III V
6. Estudos de Caso
6.2 Parque dos Poetas
6.2.2 O Projeto e a sua Implantação
Percorrendo os caminhos em direção ao Parque, deparamo-nos com a Praça Quadrada, cuja arquitetura é um microcosmos de formas, materiais, cores e símbolos que se vão repetindo ao longo do Parque. Ao percorremos o Parque, evidencia-se a presença contínua da figura do quadrado, nomeadamente nas mesas e bancos quadrados do Parque das Merendas; nas árvores em caldeiras quadradas; nos caminhos assinalados por quadrados; nas janelas quadradas ou mesmo numa praça quadrada. Na sua composição podemos destacar a preocupação pelo uso e a escolha dos materiais, através do emprego de materiais tradicionais, como a pedra e o ferro, e materiais contemporâneos, como o aço inoxidável, que acabam por se combinar entre si.
O limite exterior do Parque é assinalado por uma outra Praça: a Praça da Água, onde nos deparamos com um conjunto de fontes em forma de folha. A contínua circulação da água resulta em jogos de luz e som, bem como numa ligação entre estética e funcionalidade, diminuindo desta forma o ruído do tráfego da malha rodoviária. Entre ambas as praças, a Quadrada e a da Água, testemunhamos um diálogo entre interlocutores contrastantes: a solidez da terra e a fluidez da água.
Através da Praça Quadrada, existe um acesso quer ao interior do Parque, que pode ser efetuado pela porta de entrada, quer à Praça da Água, através do Pórtico. Tanto a porta, o pórtico, como as janelas repetem-se na entrada oposta, a entrada através da Avenida de S. Salvador da Baía, isto é, ambas as portas da entrada, harmonizam-se num eixo comum.
Ao lado de cada uma delas, existe uma outra porta de dimensões mais reduzidas, projetada em ferro, com grades que sugerem inclinação, por detrás das quais se realçam nuvens ou folhagem. As portas simbolizam a passagem entre mundos que, quando abertas, são como um convite a iniciar um percurso.
A presença da árvore, também é um tema que vale a pena realçar. Esta é um elemento forte imbuída de uma riquíssima simbologia, atendendo ao facto de que, por todo o parque, há uma dispersão de folhas, desde folhas de pedra, de árvore, de água (as fontes), folhas de aço inoxidável (moldura dos jardins dos poetas), à mais importante, a Folha da Planta do Projeto do próprio Parque dos Poetas. Acompanhemos a arquitetónica do Parque através do desenho da Árvore. Observando a imagem abaixo, é possível
observar que a Alameda dos Poetas corresponde ao tronco da Árvore, correspondendo os Jardins dos Poetas às folhas que surgem a partir das ramificações.
Esta Árvore é desenhada e estruturada a partir de uma linha sinusoidal que precorre e liga todas as suas diferentes partes, assemelhando-se a uma serpente ou a uma liana. Entre o tronco, que neste contexto é a Alameda, e as curvas sinuosas, criam-se espaços cuja aparêcia se assemelha com uma meia-lua, ocupados por pedras e rochas calcárias, de onde corre água pulverizada. As pedras remetem-nos para os jardins orientais e idades históricas recuadas, como a civilização megalítica. A presença desses jardins de pedra acaba por contrastar com a Alameda dos Poetas, ladeada por alfarrobeiras, e lajes em forma de folha de árvore que possuem fragmentos de poemas gravados, que obrigam o visitante a parar pelo caminho para ler o inesperado.
O Jardim dos Poetas é então compartimentado, ao longo de todo seu percurso, em vários espaços em forma de folha, construidos em aço inóxidavel, que ramificam a partir da Árvore. Cada um destes sessenta espaços pretende aludir à singularidade da palavra de cada poeta, representado cada um um estilo, traduzido na sua composição, vegetação
Figura 8 | Alameda dos Poetas semelhante ao tronco da Árvore.
e percurso traçado. A paisagem é então unificada devido à repetição na forma de cada um destes jardins que possuem um único acesso, feito pelo pecilo, conferindo-lhe uma sensação de recanto e recolhimento.
Ao longo de todo o complexo foram construídas infrastruturas de cariz lúdico e de lazer que conferem, além do estatuto monumental, um socio-cultural, onde as pessoas podem fazer usofruto do jardim para diversas atividades ou só como espaço de estar.
Entre estas destacamos dois Anfiteatros com usos distintos, um deles, o Anfiteatro Almeida Garrett, com 200 lugares sentados destina-se à realização de eventos índole intimista, o outro é designado como área de descanso e contemplação, pode albergar 1200 pessoas sentadas e também é utilizado para eventos de maior escala.
Junto ao espaço que acabou de ser referido encontra-se a Fonte Cibernética, também esta em formato de folha, estabelece um contraste entre o moderno e o antigo remetendo para os jogos de água das fontes dos jardins históricos em conjunto com a máquina dos tempos modernos, o computador, que programa os jatos de àgua de variadas formas e cores, podendo esta estrutura ser utilizada não apenas como espaço de contemplação, como ainda podendo ser integrada nos espetáculos que decorrem no anfiteatro vizinho.
Figura 9 | Anfiteatro e Fonte Cibernética.
Foram construídos ainda três espaços lúdicos, o Jardim Infantil, o Parque de Merendas e o Bosque da Poesia. Estes vêm atestar a componente sócio-cultural do Jardim dos Poetas, como a cima referido, estendendo-o às mais diversas actividades do quotidiano. É de demarcar o Bosque devido à sua importância como elemento cultural e símbolo da paisagem, alegórico à profusão selvagem da flora e à matéria prima. Sendo um lugar escuro onde a pouca luz existente é filtrada pelas copas das árvores alúde à misteriosa memória da Poesia, emanada pela vida da paisagem circundante.
O Jardim dos Poetas é ainda servido por um Parque de Estacionamento com 321 lugares, alguns destes destinados a pessoas com mobilidade condicionada, um Estádio Municipal de valência polidesportiva e capacidade de 4300 lugares, e ainda os Balneários.
Através do presente estudo de caso, concluímos que o Parque dos Poetas, para além de ser uma referência no Concelho de Oeiras, ponto de atração turística e cultural, que diariamente testemunha com diversos visitantes, é, sem dúvida alguma, um exemplo pioneiro, que acaba por servir como inspiração nos processos de potencialização arquitetónica.
ENQUADRAMENTO TEORICO
2. Reabilitação e Enquadramento Historico 2.1 Conceitos e significados
2.2 O “porquê” da Reabilitação