosofia política aqui.
Mas, por amor ao debate, digamos que, hipoteticamente, as famílias tenham problemas. Digamos que, num exercício apenas teórico, existam famílias em que o amor conviva com outras coisas, a saber, com conflitos, por exemplo. Será possível que o amor recíproco que une as pessoas em torno dessa associação, conviva lado a lado, com o poder?
Isso seria possível?
Em 1963, Betty Friedan lançou a sua obra-prima The feminine mystique. O primeiro capítulo recebeu o seguinte título The problem that has no name. Após realizar um questionário com mais de duzentas mulheres, em 1957, Betty lançou-se como ela mesma diz, numa investigação jornalística a fim de entender o que estava acontecendo com as mulheres da sociedade americana225.
Duas narrativas lhe chamaram a atenção226. De um lado um crítico americano avaliava a obra de Simone de Beauvoir, O segundo sexo, e sentenciava: ‘obviamente ela não entendia o que era viver’. Ademais, ela estaria analisando a mulher francesa. O “problema da mulher” na sociedade americana não existia mais, esbravejou o crítico. De outro lado,
[...] uma mulher americana, mãe de quatro filhos dizia para outras mulheres, também mães, em uma pausa para um café, em um subúrbio de Nova York, de forma um tanto quanto desesperada: ‘o problema’. E, as outras sabiam, sem palavras, que ela não estava falando de um problema com o seu marido, ou com suas crianças, da sua casa. De repente, elas se deram conta que todas
223 “Até tu, Brutus?” Como nos revela Okin, nem mesmo Mangabeira Unger conseguiu fugir dessa concepção da família romântica: “Valendo-se do Mercador de Veneza para explicar por analogia o que chama de visão
‘grosseira’ das relações sociais, ele compara as segunda e terceira dessas esferas, a família e o mercado, a Belmont – em que as pessoas se associam por afeição mútua – e a Veneza – em que as pessoas são motivadas por interesse próprio e reguladas por contratos. Ao encanto de Belmont, segundo o qual ‘os cidadãos podem fugir ocasionalmente’, Unger acrescenta: serve para tornar as engenhosas relações de Veneza parecerem toleráveis. Ele olha na direção da eliminação, tanto quanto possível, das rígidas divisões da vida social que são justificadas pela mitologia Belmont/Veneza”.OKIN. Op. Cit. 1989b., p. 120.
224 Diferentemente dos filósofos políticos, a Igreja Católica não abriu mão em nenhum momento de pensar uma doutrina de fé que abrangesse a família.
225 FRIEDAN, Betty. The feminine mystique. New York: W.W. Norton & Company. 2007.
226 Ibidem. p. 6.
compartilhavam o mesmo problema, o problema que não tem nome. Elas começaram, de forma hesitante, a falar sobre ele227.
Em 2014, o Papa Francisco escreveu outra Carta às Famílias228, dessa vez um tanto diferente daquela escrita por João Paulo II. Nesse novo documento, Francisco se preocupa mais em explicar qual seria o objetivo da Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos: a discussão do tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”. Na sequência, esclarece que existem urgências pastorais que dizem respeito à família. Ele, contudo, fala de “problemas do matrimônio, da vida familiar, da educação dos filhos”. Bom, o que isso tudo significa, então? A família é amor ou é problema?
Na verdade, a família é uma associação política que se sustenta na ideia de amor recíproco, uma espécie de affectio societatis. Contudo, se a família moderna visava ao formato romântico, a família pós-moderna caminha, a passos largos na direção do realismo.
Não estamos mais buscando o amor ideal, ou fingindo amar os que não amamos, ou escondendo dos demais o verdadeiro sujeito de nossa admiração. O amor, que uniu a família inicialmente como um mito celeste, pousa seus pés no chão e molda as relações familiares em direção às possibilidades do mundo real. Em alguns casos, há amor na família, em outros, não. Em certas histórias, houve amor e não há mais. Ele desprendeu-se do céu e da terra, e iniciou uma trajetória de fluidez nas nossas vidas.
Mas paralelamente ao amor existe ainda outra coisa. Algo que está nos livros, nas músicas, na nossa rotina, mas por alguma razão mística ausente da filosofia política. Ao lado do amor recíproco (ou do não amor, ou do que já foi amor) estão as relações de poder dessa associação, os conflitos, as demandas, a negociação, as brigas, e os acordos, os consensos, o debate, a deliberação, e novos ciclos de harmonia e desarmonia. A associação possui membros que querem fazer valer as suas respectivas vontades, e por uma motivação racional, tendem a otimizar a sua participação nesse microssistema, ampliando o seu espaço de poder – o que pode significar – mais/menos trabalho, mais/menos tempo, mais/menos recursos financeiros, mais/menos oportunidades, e tudo mais que se possa imaginar.
227 As passagens mais marcantes do livro de Betty Friedan são os depoimentos das mulheres entrevistadas. A narrativa de uma mulher de 19 anos que deixou a universidade para se casar é reveladora: “Tentei tudo o que as mulheres devem fazer: passatempos, jardinagem, picles, conservas, ser muito sociável para com os vizinhos, trabalhar em comitês, organizar chás de pais e professores. Posso fazer tudo isso, e aprecio, mas essas atividades não deixam nada em que pensar – nenhum sentimento de quem você é. Nunca tive nenhuma ambição de carreira.
Tudo que eu desejava era me casar e ter quatro filhos. Eu amo as crianças, o Bob e a minha casa. Não há problema algum que se possa nomear. Mas estou desesperada. Começo a perceber que não tenho personalidade.
Sou uma serviçal de alimentos; alguém que põe calças e faz camas; alguém a ser chamado quando se quer algo.
Mas, quem sou eu?” FRIEDAN, Betty. Op. cit. p. 9.
228 Informação obtida em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2014/documents/papa- francesco_20140202_lettera-alle-famiglie.html, com acesso em 08/02/16.
É muito comum, ainda, que os conflitos surjam também por desrespeito ao estatuto moral da associação: a infidelidade conjugal, a violência física e psicológica. Uma série de
“problemas” e conflitos pode e vai surgir nesse ambiente, em que diferentes seres humanos precisam conviver, ora de acordo com a sua vontade mais íntima, ora reprimindo desejos e projetos, em prol da manutenção e da preservação da vida comunitária. É um jogo, uma negociação, é vida política, na sua essência. Há cálculos e negociações em Veneza, há cálculos e negociações também em Belmont.