1.1 Sociedade: puzzle 1500 peças
1.1.8 Poder e autoridade
O poder não pertence a uma estrutura ou pessoa, mas ele flui através delas e de suas relações, e em muitos casos, ele assume outras vestes. Em regra, o poder é pensado em termos de opressão e repressão, mas ele também pode se materializar em “ideias” ou em “discurso”.
Michel Foucault perdeu noites em claro. Sua real inquietação: O que é o poder? Quem o exerce?
E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo tão visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder. A teoria do Estado, análise tradicional dos
aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder. Existe atualmente um grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? (...) Ninguém é propriamente falando seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado, e outros do outro. Não se sabe ao certo quem os detém. Mas se sabe quem não os possui78.
Foucault abre as portas aqui para um raciocínio mais amplo sobre o significado de poder, que por certo perpassa a noção de Estado. Logo, podemos pensar em poder não necessariamente como autoridade e soberania, mas sim como a capacidade de um sujeito ou de um grupo influenciar pessoas e produzir ações externas que correspondam ao seu desejo ou vontade. Vale dizer, o poder é uma projeção da subjetividade individual, ou coletiva, no seu entorno. De fato, existem diversas formas de projetar poder na sociedade, dentre elas a repressão, a violência e a opressão. Com efeito, a sedução, a conquista, as alianças e amizades, a retórica, o discurso, as ideias e ideologias também são formas de manifestação do poder.
O Direito, em particular, é o mecanismo utilizado pelo Estado para transformar propostas de regulação social em normas jurídicas – ideias que se tornam coercitivas e de obrigatoriedade universal. Trata-se de uma reprodução de mecanismos outrora utilizados pela Igreja Católica – a utilização da Bíblia como narrativa da verdade humana – a sua consequente interpretação, e a construção do direito canônico. Outra estrutura (exossistema) que é capaz de influenciar a sociedade – criando ideias macroestruturadas é a mídia/opinião pública. A veiculação de notícias, propaganda, programas etc., é um mecanismo de consolidação de ideias – e, portanto, “de remessa” das mesmas para o macrossistema.
Em suma, os ecossistemas de base associativa e imaginária, em regra geral, exossistemas, valem-se de mecanismos de poder – influenciar os demais ecossistemas – para transformar suas vontades, desejos e ideias em norma. Na medida em que isso ocorre, vemos paulatinamente a sua cristalização como realidade conjunta imaginada no macrossistema.
Muito embora o Estado tenha se firmado hoje com um dos principais ecossistemas sociais, e, portanto, com poder de solidificar ideias no macrossistema, por certo, grande parte do conteúdo construído nesta macroestrutura decorre de um processo histórico de disputa entre religião, Estado e mídia.
Poder e autoridade, contudo, não se confundem. Enquanto o poder é fluído, a ideia de autoridade tem se revelado na nossa cultura como uma entidade estática, ou que ao menos, assim o pretende. A autoridade não necessariamente é o sujeito ou grupo com a maior capacidade de influenciar os demais e o seu entorno, mas sim o sujeito que foi designado para
78 Ibidem. p. 75.
transformar a “ideia vencedora” em discurso oficial. Isto é, o sujeito ou o grupo que tem a missão de produzir decisões que irão se projetar por toda a associação e o seu correspondente ecossistema.
E nessa esteira, a ideia de autoridade está intimamente conectada à ideia de associação, ou melhor, da produção de normas por um determinado sistema de base associativa. Veja-se: não é só o Estado que produz decisões. Todos os dias nós produzimos dezenas de decisões, inclusive sobre nós mesmos e em relação a outras pessoas, e, na maioria das vezes, essas decisões são antecedidas de um rico e controverso debate interno. O Estado não detém o monopólio da arena de debates. Ela existe em todas as camadas do ecossistema, inclusive e sempre, tem sua origem no pensamento individual.
Se o poder por um lado consegue moldar o environment de acordo com as suas demandas, expectativas e necessidades, por outro lado, quem tem autoridade dirá qual decisão prevalecerá, qual caminho será o escolhido. Quem tem autoridade sempre dá a última palavra.
Trata-se de um poder de solução. Ao fim e ao cabo, é quem decide sobre o seu destino e o destino dos demais. Sempre quem tem autoridade acredita que tem um imenso poder. Em parte isso é verdade. Mas o poder, acreditamos, é fluído. Uma pessoa pode ter o poder – e aí entendido como a prerrogativa – de dizer o que vai ser feito. Mas uma pessoa com outra espécie de poder – de repressão, sedução ou persuasão – pode conseguir usar a autoridade para que da boca dela saia a ordem ou a decisão que melhor lhe convém. É por isso, que estamos diante de um tema bastante complexo. A palavra “poder” carrega em si mesma diversos significados.
Noutro giro, a soberania é, a nosso ver, acima de tudo, uma mera pretensão. Alguém que exerce a autoridade – e tem a prerrogativa de dar a palavra final sobre um determinado assunto, naquele momento – necessita explicar por que e de que maneira ela consegue impor a sua decisão sobre todo o conjunto associativo. Então, este sujeito afirma-se soberano. Ele afirma que a sua autoridade projeta-se sobre toda a extensão real e imaginária da respectiva associação (ou ecossistema), e dessa maneira, ela produz efeitos dentro dessa moldura. É uma autoridade soberana, a uma, porque sobre ela não existe nenhuma outra autoridade, e a duas, porque a sua palavra torna-se lei (mandamento obrigatório) na associação.
Mas por que eu afirmo que o que chamamos de soberania é, na verdade, uma pretensão? Porque se trata de uma realidade imaginada – a de pensarmos que uma pessoa ou um determinado grupo tem capacidade real de impor-se de forma onipresente e onipotente sobre toda a associação. Por certo, se estivermos defronte de uma associação de menor escala, o processo de controle da soberania será mais fácil. Poderemos perceber com facilidade quem
está ou não seguindo os ditames da autoridade. Mas em uma associação de grande escala, a soberania é uma pretensão mais abstrata. Na prática, nenhuma autoridade consegue, a todo momento, e a toda hora impor aos demais as suas vontades e desejos. É por isso que um ecossistema imaginário como o Estado ao se sustentar em uma ideia de soberania, busca diversos mecanismos de impor-se sobre os demais, ora pela repressão, ora pelo discurso, ora pelo convencimento, entre outros.
Veja-se que todas as ideias delineadas aqui são comuns a toda e qualquer associação.
Nessa esteira, convém relembrar que muitos autores reconhecem a origem da noção de autoridade no próprio poder parental, como o primeiro núcleo associativo formado por governantes e governados. Como nos ensina Isaiah Berlin, existe uma tradição na filosofia política de associar a ideia de autoridade às relações entre pais e filhos. Chama atenção em seu comentário, contudo, que esta não seria uma característica da filosofia kantiana, a qual acredita em verdades objetivas e impessoais. Vejamos suas considerações:
O caso é semelhante no que diz respeito à questão da liberdade e da autoridade. A pergunta ‘Por que devo obedecer (em vez de fazer o que quero)?’ será (e tem sido) respondida de uma única forma por aqueles que, como Lutero ou Bodin, ou os eslavófilos russos, e muitos outros cujos pensamentos têm sido profundamente misturados a imagens bíblicas, como idealizam a vida (embora de formas muito diferentes) em termos das relações das crianças com o pai e das leis, como os seus comandos, nos quais lealdade, obediência, amor e presença da autoridade imediata são todos inquestionáveis e cercam a vida desde o nascimento até à morte como relações ou agências reais e palpáveis. Essa pergunta será respondida de forma muito diferente pelos seguidores de, digamos, Platão ou Kant (separados por todo um firmamento, como esses pensadores são), que acreditam em verdades permanentes, impessoais, universais, objetivas, concebidas no modelo das leis da lógica, da matemática ou da física, por uma analogia com o qual seus conceitos políticos serão formados79. (tradução nossa).
Como os pais garantem-se na posição de autoridade, em face dos filhos, seus governados? A autoridade parental se ordena hierárquica e autocraticamente, impondo severas regras e disciplinas, ou ela se constrói a partir de uma realidade imaginada discursiva – os filhos devem respeito e obediência aos pais – um poder que se consolida no patamar ideológico do discurso? Quem tem as chaves do cofre, e executa o orçamento também é uma autoridade. Se você determina para onde vai o dinheiro, você tem o poder de moldar a realidade a sua forma. As crianças, em regra, desprovidas de recursos próprios, estão sujeitas a condição de governadas. O mesmo ocorre sob a ótica estatal – quem tem autoridade para ditar para onde vão os recursos tem poder sobre os governados – dependentes de tais recursos.
79 BERLIN, Isaiah. Does political theory still exist? In The Proper study of mankind: an anthology of essays.
London: Pimlico (EBOOK). 1998. p. 71.
Notamos, pois, que toda estrutura associativa necessita em algum momento curvar-se à lógica da autoridade, porque na medida em que uma sociedade de cooperação é criada para a realização de propósitos comuns idealizados por diversos sujeitos distintos, com diferentes percepções acerca da realidade, isto é, formada, a uma só vez de forças convergentes e forças divergentes, ela necessita de um momento de decisão, ainda que ele não seja final. A associação necessita definir quais pessoas têm o poder – entendido como prerrogativa – de definir os rumos a serem tomados por todo o grupo.
A questão é que, em regra, associamos a ideia de “autoridade”, à ideia de “hierarquia”, porque no curso da história, vivemos em associações preponderantemente autocráticas. A uma porque a pessoa (ou grupo) que tem o poder de dizer o que será feito não está aberta ao amplo debate ou ao reconhecimento dos demais associados como pessoas aptas a influenciar nas tomadas de decisões. A duas, a figura da autoridade está em regra associada a determinados papeis, os quais são fixos. Vale dizer, somente um personagem ganha a prerrogativa de decidir – conformando um poder de decisão estático. Logo, as autoridades são personagens estáticos. Não existe uma troca das cadeiras. Uma mobilidade na posição de autoridade e governado, mas a consolidação da autoridade a um determinado papel.
O pai e o Estado, por exemplo, são as autoridades tradicionalmente reconhecidas, porque são eles que mediam as relações das respectivas associações (ou ecossistemas). Muito embora outros membros possam de alguma forma influenciar nesse processo, a decisão final está nas mãos desses indivíduos. Veja-se que, muito embora, estejamos diante de associações- ecossistemas de escalas opostas, estamos a bem da verdade diante de uma mesma lógica:
conflitos, escolhas e autoridade. Onde vamos jantar esta noite? Trata-se de uma pergunta muito simples. Mas quem é a autoridade na família que define isso? É um processo de tomada de decisão coletiva? Quem executa o orçamento? O pai, a mãe? O Presidente? Para onde vamos viajar? Vamos criar empresas estatais ou vamos privatizar? Quem ao fim e ao cabo decide é a autoridade da associação.
Por certo que o processo de tomada de decisão em associações é também ciência política. Toda e qualquer decisão que venha a ser tomada – ou ação a ser engendrada – por uma coletividade é na verdade um debate com matizes de escolha pública. Não pretendemos entrar nesse caminho, uma vez que ele foge ao escopo do presente trabalho. Mas podemos ilustrar essa ideia com um exemplo simples. É bastante comum que autores de ciência política e de direito constitucional debrucem-se sobre determinados mecanismos do processo legislativo. Robert Dahl, na obra “A Democracia e seus críticos” apresenta diversos mecanismos do processo de votação que ampliam o debate sobre o real significado de
“democracia”. Um deles é o poder de veto. Quem tem autoridade para apresentar um veto possui mais poder que a autoridade oficial designada a tomar uma decisão? Isso é democrático? São indagações que imediatamente associamos ao Poder Legislativo e ao Poder Executivo; em suma, ao Estado.
Nada obstante, não é isso o ocorre nas famílias em geral? Para algumas pessoas na associação, mais importante do que decidir o que se quer, é evitar a todo custo o que não se quer. Logo, o processo de tomada de decisão em qualquer associação é um fenômeno complexo, e dependendo da composição de poder, as pessoas se utilizam de diferentes estratégias para influenciar nessa arena. É uma discussão travada pela ciência política que parece ser exclusiva do Estado, mas que na verdade percorre todas as associações, porque a bem da verdade não são questões de “public choice”, mas de “association choice”. Essas questões surgem com evidência para o Estado porque na sua essência estamos diante de uma macroassociação. Mas elas existem da mesma forma em todas as demais escalas associativas.
A percepção de que o engessamento do papel de autoridade é pernicioso à sociedade fez com que a engenharia institucional estatal criasse aos poucos novas ferramentas para a designação das autoridades. É por isso que as democracias ocidentais fundamentam-se na alternância de poder – isto é, de agentes dotados de mandatos eletivos – e não somente no voto popular. A constante mudança de papeis torna o gerenciamento da associação mais humano, porque ele lembra à autoridade de hoje, que ela será um associado-governado amanhã.
Essa lógica é passível de ser aplicada a todo e qualquer ecossistema humano.
Digamos que um determinado edifício pequeno seja administrado por um mesmo síndico durante 20 anos. Essa autoridade irá, de uma forma ou de outra, impor para todo o conjunto – esse microssistema associativo plurifamiliar – somente e tão somente as suas ideias durante anos. Um único indivíduo rege a vida de toda uma coletividade à sua semelhança. Ele transporta a sua subjetividade aos poucos para o ambiente que o cerca – consolidando-o sobre os demais.
Outro desenho de “autoridade” pode ser pensado, se, ao invés disso, a associação determinar o rodízio da sindicância entre os apartamentos. Assim, todos assumirão, por um determinado período o papel de autoridade, promovendo uma espécie de alternância entre este papel e o de governado. Podemos pensar em uma peça de teatro que, ao invés de designar os personagens principais e os coadjuvantes, propõe uma rotatividade de papeis – cada dia um ator é um personagem diferente, ora com mais, ora com menos responsabilidades.
Por fim, podemos até mesmo pensar, nesse rodízio em determinadas funções em outros ecossistemas, como em um supermercado, por exemplo. Um sujeito que assume a gerência ou uma posição de fiscal e recebe poderes sobre os demais se conforma em uma autoridade – ele diz aos outros o que tem de ser feito. Uma estrutura de autoridade pode ser formada a partir de uma lógica de alternância. Um mês uma pessoa assume a função de caixa, no outro, a função de recepcionista, de gerente e por aí vai. A alternância de funções permite que o papel de autoridade se torne volátil, e desvinculado de um ou outro agente. O sujeito não incorpora a autoridade na sua subjetividade, compreendendo que ela tem uma natureza muito mais instrumental que divina.
Simplesmente para que uma associação siga adiante, alguém tem que dizer o que será feito. Mesmo que esta não seja a melhor ideia. Isso porque uma ideia mediana bem executada por uma sociedade de cooperação tem o potencial de render melhores resultados que uma ideia genial de um único agente. A articulação e a união de esforços conseguem, no geral, mover todo um grupo em prol de um objetivo – e isso tem a capacidade e a força – de mover montanhas.
Outra forma de ver uma associação é com escalas assimétricas de autoridade. Em regra, associações complexas demandam diferentes momentos e etapas de processos decisórios. E as pessoas têm preferências distintas com relação aos seus objetivos em uma determinada associação. Um exemplo ótimo dessa composição de interesses, até mesmo quanto ao exercício do papel de autoridade, está nas sociedades empresariais.
Uma nova ideia de autoridade fluida vem se formando a partir de estruturas associativas denominadas em muitos casos “coletivos”, ou grupos políticos do gênero. Essas novas formas associativas, sobretudo, aquelas que seguem uma lógica de rede – valem-se de uma ideia distinta de autoridade, a qual é muito mais fluida. Em determinado momento, haverá a necessidade de se estabelecer um sujeito ou subgrupo com autoridade para determinar o passo seguinte de uma tarefa ou proposta. Nada obstante, essa autoridade ela é móvel, ela circula no processo associativo, permitindo que todos os envolvidos tornem-se de alguma forma autoridades. A autoridade, portanto, não é incorporada nem mesmo a um determinado papel, mas ela assume uma conotação de “função”. Uma vez diluída no grupo, ela perde a sua áurea de hierarquia, ordem e subordinação. O sujeito pós-moderno é complexo – ele é autoridade, ele é governado.