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Figura 11.5: Mestre com seus discípulos. Iluminura do século XIII.
Fonte: www.ricardocosta.com/.../histemem3.jpg.
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A estabilização que se seguiu a este encontro, mesmo que temporário, entre a Igreja e o Império carolíngio, permitiu uma certa recuperação econômica e cultural. E, como resultado, vemos a transformação do latim nos idiomas neolatinos, surgindo em fi ns do século X os primeiros textos literários em língua vulgar. Em termos culturais, chamamos a esse período de “Renascimento Carolíngio”.
O Renascimento Carolíngio, mesmo que limitado aos aspectos gramaticais, foi um grande passo no processo de formação do instrumental intelectual do Ocidente Medieval. Uma de suas principais criações foi a chamada minúscula carolíngia, a letra minúscula, que facilitou a produção dos livros, posto que demandava, a partir de então, menos material para sua composição e permitia maior rapidez na produção das cópias. Os manuscritos, corrigidos e emendados, dos autores antigos puderam servir a uma nova difusão dos textos da antiguidade. E algumas obras originais vieram formar uma nova camada de saber, na Idade Média Central, que foi posta à disposição dos séculos futuros.
Figura 11.6: Manuscrito do século VIII, com a minúscula carolíngia.
Fonte: tipografos.net/escrita/
carolina.html
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O letrado Alcuíno, ministro de Carlos Magno, aprimorou o programa das artes liberais, mas o nome mais conhecido deste período é João Scot Erígena, que escreveu uma enciclopédia, o De Universo, e um tratado de pedagogia. Sua obra capital é o tratado De Divisione Nature, uma imensa epopéia em que o personagem principal é a
“natureza humana” que, mesmo sob o pecado, guarda a imagem da “Trindade”. Foi para o ser humano que tudo foi criado. O ser humano é o vínculo (copula) do universo, o meio-termo (medietas), que assegura a harmonia entre o domínio dos puros espíritos e o dos corpos. O destino do universo, visível e invisível, está suspenso no destino da humanidade; é nele que o mundo é perdido ou salvo. E a salvação da humanidade se faz pelo conhecimento. É nítido aqui o ideal agostiniano da “fé em busca da inteligência”.
Uma de suas teses fundamentais é a respeito da natureza.
A natureza possui quatro divisões fundamentais:
1. a natureza que cria e não é criada, i.e., Deus, enquanto primeiro motor.
2. a natureza que cria e que é criada: as idéias, causas primeiras de todas as coisas;
3. a natureza que é criada e que não cria: os seres;
4. a natureza que não é criada e que não cria: Deus, enquanto fi m último.
Alcuíno e os letrados do Império Carolíngio organizaram e estimularam o ensino e promoveram a criação de escolas ligadas aos mosteiros e catedrais cristãos. Com isso, estimulavam a busca do conhecimento, além de promoverem os debates intelectuais no seio do próprio cristianismo. Nessas escolas, adotou-se a educação romana como modelo, mas as artes liberais permaneceram submetidas à teologia. Foi assim que, no ambiente cultural renovado, promovido pelo esforço de tais intelectuais, se desenvolveu uma produção fi losófi co-teológica, mais tarde denominada escolástica (um vocábulo derivado de “escola”), que você conhecerá na segunda parte desta aula.
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Desse modo, podemos dizer que:
Tempos houve em que falar de fi losofi a medieval terá parecido um desafi o ao bom senso. Era então quase um dado assente que nada existia entre o fi m da fi losofi a antiga e Descartes, como se os séculos que produziram outras criações, tivessem sido, no plano do pensamento fi losófi co, da mais perfeita esterilidade. As perspectivas modifi caram-se. Sabe-se agora que o clarão da Renascença não poderia explicar-se sem a lenta maturação medieval, e que o cartesianismo mergulha as suas raízes na escolástica.
Mas há mais. A fi losofi a medieval não tem apenas o mérito de fazer compreender melhor a fi losofi a moderna. Tem o seu interesse próprio na medida em que representa um esforço de pensamento original. E se o conhecimento dos fi lósofos antigos é uma via de acesso à fi losofi a, o conhecimento dos fi lósofos medievais pode e deve desempenhar o mesmo papel. Pode e deve acordar em nós “esta faculdade que quase toda a gente possui”, a acreditarmos em Plotino, “mas de que se faz pouco uso”
(Enéadas, I, VI, 8) (JEAUNEAU, 1986, p. 9).
E isso se dá porque, parafraseando o pensador romano Cícero: “Para fazer fi losofi a não basta conhecer o grego, é preciso saber a língua da fi losofi a” (De Off. I, 2).
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Atende ao Objetivo 1
1. Segundo Édouard Jeauneau:
Entre a fi losofi a antiga e a fi losofi a medieval, a grande via de ligação passa pelos Padres da Igreja. Assim se denominam os cristãos dos primeiros séculos da nossa era que, em razão da sua ortodoxia, receberam a aprovação da Igreja. (...) Desde muito cedo, a sabedoria helênica e o Evangelho se confrontaram. Desde muito cedo, também, uma dupla atitude se desenhou entre os Padres da Igreja: uns rejeitaram em bloco a herança dos fi lósofos “pagãos”, outros esforçaram-se por salvar dela tudo o que podia ser preservado sem dano para a fé. À sua maneira, tanto uns como outros serviram a causa da fi losofi a, mesmo os que a combateram, tanto é certo, como diz Pascal, que
“troçar da fi losofi a é verdadeiramente fi losofar”. Pode-se dizer que os Padres serviram de duas formas à fi losofi a medieval: transmitiram-lhe uma parte notável dos tesouros do pensamento antigo e levantaram um bom número de problemas sobre os quais se haveria de exercer a refl exão fi losófi ca da Idade Média (JEAUNEAU, 1986, p. 12).
Comente as linhas gerais da relação que se instaurou entre a fi losofi a helenística e a nova religião, estabelecendo a importância do esforço de pensadores cristãos para recuperar e traduzir o conhecimento fi losófi co dos antigos de modo “aceitável” pela fé cristã.
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Resposta Comentada
Após ler com atenção a aula, você deverá refl etir sobre o esforço, empreendido por pensadores cristãos, de preservar, cristianizando-o, o que puderam do pensamento fi losófi co antigo. Nesse esforço, o ideal cultural pregado por Agostinho de Hipona é fundamental, ao insistir sobre o tema da fé em busca da inteligência. Com isso, o repúdio – muitas vezes violento – à fi losofi a aos poucos foi minimizado, permitindo que o Ocidente medieval pudesse se dedicar novamente à busca do pensamento racional. Ao preservarem, traduzirem e comentarem parte dos textos antigos, esses pensadores contribuíram não somente para a preservação desses textos, mas também para a criação de temas novos para a especulação fi losófi ca.