Em 2007, apesar das resistências gestadas no cenário político e social pelos movimentos que advogam por uma educação pública de qualidade, a Universidade Federal do Rio de Janeiro aderiu ao Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). No entanto, tal adesão não amplamente discutida e debatida com todos os atores que compõem a comunidade acadêmica, podemos dizer que foi uma adesão “pelo alto”, sem a aprovação da base majoritária da UFRJ:
alunos, professores e técnicos administrativos.
Leher (2007) ao discorrer sobre tal processo na UFRJ aclara que o processo de adesão pela UFRJ ao REUNI se deu de forma arbitrária, pois o MEC, bem como a Reitoria não promoveu um diálogo com a comunidade universitária. Essa falta de diálogo fez com que o Movimento Estudantil, com apoio do Movimento sindical de docentes e de técnico-administrativos da UFRJ, em protesto a tal postura promovesse a ocupação da Reitoria, em 2007.
O estudioso citado menciona que tal fato foi de suma importância para abertura de um diálogo no interior da UFRJ e da UFRJ com o MEC sobre o que significavam tais mudanças para a UFRJ. De antemão, cabe destacar que o Movimento Estudantil, bem como o Movimento sindical de docentes e de técnico- administrativos da UFRJ, não desejavam uma reestruturação precarizada e uma expansão sem qualidade para as classes trabalhadoras.
Leher (2007) menciona que apesar da UFRJ ter travado importantes embates no cenário político com o MEC e a Reitoria, por meio da participação ativa dos Movimentos sociais, a adesão da UFRJ ao REUNI foi feita de modo auspicioso pela Reitoria. Aclara que como é de praxe a Reitoria instituiu que o conselho universitário (CONSUNI) votasse em representantes docentes para instituir uma comissão que iria estudar e abrir o debate para a execução do REUNI na UFRJ. Porém, intenta que tal debate não ocorreu, pois a comissão instituída por meio da Portaria nº 1.345, de 2 de maio de 2007, e retificada pela Portaria nº 1.440, de 17 de maio de 2007, se metamorfoseou ao longo do caminho e encaminhou sem aviso prévio à comunidade acadêmica as solicitações oficiais de adequação das unidades acadêmicas ao REUNI.
Assim, a adesão da UFRJ ao REUNI não foi um processo sem resistências e, bem dizer aceito por toda comunidade acadêmica que foi atropelada pelas decisões da Reitoria que, apesar de não explicitar, apoiou a reestruturação e ampliação em troca dos recursos financeiros prometidos pelo MEC para a UFRJ, um montante de 20% a mais do orçamento total destinado para a UFRJ, conforme previsto na § 1o do Art. 3º do Decreto 6.096/2007 (LEHER, 2007).
No entanto, Leher (2007) adverte que a promessa do MEC de mais recursos financeiros para as IFES não passou de um engodo, pois na § 3o do Art. 3º do Decreto 6.096/2007 constava explícito que o repasse de recursos estaria condicionado à capacidade orçamentária e operacional do MEC, o que podemos considerar um contra-senso à lógica proposta pelo REUNI.
Nesse ínterim, para a adesão da UFRJ ao REUNI foi exigida a apresentação de um plano de reestruturação, a fim de calcular as despesas provenientes desse processo nas unidades acadêmicas.
Tal plano apresentado ao MEC, apesar de elencar as necessidades da UFRJ no que tange à execução das metas estipuladas pelo REUNI, a saber: construção e readequação de infra-estrutura e equipamentos necessários à realização dos objetivos do Programa; compra de bens e serviços necessários ao funcionamento dos novos regimes acadêmicos; estimativa de despesas de custeio e pessoal associadas à expansão das atividades decorrentes do plano de reestruturação foi desmantelada pelo MEC que não repassou o montante de recursos financeiros solicitados pela UFRJ, nem tampouco o que tinha estabelecido (20%), como bem já prenunciava no § 3º do Art. 3º do Decreto 6.096/2007.
Leher (2007) adverte que mesmo com o repasse de 20% do orçamento total previsto para as IFES, no caso da UFRJ, tal montante de recursos financeiros não cobriria os custos totais do processo de expansão e reestruturação da UFRJ, inclusive, exemplifica que nem cobriria os custos advindos da meta estipulada pelo MEC à UFRJ que era de aumentar a capacidade instalada para atender um número maior de alunos no período noturno, ou seja, um total de mais de 100%, com uma previsão de integralização do curso em torno de 4 a 5 anos.
O estudioso reitera que tais metas, mediante o ínfimo repasse de verbas, fomentaram na UFRJ “uma expansão para menos”. Leher (2007) ao analisar o Programa REUNI nas IFES observa que tal programa tem sido um instrumento
importante para colocar a universidade a serviço do capital. Para mais, destaca que o REUNI objetiva a desconfiguração da Universidade que deixa de produzir conhecimento para o bem estar da coletividade para produzir conhecimento e tecnologia para o capital, bem como se transforma em instrumento para a difusão do projeto burguês entre as classes trabalhadoras, pois prepara os sujeitos para o capitalismo desregulamentado e flexível, ou melhor, forma os sujeitos para o mercado de trabalho desregulamentado, cujas carreiras profissionais são flexíveis e instáveis.
O quadro abaixo compara a evolução do número de vagas na UFRJ em relação ao Orçamento da União disponibilizado para o custeio de despesas e de pessoal no período de 2005 a 2014. Como ilustrado abaixo o crescimento das vagas após o REUNI é bem maior do que o repasse de verbas da União para tal processo de Reestruturação e expansão, em 07 anos se teve um aumento de menos de 20%
no Orçamento da UFRJ de um ano para outro, o que tem gerado um déficit orçamentário crônico. A exceção foi o ano de 2012, em que orçamento disponibilizado pela União foi executado sem déficit.
Quadro 8 – Tema: Educação Superior. Subtema: Numero de Vagas da Graduação Presencial em relação ao Orçamento público da União para a UFRJ. Período: 2005 a 2014. Dotação em Milhões.
Ano Vagas Graduação presencial
Orçamento da União
Aprovado
Orçamento da União
Executado
Déficit
Orçamentário
2005 6.388 69.487.291 84.900.455 - 18.8067.401 2006 6.620 92. 300. 378 108.048.638 -12.626.630 2007 6.170 104.739.163 139.286. 550 - 35.482.033 2008 6.985 138.188.825 150.465. 085 - 12.164.996 2009 8.471 191.745.263 207.958.621 -15.987.782 2010 9.060 228.408.651 260.003.085 - 31.594.434 2011 8.904 376.779.209 394.138.306 - 21.960.504 2012 8.904 403.396.014 403.396.014 _____
2013 9.731 434.407.116 439.722.993 - 4.314.111 2014 9.296 363.878.022 457.080.970 - 93.302.948
Fonte: Relatório de Autoavaliação 2015 , Ano base: 2014.
Disponível em: www.ufrj.br. Acesso em 16/03/2016. Elaboração Própria.
A partir da leitura desses dados orçamentários podemos constatar que o processo de Reestruturação e Expansão da Educação superior para as classes trabalhadoras se constituiu numa “expansão às avessas”, pois não teve como prerrogativa ofertar à classe trabalhadora uma educação de qualidade, ou melhor, uma formação plena assentada no tripé ensino, pesquisa e extensão.
Leher (2007) situa que essa racionalização de recursos financeiros associada ao mote da flexibilidade tem acarretado uma “flexibilização dos currículos”, bem como a diminuição do tempo de integralização de alguns cursos que deixaram de ter duração de 4 a 5 anos para ser de 3 anos.
Para mais, o supracitado pesquisador ilumina que a Reforma Neoliberal da Educação Superior prevê a coexistência de dois modelos de formação na educação superior: o modelo de formação plena e integral e o modelo de formação minimalista. Aclara que a coexistência desses dois modelos formativos promove um
“apartheid educacional”, pois os jovens e adultos das classes abastadas vão ter acesso a uma formação acadêmica plena e integral porque dispõem de recursos financeiros para provê-la no mercado, enquanto, a classe trabalhadora sem os recursos necessários para tal provisão fica a mercê de uma formação minimalista e parcial que é ofertada pelas IFES nessa conjuntura do REUNI, onde mais vagas significam menos qualidade educacional (LEHER, 2007).
Também salienta que na medida em que se avança a materialização desse modelo de educação minimalista nas IFES, não teria como os docentes justificarem a necessidade de uma formação plena e integral que possibilite a participação dos alunos trabalhadores nas atividades de pesquisa, ensino e extensão.
Para Leher (2007) o REUNI na UFRJ consiste num “Cavalo de Tróia”42, ou melhor, num estratagema do capital para instaurar seu postulado de reformas sob a ótica neoliberal na UFRJ. Ressalta que diante de tais ofensivas neoliberais as IFES não podem ter uma função conservadora, pelo contrário, no caso da UFRJ, esta deve ser a protagonista desse processo de reestruturação e, portanto, a comunidade
42 O Cavalo de Tróia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a guerra de Tróia, que consistiu num estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Tróia. O cavalo de Tróia foi carregado pelos troianos para dentro das muralhas de Tróia, como símbolo da vitória, mas não sabiam que em seu interior se ocultava o inimigo: guerreiros gregos. Tais guerreiros saíram do cavalo a noite, dominam as sentinelas e permitiram a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína (W IKIPÉDIA, 2016).
acadêmica deve refundar a natureza pública da UFRJ: a produção de conhecimentos para o bem estar da coletividade. .
É nesse contexto de retração orçamentária que tem se forjado a luta das alunas mães trabalhadoras negras pelo direito à educação superior de qualidade na UFRJ, bem como pela responsabilização do estado em prover as condições necessárias para que elas possam alcançar a diplomação de nível superior sem a sobrecarga advinda do “conflito” entre trabalho, educação e vida familiar (GAMA, 2014).
3.3. A Construção Social do Lugar das Mulheres Mães Trabalhadoras Negras